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Um canto
ainda, antes que a noite desça
E este sol,
que é o da vida, apague e suma!
A árvore,
antiga embora, inda 1 ressuma
Cheiroso
bálsamo, e talvez floresça.
Que importa
já me alveje 2 na cabeça
Neve dos
anos, como em cerro a bruma?
A alma me 3
vai no canto, como a espuma
Na vaga, até
que o sol desapareça.
Ainda 4
um canto! e vá no canto a vida,
Vão os meus
sonhos mortos e a perdida,
Morta esperança,
a flutuar dispersos!
Como cansado
arbusto os ares olha,
Sem mais ver
primavera, e, folha a folha,
Se esfaz 5
em folhas — eu me esfaço em versos.

Notas de Geir Campos:
* Este soneto, sem título, serve de prólogo ao livro
Rimas Várias, da coletânea publicada em 1913, Poesias, Terceira Série. No soneto, observam-se detalhes da composição poética de Alberto de Oliveira;
1 Inda: ainda, forma aferética, forma reduzida por aférese;
2 Alveje: pareça alva, branqueie;
3 Dativo de posse: “a alma me vai no canto”
por “minha alma vai no canto” ou “a alma vai no meu canto” com ambiguidade;
4 Ler ainda com hiato, “a-in-da”. O metro exige a leitura deste verso com hiato;
5 Esfazer: forma aferética de “desfazer”.
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Coleção Nossos
Clássicos — Alberto de Oliveira, Volume 32, Apresentação de Geir
Campos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e
Jorge de Sena, 1969, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ;
Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857 — 1937), fluminense de
Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de
destaque do Parnasianismo; publicou Canções
românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que
reuniu em Poesias — primeira série (1900), e mais Poesias — segunda
série (1906), Poesias — terceira série (1913) e Poesias — quarta série (1927).

