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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Alberto de Oliveira: Um canto ainda, antes que a noite desça . . . [soneto] *

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Um canto ainda, antes que a noite desça
E este sol, que é o da vida, apague e suma!
A árvore, antiga embora, inda 1 ressuma
Cheiroso bálsamo, e talvez floresça.

Que importa já me alveje 2 na cabeça
Neve dos anos, como em cerro a bruma?
A alma me 3 vai no canto, como a espuma
Na vaga, até que o sol desapareça.

Ainda 4 um canto! e vá no canto a vida,
Vão os meus sonhos mortos e a perdida,
Morta esperança, a flutuar dispersos!

Como cansado arbusto os ares olha,
Sem mais ver primavera, e, folha a folha,
Se esfaz 5 em folhas  eu me esfaço em versos.



Notas de Geir Campos:
* Este soneto, sem título, serve de prólogo ao livro Rimas Várias, da coletânea publicada em 1913, Poesias, Terceira Série. No soneto, observam-se detalhes da composição poética de Alberto de Oliveira;
1 Inda: ainda, forma aferética, forma reduzida por aférese;
2 Alveje: pareça alva, branqueie;
3 Dativo de posse: “a alma me vai no canto” por “minha alma vai no canto” ou “a alma vai no meu canto” com ambiguidade;
4 Ler ainda com hiato, “a-in-da”. O metro exige a leitura deste verso com hiato;
5 Esfazer: forma aferética de “desfazer”.
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Coleção Nossos Clássicos — Alberto de Oliveira, Volume 32, Apresentação de Geir Campos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1969, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias primeira série (1900), e mais Poesias segunda série (1906), Poesias — terceira série (1913) e Poesias quarta série (1927). 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Alberto de Oliveira: A Cigarra da Chácara

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Volta a cantar no tronco da mangueira,
Mais corpulenta agora e mais sombria,
Esta mesma cigarra cantadeira,
Que o ano1 passado eu tanta vez ouvia.

Ébria dos quentes raios da soalheira,2
A pompa sideral do meio-dia
Celebra, e enquanto a luz abrasa, e cheira
O mato verde, chia! chia! chia!3

Canta, alma de ouro! Teu verão radiante
Tornou, tornou4 teu sol glorioso e lindo;
O meu declina, não quer mais que eu cante.5

Oh! Como invejo este hino alto e canoro6
Que, reiterado, entoa ali, zinindo,
A cigarra da chácara onde moro.



Notas do Apresentador:
1 Sinérese, fundindo as três primeiras sílabas numa só – “que o a / no”. A metrificação exige que, para enquadrar o verso no esquema adotado, decassílabo, se leia “que o a” (pronunciando as vogais silábicas sucessivas como se fossem uma sílaba única).
2 Soalheira: a hora de maior calor do sol.
3 Onomatopéia, imitando o zinir da cigarra: chia! chia! chia!
4 Epanástrofe,: figura pela qual se repete no começo de uma frase a palavra final da anterior, dando a impressão de encadeamento: "Tornou, tornou”. O verbo tornar tem aqui o sentido de voltar: “voltou o verão, voltou o sol, etc.”
5 Apóstrofe, figura de estilo pela qual o autor interrompe uma narrativa para dirigir-se a alguém ou alguma coisa.Todo este primeiro terceto é fala direta do poeta para a cigarra.
6 Canoro: que canta. O adjetivo é redudante, em relação a hino, e decerto aparece por necessidade de rima.
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Coleção Nossos Clássicos — Alberto de Oliveira, Volume 32, Apresentação de Geir Campos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1969, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937),  fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias primeira série (1900), e mais Poesias  segunda série (1906), Poesias terceira série (1913) e Poesias  quarta série (1927).

segunda-feira, 28 de março de 2016

Alberto de Oliveira: O Sonho de Berta [fragmento]

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Soltando o cabelo de ouro
Ao deitar-se, ondeante e farto,
Viu Berta entrar-lhe no quarto
      Um besouro.

"Já agora" 
 exclamara ela 
"Não me levanto, é capricho,
Para mostrar a este bicho
      A janela;

Nem da toalha um açoite
farei contra este besouro...
E sem mais, senhor agouro,
      Boa noite!"

Despiu-se. Cândida * e lisa,
Quente ainda de sua pele
Tirou, mesmo diante dele,
      A camisa.

Deitou-se. É um mimo de Berta
O corpo, que a vista inflama,
Assim como está na cama
      Descoberta.

Cerra os olhos. Entretanto
O besouro, tonto, inquieto,
Zumbe da alcova no teto,
      Zumbe a um canto,

Ao pé do espelho inclinado
Zumbe, zumbe na parede,
E de Berta agora 
 vede! 
      Zumbe ao lado.

Ai dela! rente ao cabelo
Sente-lhe as asas... que inferno!
Quem a livra desse eterno
      Pesadelo?

Ai dela! 
 Noite sombria,
As tardas ** horas apressa!
A luz da aurora apareça!
      Venha o dia!

Sobre o leito, em que deitada
Está, volta-se ofegante
Berta insone, a cada instante,
      De assustada.

Pobre Berta! enfim sucumbe,
Desmaia... Entretanto, às voltas,
O besouro de asas soltas
      Zumbe, zumbe...



Nota do Apresentador:
* Cândido: alvo, branco
** Tardo: lento, vagaroso, retardado.
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Coleção Nossos Clássicos — Alberto de Oliveira, Volume 32, Apresentação de Geir Campos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1969, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias primeira série (1900), e mais Poesias  segunda série (1906), Poesias terceira série (1913) e Poesias  quarta série (1927).

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Alberto de Oliveira: O Ninho

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O musgo mais sedoso, a úsnea mais leve
Trouxe de longe o alegre passarinho,
E um dia inteiro ao sol paciente esteve
Com o destro bico a arquitetar o ninho.

Da paina os vagos flocos cor de neve
Colhe, e por dentro o alfombra com carinho;
E armado, pronto enfim, suspenso, em breve,
Ei-lo balouça à beira do caminho.

E a ave sobre ele as asas multicores
Estende, e sonha. Sonha que o áureo pólen
E o néctar suga às mais brilhantes flores;

Sonha... Porém de súbito a violento
Abalo acorda. Em torno as folhas bolem...
É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento.

(Poesias, segunda série,
Livraria Garnier, Rio, 1912, p. 232.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira,  1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias — primeira série (1900), e mais Poesias — segunda série (1906), Poesias — terceira série (1913) e Poesias — quarta série (1927).

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Alberto de Oliveira: Alma em Flor [excertos]

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Primeiro Canto

III

Que ânsia de amar! E tudo a amar me ensina;
A fecunda lição decoro atento.
Já com liames de fogo ao pensamento
Incoercível desejo ata e domina.

Em vão procuro espairecer ao vento,
Olhando os céus, os morros, a campina,
Escalda-me a cabeça e desatina,
Bate-me o coração como em tormento.

E à noite, ai! como em mal sofreado anseio,
Por ela, e ainda velada, a misteriosa
Mulher, que nem conheço, aflito chamo!

E sorrindo-me, ardente e vaporosa,
Sinto-a vir (vem em sonho), une-me ao seio,
Junta o rosto ao meu rosto e diz-me 
 Eu te amo!


Segundo Canto

 X

Uma noite (até ali nunca o proveito
Alcançara de a ver: a cova escura
Mostravas sempre, bronca fechadura!)
Pé ante pé, à porta chego. Espreito.

Havia luz. O olhar melhor ajeito.
Tenda piramidal, em toda a altura
Plácido escorre o cortinado. A alvura
Eis de seu leito. Mas vazio o leito!

Súbito um rugir seco a alcova corta
Súbito e quase nua ela aparece...
Mal pude ver-lhe a saia em desalinho!

A luz se apaga. E o ouvido agora à porta,
Em vez dos olhos, farta-se e estremece
De a ouvir mexer-se entre os lençóis de linho.


XI

Ouvi-lhe um dia (acode-me à lembrança
O quadro: ela se achava a sós comigo
Olhando a tarde do mirante antigo,
De onde o extremo horizonte a vista alcança.

Eu ora uma ave no ar com os olhos sigo.
(Ora lhe sigo o voar da leve trança)
Ouvi-lhe:  “Se não fosses tão criança,
Era capaz de me casar contigo!”

Frase cruel! Ah! como a repisava
Dia por dia o coração ansioso!
E a sós no quarto, que impaciência a minha,

Quando, no espelho os olhos, eu notava
Como inda longe, incerto, vagaroso
Meu buço de homem despontando vinha!


XIV

Mas se eu era criança! Ela o dissera!
Oh! Céus! Então outrem, de mais idade,
Ombro a ombro com a sua mocidade,
Sob um mesmo esplendor de primavera,

Outrem é que devia ser o eleito,
Não eu, eu que a adorava antes de vê-la,
Eu que a chamei chorando de meu leito
E os meus sonhos enchi da imagem dela!

Eu, só porque nasci, talvez, um dia,
Um ano ou mais depois da flor que amava,
Eu, só por ser mais moço, oh Deus!  pensava 
Eu só por isso não a merecia!

Um dia, um ano ou mais conta-os acaso
Amor que nada vê e ao peito a chama
Sabe apenas soprar em que me abraso?
Não se confrontam datas quando se ama.

Amor só quer saber se em quem palpita
Há um coração. Eu tenho-o e em fogo me arde.
Ama-se muito cedo ou muito tarde.
Fora do tempo, Amor se move e agita.

Ela o disse, porém... No ouvido encero
A frase que lhe ouvi... Pobre criança,
De tua dor no círculo de ferro
Morre agarrado à última esperança.


Terceiro Canto

III

Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!

 “Vamos sós?” perguntei-lhe. E a feiticeira:
 “Então! tens medo de ir comigo?”  E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.

 “Uma carreira!”  “Uma carreira!”  “Aposto!”
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.

Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, Nota Editorial de Alexei Bueno, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857  1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias — primeira série (1900), e mais Poesias — segunda série (1906), Poesias — terceira série (1913) e Poesias — quarta série (1927).

sábado, 18 de julho de 2015

Alberto de Oliveira: A vingança da porta

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Era um hábito antigo que ele tinha:
Entrar dando com a porta nos batentes.
Que te fez esta porta? a mulher vinha
E interrogava... Ele, cerrando os dentes:

Nada! Traze o jantar.  Mas à noitinha
Calmava-se; feliz, os inocentes
Olhos revê da filha e a cabecinha
Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

Uma vez, ao tornar à casa, quando
Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
Entra mais devagar... Pára, hesitando...

Nisso nos gonzos range a velha porta,
Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala
A mulher como doida e a filha morta!
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Antônio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias primeira série (1900), e mais Poesias  segunda série (1906), Poesias  terceira série (1913) e Poesias  quarta série (1927).