Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século — Seleção e Organização de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001 (In Poesia Reunida — Adélia Prado, São Paulo, Siciliano, 1991); Adélia Luzia Prado de Freitas, poeta, nascida em
Divinópolis — MG, em 1935, teve Carlos Drummond de Andrade como seu
padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de
Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de
Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991) e Oráculos
de maio (Siciliano, São Paulo, 1999).