quinta-feira, 25 de março de 2010

Adélia Prado: Casamento (1981)

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século — Seleção e Organização de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001 (In Poesia Reunida Adélia Prado, São Paulo, Siciliano, 1991); Adélia Luzia Prado de Freitas, poeta, nascida em Divinópolis  MG, em 1935, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991) e Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999).

Ascenso Ferreira: Filosofia (1939)

(A José Pereira de Araújo  "Doutorzinho de Escada")


Hora de comer  comer!
            Hora de dormir  dormir!
Hora de vadiar  vadiar!

Hora de trabalhar?
 Pernas pro ar que ninguém é de ferro!
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século Seleção e Organização de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001 (In Catimbó e Outros Poemas Ascenso Ferreira, 1963, José Olympio, Rio).

Oswald de Andrade: pronominais (1925)

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século - Seleção e Organização de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001 (In Pau-Brasil - Poesia - Oswald de Andrade, São Paulo, Globo)..

Manuel Bandeira: Poema do beco (1936)

Que importa a paisagem, a Glória, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século  Seleção e Organização de Ítalo Moriconi — Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001 (In Estrela da Vida Inteira  Manuel Bandeira, Rio, Nova Fronteira, 1995).

Carlos Drummond de Andrade: A bunda, que engraçada (1992 - póstumo)

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século - Seleção e Organização de Ítalo Moriconi - Editora Objetiva - Rio de Janeiro - 2001 (In O Amor Natural - Carlos Drummond de Andrade, Rio, Record, 1998)..

Genésio dos Santos: TELEGRAMA EM TEMPOS DE TWITTER (25.03.2010)

AMOR VG
NAO TEM MAIS MAE
NAO TEM MAIS PAI
NAO TEM MAIS TREM PT

DINHEIRO ANDA ESCASSO
AMIGOS ESTAO ESCASSOS
DEMAIS RECURSOS TAMBEM PT

POLITICA MUDOU INTERROGACAO
VIDA CONTINUA
AGUARDO NOTICIAS PT

FILHA ESTA BEM

ESTOU FELIZ
AMO VOCE PT

(DIOGENES SEM LANTERNA)
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Genésio dos Santos, nascido em Itapetininga  SP, é caipira, filho de ferroviário e passou a sua infância e adolescência à beira da linha do trem, nas localidades de Buri (Turma 29, Eng. Bacelar), Itapeva (Turma 34) e Iperó (Turma 1), todas interligadas pela antiga e extinta EFS  Estrada de Ferro Sorocabana (posteriormente FEPASA); na década de sessenta do século e milênio passados, formou-se telegrafista por escola pertencente àquela ferrovia; hoje, após ter sido bancário por mais de três décadas, também se vê como um bicho urbano adaptado; é poeta e cronista; ah... e tem mais!, está completando exatos cinqüenta e oito anos, dois meses, vinte e dois dias, algumas horas e uns tantos minutos de vida nesta oca a qual chamamos genericamente Terra.