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sábado, 10 de setembro de 2016

Bárbara Norton: Já pensaste?

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Já pensaste no Fim que se aproxima?
Vieste de mãos vazias,
Assim partes;
De olhos cerrados,
Assim voltas ao abismo
De onde te trouxeram
Para a lamentação e a Dor.

Nada foi teu!
Nem a tua casa,
O teu ouro,
a tua Glória,
A tua Vaidade,
O teu Amor...
Esse não foi verdadeiramente teu
Nem meu.
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Coletânea de Poetas Paulistas — Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; nesta Coletânea, consta que Bárbara Norton, paulista e paulistana, nascida em 1918, é filha de Amadeu Cunha Bueno e de D. Irene Pereira Ramos Cunha Bueno; bibliografia: Diante do amor e da vida (1942), Quando as estrelas se apagam (poemas, 1942), Argila, Poemas (1946), Appassionata (poemas, 1950) e, em prosa, Uma mulher do século XX; eis o que pude pesquisar...

sábado, 27 de agosto de 2016

Emiliana Delminda: Ontem e hoje

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Nos tempos que vão longe  amor era um segredo,
um sonho, que agitava o coração da gente:
Um aperto de mão furtivo, quase a medo,
um tímido sorriso, um olhar... simplesmente.

Hoje é bem outro o amor  um frívolo brinquedo,
uma febre exterior, que o coração não sente.
Não encerra o dulçor de afeto puro e ledo,
não traduz a emoção do amor de antigamente.

No amor já não existe o áureo pomo vedado
do paraíso ideal, tanto mais desejado
quanto mais proibido. É uma coisa banal...

Começa pelo fim. A abelha do desejo
queima as asas febris ma volúpia do beijo
e a flâmula do amor apaga-se, afinal.

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Coletânea de Poetas Paulistas Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro RJ; Emiliana Delminda do Amaral (1865  1963?), paulista de Silveiras, foi romancista, poetisa e professora autodidata; durante anos deu aulas particulares; seus textos foram divulgados pela imprensa paulista (A Tribuna e Flama, de Santos, Clarim, de Matão, Nova Era, de Franca, e outros periódicos); escreveu e publicou Violetas (poesia, 1906), Miragens (poesia, 1908), Crepúsculo (poesia, 1914), Fragmentos d’Alma (poesia, 1918), Segredo Fatal (romance, 1925), Calvário do Amor (romance, 1935), Folhas Caídas (poesia, 1947); deixou inéditos Minúsculas (contos) O despertar da luz (poesia).

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Orlando Teixeira: Horas mortas

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Ouço uma estranha voz, lá fora... Engano, certo,
Quem, numa noite assim, andará pela rua?
Cada vez mais estranha escuto-a... Já mais perto,
Nítida agora, na minha alma se insinua.

Houve alguém que, ao morrer, me deixou num deserto.
Falar-me-á esse alguém? Essa voz será sua?
Tu, que o meu coração deixaste em chaga aberto,
Vem de ti essa voz que sobre mim atua?

E a voz que escuto, a voz permanece calada;
Abro a porta a pensar como Poe:  Talvez seja
Alguém... Fria e cortante, entra o quarto a rajada.

Lembro-me ainda outra vez. Fora o silêncio adeja,
E lá fora, até lá, na larga noite, ansiada,
Esta grande saudade intérmina boceja.
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Coletânea de Poetas Paulistas  Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Orlando Martins Teixeira (1874  1902), paulista de São João da Boa Vista, foi jornalista, dramaturgo e poeta; viveu sobretudo no Rio de Janeiro, onde se relacionou nos meios literários; colaborou em jornais de São Paulo, no Rio foi secretário da Gazeta da Tarde; para o teatro, escreveu Pão-pão, queijo-queijo (comédia-revista), O serralho do Nabor (opereta bufa), Contra as crianças (monólogo); na literatura, escreveu e publicou uma única obra, Magnificat (1901), dedicada “à que nunca será minha”, sua musa Violeta “Bebê” Lima Castro, cantora lírica e declamadora de grande fama em sua época.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Francisca Júlia: Musa impassível

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I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

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Coletânea de Poetas Paulistas  Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Francisca Júlia da Silva Munster (1874  1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e O Álbum e A Semana, no Rio de Janeiro); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma infantil (1912), este último em colaboração com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição em 1920.

sábado, 13 de agosto de 2016

Colombina: Finis

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Na gare um trem parte. Hora da despedida.
(Que passa, sem saber todo o mal que nos faz!)
Não tens nada a dizer-me? Adeus. Assim é a vida.
“Nunca mais te verei, nunca mais me verás...”

Mais um sonho que passa, e mais uma ferida
Que, para o coração, o destino nos traz.
Tu ficas a pensar:  “Toda a mulher olvida...”
E eu, antes de partir, sei que me esquecerás.

Uma sineta soa. Um ranger agitado
De ferragens, depois um silvo prolongado.
E o comboio lá vai nas trevas se afastando.

E terminou, assim, aquele sonho lindo...
Eu, triste, a imaginar que tu ficavas rindo,
Tu, rindo, sem saber que eu vinha chorando!

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Coletânea de Poetas Paulistas — Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando os pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Adelaide Petters Lessa: Evolução

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Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer grãos de pólen.

Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com os perfumes dos frutos.

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Coletânea de Poetas Paulistas — Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, é educadora, psicóloga clínica, doutora em Ciências Humanas pela USP, professora universitária e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase, Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus o Sol da Meia-Noite; e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo... 

domingo, 7 de agosto de 2016

Amadeu Amaral: Indiferentes

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Não desejeis amar a toda a gente
com o mesmo afeto, o mesmo doce ardor:
seria um erro mau, e esse erro ingente
um manancial de humilhações e dor.

Dai aos vossos amigos, pontualmente,
tudo o que tendes de mais fino: a flor
do vosso coração, a chama ardente,
sem fumo nem carvões, do vosso amor.

Sejam, no mundo torvo, um claro mundo,
vossa ilha graciosa em mar profundo,
neste da vida revoltoso mar;

ilha aonde, batidos de procelas,
vireis confiantes reparar as velas
e em porto sem insídias ancorar.

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Coletânea de Poetas Paulistas  Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; em São Paulo, trabalhou no Correio Paulistano, n’O Estado de São Paulo, exerceu cargos na administração pública e, no Rio de Janeiro, foi secretário do Gazeta de Notícias; escreveu e publicou Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924), entre outros títulos.