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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Augusto dos Anjos: O Morcego

Lote 3 Cadernos Poesia Brasileira Instituto Cultural Itaú
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Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

1912  Eu



Nota da edição:
UM ESTRANHO MORCEGO COMO IMAGEM DA CONSCIÊNCIA  A consciência humana é identificada com um morcego que se alimenta à noite do sangue das pessoas. Essa consciência, isto é, a razão, pode colocar limites à livre expressão do indivíduo. Curiosamente, em nossa mitologia cultural, a imagem do morcego é associada ao reino dos infernos e não da razão, que seria celestial.
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Cadernos Poesia Brasileira 5 — Parnasianismo/Simbolismo, Prefácio de Benjamin Abdala Junior, 1997, Instituto Cultural Itaú, São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cruz e Sousa: Escravocratas

Lote 3 Cadernos Poesia Brasileira Instituto Cultural Itaú
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Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar 
 formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha 
 enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso, extraordinário 
da branca consciência  o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido  audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro 
 ouvindo-vos urrar!

1961  Obra completa

Resultado de imagem para Cruz e Sousa


Nota da edição:
SÍMBOLOS DE RANCOR POÉTICO  O poeta negro mostra todo o seu rancor contra os escravocratas. Procura valer-se, para tanto,de imagens poéticas tradicionais, que seriam símbolo da manutenção de sua consciência indignada.
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Cadernos Poesia Brasileira 5 Parnasianismo/Simbolismo, Prefácio de Benjamin Abdala Junior, 1997, Instituto Cultural Itaú, São Paulo SP; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (1893, poemas em prosa) e Broquéis (1893, poemas); em 1885, havia publicado Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; mesmo já bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

domingo, 25 de outubro de 2015

Gilka Machado: Ser Mulher . . .

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Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...


Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
 
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
 
Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

1915  Cristais Partidos

GILKA MACHADO

Nota da edição:
A CONDIÇÃO SOCIAL DA MULHER – A aspiração de liberdade da mulher choca-se com os “preceitos sociais”, que não permitem que ela desenvolva vôo existencial próprio. Esse é um dos poemas reivindicatórios que servem de paradigma para a literatura feminina brasileira.
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Cadernos Poesia Brasileira 5 — Parnasianismo/Simbolismo, Prefácio de Benjamin Abdala Junior, 1997, Instituto Cultural Itaú, São Paulo — SP; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro RJ, vinda de numa família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); foi premiada por sua obra (Revista O Malho, 1933, e Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis, 1979).

sábado, 10 de janeiro de 2015

João Cabral do Melo Neto: A Lição da Poesia

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1.
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da ideia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis 
 naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar. *



* Nota dos Organizadores: O trabalho poético do escritor vai contra os princípios do espontaneísmo romântico. Sob esse aspecto, há um “antilirismo” que dá origem dialeticamente a um novo lirismo depurado de sua tradição eminentemente subjetivista.
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João Cabral de Melo Neto — Literatura Comentada, seleção de textos por José Fulaneti de Nadai, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por Samira Youssef Campedelli e Benjamin Abdala Junior, 1982, Editora Abril, São Paulo — SP; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Raimundo Correia: Luiz Gama *

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À Raul Pompéia **

Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os bárbaros, contra os desumanos;

Quando a alma brava e procelosa abrias
Invergável ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias...

Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilhões a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.

Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra
Rolou... Morreu por não poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!

(Sinfonias, 1883)


Nota do Editor:
* Luiz Gama — jornalista e poeta satírico brasileiro (1830  1882). Filho de português e de escrava, chegou a ser vendido como escravo. Após obter a sua libertação, tornou-se abolicionista militante.
** Raul Pompéia — ficcionista brasileiro (1863  1895), filiado ao Naturalismo e cuja obra mais famosa é o romance O Ateneu.
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Antologia de Poesia Brasileira  Realismo e Parnasianismo, Organização de Benjamin Abdala Junior, 1985, Editora Ática, São Paulo — SP; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859 1911), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito USP), foi juiz e poeta; escreveu e publicou Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.