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Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
1912 — Eu

Nota da edição:
UM ESTRANHO MORCEGO COMO IMAGEM DA CONSCIÊNCIA — A consciência
humana é identificada com um morcego que se alimenta à noite do sangue das
pessoas. Essa consciência, isto é, a razão, pode colocar limites à livre
expressão do indivíduo. Curiosamente, em nossa mitologia cultural, a imagem do
morcego é associada ao reino dos infernos e não da razão, que seria celestial.
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Cadernos Poesia Brasileira 5 — Parnasianismo/Simbolismo, Prefácio de Benjamin Abdala Junior, 1997, Instituto
Cultural Itaú, São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 — 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela
Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos
poetas mais estudados e reeditados no Brasil.





