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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Edgar Allan Poe: O Corvo (no formato de sonetos)



No livro, '"O Corvo" e suas traduções' capa reproduzida acima , além de constar o poema em sua língua original (The Raven, 1845) e a tradução em sonetos feita por Benedito Lopes (1956) transcrita nesta postagem, também há outras oito traduções: as de Charles Baudelaire (1853), Stéphane Mallarmé (1888), Machado de Assis (1883), Emílio de Meneses (1917), Fernando Pessoa (1924), Gondin da Fonseca (1928), Milton Amado (1943) e Alexei Bueno (1980).
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I

Em certa noite, na hora que apavora,
Pensando em minha vida, tão sozinho,
Eu escutei do meu quarto, nessa hora,
Bater a porta bem devagarinho.

E da saudade que não tem melhora,
Sempre ferido pelo agudo espinho,
Eu quis saber depressa, sem demora,
Quem batia afinal, tão de mansinho.

Mesmo com sono e cheio de fadiga,
Absorto eu lia uma doutrina antiga,
Talvez irmã dos meus pungentes ais;

E nesse instante ouço de novo, aflito,
Bater à porta e, outra vez acredito,
Ter sido o vento, só e... nada mais.

II

Era Dezembro... E eu bem me recordava 
Dessa que tinha encantos imortais.
De Leonora, que tudo deslumbrava
E que não mais a verei... nunca mais.

Noite glacial... Eu triste terminava
De reler essas laudas magistrais,
E cheio de saudade, inda escutava
Lá fora o vento, em uivos infernais.

Nessa desolação que tudo arrasa,
Da vetusta lareira eu assistia
Agonizar a derradeira brasa;

E ao passar dessas horas hibernais,
Eu por Leonora ao céu inda pedia,
Só por Ela pedia... e nada mais.

III

Havia em tudo, tristemente havia
Um mistério sem par naquele instante;
O rumor das cortinas, o ondulante
Bailar do vento em minha alcova fria. —

Maior rumor e bem maior descante
Dentro da alma em tumultos eu sentia:
— A saudade sem fim, alucinante,
A vida sem amor, sem alegria. —

Mas, dominar o medo procurando,
Quis saber de onde vinha àquela hora,
Esse estranho rumor de maus sinais;

E então, pela janela o céu olhando,
Que entre beijos de luz se descolora,
Somente vi a noite e... nada mais!

IV

Sentindo então minha alma já mais forte
E repousando de uma dor intensa,
Muito pouco pensava em minha sorte
E amava muito mais a minha crença.

Mas, cheio desse amor sem recompensa,
Eu disse no milagre de um transporte:
— Quem há de ser, que pela noite imensa, 
Jamais tem medo de enfrentar a morte? —

E na saudade que não mais conforta,
Ouço bater de novo à minha porta,
Sem saber se Quem bate, vem de paz;

Ouço... E para de tudo ter certeza,
A porta vou abrir, mas com surpresa,
Só vi a escuridão e... nada mais.

V

Leonora! Alongo o meu olhar cansado
Pela noite macabra que amedronta;
E teu nome de bênçãos perfumado,
Em minha boca súplice desponta.

Por teu amor, eterno enamorado,
Suporto de viver a grande afronta;
É teu nome o rosário imaculado
Que desfio infeliz, conta por conta!

Chamo-te! E a noite é calma e o céu é mudo,
Só o silêncio é que domina tudo,
Numa dança de sombras espectrais!

Leonora! Chamo-te na mágoa enorme
E não escuto uma voz, tudo dorme
Em santa paz, só isto e... nada mais.

VI

Ouço bem claro uma estranha pancada
Pelo meio da noite que se escoa;
Ouço-a e tenho a vida amargurada
Pela saudade dessa que foi boa.

Ouço aflito, que a mesma é secundada
Mais forte, como um pássaro que voa;
E sinto que uma coisa desusada
A noite imensa, lúgubre povoa.

E pensando dar calma ao coração,
Eu quis ter uma firme explicação,
Para esses fatos sobrenaturais;

Abri a porta e nada vi de sério,
Vi que a simples razão desse mistério
Era o vento da noite e... nada mais.

VII

E assim, por essa grande noite aziaga,
Envolvida em silêncios sepulcrais,
Esse sussurro é a dolorida chaga
Que resta dos meus tristes ideais.

Ouço-o passar como passa uma praga,
De minha velha porta nos umbrais,
E sinto que minha alma chora e indaga
Por Essa que jamais verei... jamais.

Mas, do meu quarto, impressionado vejo
A janela que se abre e, uma ave aflita
Que o invade sem licença, em horas tais;

E interrogo na dor em que rastejo:
— De onde virá tão tarde, esta visita? —
E só o caos ouvi e... nada mais.

VIII

Ao pé do fogo, em cismas, eu pedia
Infeliz e a contar hora por hora,
Que a tristeza que tanto me agonia,
Da manhã, entre as névoas, fosse embora.

Mas de repente, pela noite fria,
Que sempre a tudo e a todos apavora,
No travo da saudade que sentia,
Um rumor de asas escutei lá fora. 

E vi na extrema dor em que me absorvo,
Entrar pela janela um grande Corvo,
Com a pose dos nobres senhoriais;

E ao vê-lo andar sobre o busto de Palas
Pergunto: De que Reino tu te abalas?
E o hóspede só me olhou e... nada mais.

IX

Olho assombrado o negro mensageiro
Que deve conhecer minha desdita;
Interrogo-lhe o nome verdadeiro
E seu olhar o meu olhar não fita.

Na angústia em que meu sonho periclita
Sofro e pergunto-lhe outra vez: Primeiro,
Se é uma "Lady", ou um "Lord" cavalheiro,
E depois a razão dessa visita.

Mas Ele, erguendo a exótica plumagem,
Nada me diz, enfim, sobre a mensagem
De uma quadra de amor e madrigais.

E então, meu coração pulsa com medo,
Pois ouvi-lo falar quase em segredo
Esta
palavra cruel: nunca mais.
 

X

Atônito fiquei por um momento,
Ao compreender que o Corvo compreendia
A pergunta que em ânsias lhe fazia,
E a razão do meu grande sofrimento.

Por mais que intente, é falho o meu intento
Em aceitar até por fantasia,
Que uma ave saiba do meu pensamento
E me responda só com ironia.

Se sois humano, ó triste solitário!
Dizei-me em vosso atroz vocabulário,
A verdade de tudo que grasnais!

Mas Ele, altivo e sacudindo as plumas,
Olha da noite as regeladas brumas
E responde impassível: nunca mais.

XI

Fico em silêncio, quase que pasmado,
Ao ver que o Corvo zomba, com frieza,
De minha vida cheia de tristeza
E de meu lindo sonho malogrado. 

Talvez por mau, ou então por esperteza,
Coisa alguma me diz, de olhar gelado;
Nada me diz e tenho a vida presa
Ao advérbio por Ele decorado.

Peço-lhe que me fale de Leonora,
Dessa que amei e que Rainha fora,
De encantos e sorrisos divinais;

E Ele, só tem nessa noite plutônica,
Um frio olhar para a minha alma agônica
E a resposta tremenda: nunca mais.

XII

Afinal, como houvesse já perdido
Afeições dedicadas e ridentes
Esperanças, ao Corvo, em bom sentido,
Perguntei por amigos e parentes.

Pela saudade quase consumido,
Supliquei-lhe entre lágrimas ardentes
Que algo dissesse, mesmo dolorido,
De minhas crenças já de há muito ausentes.

Mas vil Demônio, Pássaro, Profeta
Ou Náufrago de grande tempestade,
Não fez cessar a minha dor inquieta;

Só me disse com gestos desleais,
Com soberba altivez e atroz maldade,
Esta frase impiedosa: nunca mais.

XIII

Logo depois, pela resposta ouvida
E que me ofereceu ligeiro susto,
Quis decifrá-la por ser descabida
E para ser também humano e justo.

Disse comigo: A frase bem medida,
Sempre grasnada sem mexer o busto,
Talvez fosse aprendida, a muito custo,
De um Mestre castigado pela vida.

Assim eu fico sem saber, portanto,
Se essa resposta é o derradeiro canto
De funda mágoa e cóleras brutais;

Olho do Corvo o triste olhar sem brilho
E torno a ouvir este estranho estribilho
Por Ele repetido: nunca mais.

XIV

Teimoso eu quis enfim, mais uma vez
Saber do Corvo o lúgubre segredo;
E procedi com muita sensatez,
Para mostrar-lhe que não tinha medo.

Enfrentei-o com máxima altivez
Não sei se muito tarde ou muito cedo;
Mas Ele, alheio ao mal que já me fez,
É mudo e altivo assim como um rochedo.

Muito triste, à minha alma dar procuro,
Desse grasnar o sentido mais puro,
Que sangra como todos os punhais;

Mas de minha poltrona, a noite inteira,
Ouvi somente, ao lado da lareira,
O anátema implacável: nunca mais.

XV

Assim, depois de muito meditar
Sem o menor receio ou conjetura,
Sobre a poltrona me deixei ficar,
Para esquecer a minha desventura.

Era de fato grande o meu pesar
E bem maior a dor que me tortura;
Por saber que jamais hei-de encontrar
Essa que foi tão bela e foi tão pura.

Quis do Corvo o segredo desvendar,
Mas, nada pude ver no seu olhar,
Que era cheio de brilhos funerais;

E perdi, afinal, as esperanças
De beijar outra vez aquelas tranças
De que me lembro e... não se beijam mais.

XVI

Chego a sentir e quase me convenço
De que meu quarto fora perfumado
Por um turíbulo esparzindo incenso,
Talvez por Serafins, só baloiçado.

Chego a senti-lo e, num clamor suspenso,
A Deus imploro, já desesperado,
Repouso dar, com seu amor imenso,
Para meu coração amargurado.

Torno a implorar ao grande Deus sensível,
Para saber d'Aquela, se possível,
Que era cheia de encantos imortais;

Para saber somente de Leonora,
Que aqui na terra quase santa fora
E o Corvo só me disse: nunca mais.

XVII

Nunca mais... Como dói esta amargura,
Por entre a dúvida e a interrogação!
Como dói esta dor que sempre dura,
Cheia de nobre significação!

Nunca mais... É a tremenda desventura
Envolvida em silêncio e solidão!
É o desespero de quem só murmura
O nome de Leonora, em oração!

Nunca mais... Como dói esta palavra
Ouvir, que desilude a vida inteira,
Quando a saudade no meu peito lavra!

Dizei porque a alegria me roubais
Ave feia e maldita, ave agoureira,
E esta resposta escutei: nunca mais.

XVIII

Meio acordado, nessa noite espessa,
Deserta de alegria e de luar,
Procurei, por covarde que pareça,
Fugir do Corvo ao tenebroso olhar.

Pedi que por Leonora sempre cresça
Dentro de mim, a dor de recordar;
Vendo-a linda pousar sua cabeça
Na cadeira em que fico a repousar.

E de momento, quase que dormindo,
Cheguei a vê-la para o céu subindo,
Amparada por mãos angelicais...

E então pedi a Deus por piedade,
Que matasse de vez minha saudade,
Mas ouvi desolado: nunca mais.

XIX

Já tendo a grande mágoa pressentido
Por tanta negativa e dissabores,
Ao Corvo perguntei, desiludido,
Sobre Leonora, a irmã gêmea das flores.

Chamei-o de Profeta e, não vencido,
Nada me disse a provocar temores;
Chamei-o de Demônio e, empedernido,
Não quis fazer cessar as minhas dores.

Para esquecer, já quase sem idéia,
Perguntei-lhe se havia na Judéia
Um bálsamo de efeitos magistrais;

E Ele, implacável, sem um gesto rudo,
Alheio à vida, ao sofrimento e a tudo,
Deixou-me ouvir outra vez: nunca mais.

XX

Ave ou Demônio, pelo céu bendito
Que adoramos e o coração nos cobre,
Dize-me se verei, não mais aflito,
Leonora, essa donzela santa e pobre.

Pedindo que minha alma não soçobre
Por esse amor, porque soluço e grito,
Dize-me se a verei lá no infinito,
Onde há aleluias para o afeto nobre.

Dize-me, Corvo aziago e feiticeiro,
Porque te fazes sempre mensageiro
De mau agouro e dúvidas fatais?...

E Ele impassível, lúgubre, irritante
A me olhar, a me olhar a cada instante,
Respondeu friamente: nunca mais.

XXI

Sejam tuas palavras o pungente
Sinal de nossa atroz separação;
Volta Corvo infeliz e penitente
Aos horrores de tua solidão.

Volta à noite plutônica e inclemente
De onde vieste, talvez por maldição;
Mas antes, da mentira, suavemente
O bico arranca do meu coração.

Foge para bem longe do meu quarto
E deixa minha casa, que estou farto
De tuas negativas infernais...

Mas Ele, sempre e sempre empoleirado
Sobre o busto de Palas, revoltado
Assim murmurou: nunca, nunca mais. 

XXII

Meus tristes rogos afinal, jamais
Vitória alcançarão nessa agonia
De não saber se a frase "nunca mais"
Era de amor, ou simples ironia.

E nessas horas de incertezas tais
O Corvo é mudo e a noite é muda e fria...
E eu sinto muito como já sentia,
A morte de meus puros ideais...

Sim... Ave enigma... E a lâmpada velada,
Deixa ver sua sombra projetada
Por sobre o solo, em linhas bem reais...

Sim... Leonora... Na minha dor sem calma,
Choro porque não poderá minha alma
Se juntar a essa sombra; nunca mais.
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Extraído de "O Corvo" e suas traduções Organização e Introdução de Ivo Barroso e Apresentação de Carlos Heitor Cony, 1998, Lacerda Editorial, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro RJ.