quinta-feira, 30 de abril de 2020

genésio dos santos: 2020



Genésio dos Santos: 2018


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sim, estou amargo
mas mais amargo estaria
não fosse a poesia


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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista e itapetiningano, caipira e filho de ferroviário, é poeta e aprendiz de blogueiro.

Adelaide Petters Lessa: Treinador

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Eu abomino o jogo desleal,
de pés sem a cabeça.

Profissionais de trancos e pisões,
propositais, maldosos.
Chuteiras atingindo os genitais do outro.
Rasteiras que estraçalham com joelhos.
Adversários retorcidos sobre a maca,
sujeitos ao derrame, ocaso e morte.
Rejeito o jogador fingido,
suas desculpas de má sorte.
O falso craque, descoberto o dopping.
O brutamontes, o comprado,
o covarde.

Prefiro o fair-play, cavalheiresco abraço
do jogador vencido ao vencedor.
A troca de camisas e bandeiras.
Todo o requinte e a graça soberana
de ginasta perfeito e bailarino.

Eu gosto é da refrega entre os atletas
de inteligência e destreza, criadoras,
da Folha seca, do Chapéu, do Gol Olímpico,
dos dribles sucessivos,
da Bicicleta sem visão da meta.

Mais belo ainda é o lance plug-and-play
que nasce do goleiro, sobrevoa
a meia-lua e chega ao peito e aos pés
de um atacante alerta.
A garra, intuição, certeza e fé
de uma vitória limpa.

Meninos, nosso esporte se enriqueça
de auto-controle. Dignidade.
A taça com a posse de si mesmo.

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

quarta-feira, 29 de abril de 2020

W. H. Auden: A solitária nata

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[traduzido por José Paulo Paes]

Eu ouvia da sombra, numa cadeira de praia,
A gama de ruídos que por meu jardim se espraia
E julgava de toda conveniência se isentasse
Do dom da palavra tanto os vegetais como as aves.

Um tordo sem nome de batismo repetia
O Hino Tordo, que era tudo quanto conhecia.
Por terceiro esperavam as flores roçagantes
Para dizer-lhes, sendo o caso, quais os pares de amantes.

Não seria, nenhum deles, capaz de mentir;
Tampouco havia ali quem sentisse a morte vir-
Lhe ou que, com ritmo ou rima, pudesse dar tento
Da sua responsabilidade pelo tempo.

Ficasse a linguagem para a solitária nata
Dos que contam os dias e esperam certas cartas.
Ao rir e ao chorar, nós também fazemos ruídos.
Palavras são só para os que estão comprometidos.

W. H. Auden – Yousuf Karsh
W. H. Auden

Their Lonely Betters

As I listened from a beach-chair in the shade
To all the noises that my garden made,
It seemed to me only proper that words
Should be withheld from vegetables and birds.

A robin with no Christian name ran through
The Robin-Anthem which was all it knew,
And rustling flowers for some third party waited
To say which pairs, if any, should get mated.

Not one of them was capable of lying,
There was not one which knew that it was dying
Or could have with a rhythm or a rhyme
Assumed responsibility for time.

Let them leave language to their lonely betters
Who count some days and long for certain letters;
We, too, make noises when we laugh or weep:
Words are for those with promises to keep.

? June 1950
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W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Gilberto Freyre: Jangada triste

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Ao longe, mui longe, no horizonte,
além, muito além daquele monte,
como ave que voa desdenhada,
flutua tristemente uma jangada.

Nos zangados soluços do oceano,
quase desaparece o canto humano
de quem no mar e céu inda confia
porque em terra tudo lhe é melancolia.

Isso de terra firme e mar traiçoeiro
nem sempre é certo para o jangadeiro
mais preso ao fiel sal que à incerta areia.

Mistura ao grande azul as suas mágoas
e encontra no vaivém das verdes águas
consolo às negras dores cá da terra.

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Gilberto Freyre: Talvez Poesia — Prefaciada pelo autor, com Apresentação de Lêdo Ivo e Biobibliografia de Edson Nery da Fonseca, 2ª edição ampliada, 2012, Global Editora, São Paulo SP; Gilberto de Mello Freyre (1900 1987), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Baylor Texas e na Universidade de Columbia, ambas nos Estados Unidos, foi sociólogo, antropólogo, ensaísta, historiador, professor, escritor, pintor e também poeta; ainda na infância, estudou no Colégio Americano Girealth, em Recife, aprendeu latim (com o pai) e teve aulas particulares de francês; bibliografia: Casa Grande & Senzala (1933), Sobrados e Mocambos (1936), Açúcar Uma Sociologia do Doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil (1939), Talvez Poesia (1962), Vida social no Brasil nos meados do século XIX (1964) e vários outros títulos; colaborou com veículos da imprensa, tanto no Brasil como no exterior, e teve seus textos amplamente divulgados; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

dylan thomas: e a morte não terá domínio

Poesia da Recusa
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[traduzido por Augusto de Campos]

E a morte não terá domínio.
Nus, os mortos hão de ser um.
Com o homem ao léu e a lua em declínio.
Quando os ossos são só ossos que se vão,
Estrelas nos cotovelos e nos pés;
Mesmo se loucos, hão de ser sãos,
Do fundo do mar ressuscitarão
Amantes podem ir, o amor não.
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Sob os turvos torvelinhos do mar
Os que jazem já não morrerão ao vento,
Torcendo-se nos ganchos, nervos a desfiar,
Presos a uma roda, não se quebrarão,
A fé em suas mãos dobrará de alento,
E os males do unicórnio perderão o fascínio,
Esquartejados não se racharão.
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Os gritos das gaivotas não mais se ouvirão
Nem as ondas altas quebrarão nas praias.
Onde uma flor brotou não poderá outra flor
Levantar a cabeça às lufadas da chuva;
Embora sejam loucas e mortas como pregos,
Testas tenazes martelarão entre margaridas:
Irromperão ao sol até que o sol se rompa,
E a morte não terá domínio.

Dylan Thomas

and death shall have no dominion

And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Dylan Marlais Thomas (1914 1952), nascido em Swansea País de Gales, frequentou a Swansea Grammar Scholl, após abandonar os estudos tornou-se repórter do South Wales Daily Post e foi poeta; inicia-se na poesia aos 16 anos logo depois junta-se à Swansea Little Theatre Company, ao lado da irmã, e nesta época escreve a maior parte de sua produção poética; em 1933 publica no New English Weekly publica seu primeiro poema fora do País de Gales e, no ano seguinte, já em Londres, recebe o prêmio literário Poet’s Corner; Dylan Thomas é considerado um dos maiores poetas do século XX em língua inglesa, ao lado de W. Carlos Williams, Wallace Stevens, T. S. Eliot e W. B. Yeats e, apesar de ter-se ido aos 39 anos de idade, deixou-nos um legado poético e influenciou toda uma geração de escritores; o poeta sucumbiu a uma vida de alcoolismo, hábito que abusadamente contraíra aos 18 anos de idade, vindo a morrer já com sérios problemas de saúde; bibliografia: 18 Poems (1934), 25 Poems (1936), The Map of Love (1939), Twenty-Six Poems (1950), Colleted Poems (1952) e outros textos em verso e prosa e também para teatro.

domingo, 26 de abril de 2020

Sosígenes Costa: O rio e o poeta

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(Fábula)

Despi o manto de bardo,
vesti a pele do rio.
Vou correndo e vou falando
encantado neste rio.
Vou passando nos lugares
atrasados deste rio.
Vou falando na pobreza
dos lugares deste rio.
Não me calo na viagem.
Falo pelos cotovelos.
Mas ponho calor na fala
para exprimir simpatia
pela causa dos pequenos
que são tantos neste rio.
Não é fala de poeta.
É prosa. Não é poesia.
Mas o povo não se importa
com a falta de melodia,
pois quem está assim falando
é a minha simpatia.
Vou falando, vou falando.
Não calo porque não posso
calar esta simpatia
e ao chegar ao mar, ainda
fala minha simpatia.
Acabando-me no mar,
desencanto-me em poeta.
E cessado todo o encanto,
calou-se a minha simpatia.
Falo agora como poeta.
Minha fala agora é canto
que se apaga e que se esfria,
para conservar calada
toda a minha simpatia
pela causa dos pequenos
que são tantos neste rio.
Procuro imitar o canto
da viola e da cotovia.
Imito o canto do povo.
Mas calada a simpatia,
minha fala de poeta
perdeu toda a poesia.

(7/12/1953)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sábado, 25 de abril de 2020

Novalis*: Mas algo avançou na mesa de jantar . . . (Hinos à Noite — V, excerto)

Hinos à Noite - Novalis - Sebo ClepsidraHinos à Noite - Novalis - Sebo Clepsidra
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[traduzido por Felipe Vale da Silva]

V

( . . . )

Mas algo avançou na mesa de jantar,
cobrindo os ânimos de abalo tétrico
terrível ao ponto de Deus malograr
de verter consolo nos peitos opressos.
Sina horrenda foi, plena de mistérios
fúria que não aplaca a súplica ou o gênio
pois a própria Morte invadiu o banquete
alastrando lágrima e ranger de dentes.
Cindidos para sempre de tudo aquilo
que atiça o peito com doce deleite;
para longe da amada, de entes queridos
tomou-lhes um anseio, uma dor pungente
Como um sonho penoso, para os mortos urdido
pois a luta fatal não convém aos viventes
quebrou-se a onda da glória e do gozo
Na rocha que os liga ao eterno desgosto.
Com espírito bravo e paixão elevada
Humano é buscar o belo na desgraça;
um jovem se deita com lume apagado
seu fim se aproxima tal e qual sons de harpas
Lembranças se fundem no abismo gelado
Assim soa o canto da triste verdade;
a Noite eterna persiste insondável;
emblema solene do Inalcançável.

( . . . )

A Vida Secreta das Palavras: Novalis
Novalis

(Hymnem an die Nacht
V)

( . . . )

Das furchtbar zu den frohen Tischen trat
Und das Gemüth in wilde Schrecken hüllte.
Hier wußten selbst die Götter keinen Rath,
Der die beklommne Brust mit Trost erfüllte.
Geheimnißvoll war dieses Unholds Pfad,
Des Wuth kein Flehn und keine Gabe stillte;
Es war der Tod, der dieses Lustgelag
Mit Angst und Schmerz und Thränen unterbrach.
Auf ewig nun von allem abgeschieden,
Was hier das Herz in süßer Wollust regt,
Getrennt von den Geliebten, die hienieden
Vergebne Sehnsucht, langes Weh bewegt,
Schien matter Traum dem Todten nur beschieden,
Ohnmächtiges Ringen nur ihm auferlegt.
Zerbrochen war die Woge des Genusses
Am Felsen des unendlichen Verdrusses.
Mit kühnem Geist und hoher Sinnenglut
Verschönte sich der Mensch die grause Larve,
Ein sanfter Jüngling löscht das Licht und ruht
Sanft wird das Ende, wie ein Wehn der Harfe.
Erinnerung schmilzt in kühler Schattenflut,
So sang das Lied dem traurigen Bedarfe.
Doch unenträthselt blieb die ewge Nacht,
Das ernste Zeichen einer fernen Macht.

( . . . )

* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: no Posfácio deste Hinos à Noite..., conforme os pequenos traços biobibliográficos anotados pelo tradutor Felipe Vale da Silva, ficamos sabendo que o poeta Novalis, “ao testemunhar os dez anos da Revolução Francesa e contrastá-los com a vida pacata dos alemães, assumiu que a tarefa de sua geração era ainda maior. A mente humana deveria ser amplificada para que se pudesse atingir um estágio de plenitude e libertação almejado por todos. Para isso, toda a cultura humana deveria ser revolucionada. O nome dessa revolução, discutida  em um círculo seleto de amigos e publicada na revista Athenäum, ficou conhecido mais tarde como Romantismo. De 1798 até sua morte prematura em 1801, Novalis produziu as bases da teoria romântica com os amigos Friedrich Schelling, os irmãos Friedrich e August Schlegel, Dorothea Veit e Ludwig Tieck: foram três anos de trabalho intenso que alteraram para sempre a forma como lemos literatura (...) a arte literária foi declarada autônoma, independente dos ditames do entretenimento, da defesa da religião, da moral ou do Estado, e mesmo da coerência...”.
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; bibliografia: Klagen eines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (Pólentextos filosóficos, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à Noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Paul Verlaine: No passeio

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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

Pálido, o céu e as árvores delgadas
parecem rir das nossas roupas suaves
que, preguiçosas, vão a voar como aves
em movimentos de asas espalmadas.

A brisa enruga o tanque, ao perpassar.
E o sol, que na alameda se insinua
e que a sombra das tílias atenua,
discreto, aos nossos pés vem expirar.

Sutis galanteadores inconstantes,
com as belas, ardilosos, alternando,
vamos palrando alegremente em bando,
e os amantes provocam as amantes,

cuja mãozinha, às vezes, num assomo,
sabe vibrar um piparote, o qual
é logo pago em beijos, por sinal
que no dedinho mínimo, e, enfim, como

tudo isso é de uma extravagância louca,
elas nos punem com um olhar gelado,
com o qual contrasta, aliás, a nosso agrado,
o momo clementíssimo da boca.

Paul Verlaine

A la promenade

Le ciel si pâle et les arbres si grêles
Semblent sourire à nos costumes clairs
Qui vont flottant légers avec des airs
De nonchalance et des mouvements d’ailes.

Et le vent doux ride l’humble bassin,
Et la lueur du soleil qu’atténue
L’ombre des bas tilleuls de l’avenue
Nous parvient bleue et mourante à dessein.

Trompeurs exquis et coquettes charmantes,
Cœurs tendres mais affranchis du serment,
Nous devisons délicieusement,
Et les amants lutinent les amantes

De qui la main imperceptible sait
Parfois donner un soufflet qu’on échange
Contre un baiser sur l’extrême phalange
Du petit doigt, et comme la chose est

Immensément excessive et farouche,
On est puni par un regard très sec,
Lequel contraste, au demeurant, avec
La moue assez clémente de la bouche.
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Festas Galantes — Paul Verlaine, Tradução de Onestaldo de Pennafort, 1983, 3ª edição revista, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sophus Claussen: não desperteis os cisnes

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[traduzido por José Paulo Paes]

Meu assobio de primavera, venceu-o o alvoroço
dos patos no tanque. E os cisnes volveram seus pescoços.

Num roçagar de penas, mediram-me sem alarme
com olhares de viés, afetando suportar-me.

Só um veio vogando, de manso, para o meu lado:
se és amigo dos cisnes, deita-te e fica calado...

Aos cisnes, qualquer coisa pode ferir ou matar;
é nosso fado: a vida existe para nos lesar.

Não divirtas com notas de pássaro migrador,
dos sonhos de gelo que os cisnes sonham, o tremor...

A vida é uma culpa quem a expia somos nós,
que nascemos já com a própria morte em nossa voz.

Não queiras inflamar-nos do calor e inquietação
que se mesclam nos gritos das aves de arribação

Se aos sinos da tarde não pudermos dormitar mais,
erguemos vôo. Ai de vós que com a vida engodais!

Erguemos vôo. Nossa capa de penas se inflama.
De asas aparadas só nos resta morrer em chamas.

Ah, atraem os cisnes apenas para juntá-los
a todos num só bando numeroso... e então matá-los.

Até que o inverno eterno mantenha os mares fechados
e as nevascas tapem a boca dos vulcões irados

não desperteis, com arroubos e ardores de batalha,
o forte bamboleio, o manto de penas que farfalha.

Vestes de festa, jogos de sonho, dai diversão
aos aflitos, mas aos cisnes não os desperteis, não.

Sophus Claussen | Danske forfattere (iBog)
Sophus Claussen

V
æk ikke Svanerne

Mit Vaarfløjt blev nedstemt af Andedams-Claquerne.
Selv Svanerne rystede Svanenakkerne.

Fjerhammene bruste, mens næppe de målte mig
med Sideblikke, der lod, som de tålte mig.

En enkelt kom sagtelig sejlende hen:
Lig stille og ti, er du Svanernes Ven...

Det er Svane-Skæbne, at alt må dræbe os,
Livet er til for at efterstræbe os.

Kom ikke med Trækfugletoner forlystende
til Svanen, som drømmer sin Isdrøm, den rystende...

En Brøde er Livet, og vi vi er Sonerne,
kun født til at synge med Døden i Tonerne.

Men ildner du os med det hede og higende
den dobbelt Islæt i Trækfugleskrigene

og må vi ej blunde til Solnedgangsklokkerne,
vi rejser os. Ve over Livs-Forlokkerne!

Vi rejser os. Fyrige svulmer da Hammene.
I Fald vi er stækkede dø må vi flammende.

Ak, Svanerne lokker man kun for at slæbe dem
i Hobevis sammen... og derefter dræbe dem.

Til evige Vintre har stængt Oceanerne
og Snefald får Mundene lukt paa Vulkanerne

væk ikke, med Ildhu og krigerisk dystende,
de Vingefjer-brusende, kraftig sig brystende!

Lad Feskrud og Lege på Drømmebanerne
forlyste de sorgfulde. Væk ikke Svanerne!
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Quinze Poetas Dinamarqueses, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, edição bilíngue, Coleção Poesia Traduzida Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Sophus Niels Christen Claussen (1865 1931), dinamarquês de Helletoft, ilha de Langeland, estudou Direito em Copenhague, foi jornalista, pintor, escultor, escritor e poeta lírico; o poeta recebeu influência dos simbolistas franceses e muito influenciou os poetas modernistas dinamarqueses das décadas de 1940 1960; Claussen viveu vários anos em Paris  França e na Itália e traduziu alguns de seus poetas favoritos, Percy Bysshe Shelley, Heinrich Heine e Charles Baudelaire entre outros; bibliografia: Naturbørn (Filhos da Natureza, 1887), Pilefløjter (1899), Ungt Folk (1894), Djævlerier (1904), Dansk Vers (1912), Fábulas (1917), Heroica (1925), além de vários livros de viagem e contos de prosa lírica da vida em pequenas cidades dinamarquesas.