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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bertolt Brecht: Li Tai Po domina setenta idiomas . . . & Aos pósteros [Den Nachgeborenen] & O faminto . . .

 
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[traduzidos por André Vallias]

Li Tai Po domina setenta idiomas . . .

Li Tai Po domina setenta idiomas.
Setenta demônios não vão seduzi-lo.
Li Tai Po diz rezas em setenta idiomas.
Em setenta idiomas pragueja no exílio.

 o —

Aos pósteros [Den Nachgeborenen]

Confesso: eu
Não tenho esperança.
Cegos falam de uma escapatória. Eu
Enxergo.

Quando os erros já se esgotaram
Senta-se (derradeira companhia)
O nada à nossa frente.

 o —

O faminto . . .

O faminto que leva
Teu último pão tu vês como inimigo
Mas no pescoço do ladrão que nunca
Passou fome tu não pulas.

Bertolt Brecht

Litaipee kann in siebzig Sprachen reden. . . .

Litaipee kann in siebzig Sprachen reden.
Siebzig Teufel der Hölle können ihn nicht versuchen.
Litaipee kann in siebzig Sprachen beten.
In siebzig Sprachen kann Litaipee fluchen.

[1918]

 o —

Den Nachgeborenen

Ich gestehe es: ich
Habe keine Hoffnung.
Die Blinden reden von einem Ausweg. Ich
Sehe.

Wenn die Irrtümer verbraucht sind
Sitzt als letzter Gesellschafter
Uns das Nichts gegenüber.

[c. 1920]

o —

Den Hungernden, . . .

Den Hungernden, der dir
Das letzte Brot wegnimmt, siehst du als Feind an.
Aber dem Dieb, der nie gehungert hat
Springst du nicht an die Gurgel.

[c. 1934]
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Bertolt Brecht — Poesia, bilíngue, Introdução e Tradução de André Vallias, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, estudou na Escola Real de Augsburg, formou-se em 1917 e iniciou curso de Medicina, em Munique, abandonando-o para trabalhar em direção teatral e dramaturgia, foi poeta, dramaturgo, encenador, enfermeiro em Hospital Militar; ainda estudante, deu início à produção de textos literários; ao ser convocado pelo exército, na Primeira Guerra, serviu como enfermeiro em hospital militar; desde 1921 dirigiu e se envolveu em dramaturgia em Munique e, a partir de 1924, em Berlim; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção: em arte dramática, Baal (texto de 1918/produção em 1923), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1919/1922), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938), em poesia: Psalmen (Salmos, texto de 1926, publicado em 1960), Bertolt Brechts Hauspostille (Breviário Doméstico de Bertolt Brecht, 1916-25/1926), Die Augsburger Sonette (Os Sonetos de Augsburgo, 1925-27/1982), Sonette (Sonetos, 1932-34/1951), Englische Sonette (Sonetos Ingleses, 1934), Lieder Gedichte Chöre (Canções, poemas, coros, 1918-33/1934), Chinesische Gedichte (Poemas chineses, 1938-1949), Svendborger Gedichte (Poemas de Svendborger, 1934-38/1939), Gedichte im Exil (Poemas no Exílio, 1936-44/1988), Deutsche Satiren — zweiter Teil (Sátiras alemãs — parte dois, 1945/1988), Gedichte über die Liebe (Poemas sobre o amor, 1917-56/1982), Hundert Gedichte: 1918 bis 1950 (Cem Poemas: 1918 a 1950, 1958) e tantos outros textos em verso e prosa, escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Bertolt Brecht: Balada da roda d'água*

 
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[traduzido por André Vallias]

1
Dos graúdos do planeta
Nos diz mais de uma canção:
Sobem alto como estrelas
Como estrelas caem no chão.
E parece até que isso consola.
Mas pra nós, de quem a corja esfola
Os seus grãos, subir, cair, que seja
Tanto faz: quem arca com a despesa?
Claro, a roda sempre vai girar
E o que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

2
Arre, um monte de senhores
Já tivemos: águia, leão
Hiena, porco, e sempre demos
Grãos sem qualquer distinção.
Se melhor, pior: a bota de um
Era igual à do outro em nos pisar.
Arre, vocês hão de concordar:
De senhor nos falta é ter nenhum!
Claro, a roda sempre vai girar
O que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

3
Eles racham suas cabeças
Na disputa da rapina
Chamam os outros de glutões
E a si mesmos: gente fina.
Gritam, lutam entre si sem pausa.
Mas se a gente deixa de dar grãos
Num instante vão ser bons irmãos
E se unir em prol da justa causa.
Claro, a roda sempre vai girar
O que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

Bertolt Brecht

Die Ballade vom Wasserrad

1
Von den Großen dieser Erde
Melden uns die Heldenlieder:
Steigend auf so wie Gestirne
Gehn sie wie Gestirne nieder.
Das klingt tröstlich, und man muss es wissen.
Nur: für uns, die sie ernähren müssen
Ist das leider immer ziemlich gleich gewesen.
Aufstieg oder Fall: wer trägt die Spesen?
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: dass es das Rad halt ewig treibt.

2
Ach, wir hatten viele Herren
Hatten Tiger und Hyänen
Hatten Adler, hatten Schweine
Doch wir nährten den und jenen.
Ob sie besser waren oder schlimmer:
Ach, der Stiefel glich dem Stiefel immer
Und uns trat er. Ihr versteht: Ich meine
Daß wir keine andern Herren brauchen, sondern keine!
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: dass es das Rad halt ewig treibt.

3
Und sie schlagen sich die Köpfe
Blutig, raufend um die Beute
Nennen andre gierige Tröpfe
Und sich selber gute Leute.
Unaufhörlich sehn wir sie einander grollen
Und bekämpfen. Einzig und alleinig
Wenn wir sie nicht mehr ernähren wollen
Sind sie sich auf einmal völlig einig.
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: Dass es das Rad halt ewig treibt.

(1934)

* Nota de André Vallias: Balada da roda d’água escrita entre março e abril de 1934, foi incluída na peça Cabeças Redondas, Cabeças Pontudas, com música de Hanns Eisler.
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, bilíngue, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917, iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 12 de julho de 2025

Bertolt Brecht: Elogio do comunismo*

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[traduzido por André Vallias]

Ele é inteligível, todos o entendem. Ele é fácil.
Você não é um explorador, você pode compreendê-lo.
Ele é bom para você, informe-se sobre ele.
Os burros o chamam de burro, e os sujos o chamam de sujo.
Ele é contra a sujeira e contra a burrice.
Os exploradores o chamam de crime
Mas nós sabemos:
Ele é o fim dos crimes.
Ele não é nenhuma idiotice, mas
O fim da idiotice.
Ele não é o enigma
Mas a solução.
Ele é o simples
Que é difícil de fazer.

Bertolt Brecht

Lob des Kommunismus

Er ist vernünftig, jeder versteht ihn. Er ist leicht.
Du bist doch kein Ausbeuter, du kannst ihn begreifen.
Er ist gut für dich, erkundige dich nach ihm.
Die Dummköpfe nennen ihn dumm, und die Schmutzigen nennen ihn
schmutzig.
Er ist gegen den Schmutz und gegen die Dummheit.
Die Ausbeuter nennen ihn ein Verbrechen.
Wir aber wissen:
Er ist das Ende der Verbrechen.
Er ist keine Tollheit, sondern
Das Ende der Tollheit.
Er ist nicht das Rätsel
Sondern die Lösung.
Er ist das Einfache
Das schwer zu machen ist.

(c. 1931)

* Nota de André Vallias: Elogio do comunismo incluído na peça A Mãe: Vida da Revolucionária Pelagea Wlassowa de Twer (1932), com música de Hanns Eisler.
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, bilíngue, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917, iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 22 de março de 2025

Bertolt Brecht: Cântico de Orge


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[traduzido por André Vallias]

Orge me disse:

1
O lugar que nesta Terra mais lhe apraz
Não seria o banco de grama no tumulto dos pais.

2
Orge me disse: O lugar que mais estima
Nesta Terra sempre será a latrina.

3
Lugar plácido em que a gente se recosta
Tendo em cima estrelas e debaixo, bosta.

4
Lugar mágico que, quando se é adulto
Se pode ficar sozinho sem tumulto.

5
Lugar de humildade em que você descobre
Que é humano, e sai desta vida sem um cobre.

6
Um lugar em que se deixa o corpo em paz
Mas depois, com força, um bem também se faz.

7
Um lugar de ciência em que você adestra
O bucho pras novas luxúrias de festa.

8
E o que você é por fim se descortina:
Um sujeito que devora  na latrina!

Bertholt Brecht

Orges Gesang

Orge sagte mir:

1
Der liebste Ort, den er auf Erden hab`
Sei nicht die Rasenbank am Elterngrab.

2
Orge sagte mir: Der liebste Ort
Auf Erden war immer der Abort.

3
Dies sei ein Ort, wo man zufrieden ist
Daß drüber Sterne sind und unten Mist.

4
Ein Ort sei einfach wundervoll, wo man
Wenn man erwachsen ist, allein sein kann.

5
Ein Ort der Demut, dort erkennst du scharf
Daß du ein Mensch nur bist, der nichts behalten darf.

6
Ein Ort, wo man, indem man leiblich ruht
Sanft, doch mit Nachdruck, etwas für sich tut.

7
Ein Ort der Weisheit, wo du deinen Wanst
Für neue Lüste präparieren kannst.

8
Und doch erkennst du dorten, was du bist:
Ein Bursche, der auf dem Aborte  frißt!

[Baal]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Bertolt Brecht: Crítica à "Criação do Mundo" de Michelangelo


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[traduzido por André Vallias]

1
A imagem que ele fez da Criação
Me aturde. Como pôde nisso crer?!
A insânia humana em preto distorcer!
Acuso-o de pintar sem distinção.

2
Sei bem que ele morreu, mas se talvez
Pudesse aqui voltar pra se explicar
Eu, de bom grado, iria perguntar
Por que diabos então fez o que fez.

3
Afresco em que se vê como Deus cria
Sobre o granito o homem e então se manda
Ao invés de vê-lo errar no dia a dia?

4
Que embuste! Como pôde crer naquilo
E distorcer em preto a insânia humana?!
E por papel só para dividi-lo!

Bertolt Brecht

Kritik an Michelangelos “Weltschöpfung”

1
Dies Bildnis, das er von de Schöpfung machte
Versteh ich nicht. Wie konnt er so was glauben?!
Das heißt: der Menschen Wahn ins Schwarze schrauben!
Ich werf ihm vor, daß er es nicht bedachte.

2
Ich gönne jedem, daß er tot ist, und verachte
Nicht den, der Sorge trüg zurückzukehren
Um nunmehr vor der Welt sich zu erklären
Warum er auf ihr machte, was er machte.

3
So machte der ein Bild, wo ihr Gott seht
Wie er den Menschen auf Granit stellt und vergeht
Statt den vergehen zu sehn und selber zu verweilen?

4
Welch ein Betrug! Wie konnt er so was glauben?
Das heißt: der Menschen Wahn ins Schwarze schrauben!
Um das um ein Papier gut einzuteilen!

[c. 1938]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg — Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Bertolt Brecht: Escorraçado com razão


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[traduzido por André Vallias]

Eu cresci como filho
De gente abastada. Os meus pais
Puseram uma coleira em mim e me educaram
Nos hábitos de ser servido
E me instruíram na arte de mandar. Mas
Quando estava crescido e olhei ao redor
Não me agradaram as pessoas da minha
Laia nem mandar nem ser servido
E eu larguei a minha laia e me juntei
À raia miúda.

Assim
Eles criaram um traidor, o instruíram
Em suas artes, e ele
Os entregou ao inimigo.

Sim, eu revelo seus segredos. Entre o povo
Me coloco e esclareço
Como eles trapaceiam, e predigo o que virá, pois
Fui consagrado nos seus planos.
O latim de seus sacerdotes vendidos
Eu traduzo palavra por palavra em língua comum, e
Se comprova o disparate. A balança de sua justiça
Eu arranco e mostro
As falsas medidas. E seus bufões os informam
Que eu me sento entre os roubados, quando estes
Discutem a revolta.

Eles me preveniram e me tiraram
O que eu ganhei com meu trabalho. E ao não
Me corrigir
Saíram à minha caça, mas
Em casa
Só havia escritos que desvendavam
Seus ataques contra o povo. Assim
Expediram uma ordem de prisão contra mim
Me acusando de índole fraca, isto é
Da índole dos mais fracos.

De onde vim, estou assim estigmatizado
Perante os de posse, mas os despossuídos
Leem a ordem de prisão e
Me dão guarida. Você, eu escuto lá
Foi escorraçado
Com razão.

Bertolt Brecht

Verjagt mit gutem Grund

Ich bin aufgewachsen als Sohn
Wohlhabender Leute. Meine Eltern haben mir
Einen Kragen umgebunden und mich erzogen
In den Gewohnheiten des Bedientwerdens
Und unterrichtet in der Kunst des Befehlens. Aber
Als ich erwachsen war und um mich sah
Gefielen mir die Leute meiner Klasse nicht
Nicht das Befehlen und nicht das Bedientwerden
Und ich verließ meine Klasse und gesellte mich
Zu den geringen Leuten.

So
Haben sie einen Verräter aufgezogen, ihn unterrichtet
In ihren Künsten, und er
Verrät sie dem Feind.

Ja, ich plaudere ihre Geheimnisse aus. Unter dem Volk
Stehe ich und erkläre
Wie sie betrügen, und sage voraus, was kommen wird, denn ich
Bin in ihre Pläne eingeweiht.
Das Lateinisch ihrer bestochenen Pfaffen
Übersetze ich Wort für Wort in die gewöhnliche Sprache, da
Erweist es sich als Humbug. Die Waage ihrer Gerechtigkeit
Nehme ich herab und zeige
Die falschen Gewichte. Und ihre Angeber berichten ihnen
Dass ich mit den Bestohlenen sitze, wenn sie
Den Aufstand beraten.

Sie haben mich verwarnt und mir weggenommen
Was ich durch meine Arbeit verdiente. Und als ich mich
Nicht besserte
Haben sie Jagd auf mich gemacht, aber
Da waren
Nur noch Schriften in meinem Haus, die ihre Anschläge
Gegen das Volk aufdeckten. So
Haben sie einen Steckbrief hinter mir hergesandt
Der mich niedriger Gesinnung beschuldigt, das ist:
Der Gesinnung der Niedrigen.

Wo ich hinkomme, bin ich so gebrandmarkt
Vor allen Besitzenden, aber die Besitzlosen
Lesen den Steckbrief und
Gewähren mir Unterschlupf. Dich, höre ich da
Haben sie verjagt mit
Gutem Grund.

[1938]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

domingo, 24 de setembro de 2023

Bertolt Brecht: Considerações políticas


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[traduzido por André Vallias]

Andam de canoa horas a fio na lagoa
Eu observo e isso simplesmente me enjoa.
Andar de canoa quando se está endividado
Até o pescoço, no estado em que está o Estado!

Fico ali fumando, e apenas observando
E penso na minha parte: observando
Eles tocarem também harmônica; que se ponha
Harmônica na boca, e o país soluça nas trevas da vergonha!

Eu, apático, penso, continuem tocando e andando de canoa.
Eu cuspo, sim, de resto, tanto faz pra minha pessoa.
Eu observo isso já há muitos anos
Eu vejo exatamente pra onde vamos.

Em Do Polo ao Polo lê-se que a população
De Orkney vivia de lavar sua roupa então
Apenas isso e continuaram por anos numa boa
Assírios e babilônios também andavam de canoa.

Bertolt Brecht

Politische Betrachtungen

Auf dem Stadtweiher fahren sie stundenlang Kahn
Ich sehe das wirklich einfach mit Ekel an.
Kahn fahren, wenn man bis über den Hals verschuldet ist
In so einem Staatswesen, daß das überhaupt geduldet ist!

Ich rauche da nur und sehe auch nur so zu
Und denke mir meinen Teil, ich denke mir: nur so zu
Sie spielen auch Mundharmonika hierzulande
Mundharmonika spielen, und das Land seufzt unter der schwarzen
Schande!

Ich denke da kalt, spielt nur weiter und fahrt nur weiter Kahn.
Ich spucke aus, ja, aber weiter geht’s mich nichts an.
Ich sehe nur so zu schon seit einigen Jahren
Ich sehe haarscharf, wohin wir da fahren.

Die Bewohner von Orkney, heißt’s in »Von Pol zu Pol«
Lebten davon, daß sie sich ihre Wäsche wuschen, jawohl
Nur so zu, nur so weiter gemacht noch einige Jahre
Die Assyrer und Babylonier sind ja auch Kahn gefahren.

[c. 1920]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Bertolt Brecht: Arenga do lavrador ao seu boi


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[traduzido por André Vallias]

(Sobre uma canção rural egípcia, 1400 a.E.C.)

Ó grande boi, divino puxador do arado
Dispõe-te a arar direito! Não deixes os sulcos
Desalinharem por obséquio! Tu
Que vais adiante, conduzindo, ô!
Nós nos curvamos para cortar teu feno
Dispõe-te agora a devorá-lo, provedor dileto! Não te
Preocupes, ao comeres, com os sulcos, come!
Para o teu estábulo, protetor da família
Arrastamos, bufando, as tábuas; nós
Dormimos ao relento e tu, no seco. Ontem
Tossiste, amado desbravador de caminhos.
Ficamos fora de nós. Queres então, antes
Da colheita, esticar a canela, cachorro?

Bertolt Brecht

Ansprache des Bauern an seinen Ochsen
(Nach einen ägyptischen Bauernlied, 1400 v.d.Z.)

O großer Ochse, göttlicher Pflugzieher
Geruhe, gerade zu pflügen! Bring die Furchen
Freundlichst nicht durcheinander! Du
Gehst voraus, Führender, hüh!
Wir haben gebückt gestanden, dein Futter zu schneiden
Geruhe jetzt, es zu verspeisen, teurer Ernährer! Sorg dich nicht
Beim Fressen um die Furche, friß!
Für deinen Stall, du Beschützer der Familie
Haben wir ächzend die Balken hergeschleppt, wir
Liegen im Nassen, du im Trockenen. Gestern
Hast du gehustet, geliebter Schrittmacher.
Wir waren außer uns. Willst du etwa
Vor der Aussaat verrecken, du Hund?

[1938]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.