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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Bertolt Brecht: Aos pósteros

 
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[traduzido por André Vallias]

1
Verdade, vivo em tempos sombrios!

A palavra inofensiva é tola. Uma testa lisa
Sinal de insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A notícia terrível.

Que tempos são esses, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Pois implica em calar-se sobre tanta atrocidade!
Quem atravessa calmamente a rua
Não está mais disponível para seus amigos
Necessitados?

É verdade: ainda ganho o meu sustento
Mas creiam-me: isso é mero acaso. Nada
Do que faço me permite comer até me saciar.
Fui poupado por acaso. (Quando acabar a minha sorte, estou perdido.)

   Dizem para mim: coma e beba! Alegre-se de ter!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro aquilo que como do faminto, e
Meu copo d’água falta a quem tem sede?
E, contudo, bebo e como.

Quem me dera ser sábio também.
Nos velhos livros se lê o que é sábio:
Afastar-se da peleja do mundo e passar
O breve tempo sem medo.
Também evitar a violência
Pagar a maldade com o bem
Não satisfazer seus desejos, mas esquecê-los
É tido poor sábio.
Nada disso eu consigo:
Verdade, vivo em tempos sombrios!

2
Vim para as cidades no tempo da desordem
Quando a fome imperava.
Cheguei entre os homens no tempo da revolta
E com eles me insurgi.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.

Minha comida comi entre batalhas.
Fui dormir entre assassinos.
Do amor cuidei desatento
E a natureza olhei sem paciência.
Assim transcorreu o tempo
Que na terra me foi dado.

As estradas levavam ao pântano no meu tempo.
A linguagem me entregou ao carniceiro.
Eu pouco podia. Mas sem mim os poderosos
Sentavam-se mais seguros, esperava.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.

As forças eram poucas. O alvo
Estava a uma grande distância
Visível o bastante, ainda que para mim
Quase inatingível.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.

3
Vocês que emergirão da enchente
Em que nós soçobramos
Lembrem-se
Quando falarem das nossas fraquezas
Também do tempo sombrio
Do qual fugiram.
   Mas fomos, trocando de países mais do que de sapatos
Através das guerras de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

E contudo sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também desfigura o semblante.
A ira contra a injustiça
Também enrouquece a voz. Oh, nós
Que queríamos preparar o solo para a gentileza
Não conseguimos nós mesmos ser gentis.

Mas vocês, quando então chegar a hora
Do ser humano ser do ser humano amparo
Lembrem-se de nós
Com benevolência.

Bertolt Brecht

An die Nachgeborenen

1
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.

Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?

Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich
verloren.)

   Man sagt mir: iß und trink du! Sei froh, dass du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen.
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! [1937-1938]

2
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten.
Schlafen legte ich mich unter die Mörder.
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war. [1934]

3
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.
   Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.

Dabei wissen wir doch:
Auch der Hass gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.

Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Dass der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht.

[1937-1938]
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Bertolt Brecht — Poesia, bilíngue, Introdução e Tradução de André Vallias, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, estudou na Escola Real de Augsburg, formou-se em 1917 e iniciou curso de Medicina em Munique, abandonando-o para trabalhar em direção teatral e dramaturgia, foi poeta, dramaturgo, encenador, enfermeiro em Hospital Militar; ainda estudante, deu início à produção de textos literários; ao ser convocado pelo exército, na Primeira Guerra, serviu como enfermeiro em hospital militar; desde 1921 dirigiu e se envolveu em dramaturgia em Munique e, a partir de 1924, em Berlim; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção: em arte dramática, Baal (texto de 1918/produção em 1923), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1919/1922), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938), em poesia: Psalmen (Salmos, texto de 1926, publicado em 1960), Bertolt Brechts Hauspostille (Breviário Doméstico de Bertolt Brfecht, 1916-25/1926), Die Augsburger Sonette (Os Sonetos de Augsburgo, 1925-27/1982), Sonette (Sonetos, 1932-34/1951), Englische Sonette (Sonetos ingleses, 1934), Lieder Gedichte Chöre (Canções, poemas, coros, 1918-33/1934), Chinesische Gedichte (Poemas chineses, 1938-1949), Svendborger Gedichte (Poemas de Svendborger, 1934-38/1939), Gedichte im Exil (Poemas no Exílio, 1936-44/1988), Deutsche Satiren — zweiter Teil (Sátiras alemãs — parte dois, 1945/1988), Gedichte über die Liebe (Poemas sobre o amor, 1917-56/1982), Hundert Gedichte: 1918 bis 1950 (Cem Poemas: 1918 a 1950, 1958) e tantos outros textos em verso e prosa, escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bertolt Brecht: Li Tai Po domina setenta idiomas . . . & Aos pósteros [Den Nachgeborenen] & O faminto . . .

 
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[traduzidos por André Vallias]

Li Tai Po domina setenta idiomas . . .

Li Tai Po domina setenta idiomas.
Setenta demônios não vão seduzi-lo.
Li Tai Po diz rezas em setenta idiomas.
Em setenta idiomas pragueja no exílio.

— o —

Aos pósteros [Den Nachgeborenen]

Confesso: eu
Não tenho esperança.
Cegos falam de uma escapatória. Eu
Enxergo.

Quando os erros já se esgotaram
Senta-se (derradeira companhia)
O nada à nossa frente.

— o —

O faminto . . .

O faminto que leva
Teu último pão tu vês como inimigo
Mas no pescoço do ladrão que nunca
Passou fome tu não pulas.

Bertolt Brecht

Litaipee kann in siebzig Sprachen reden. . . .

Litaipee kann in siebzig Sprachen reden.
Siebzig Teufel der Hölle können ihn nicht versuchen.
Litaipee kann in siebzig Sprachen beten.
In siebzig Sprachen kann Litaipee fluchen.

[1918]

— o —

Den Nachgeborenen

Ich gestehe es: ich
Habe keine Hoffnung.
Die Blinden reden von einem Ausweg. Ich
Sehe.

Wenn die Irrtümer verbraucht sind
Sitzt als letzter Gesellschafter
Uns das Nichts gegenüber.

[c. 1920]

— o —

Den Hungernden, . . .

Den Hungernden, der dir
Das letzte Brot wegnimmt, siehst du als Feind an.
Aber dem Dieb, der nie gehungert hat
Springst du nicht an die Gurgel.

[c. 1934]
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Bertolt Brecht — Poesia, bilíngue, Introdução e Tradução de André Vallias, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, estudou na Escola Real de Augsburg, formou-se em 1917 e iniciou curso de Medicina, em Munique, abandonando-o para trabalhar em direção teatral e dramaturgia, foi poeta, dramaturgo, encenador, enfermeiro em Hospital Militar; ainda estudante, deu início à produção de textos literários; ao ser convocado pelo exército, na Primeira Guerra, serviu como enfermeiro em hospital militar; desde 1921 dirigiu e se envolveu em dramaturgia em Munique e, a partir de 1924, em Berlim; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção: em arte dramática, Baal (texto de 1918/produção em 1923), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1919/1922), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938), em poesia: Psalmen (Salmos, texto de 1926, publicado em 1960), Bertolt Brechts Hauspostille (Breviário Doméstico de Bertolt Brecht, 1916-25/1926), Die Augsburger Sonette (Os Sonetos de Augsburgo, 1925-27/1982), Sonette (Sonetos, 1932-34/1951), Englische Sonette (Sonetos Ingleses, 1934), Lieder Gedichte Chöre (Canções, poemas, coros, 1918-33/1934), Chinesische Gedichte (Poemas chineses, 1938-1949), Svendborger Gedichte (Poemas de Svendborger, 1934-38/1939), Gedichte im Exil (Poemas no Exílio, 1936-44/1988), Deutsche Satiren — zweiter Teil (Sátiras alemãs — parte dois, 1945/1988), Gedichte über die Liebe (Poemas sobre o amor, 1917-56/1982), Hundert Gedichte: 1918 bis 1950 (Cem Poemas: 1918 a 1950, 1958) e tantos outros textos em verso e prosa, escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Bertolt Brecht: Balada da roda d'água*

 
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[traduzido por André Vallias]

1
Dos graúdos do planeta
Nos diz mais de uma canção:
Sobem alto como estrelas
Como estrelas caem no chão.
E parece até que isso consola.
Mas pra nós, de quem a corja esfola
Os seus grãos, subir, cair, que seja
Tanto faz: quem arca com a despesa?
Claro, a roda sempre vai girar
E o que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

2
Arre, um monte de senhores
Já tivemos: águia, leão
Hiena, porco, e sempre demos
Grãos sem qualquer distinção.
Se melhor, pior: a bota de um
Era igual à do outro em nos pisar.
Arre, vocês hão de concordar:
De senhor nos falta é ter nenhum!
Claro, a roda sempre vai girar
O que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

3
Eles racham suas cabeças
Na disputa da rapina
Chamam os outros de glutões
E a si mesmos: gente fina.
Gritam, lutam entre si sem pausa.
Mas se a gente deixa de dar grãos
Num instante vão ser bons irmãos
E se unir em prol da justa causa.
Claro, a roda sempre vai girar
O que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

Bertolt Brecht

Die Ballade vom Wasserrad

1
Von den Großen dieser Erde
Melden uns die Heldenlieder:
Steigend auf so wie Gestirne
Gehn sie wie Gestirne nieder.
Das klingt tröstlich, und man muss es wissen.
Nur: für uns, die sie ernähren müssen
Ist das leider immer ziemlich gleich gewesen.
Aufstieg oder Fall: wer trägt die Spesen?
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: dass es das Rad halt ewig treibt.

2
Ach, wir hatten viele Herren
Hatten Tiger und Hyänen
Hatten Adler, hatten Schweine
Doch wir nährten den und jenen.
Ob sie besser waren oder schlimmer:
Ach, der Stiefel glich dem Stiefel immer
Und uns trat er. Ihr versteht: Ich meine
Daß wir keine andern Herren brauchen, sondern keine!
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: dass es das Rad halt ewig treibt.

3
Und sie schlagen sich die Köpfe
Blutig, raufend um die Beute
Nennen andre gierige Tröpfe
Und sich selber gute Leute.
Unaufhörlich sehn wir sie einander grollen
Und bekämpfen. Einzig und alleinig
Wenn wir sie nicht mehr ernähren wollen
Sind sie sich auf einmal völlig einig.
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: Dass es das Rad halt ewig treibt.

(1934)

* Nota de André Vallias: Balada da roda d’água — escrita entre março e abril de 1934, foi incluída na peça Cabeças Redondas, Cabeças Pontudas, com música de Hanns Eisler.
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, bilíngue, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917, iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 12 de julho de 2025

Bertolt Brecht: Elogio do comunismo*

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[traduzido por André Vallias]

Ele é inteligível, todos o entendem. Ele é fácil.
Você não é um explorador, você pode compreendê-lo.
Ele é bom para você, informe-se sobre ele.
Os burros o chamam de burro, e os sujos o chamam de sujo.
Ele é contra a sujeira e contra a burrice.
Os exploradores o chamam de crime
Mas nós sabemos:
Ele é o fim dos crimes.
Ele não é nenhuma idiotice, mas
O fim da idiotice.
Ele não é o enigma
Mas a solução.
Ele é o simples
Que é difícil de fazer.

Bertolt Brecht

Lob des Kommunismus

Er ist vernünftig, jeder versteht ihn. Er ist leicht.
Du bist doch kein Ausbeuter, du kannst ihn begreifen.
Er ist gut für dich, erkundige dich nach ihm.
Die Dummköpfe nennen ihn dumm, und die Schmutzigen nennen ihn
schmutzig.
Er ist gegen den Schmutz und gegen die Dummheit.
Die Ausbeuter nennen ihn ein Verbrechen.
Wir aber wissen:
Er ist das Ende der Verbrechen.
Er ist keine Tollheit, sondern
Das Ende der Tollheit.
Er ist nicht das Rätsel
Sondern die Lösung.
Er ist das Einfache
Das schwer zu machen ist.

(c. 1931)

* Nota de André Vallias: Elogio do comunismo — incluído na peça A Mãe: Vida da Revolucionária Pelagea Wlassowa de Twer (1932), com música de Hanns Eisler.
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, bilíngue, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917, iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 22 de março de 2025

Bertolt Brecht: Cântico de Orge


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[traduzido por André Vallias]

Orge me disse:

1
O lugar que nesta Terra mais lhe apraz
Não seria o banco de grama no tumulto dos pais.

2
Orge me disse: O lugar que mais estima
Nesta Terra sempre será a latrina.

3
Lugar plácido em que a gente se recosta
Tendo em cima estrelas e debaixo, bosta.

4
Lugar mágico que, quando se é adulto
Se pode ficar sozinho sem tumulto.

5
Lugar de humildade em que você descobre
Que é humano, e sai desta vida sem um cobre.

6
Um lugar em que se deixa o corpo em paz
Mas depois, com força, um bem também se faz.

7
Um lugar de ciência em que você adestra
O bucho pras novas luxúrias de festa.

8
E o que você é por fim se descortina:
Um sujeito que devora — na latrina!

Bertholt Brecht

Orges Gesang

Orge sagte mir:

1
Der liebste Ort, den er auf Erden hab`
Sei nicht die Rasenbank am Elterngrab.

2
Orge sagte mir: Der liebste Ort
Auf Erden war immer der Abort.

3
Dies sei ein Ort, wo man zufrieden ist
Daß drüber Sterne sind und unten Mist.

4
Ein Ort sei einfach wundervoll, wo man
Wenn man erwachsen ist, allein sein kann.

5
Ein Ort der Demut, dort erkennst du scharf
Daß du ein Mensch nur bist, der nichts behalten darf.

6
Ein Ort, wo man, indem man leiblich ruht
Sanft, doch mit Nachdruck, etwas für sich tut.

7
Ein Ort der Weisheit, wo du deinen Wanst
Für neue Lüste präparieren kannst.

8
Und doch erkennst du dorten, was du bist:
Ein Bursche, der auf dem Aborte — frißt!

[Baal]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Bertolt Brecht: Crítica à "Criação do Mundo" de Michelangelo


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[traduzido por André Vallias]

1
A imagem que ele fez da Criação
Me aturde. Como pôde nisso crer?!
A insânia humana em preto distorcer!
Acuso-o de pintar sem distinção.

2
Sei bem que ele morreu, mas se talvez
Pudesse aqui voltar pra se explicar
Eu, de bom grado, iria perguntar
Por que diabos então fez o que fez.

3
Afresco em que se vê como Deus cria
Sobre o granito o homem e então se manda
Ao invés de vê-lo errar no dia a dia?

4
Que embuste! Como pôde crer naquilo
E distorcer em preto a insânia humana?!
E por papel — só para dividi-lo!

Bertolt Brecht

Kritik an Michelangelos “Weltschöpfung”

1
Dies Bildnis, das er von de Schöpfung machte
Versteh ich nicht. Wie konnt er so was glauben?!
Das heißt: der Menschen Wahn ins Schwarze schrauben!
Ich werf ihm vor, daß er es nicht bedachte.

2
Ich gönne jedem, daß er tot ist, und verachte
Nicht den, der Sorge trüg zurückzukehren
Um nunmehr vor der Welt sich zu erklären
Warum er auf ihr machte, was er machte.

3
So machte der ein Bild, wo ihr Gott seht
Wie er den Menschen auf Granit stellt und vergeht
Statt den vergehen zu sehn und selber zu verweilen?

4
Welch ein Betrug! Wie konnt er so was glauben?
Das heißt: der Menschen Wahn ins Schwarze schrauben!
Um das — um ein Papier gut einzuteilen!

[c. 1938]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Bertolt Brecht: Escorraçado com razão


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[traduzido por André Vallias]

Eu cresci como filho
De gente abastada. Os meus pais
Puseram uma coleira em mim e me educaram
Nos hábitos de ser servido
E me instruíram na arte de mandar. Mas
Quando estava crescido e olhei ao redor
Não me agradaram as pessoas da minha
Laia nem mandar nem ser servido
E eu larguei a minha laia e me juntei
À raia miúda.

Assim
Eles criaram um traidor, o instruíram
Em suas artes, e ele
Os entregou ao inimigo.

Sim, eu revelo seus segredos. Entre o povo
Me coloco e esclareço
Como eles trapaceiam, e predigo o que virá, pois
Fui consagrado nos seus planos.
O latim de seus sacerdotes vendidos
Eu traduzo palavra por palavra em língua comum, e
Se comprova o disparate. A balança de sua justiça
Eu arranco e mostro
As falsas medidas. E seus bufões os informam
Que eu me sento entre os roubados, quando estes
Discutem a revolta.

Eles me preveniram e me tiraram
O que eu ganhei com meu trabalho. E ao não
Me corrigir
Saíram à minha caça, mas
Em casa
Só havia escritos que desvendavam
Seus ataques contra o povo. Assim
Expediram uma ordem de prisão contra mim
Me acusando de índole fraca, isto é
Da índole dos mais fracos.

De onde vim, estou assim estigmatizado
Perante os de posse, mas os despossuídos
Leem a ordem de prisão e
Me dão guarida. Você, eu escuto lá
Foi escorraçado
Com razão.

Bertolt Brecht

Verjagt mit gutem Grund

Ich bin aufgewachsen als Sohn
Wohlhabender Leute. Meine Eltern haben mir
Einen Kragen umgebunden und mich erzogen
In den Gewohnheiten des Bedientwerdens
Und unterrichtet in der Kunst des Befehlens. Aber
Als ich erwachsen war und um mich sah
Gefielen mir die Leute meiner Klasse nicht
Nicht das Befehlen und nicht das Bedientwerden
Und ich verließ meine Klasse und gesellte mich
Zu den geringen Leuten.

So
Haben sie einen Verräter aufgezogen, ihn unterrichtet
In ihren Künsten, und er
Verrät sie dem Feind.

Ja, ich plaudere ihre Geheimnisse aus. Unter dem Volk
Stehe ich und erkläre
Wie sie betrügen, und sage voraus, was kommen wird, denn ich
Bin in ihre Pläne eingeweiht.
Das Lateinisch ihrer bestochenen Pfaffen
Übersetze ich Wort für Wort in die gewöhnliche Sprache, da
Erweist es sich als Humbug. Die Waage ihrer Gerechtigkeit
Nehme ich herab und zeige
Die falschen Gewichte. Und ihre Angeber berichten ihnen
Dass ich mit den Bestohlenen sitze, wenn sie
Den Aufstand beraten.

Sie haben mich verwarnt und mir weggenommen
Was ich durch meine Arbeit verdiente. Und als ich mich
Nicht besserte
Haben sie Jagd auf mich gemacht, aber
Da waren
Nur noch Schriften in meinem Haus, die ihre Anschläge
Gegen das Volk aufdeckten. So
Haben sie einen Steckbrief hinter mir hergesandt
Der mich niedriger Gesinnung beschuldigt, das ist:
Der Gesinnung der Niedrigen.

Wo ich hinkomme, bin ich so gebrandmarkt
Vor allen Besitzenden, aber die Besitzlosen
Lesen den Steckbrief und
Gewähren mir Unterschlupf. Dich, höre ich da
Haben sie verjagt mit
Gutem Grund.

[1938]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.