quarta-feira, 29 de junho de 2016

Guimarães Rosa: Fita verde no cabelo

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[Nova velha estória]

               Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
               Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
               Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia:  “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou”. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
               E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiínhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
               Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
                “Quem é?
                “Sou eu…”  e Fita-Verde descansou a voz.  “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
               Vai, a avó, difícil, disse:  “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.
               Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
               A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo:  “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
               Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
                “Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
                “É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta…”  a avó murmurou.
                “Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
                “É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta…”  a avó suspirou.
                “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
                “É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha…”  a avó ainda gemeu.
               Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
               Gritou:  “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
               Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

Suplemento Literário de O Estado de São Paulo,
 8 de fevereiro de 1964

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Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro  RJ; João Guimarães Rosa (1908  1967), mineiro de Cordisburgo, formado em Medicina, foi diplomata, escritor e também poeta; seu único livro de poesias, Magma (1936), participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, também nesse ano, e, embora tendo sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, além de Magma, escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia  Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia).

terça-feira, 28 de junho de 2016

Odilon Nestor: O Boi

Franklin Levy - Leiloeiro Oficial
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[traduzido de Giosuè Carducci)

Amo-te, oh! boi piedoso! Um sentimento
De vigor e de paz tu me forneces,
Grave e solene, como um monumento,
Olhando os campos de doiradas messes.

Preso á canga, não soltas um lamento,
Mas ao homem na lida favoreces.
Ele fala e te punge, e tu com o lento
Volver dos olhos mansos lhe obedeces.

Nessa larga narina, úmida e escura,
Bafeja o teu espírito, e ridente,
Como um hino, o mugido no ar se perde.

E em teu olhar de límpida doçura,
Calmo, se espelha majestosamente,
Dos verdes campos o silêncio verde.

Odilon Nestor

Il Bove

T'amo, o pio bove; e mite un sentimento
Di vigore e di pace al cor m'infondi,
O che solenne come un monumento
Tu guardi i campi liberi e fecondi,

O che al giogo inchinandoti contento
L'agil opra de l'uom grave secondi:
Ei t'esorta e ti punge, e tu co'l lento
Giro de' pazienti occhi rispondi.

Da la larga narice umida e nera
Fuma il tuo spirto, e come un inno lieto
Il mugghio nel sereno aèr si perde;

E del grave occhio glauco entro l'austera
Dolcezza si rispecchia ampio e quïeto
Il divino del pian silenzio verde.

Giosuè Carducci
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Sonetos Brasileiros — Séculos XVII ao XX, Coletânea organizada por Laudelino Freire, 1929, F. Briguiet & Cia. Editores, Rio de Janeiro — RJ; Odilon Nestor de Barros Ribeiro (1875 1968), paraibano de Teixeira, bacharel em Direito pela Faculdade de Recife, atuou como professor de Direito Internacional, advogado, político, escritor, jornalista e poeta; publicou em revistas e jornais do Recife, tendo sido redator chefe do Jornal do Comércio, de Pernambuco; bibliografia: Juvenília (poesia, 1906), Atena, Roma e Jesus (ensaio, edição de 1943), O Barqueiro das Sombras (poesia, edição de 1945), Recordação da Holanda e de Outras Terras (edição de 1968), e outros títulos na área do Direito.

domingo, 26 de junho de 2016

Pedro Dantas: A Cachorra

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Veio uma angústia de cima
Pelos ombros me agarrou
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.

Mas ainda não satisfeita
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou
Na esquerda tomou um rio
Fogo nas águas soprou
As águas todas do rio
Com seu hálito secou
Levou-me aos cimos mais altos
No ar me imobilizou
Depois em súbitos saltos
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ah nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minh'alma mortificada
Minh'alma perto da morte
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
Perdido o sangue das veias
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ah pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou
Zombou da minha tolice:
"Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."

A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.

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Obras Primas da Lírica Brasileira — Volume XII, Seleção de Manuel Bandeira e Notas de Edgard Cavalheiro, 1943, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Pedro Dantas, pseudônimo literário de Prudente de Morais Neto ou Francisco de Paula Prudente de Morais (1904 1977), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito, foi jornalista, professor, contista, ensaísta e poeta; teve atuação no Modernismo, lançou e dirigiu a revista Estética (junto com Sérgio Buarque de Holanda), colaborou com os periódicos Terra Roxa, Antropofagia e Revista Nova; lecionou Técnica da Crítica e História Geral da Literatura na Universidade do Distrito Federal (Rio de Janeiro); Pedro Dantas, um dos principais polemistas do Modernismo, não publicou livros, sua pequena produção poética encontra-se esparsa em jornais e revistas da época.  

sábado, 25 de junho de 2016

Silveira Neto: Bruma

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A Aureliano Silveira.

Meia-tinta do tédio, longe, a bruma
Abre-se num crepúsculo friorento,
Velando a luz, as formas, tudo em suma,
Que era brilho, prazer, deslumbramento.

E que torpor do espaço então ressuma...
Nem um gorjeio aflora a voz do vento.
E a névoa que sinistra se avoluma,
De um véu de cinza alastra o firmamento.

Assim o tédio: o orgulho nos abala
De sermos vida e pensamento, e a messe
De alegria que tínhamos se cala.

E a alma contrai-se lívida e abatida,
E, bruma d'alma, o tédio nos parece
Uma sombra do túmulo na vida.

Rio, julho de 1916.
(Ronda Crepuscular, págs.145  146)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, por Andrade Muricy, (Coleção de Literatura Brasileira 12), 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Manuel Azevedo da Silveira Neto (1872  1942), paranaense de Morretes, foi poeta, desenhista, crítico de arte, conferencista e orador; iniciou o curso de humanidades (estudos interrompidos), entrou para a Litografia de Narciso Filgueiras, onde estudou gravura e desenhos em pedra, e ingressou na Escola de Belas Artes de Curitiba; prestou concurso e passou a trabalhar na Fazenda Federal; integrou a revista O Cenáculo, periódico de um grupo de mesmo nome, em que participava junto de outros autores simbolistasDario Veloso e Júlio Perneta, entre eles; mudando para o Rio de Janeiro, passou a freqüentar rodas poéticas na companhia de Nestor Vítor e Cruz e Sousa; sua obra: Pela consciência (opúsculo, 1898), Antonio Nobre (elegia, 1900), Luar de Hinverno (poesias, 1900), Brasílio Itiberê (elegia com música, 1913), Do Guaíra aos Saltos do Iguaçu (1914), Ronda Crepuscular (poesias, 1923), Cruz e Sousa (ensaio, 1924), O Bandeirante (1927) etc; Silveira Neto também foi criador da revista A Luta, além de ter colaborado com as revistas Azul, O Sapo, Breviário, todas de Curitiba, Terra do Sol, Festa, no Rio de Janeiro, e em outros periódicos pelo país afora e no estrangeiro.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Baudelaire: Lesbos

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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Mãe dos jogos do Lácio e da helênica orgia,
Lesbos, teus beijos são langues ou voluptuosos,
Resplendentes de sol, frios de melancia,
Podem ornar a noite e os dias mais gloriosos;
Mãe do jogos do Lácio e da helênica orgia.

Lesbos, onde em cascata escorrem sempre os beijos,
Lançados sem pavor nos abismos mais fundos,
E correm soluçando em partidos arquejos,
Secretos, a fremir, tormentosos, profundos;
Lesbos, onde em cascata escorrem sempre os beijos!

Lesbos, onde as Frinés * sempre uma a outra reclamam,
Onde um eco responde a todo desabafo,
Como Pafos assim sempre as estrelas te amam,
E Vênus chega a ter mesmo ciúmes de Safo!
Lesbos, onde as Frinés sempre uma a outra reclamam,

Terra em que o pôr-do-sol é quente e languoroso,
Tendo espelhos enfim, doce esterilidade!
Em que as virgens de opaco olhar e corpo ansioso
Vêem amadurecer sua nubilidade;
Terra em que o pôr-do-sol é quente e languoroso,

Deixa o velho Platão franzir o cenho austero;
Tiras o teu perdão dos beijos excessivos,
Rainha de um Império amável e severo,
Dos requintes que são inexaustos e vivos.
Deixa o velho Platão franzir o cenho austero.

Tiras o teu perdão do perpétuo martírio,
Que sofrem sem cessar os peitos que a ambição
Faz bem longe levar o sorriso de lírio,
Que morra não se sabe em que constelação!
Tiras o teu perdão do perpétuo martírio.

Onde haverá um Deus a condenar-te a face
Que pálida ficou de tamanhas canseiras?
Ah, se balança houvera e o dilúvio pesasse
Das lágrimas que ao mar levaras nas ribeiras!
Onde haverá um Deus a condenar-te a face?

Há de saber a lei quando é justa ou injusta?
Orgulho deste mar, virgens de alma sublime,
A vossa religião como as demais é augusta,
E o amor há de sorrir da virtude e do crime!
Há de saber a lei quando é justa ou injusta?

Lesbos sempre me quis poeta do seu Império,
Suas virgens em flor despertarão meu canto,
E desde a infância eu fui admitido ao mistério
Do riso louco a rir, misturado com pranto;
Lesbos sempre me quis poeta do seu Império.

E desde então eu sou sentinela que espia
Da ponta do Leucate, agudo e firme o olhar,
Fragata, bergantim ou brigue, noite e dia,
Cujas formas ao longe estremecem no mar;
E desde então eu sou sentinela que espia,

Para ver se do mar a água é indulgente e boa,
E entre as deplorações que a rocha refletiu,
Uma tarde trará a Lesbos, que perdoa,
O cadáver do amor de Safo, que partiu,
Para ver se do amor a água é indulgente e boa!

Desta Safo viril, Amante e Poeta e Nume
Mais do que Vênus bela em seus mornos palores!
 Onde era um olho verde há um olho de betume,
O círculo a traçar, tenebroso de dores,
Desta Safo viril, Amante e Poeta e Nume.

 Como Vênus que ao sol se levanta e se doura,
E o tesouro a verter de sua maravilha,
E a tua irradiação de juventude loura
Sobre este velho Oceano encantado da filha;
Como o Vênus que ao sol se levanta e se doura!

 De Safo que sumiu em dia tão blasfemo,
Depois que escarneceu da tradição do rito,
Fez do seu belo corpo o sustento supremo
De um bruto cujo orgulho ah! puniu o delito.
De Safo que sumiu em dia tão blasfemo.

Desde este dia então Lesbos se descabela,
E apesar do universo enchê-la de honrarias,
Toda a noite se embriaga ao grito da procela
Que mandam para os céus sua ribas sombrias.
Desde este dia então Lesbos se descabela!

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Baudelaire

Lesbos

Mère des jeux latins et des voluptés grecques,
Lesbos, où les baisers, languissants ou joyeux,
Chauds comme les soleils, frais comme les pastèques,
Font l'ornement des nuits et des jours glorieux,
Mère des jeux latins et des voluptés grecques,

Lesbos, où les baisers sont comme les cascades
Qui se jettent sans peur dans les gouffres sans fonds,
Et courent, sanglotant et gloussant par saccades,
Orageux et secrets, fourmillants et profonds;
Lesbos, où les baisers sont comme les cascades!

Lesbos, où les Phrynés l'une l'autre s'attirent,
Où jamais un soupir ne resta sans écho,
À l'égal de Paphos les étoiles t'admirent,
Et Vénus à bon droit peut jalouser Sapho
Lesbos où les Phrynés l'une l'autre s'attirent,

Lesbos, terre des nuits chaudes et langoureuses,
Qui font qu'à leurs miroirs, stérile volupté!
Les filles aux yeux creux, de leur corps amoureuses,
Caressent les fruits mûrs de leur nubilité;
Lesbos, terre des nuits chaudes et langoureuses,

Laisse du vieux Platon se froncer l'oeil austère;
Tu tires ton pardon de l'excès des baisers,
Reine du doux empire, aimable et noble terre,
Et des raffinements toujours inépuisés.
Laisse du vieux Platon se froncer l'oeil austère.

Tu tires ton pardon de l'éternel martyre,
Infligé sans relâche aux coeurs ambitieux,
Qu'attire loin de nous le radieux sourire
Entrevu vaguement au bord des autres cieux!
Tu tires ton pardon de l'éternel martyre!

Qui des Dieux osera, Lesbos, être ton juge
Et condamner ton front pâli dans les travaux,
Si ses balances d'or n'ont pesé le déluge
De larmes qu'à la mer ont versé tes ruisseaux?
Qui des Dieux osera, Lesbos, être ton juge?

Que nous veulent les lois du juste et de l'injuste ?
Vierges au coeur sublime, honneur de l'archipel,
Votre religion comme une autre est auguste,
Et l'amour se rira de l'Enfer et du Ciel!
Que nous veulent les lois du juste et de l'injuste?

Car Lesbos entre tous m'a choisi sur la terre
Pour chanter le secret de ses vierges en fleurs,
Et je fus dès l'enfance admis au noir mystère
Des rires effrénés mêlés aux sombres pleurs;
Car Lesbos entre tous m'a choisi sur la terre.

Et depuis lors je veille au sommet de Leucate,
Comme une sentinelle à l'oeil perçant et sûr,
Qui guette nuit et jour brick, tartane ou frégate,
Dont les formes au loin frissonnent dans l'azur;
Et depuis lors je veille au sommet de Leucate,

Pour savoir si la mer est indulgente et bonne,
Et parmi les sanglots dont le roc retentit
Un soir ramènera vers Lesbos, qui pardonne,
Le cadavre adoré de Sapho, qui partit
Pour savoir si la mer est indulgente et bonne!

De la mâle Sapho, l'amante et le poète,
Plus belle que Vénus par ses mornes pâleurs!
 L'oeil d'azur est vaincu par l'oeil noir que tachète
Le cercle ténébreux tracé par les douleurs
De la mâle Sapho, l'amante et le poète!

 Plus belle que Vénus se dressant sur le monde
Et versant les trésors de sa sérénité
Et le rayonnement de sa jeunesse blonde
Sur le vieil Océan de sa fille enchanté;
Plus belle que Vénus se dressant sur le monde!

 De Sapho qui mourut le jour de son blasphème,
Quand, insultant le rite et le culte inventé,
Elle fit son beau corps la pâture suprême
D'un brutal dont l'orgueil punit l'impiété
De celle qui mourut le jour de son blasphème.

Et c'est depuis ce temps que Lesbos se lamente,
Et, malgré les honneurs que lui rend l'univers,
S'enivre chaque nuit du cri de la tourmente
Que poussent vers les cieux ses rivages déserts.
Et c'est depuis ce temps que Lesbos se lamente!


* Nota do tradutor: A forma seria “Frine” se houvéssemos respeitado o étimo, mas nossa dependência da cultura francesa fez com que adotássemos a acentuação do francês, “Phriné”. Assim aparece rimando com fé na poesia Adelaide do Amaral de Tobias Barreto. Bilac, em O julgamento de Frinéia e A tentação de Xenócrates, adotou a forma “Phrynea” (hoje Frinéia). (Antenor Nascentes, obra citada.)
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As Flores do Mal — Baudelaire, Tradução e Posfácio de Jamil Almansur Haddad, sem data, Círculo do Livro, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.