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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Sully Prudhomme: O estranho

 
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[traduzido por Rafael Simon]

"De que país és tu?" a mim mesmo inquirindo,
quantas vezes tentei penetrar no segredo
da saudade em que vou meus dias consumindo,
como se fora a terra um perene degredo.

Que paraíso, entanto, abandonei, que cedo
cada vez mais me fui órfão de um céu sentindo?
Para achar feio o sol e achar o mel azedo,
mel mais doce provei ou gozei sol mais lindo?

Uma causa procuro à infinda nostalgia
que me estringe de dor, me aperta, me angustia,
e entre os sonhos e o tédio a vida me consome.

E, sem saber eu mesmo o que esta dor exprime,
ouço chorar em mim um estranho sublime
que sempre me ocultou sua pátria e seu nome.

Sully Prudhomme

L’ Étranger

Je me dis bien souvent: de quelle race es-tu?
Ton coeur ne trouve rien qui l’enchaine ou ravisse,
Ta pensée et tes sens, rien qui les assouvisse:
Il semble qu’un bonheur infini te soit dû.

Pourtant, quel paradis as-tu jamais perdu?
A quelle auguste cause as-tu rendu service?
Pour ne voir ici-bas que laideur et que vice,
Quelle est ta beauté propre et ta propre vertu?

A mes vagues regrets d’un ciel que j’imagine,
A mes dégoûts divins, il faut une origine:
Vainement je la cherche en mon coeur de limon;

Et, moi-même étonné des douleurs que j’exprime,
J’écoute en moi pleurer un étranger sublime
Qui m’a toujours caché sa patrie et son nom.

[Les Vaines Tendresses — 1875]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines Tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].