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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Carlos Heitor Cony: A Natural História Natural

A instituição da Comissão Nacional da Verdade é uma das ações levadas a efeito neste governo PT/Dilma e aliados. Instalada em maio de 2012, objetiva investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado. Já no assunto, vale a pena ler (ou reler!) as crônicas políticas de Carlos Heitor Cony, escritas nos primeiros dias e/ou semanas após o início do golpe político de 64  ditadura civil-militar iniciada em 31 de março daquele ano e que perdurou por longos vinte e um anos, até o início de 1985; tais crônicas, que retratam os primeiros dias e semanas daquele golpe civil-militar, foram escritas e divulgadas no jornal carioca Correio da Manhã, entre 2 de abril a 9 de junho daquele ano, e reunidas no livro O Ato e o Fato, crônicas políticas, cuja 3ª edição (a que trago em meu poder) foi impressa ainda em 64; abaixo, transcrevo uma delas.
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A Natural História Natural

(Correio da Manhã, 19-4-1964)

Encontro no livro escolar de minha filha (terceira série primária) algumas sábias classificações que vale a pena recordar ou aprender. Nas páginas 162 e seguintes, encontramos: “Invertebrados  Dividem-se em artrópodes, moluscos, vermes, equinodermos, celenterados e protozoários”.

Entre os artrópodes, destaquemos os moluscos: “têm o corpo mole, uns vivem dentro de uma concha, outros não. Exemplos: lesma, polvo, caracol. O caracol é célebre pela ausência de cérebro”. Mas são de moral ilibada, incorruptíveis, bem podiam participar do Alto Comando que nos rege e guia.

Mas há os protozoários. O livro da 3ª. Série assim explica: “São os protozoários os seres mais simples. São de tamanho minúsculo e apesar de infinitamente pequenos, constituem um sério perigo para a vida dos homens; referimo-nos aos micróbios de origem animal, que são protozoários causadores de muitas doenças. Só podem ser vistos através de microscópios”. Mas em horas de convulsões cívicas, os protozoários são facilmente vistos através da televisão.

Falando ainda sobre os animais, o manual de terceira série expõe algumas generalidades.

“Os animais não podem viver sem alimento, e, por isso, eles comem e bebem. Uns comem carne, como o gato e a onça. Outros alimentam-se de ervas ou grãos, como a galinha e o peru. Outros, os mais numerosos, comem de tudo.”

E há o capítulo das metamorfoses:

“Há animais que têm mais ou menos a mesma forma desde que nascem e outros que mudam de forma enquanto se desenvolvem”.

E, finalmente, o curioso e atual capítulo intitulado: “Meios de defesa dos animais”. Vamos transcrevê-lo na íntegra:

“Os animais vivem em luta constante, uns contra os outros. Por isso, a natureza deu a todos eles meios de defesa com os quais se defendem. Há animais que se defendem com:
  1. os chifres (o touro, o veado, o carneiro, etc.);
  2. os dentes (a onça, o cão , o porco, etc.);
  3. as patas traseiras (o cavalo, o burro, a zebra, etc.);
  4. os pelos (o porco espinho);
  5. o casco (a tartaruga, o tatu, a ostra, etc.);
  6. a cauda (o jacaré, a baleia, etc.);
  7. a tromba (o elefante);
  8. o mau cheiro que exalam (o percevejo do mato, o gambá);
  9. a cor que tomam (a perereca, o camaleão, etc.);
  10. a atitude que tomam (fingindo-se mortos)”.
A lição termina com o parágrafo dedicado à expressão: “Certos animais entendem-se por meio de uivos e guinchos; o homem, por meio da linguagem articulada, isto é, por meio da palavra. O homem é o único elemento da natureza que tem o dom da palavra”.

Minha filha decorou esta sabedoria toda e pretende fazer boa prova. De tanto ouvi-la repetir isso tudo, quase que acabei decorando também. E aproveito a oportunidade para oferecer a gregos e troianos, reacionários e revolucionários, guardiões da ordem vigente e pilares da sociedade, esta modesta contribuição à análise de cada um.

De protozoários estamos cheios, transbordam pelas ruas, pelos quartéis, pelas repartições, caem do céu, sobem da terra: é uma invasão. De animais que se defendem com o mau cheiro que exalam  a prudência me aconselha o silêncio. Mas é arma eficaz, tanto na guerra como na paz. Sugeriria que os estrategistas bélicos incluíssem esse importante meio de defesa entre as nobres armas que velam pela Pátria.

Finalmente, há os animais que se comunicam através de guinchos e uivos. Tive o desprazer, em dias da semana passada, de receber alguns telefonemas desses animais.

Além dos animais que se comunicam com uivos e guinchos, há o homem. O livro, embora primário, é categórico ao afirmar: “só o homem tem o dom da palavra”.

E é através da palavra, é pronunciando-a clara e corajosamente, sem medo, que podemos unir todos os homens e a eles nos unir contra todos os animais que para sobreviverem exalam mau cheiro, mudam de feitio e cor, usam chifres e patas.

Animais que para sobreviverem precisam da força e da estéril tranqüilidade que só a imbecilidade dá e sustém.

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O Ato e o Fato crônicas políticas, 3ª edição, 1964, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, cursou humanidades e filosofia no Seminário São José, do Rio de Janeiro; escritor e jornalista, trabalhou em jornais e revistas cariocas (Rádio Jornal do Brasil, Correio da Manhã, revistas do Grupo Manchete), atualmente colunista da Folha de São Paulo, é autor de extensa obra, ganhador de diversos prêmios literários, e pertence à Academia Brasileira de Letras; escreveu O Ventre (romance, 1958), A verdade de cada dia (romance, 1959), Matéria de memória (romance, 1962), Da arte de falar mal (crônicas, 1963), O Ato e o Fato, crônicas políticas (1964), Antes, o Verão (romance, 1964), Posto Seis (crônicas, 1965), Pesssach: a travessia (romance, 1967), Sobre todas as coisas (contos, 1968), Pilatos (romance, 1973), Quase memória (romance, 1995), A Casa do Poeta Trágico (romance, 1999), O Tudo ou o Nada (crônicas, 2004), e outros, além de adaptações de textos clássicos da literatura universal, traduções, textos para teatro e televisão (novela) e participação de coletâneas com outros autores; durante a ditadura civil-militar foi preso diversas vezes por sua atuação na imprensa.