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(Correio da Manhã, 19-4-1964)
Encontro no livro escolar de minha filha (terceira série primária)
algumas sábias classificações que vale a pena recordar ou aprender. Nas páginas
162 e seguintes, encontramos: “Invertebrados — Dividem-se em artrópodes,
moluscos, vermes, equinodermos, celenterados e protozoários”.
Entre os artrópodes,
destaquemos os moluscos: “têm o corpo mole, uns vivem dentro de uma concha,
outros não. Exemplos: lesma, polvo, caracol. O caracol é célebre pela ausência
de cérebro”. Mas são de moral ilibada, incorruptíveis, bem podiam participar do
Alto Comando que nos rege e guia.
Mas há os protozoários. O
livro da 3ª. Série assim explica: “São os protozoários os seres mais simples.
São de tamanho minúsculo e apesar de infinitamente pequenos, constituem um
sério perigo para a vida dos homens; referimo-nos aos micróbios de origem animal,
que são protozoários causadores de muitas doenças. Só podem ser vistos através
de microscópios”. Mas em horas de convulsões cívicas, os protozoários são
facilmente vistos através da televisão.
Falando ainda sobre os
animais, o manual de terceira série expõe algumas generalidades.
“Os animais não podem viver
sem alimento, e, por isso, eles comem e bebem. Uns comem carne, como o gato e a
onça. Outros alimentam-se de ervas ou grãos, como a galinha e o peru. Outros,
os mais numerosos, comem de tudo.”
E há o capítulo das
metamorfoses:
“Há animais que têm mais ou
menos a mesma forma desde que nascem e outros que mudam de forma enquanto se
desenvolvem”.
E, finalmente, o curioso e
atual capítulo intitulado: “Meios de defesa dos animais”. Vamos transcrevê-lo na
íntegra:
“Os animais vivem em luta
constante, uns contra os outros. Por isso, a natureza deu a todos eles meios de
defesa com os quais se defendem. Há animais que se defendem com:
- os chifres (o touro, o veado, o carneiro, etc.);
- os dentes (a onça, o cão , o porco, etc.);
- as patas traseiras (o cavalo, o burro, a zebra, etc.);
- os pelos (o porco espinho);
- o casco (a tartaruga, o tatu, a ostra, etc.);
- a cauda (o jacaré, a baleia, etc.);
- a tromba (o elefante);
- o mau cheiro que exalam (o percevejo do mato, o gambá);
- a cor que tomam (a perereca, o camaleão, etc.);
- a atitude que tomam (fingindo-se mortos)”.
A lição termina com o
parágrafo dedicado à expressão: “Certos animais entendem-se por meio de uivos e
guinchos; o homem, por meio da linguagem articulada, isto é, por meio da
palavra. O homem é o único elemento da natureza que tem o dom da palavra”.
Minha filha decorou esta
sabedoria toda e pretende fazer boa prova. De tanto ouvi-la repetir isso tudo,
quase que acabei decorando também. E aproveito a oportunidade para oferecer a
gregos e troianos, reacionários e revolucionários, guardiões da ordem vigente e
pilares da sociedade, esta modesta contribuição à análise de cada um.
De protozoários estamos
cheios, transbordam pelas ruas, pelos quartéis, pelas repartições, caem do céu,
sobem da terra: é uma invasão. De animais que se defendem com o mau cheiro que
exalam — a prudência me aconselha o silêncio. Mas é arma eficaz, tanto na
guerra como na paz. Sugeriria que os estrategistas bélicos incluíssem esse
importante meio de defesa entre as nobres armas que velam pela Pátria.
Finalmente, há os animais
que se comunicam através de guinchos e uivos. Tive o desprazer, em dias da
semana passada, de receber alguns telefonemas desses animais.
Além dos animais que se comunicam
com uivos e guinchos, há o homem. O livro, embora primário, é categórico ao
afirmar: “só o homem tem o dom da palavra”.
E é através da palavra, é
pronunciando-a clara e corajosamente, sem medo, que podemos unir todos os
homens e a eles nos unir contra todos os animais que para sobreviverem exalam
mau cheiro, mudam de feitio e cor, usam chifres e patas.
Animais que para
sobreviverem precisam da força e da estéril tranqüilidade que só a imbecilidade
dá e sustém.

