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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Cora Coralina: Oração do Milho

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Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso,
nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste, e se me ajudardes, Senhor,
mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos
o grão perdido inicial, salvo por milagre,
que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo,
e de mim não se faz o pão alvo universal.
O Justo não me consagrou Pão de Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que
trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre,
alimento de rústicos e animais do jugo.

Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
coroados de rosas e de espigas,
quando os hebreus iam em longas caravanas
buscar na terra do Egito o trigo dos faraós;
quando Rute respigava cantando nas searas de Booz
e Jesus abençoava os trigais maduros,
eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.

Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e amiga dos que começam a vida em terra estranha.
Alimento de porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor,
que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.

Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais  1965

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Nova Antologia Brasileira da Árvore — Maria Thereza Cavalheiro, Prefácio de Guilherme de Almeida, e Organização e Apresentação de Maria Thereza Cavalheiro, 1974, 1ª edição, Livraria Editora Iracema, São Paulo — SP; Cora Coralina (1889  1985), goiana e vilaboense, antiga Vila Boa de Goiás, hoje cidade de Goiás, nascida Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, foi doceira e poetisa; desde 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano e, em 1908, juntamente com duas amigas, criou o jornal de poemas femininos A Rosa; em 1910, seu primeiro conto, ‘Tragédia na Roça’, é publicado no Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, já com o pseudônimo de Cora Coralina; em 1911, foge para Jaboticabal  SP junto com o advogado divorciado Cantídio Tolentino Bretas, com quem teve seus seis filhos; em 1928 muda-se para São Paulo; em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olympio pela qual, em 1965, lança seu primeiro livro, O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais; depois, em 1976, é lançado Meu Livro de Cordel (Editora Cultura Goiana); em 1980, despertou interesse dos amantes da poesia e da literatura no país todo, após tornada pública uma carta de Carlos Drummond de Andrade a ela dirigida e na qual o poeta mineiro, que havia lido alguns de seus (dela) escritos, tecera elogios ao trabalho da autora goiana; em 1983, publicou Vintém de Cobre — Meias Confissões de Aninha (Editora Global), foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da UBE  União Brasileira de Escritores; bibliografia: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (poesia, 1965), Meu Livro de Cordel (poesia, 1976), Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha (poesia, 1983), Estórias da Casa Velha da Ponte (contos, 1985), Os Meninos Verdes (infantil, 1980), Tesouro da Casa Velha (poesia, obra póstuma, 1996) e outros títulos.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Cora Coralina: Todas as Vidas


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
 Enxerto de terra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida 
a vida mera das obscuras!
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Cora Coralina (1889 — 1985), goiana, nascida Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, foi poetisa; desde 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano e, em 1908, juntamente com duas amigas, criou o jornal de poemas femininos "A Rosa"; em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é publicado no Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, já com o pseudônimo de Cora Coralina; em 1911, foge para Jaboticabal 
 SP junto com o advogado divorciado Cantídio Tolentino Bretas, com quem teve seus seis filhos; em 1928 muda-se para São Paulo; em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olympio pela qual, em 1965, lança seu primeiro livro, O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais; depois, em 1976, é lançado Meu Livro de Cordel (Editora Cultura Goiana); em 1980, despertou interesse dos amantes da poesia e da literatura no país todo, após tornada pública uma carta de Carlos Drummond de Andrade a ela dirigida e na qual o poeta mineiro, que havia lido alguns de seus (dela) escritos, tecera elogios ao trabalho da autora goiana; em 1983, publicou Vintém de Cobre Meias Confissões de Aninha (Editora Global), foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da UBE União Brasileira de Escritores.