Como
as plantas que arrasta a correnteza,
A
valsa nos levou nos giros seus...
E
amamos juntos... E depois na sala
"Adeus"
eu disse-lhe a tremer co’a fala...
E
ela, corando, murmurou-me: "adeus."
Uma
noite... entreabriu-se um reposteiro1...
E
da alcova2 saía um cavaleiro
Inda
beijando uma mulher sem véus...
Era
eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus"
lhe disse conservando-a presa...
E
ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"
Passaram
tempos... Séc’los de delírio
Prazeres
divinais... Gozos do Empíreo3...
...
Mas um dia volvia os lares meus.
Partindo
eu disse — "Voltarei!... Descansa!...
Ela,
chorando mais que uma criança,
Ela
em soluços murmurou-me: "adeus!"
Quando
voltei... Era o palácio em festa!...
E
a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam
de amor o azul dos céus.
Entrei!...
Ela me olhou branca... Surpresa!
Foi
a última vez que eu vi Teresa!...
E
ela arquejando murmurou-me: "adeus!"
São
Paulo, 28 de agosto de 1868.
Notas dos
organizadores:
* Poema em versos decassílabos;
1. Cortinado usado para substituir ou disfarçar uma porta;
2. Quarto de casal;
3. Lugar em que moram os deuses.
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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização,
Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico
Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora
e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Antônio Frederico de Castro Alves
(1847 — 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho [hoje
Castro Alves], cursou o nível médio no Ginásio Baiano, em Salvador, estudou nas
faculdades de Direito de Recife e de São Paulo [atual USP — Largo São Francisco],
foi poeta e também escritor; aos 15 anos, teve seu primeiro poema, A Destruição
de Jerusalem, publicado no Jornal do Recife; destacando-se como um poeta da liberdade,
antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências
na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; em 1866, fundou uma
sociedade abolicionista no Recife e publicou poemas de “Os Escravos” em jornais
da época; escreveu Espumas Flutuantes
(único livro editado em vida, 1870), Os Escravos [coletânea de poemas], A Cachoeira
de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, livros tais publicados postumamente, além de
obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais
trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e
do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro,
cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe
do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor
Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.






