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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Castro Alves: O "Adeus" de Teresa*

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A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro1...
E da alcova2 saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... Séc’los de delírio
Prazeres divinais... Gozos do Empíreo3...
... Mas um dia volvia os lares meus.
Partindo eu disse "Voltarei!... Descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... Era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... Surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

São Paulo, 28 de agosto de 1868.


Notas dos organizadores:
* Poema em versos decassílabos;
1. Cortinado usado para substituir ou disfarçar uma porta;
2. Quarto de casal;
3. Lugar em que moram os deuses.
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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho [hoje Castro Alves], cursou o nível médio no Ginásio Baiano, em Salvador, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo [atual USP Largo São Francisco], foi poeta e também escritor; aos 15 anos, teve seu primeiro poema, A Destruição de Jerusalem, publicado no Jornal do Recife; destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; em 1866, fundou uma sociedade abolicionista no Recife e publicou poemas de “Os Escravos” em jornais da época; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos [coletânea de poemas], A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, livros tais publicados postumamente, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

sábado, 13 de abril de 2024

Narcisa Amália: Castro Alves

 
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O livro do destino se entreabre
Deixando ver nas páginas douradas
O seu nome fulgente glorioso,
Que as turbas admiram assombradas!
Joana Tiburtina

Deus quis ouvi-lo,
Deu-lhe um poema no céu: — a Eternidade!
Costa Carvalho

Por que convulsa e geme o pátrio solo
Dos montes despertando os ecos lúgubres?
Por que emudece o férvido oceano
E à terra, erma da luz, chorando atira
Mil turbilhões de lágrimas amargos?
Por que de sombras tétricas se vela
O firmamento azul? Que mágoa imensa
Enluta os corações e arranca o pranto?!...

É que o sono final cerrara os olhos
De um filho das soidões americanas!

O sol que aviventava a chama augusta
No peito dos titãs do Dois de Julho
Iluminara o berço vaporoso
Do pálido cantor da liberdade!
As dulcinosas brisas lá do norte,
Ao ensaiar dos passos vacilantes,
Traziam-lhe os queixumes, despertando
Um mundo de harmonias em su’alma!

E a dileta criança estremecia
Sentindo em si a seiva do futuro.

Mais tarde a fronte nobre, cismadora,
Volvia ao céu para escutar-lhe os votos
E muda, à terra, revolvia pávida
Como o profeta que a missão sublime
Das mãos de Deus recebe; desmaiava
Como desmaia a flor da magnólia
Aos ardores do estio. E radiosa
A pátria contemplou-o embevecida!

Já não era a criança temerosa
Do confuso murmúrio das florestas;

Era o poeta cuja lira d’ouro
Erguia do sepulcro o vulto ingente
Do apóstolo Pedro Ivo; cujos trenos
Derramavam lampejos fulgurantes
De um róseo amanhecer: ora risonhos
Como as límpidas pérolas que entorna
A rórida alvorada, ora profundos
Como os cavos rugidos do Oceano!...

Estranha confusão de riso e pranto,
De luz e sombra, mocidade e morte!

Depois, cisne de amor, deixou os lares
Demandando as campinas rociadas,
Onde ecoara o brado altipotente
De Independência ou Morte. Ali desdenha
As três irmãs que lhe apontavam gélidas
O porvir do poeta; vê o gênio
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir, morto de inveja!

E o mísero de glória em glória corre
Buscando a sombra de uns frondosos álamos *

Eu queria viver, beber perfumes
Na flor silvestre que embalsama o éter;
Ver su’alma adejar pelo infinito
Qual branca vela na amplidão dos mares;
Sentia a voraz febre do talento,
Entrevia um esplêndido futuro
Entre as bênçãos do povo; tinha n’alma
De amor ardente um universo inteiro!

Mas uma voz lhe respondeu sombria:
Terás o sono sobre a lajem tosca!

E nessas regiões sempre formosas
Onde acenava-lhe o fanal da ciência,
O louco sonhador dos Três Amores
Colheu o fatal germe destrutível
Que minou-lhe a existência; quebrantado
Volveu às plagas que deixara outrora
Por pressentir, como única esperança,
Um túmulo entre os seus, no pátrio ninho.

As almejadas palmas do triunfo
Converteram-se em lousa mortuária!

Mas... não morreste, não, condor brasíleo
Que nunca morrerão teus puros versos!
Não, não morreste, que não morrem Goethes,
Não morrem Dantes, Lamartines, Tassos,
Garrets, Camões, Gonçalves Dias, Miltons,
Azevedos e Abreus. Teus belos cantos
Cortarão as caligens das idades
Como de Homero os divinais poemas!

E lá da eternidade onde repousas
Acolhe o canto meu que o pranto orvalha!...


* Nota da Edição: Os dois versos dessa estrofe e as duas estrofes subsequentes foram inspiradas em trechos dos poemas “Mocidade e morte” (1864) e “Ahasverus e o gênio” (1868), de Castro Alves, a quem Narcisa Amália fez homenagem póstuma (Castro Alves faleceu em julho de 1871).
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Nebulosas — Apresentação e Posfácio de Anna Faedrich, e Prefácio da Primeira Edição de Pessanha Póvoa, 2ª edição, 2017, Gradiva Editorial e Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Castro Alves: Dulce

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[Os Anjos da Meia Noite — 7ª sombra]

Se houvesse ainda talismã bendito
que desse ao pântano a corrente pura,
musgo ao rochedo, festa à sepultura,
das águias negras harmonia ao grito…

Se alguém pudesse ao infeliz precito
dar lugar no banquete da ventura…
E trocar-lhe o velar da insônia escura
no poema dos beijos infinito…

Certo… serias tu, donzela casta,
quem me tomasse em meio do calvário
a cruz de angústia que o meu ser arrasta!…

Mas se tudo recusa-me o fadário,
na hora de expirar, ó Dulce, basta
morrer beijando a cruz de teu rosário!…

[Santa Isabel, agosto de 1870]

[Espumas Flutuantes 1870]

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Castro Alves: Horas do martírio (Dama negra)

 
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De dia na soidão seguir-te os passos,
De noite vigiar-te à luz da alâmpada,
Se quem amas, e a sombra com quem sonhas
Eis minha eternidade!
Maciel Monteiro.

Quando longe de ti eu vegeto
Nestas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes
Marca séc’los, s’esquece de andar.
Fito o céu é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra é uma várzea sem flores.
O universo é um deserto de dores
A madona não brilha no altar.

Então lembro os momentos passados,
Então lembro tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas
Uma a uma desfia na mão.
Como a virgem, que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos, que deste-me um dia,
Que rolaram no meu coração.

Me recordo o lugar onde estavas.
O rugir de teu lindo vestido,
Como as asas de um anjo caído
Quando roçam nas flores do val...
Vejo ainda os teus olhos quebrados,
Este olhar de tão fúlgidos raios,
Este olhar que me mata em desmaios,
Doce, terno, amoroso, fatal...

Tuas frases... são garças, que voam,
É meu peito o seu cândido ninho...
Teus amores a flor do caminho,
Que eu apanho, viajante do amor.
Quer os cardos me firam as plantas,
Quer os ventos me açoitem a fronte,
Dou-lhe orvalho do pranto na fonte,
Dou-lhe sol do meu peito no ardor.

Oh! se Deus algum dia orgulhoso
O seu livro infinito volvesse,
E nas letras de estrelas relesse
Seu passado nas folhas azuis
Não teria o orgulho que tenho,
Quando o abismo dest'alma sondando,
No infinito de amor me abismando
Eu me engolfo num pego de luz...

Teu amor... teu amor me engrandece,
Dá-me forças nos transes da vida,
E a borrasca fatal, insofrida,
Faz-me dó, faz-me rir de desdém...
Se eu cair, rolarei no teu seio...
Se eu sofrer, ouvirei o teu canto!
Sentirei nos meus dias de pranto
Que inda longe de mim vela alguém!

Meu amor... Meu amor é um delírio...
É volúpia, que abrasa e consome
Meu amor é uma mescla sem nome.
És um anjo, e minh’alma um altar.
Oh! meu Deus! manda ao tempo, que fuja,
Que deslizem em fio os instantes,
E o ponteiro, que passa os quadrantes,
Marque a hora em que a possa beijar.


Convento de S. Francisco no Recife,
julho de 1866.
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Henri Murger: A Balada do Desesperado

 
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[traduzido por Castro Alves]

Quem bate à porta a tais horas?
Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

Abre. Teu nome? Há geada,
Abre. Teu nome? És tardio!
Qual é teu nome? Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me Inda não!

Diz teu nome... Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
Passa fantasma irrisório...
Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

 Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
Posso dar-te a tua amante...
Podes dar-me o seu amor?

 Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta!   Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não são?!

Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás-de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!

[tradução feita em S. Paulo, 1868]

Henri Murger

La Ballade du Désespéré

Qui frappe à ma porte à cette heure?
Ouvre, c’est moi. Quel est ton nom?
On n’entre pas dans ma demeure
À minuit ainsi, sans façon.

Ouvre. Ton nom? La neige tombe,
Ouvre. Ton nom? Vite, ouvre-moi!
Quel est ton nom? Ah! dans sa tombe
Un cadavre n’a pas plus froid.

J’ai marché toute la journée
De l’ouest à l’est, du sud au nord.
À l’angle de ta cheminée
Laisse-moi m’asseoir. Pas encor!

Quel est ton nom? Je suis la gloire,
Je mène à l’immortalité.
Passe, fantôme dérisoire!
Donne-moi l’hospitalité.

Je suis l’amour et la jeunesse,
Ces deux belles moitiés de Dieu.
Passe ton chemin: ma maîtresse
Depuis longtemps m’a dit adieu.

Je suis l’art et la poésie:
On me proscrit. Vite, ouvre. Non.
Je ne sais plus chanter ma mie,
Je ne sais même plus son nom.

Ouvre-moi! je suis la richesse,
Et j’ai de l’or, de l’or toujours.
Je puis te rendre ta maîtresse.
Peux-tu me rendre nos amours?

Ouvre-moi: je suis la puissance,
J’ai la pourpre. Vœux superflus!
Peux-tu me rendre l’existence
De ceux qui ne reviendront plus?

Si tu ne veux ouvrir ta porte
Qu’au voyageur qui dit son nom,
Je suis la mort: ouvre, j’apporte
Pour tous les maux la guérison.

Tu peux entendre à ma ceinture
Sonner les clés des noirs caveaux;
J’abriterai ta sépulture
De l’insulte des animaux.

Entre chez moi, maigre étrangère,
Et pardonne à ma pauvreté.
C’est le foyer de la misère
Qui t’offre l’hospitalité.

Entre: je suis las de la vie,
Qui pour moi n’a plus d’avenir.
J’avais depuis longtemps l’envie,
Non le courage de mourir.

Entre sous mon toit, bois et mange,
Dors, et quand tu t’éveilleras,
Pour payer ton écot, cher ange,
Dans tes bras tu m’emporteras.

Je t’attendais; je veux te suivre.
Où tu m’emmèneras, j’irai;
Mais laisse mon pauvre chien vivre,
Pour que je puisse être pleuré!
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Louis-Henri Murger ou Henry Murger (1822 1861), francês parisiense, com escassa e fragmentada educação escolar, foi romancista e poeta; abandonando os estudos aos 15 anos, Henry Murger enfrentou uma variedade de trabalhos braçais antes de empregar-se no escritório de um advogado; passou a escrever poemas e, chamando a atenção do escritor Étienne de Jouy, com quem teve ligação, tornou-se secretário do conde Aleksey Tolstoi, um nobre russo que vivia em Paris; iniciou a carreira literária em 1841 com ensaios literários e poéticos e, para sobreviver, escreveu sobre tudo o que o mercado gráfico jornalístico era demandado e aceitava; foi editor de um jornal de moda, Le Moniteur de la Mode, e de comércio de chapelaria, Le Castor; suas obras: Scènes de la vie de bohème (novela, 18471849), Scènes de la vie de jeunesse (1851), Le Bonhomme Jadis (comédia, 1852), Ballades et Fantaisies (poesias, 1854), Les Nuits d’hiver (poesias, 1861) etc.; vários de seus romances surgiram na revista Revue des deux Mondes, entre os quais Les Pays Latin (1851), Adeline Prótat (1853) e Les Buverus d’eau (1854); Murger viveu sempre atormentado por questões financeiras, morreu aos 38 anos e em sua biografia consta que teve o funeral custeado pelo governo francês e que o jornal Le Figaro criou um fundo para arrecadar dinheiro e construir um monumento à memória do poeta e romancista, com ampla aceitação e colaboração de expoentes do jornalismo, literatura, teatro e artes; sua obra Scènes de la vie de bohème inspirou e serviu de base para os compositores Giacomo Puccini e Ruggero Leoncavallo criarem as óperas La Bohème, ambas de mesmo nome, em 1896 e 1897.

sábado, 4 de setembro de 2021

Castro Alves: Poesia [prosa poética]

 
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          I

          Um dia, enquanto mirava a fumaça azulada de um cigarro, pensava eu tristemente no desânimo, que se tem apoderado dos moços, fazia a mim mesmo estas reflexões:
          A mocidade é cheia de sentimentos.
          É a lira sonora do belo.
          É a flor que desabotoa para receber as gotas do orvalho.
          É a ave implume que abre o biquinho para aspirar os perfumes da alvorada.
          É a brisa, que geme nas madeixas das florestas, e também ruge mas cumeadas das serras.
          É a gazela que mira, tímida e amorosa, a sua sombra no riacho.
          . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

          E depois eu me perguntava:
          Por que a flor desfalece? por que a ave tirita? por que a brisa é muda? por que a gazela se esconde nas selvas?...
          E um pensamento me enunciava a fronte.
          É o materialismo, que invade?
          É a crítica, que mata?
          Não! o materialismo é o apanágio dos espíritos blasés.
          Mas a crítica?
          E eu ia dizer talvez que a crítica faz retroceder o passo a muito talento modesto, quando vieram entregar-me um volume de poesias.

          II

          A poesia é um sacerdócio. seu Deus o belo. seu turibulário o Poeta.
          Grande e sublime profissão!...
          Debalde Pelletan lançar-lhe-á o seu Consummatum. A voz do autor do Monde Marche é altíssona, porém mais forte a consciência da humanidade, abraçando-se ao poeta nas horas de agonia.
          Platão não lhe lançou o anátema, ele que fora poeta?
          Cícero não a achou perversora?...
          Mas ei-la sempre a virgem da Poesia, atravessando os séculos, cada vez mais bela, porque traz mais flores em sua coroa de martírio.
          E ela há de sempre viver, porque o sentimento sempre há de existir, porque o belo nunca há de morrer no mundo...
          Eu sei que às vezes a turba lhe lança um riso de escárnio, às vezes nem se digna de vê-la.
          É ingratidão...
          Duvidais?...
          O que seria a Grécia antiga sem Homero? Um montão de ruínas sem significação, um covil de reptis, sepulcro de uma geração sem nome, um problema lançado na história.
          E o que é? Palco gigante de uma raça ainda mais gigante, onde, entre os destroços das colunas mutiladas, das divindades confusas com o pó, a imaginação parece descobrir as pegadas de algum Ajax, em luta com os Deuses; na relva, que treme, figura o perpassar das roupagens de Helena, nas nuvens, que se elevam no Levante, as pandas velas de Agamenon.
          O que é a Grécia? O deserto mais povoado do mundo.
          Mas, dir-me-eis: ela jaz morta.
          Loucos! ela dorme, mas tem por campa a glória, por capitel a imortalidade.
          Um dia, era nos mares da Índia; o gênio das tempestades açoitava com as longas asas a face da  terra. O céu era negro.
          O mar era negro. Lutavam os dois infinitos.
          Quando o fragor da tempestade rareava, ouviam-se gritos de agonia.
          A manhã correu o reposteiro de nuvens, que encobria o céu, e então alumiou os topes dos mastros de um navio, que por instantes apareceram, como cruzes, naquele imenso cemitério.
          Mais próximo à praia, um homem lutava para salvar-se, ou antes para salvar sua pátria, porque ele era Camões.
          A rainha do Ocidente em breve depôs o cetro pesado em suas mãos trêmulas.
          E hoje, quando espraia os olhos pela superfície dos mares, vendo as velas estrangeiras cruzarem o horizonte, sente uma lágrima tremer-lhe nas pálpebras, abaixa os olhos, e a mão, que ia enxugar essa lágrima, leva entusiástica um livro ao coração Os Lusíadas.
          Fumegam os restos de Jerusalém... Nabucadonosor o gênio da destruição fez da cidade maldita um cemitério.
          Como é belo, como é triste ouvir-se esta lamentação de Jeremias! “Ei-la sentada solitária a cidade outrora tão cheia de povo...
          Debalde chora a noite, porque ninguém lhe enxuga o pranto...
          Suas portas estão derrubadas, seus sacerdotes gemem, suas virgens estão manchadas...
          O vós todos que passais, considerai e vede se há dor, que se compare à minha?!”
          Parece o grito da andorinha, que perdeu o seu ninho, ou o soluçar de uma mãe solitária junto à cruz de um cemitério.
          Sempre o poeta derramando uma lágrima pelas desgraças do mundo.
          É que para chorar as dores pequenas Deus criou a afeição, para adorar a humanidade a poesia.
          Quando o braço da fatalidade nivela os pórticos soberbos com a poeira humilde do chão, quando o tempo esse Átila eterno faz debaixo das patas do seu corcel desaparecerem as nacionalidades, ouve-se um gemido triste, como triste deve ser o soluçar dos anjos e um grito melancólico se ergue entre as ruínas.
          E os pórticos se alevantam...
          E as nacionalidades surgem...
          Não esses pórticos, que a fúria do vendaval desboroa. Não essas nacionalidades, que a morte atira ao nada, mas pórticos e nacionalidades eternos, porque o poeta desarma o tempo, com o condão de seu gênio.
          Quando, porém, a humanidade sente-se abrasada na chama de um pensamento grande, o poeta pega da lira, que treme de entusiasmo, e arrasta as turbas encantadas ao heroísmo.
          Então ele é Tasso, ensinando a morte por seu Deus; Béranger, a morte por sua pátria; Antônio José, cantando entre as chamas da Inquisição; Chénier, selando com seu sangue a redenção da França no Gólgota do patíbulo.
          Grande e imorredoura a profissão, apesar dos espinhos, apesar do martírio e do desprezo!
          Deixai, porém, que a turba vocifere.
          Cristo não foi o apedrejado de Jerusalém?
          O poeta pode ser o da humanidade!...

          Recife, 1864

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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Castro Alves: A canoa fantástica

 
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Pelas sombras temerosas
Onde vai esta canoa?
Vai tripulada ou perdida?
Vai ao certo ou vai à toa?

Semelha um tronco gigante
De palmeira, que s’escoa...
No dorso da correnteza,
Como bóia esta canoa!...

Mas não branqueja-lhe a vela!
N’água o remo não ressoa!
Serão fantasmas que descem
Na solitária canoa?

Que vulto é este sombrio
Gelado, imóvel, na proa?
Dir-se-ia o gênio das sombras
Do inferno sobre a canoa!...

Foi visão? Pobre criança!
À luz, que dos astros coa,
É teu, Maria, o cadáver,
Que desce nesta canoa?

Caída, pálida, branca!...
Não há quem dela se doa?!...
Vão-lhe os cabelos a rastos
Pela esteira da canoa!...

E as flores róseas dos golfos,
Pobres flores da lagoa,
Enrolam-se em seus cabelos
E vão seguindo a canoa!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


[A Cachoeira de Paulo Afonso]
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Lamartine, Musset, Henry Murger, Byron e outros.