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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Zalina Rolim: O cão e os pássaros

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Feroz é um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê de longe, teme-lhe os olhares,
E examina a grossura da corrente
Férrea, que o liga ao muro dos seus lares.

Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;
Ninguém procura o seu olhar profundo;
Do seu caminho fogem, de tal sorte
Que ele se vê sozinho neste mundo.

O próprio dono evita-lhe os afagos,
Olha-o receoso, e se aproxima a custo.
Do velho cão nos grandes olhos vagos,
Paira a tristeza de um castigo injusto.

Não compreende o terror por ele aceso;
Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,
Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,
Mais pavor nos corações excita.

E ele, sentindo assomos de revolta,
Tenta quebrar os elos da cadeia...
Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,
E o louco instinto, devagar, sopeia.

Inclina o corpo e estende-se por terra,
Preso ao terror, que a própria força inspira;
E, silencioso, úmidos olhos cerra,
Sem mais vislumbre de despeito ou ira.

Velando à porta do casebre, sonha...
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado vento a derramar frescura.

Nova agonia o coração lhe aperta,
Nostálgico, aspirando o fim de tudo...
Nisto, um ligeiro frêmito o desperta,
E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.

São passarinhos. Ei-los! Não têm medo
Vêm partilhar com ele o magro almoço.
E, compassivo, espera imóvel, quedo,
Que eles se vão, para roer um osso.

E o velho cão de pavoroso aspecto,
Que nunca teve a graça de uns carinhos,
Sentindo o peito a transbordar de afeto,
Trêmulo escuta a voz dos passarinhos.

(Livro das Crianças 1897)

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Zalina Rolim: poetisa e educadora [biografia e poesia] — Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, 2008, Editora Ottoni, Itu — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque, Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai, então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João Kopke [educador e escritor, 1852 1926]; no mais, todo seu aprendizado cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista, foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo, anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (poesias, 1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 Vila Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira, 26 Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro de 2023].

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Zalina Rolim: Em caminho


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Sou filha de lavradores;
Moro longe da cidade;
Amo os pássaros e as flores
E tenho oito anos de idade.

Quereis seguir-me à campina?
A tarde convida e chama,
O calor do sol declina,
E o horizonte é um panorama.

Neste samburá de vime
Levo cousa apetitosa;
Mas, ai! que ninguém se anime
A meter-lhe a mão curiosa.

É o jantar do papaizinho;
Manjares de fino gosto;
Carne, legumes, toucinho,
Tudo fresco e bem disposto.

Papai trabalha na roça;
O dia inteiro labuta;
Tem a pele rija e grossa
E a alma afeita à luta.

Mas leal, franco, modesto
Como ele, não há no mundo:
Vive de trabalho honesto,
Cavando o solo fecundo.

Acorda ao nascer da aurora,
Abre a janela de manso,
E o campo e os ares explora
Da vista aguda num lanço.

Depois, nos ombros a enxada,
Abraça a Mamãe, sorrindo,
Beija-me a face rosada
E vai-se ao labor infindo.

Em casa também se lida
Daqui, dali, todo o instante,
Que o trabalho é lei da vida
E nada tem de humilhante.

Depois do trabalho, estudo;
Abro os meus livros e leio;
Eles me falam de tudo
O que eu desejo e receio.

Contam-me histórias bonitas,
Falam da terra e dos ares,
De vastidões infinitas,
De rios, campos e mares.

Mamãe diz que são modelos
De amigos leais e finos;
Que a gente deve atendê-los
Como aos maternais ensinos.

E agora, adeus, até breve.
Eis-me de novo a caminho:
Não esfrie o vento leve
O jantar do papaizinho.

(Livro das Crianças — 1897)

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Zalina Rolim: poetisa e educadora [biografia e poesia] — Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, 2008, Editora Ottoni, Itu — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque, Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai, então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João Kopke [educador e escritor, 1852 1926]; no mais, todo seu aprendizado cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista, foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo, anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (poesias, 1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 Vila Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira, 26 Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro de 2023].

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Olavo Bilac: Crônica livre: Já repararam na impassibilidade com que um estafeta carrega o seu maço de jornais e de cartas?

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     Num texto ameno, Olavo Bilac, acusando o recebimento do “O Coração” [de Zalina Rolim] escreve:

     [...] Já repararam na impassibilidade com que um estafeta carrega o seu maço de jornais e de cartas? A fisionomia é sempre a mesma; instável e fechada, como a fisionomia da carta. A carta, dobrada dentro do seu estojo de papel [...], selada e lacrada, tem sempre o mesmo aspecto; e eu, por mim, nunca deixo de hesitar, antes de abrir as que recebo, olhando o sobrescrito, tentando adivinhar pelo talhe da letra pela cor da tinta, pelo carimbo do correio, as notícias boas ou más, que vem dentro... mas sejam as notícias boas ou más, se a fisionomia do envelope fica muda, muda fica também a fisionomia do carteiro — em cujo saco viajam unidas, numa comunhão inconsciente, as alegrias e as amarguras, as palavras de carinho dos amigos e os azedumes e os sarcasmos dos inimigos...
     Pois anteontem, o carteiro, com a sua mesma face serena de sempre atirou-me sobre a mesa um volume lacrado. Abri-o, hesitante. Era um livro de versos: versos de mulher, enfeixados num volume, como num ramo de rosas, sob esta encantadora epígrafe, simples e verdadeira: Coração. Li-o de uma assentada, (com) delícia crescente a cada página voltada, abençoando desta vez o carteiro, que, sem saber o consolo que ia me dar, atirara ao meu tédio de anteontem aquela diversão, com a mesma indiferença com que à minha alegria de outros dias, costuma abrir cartas que espumam fel e sangram ódio.
     Coração — é o título que escolheu para os seus versos Zalina Rolim, uma poetisa que só agora estréia definitivamente com um volume em que já se pode estudar o seu temperamento artístico, e sua feição literária. O título explica o livro, e o livro justifica o título. Zalina Rolim abriu em versos o seu próprio coração, neste livro puro, honestamente sentido, honestamente executado, feito para cantar o amor, a natureza, a família, extreme de desalentos, de pessimismos, de azedumes, com um perfume de alma boa, educada para a arte e para o bem, resignada diante dos sofrimentos, compassiva diante dos fracos, generosa e complacente diante dos maus. De par com isso, não há nos seus versos essa banalidade das poesias de família, nem essa imperfeição de estro titubeante e incolor que estamos habituados a encontrar em livros de moças. Não é um livro vulgar de senhora inteligente, este. É o livro de um poeta acabado, para quem a maneira difícil do estilo moderno já não tem segredos. Aqui e ali, de quando em quando, sente-se a reminiscência deste ou daquele poeta, vagamente impressa em um ou outro verso. Mas o conjunto é de uma originalidade cativante. Um homem poderia ter dado a alguns dos sonetos da coleção um fogo mais vivo da inspiração, uma virilidade mais acentuada de pensamento, e, ao mesmo tempo, de sentimento. Mas só uma mulher poderia ter executado, com tanta graça afetuosa e simples o prodígio de redizer coisas antigas renovando-as, dando-lhes tanta frescura e tanta mocidade, que a gente não se lembra de as ter jamais ouvido tão claras e tão verdadeiras. Leia-se, por exemplo, este lindo soneto:

Escuta, coração, urna do afeto,
Pulsa tranquilo, leve, leve, leve...
Quero falar-te, filho meu dileto,
Bem como a mãe falar ao filho deve:

Há tempos, coração, vejo-te inquieto;
Quem, dize-me, a ferir-te audaz se atreve?
Conta-me a história desse mal secreto
Que o teu pulsar precipite descreve.

E ele, assustado e triste; — “Ai! Companheira,
Vendo-me o seio plácido e sereno,
Veio nele abrigar-se ave estrangeira;

Quero expulsá-la, e lhe entreteço o ninho...
Tem doçuras de mel e tem veneno,
Garras de fera e voz de passarinho.

     E leia-se mais este outro, repassado de melancolia, exprimindo com tanta verdade a poesia do crepúsculo do campo:

Contemplo o céu; nas amplidões serenas
Cresce o luar e todo o espaço alaga
Numa enchente de luz... De fraga em fraga
Modula o vento flébeis cantilenas.

A casuarina entorna as suas penas
No coração da noite, em voz pressaga;
Alveja o campo em flor... No bosque apenas,
A claridade espia incerta e vaga.

Misteriosa e grave preludia
Dos insetos notívagos, na calma
Do céu, da terra, a estranha sinfonia...

E um misticismo doce, uma tristeza
Contemplativa e boa, abre minha alma
À silenciosa paz da Natureza...

     E o livro — “Coração” — todo é assim, de uma naturalidade espontânea e sem artifício. E é pena que o volume, primorosamente impresso nas oficinas de Hennes & Winger, em São Paulo, tenha apenas 170 páginas. Porque confesso que me separei dele com saudade, quando a música do último verso me ficou cantando no ouvido deliciado”. O. B. [Olavo Bilac]

(“Crônica Livre”, Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 9 jan. 1894.)*


* Nota deste Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que esta crônica bilaqueana consta na obra Zalina Rolim: poetisa e educadora... do acervo da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato — Seção de Bibliografia e Documentação, da Prefeitura Municipal de São Paulo, e ora consultada.
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Zalina Rolim: poetisa e educadora [biografia e poesia] — Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, 2008, Editora Ottoni, Itu — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em jornais, como a Gazeta de Notícias, e em outras publicações periódicas, como as revistas A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil—Portugal e Atlântida; suas obras: Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira; juntamente com os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, veio a formar o que ficou conhecido como a Tríade Parnasiana; no Rio de Janeiro e em São Paulo, estudou Medicina e Direito sem no entanto concluir nenhum dos cursos.