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quarta-feira, 1 de março de 2023

Waldemar Lopes: Soneto das almas vazias

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XXIX

As almas maduravam na surpresa
de viver; e era nítida, na face
e no âmago das coisas, a beleza
imaginada. Embora perdurasse,

em meio à cinza fria, a chama acesa
para a noite do espírito, fugace
foi o pacto do sim contra a dureza
e o anátema do não. Estranho enlace

de esperança e memória! (A duras penas
a mão do tempo, no íntimo do ser,
urde a trama no trânsito dos dias.)

E a perfeição do sonho? Sobra apenas
a vazia surpresa de viver
nas almas maduradas, mas vazias.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da abstração

 
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XXVI

Vem da infância ou da tarde o som errante
das cítaras caladas? Verde flauta
nos laranjais doirados, onde a incauta
alegria, em teu sopro soluçante?

No céu imaginário um anjo ou nauta
em roteiros de nuvens navegante
repõe a solidão no véu do instante,
halo de azul magia. Mas, na pauta

do límpido silêncio, o sopro e o voo
restauram a visão do sonho antigo, o
timbre das vozes mortas. Estrangeiro,

um céu de pedra capta esse ressoo
do rio das memórias, uno e ambíguo,
de si mesmo prisão e prisioneiro.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; suas obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sábado, 30 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto das raízes

 
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XX

De múltiplas imagens se estrutura
essa efígie inconclusa. Aço de medos,
a alquimia do sonho, o ar de aventura,
tons de espanto nos íntimos degredos

em reinos de lembrança; ou a textura
das fibras ancestrais, os arremedos
do que é flama na cinza da moldura:
águas/séculos idos entre os dedos

nos silêncios rurais desentranhando
testemunhos do tempo, luz secreta
ora rememorada, ora vivida;

e os pousos de renúncia mesmo quando
do infinito do ser partia a seta
nas chamas das raízes incendida.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; suas obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da insônia

 
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XXI

Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.

E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias

imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:

em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da meditação

 
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XXIV

A essência decifrada: ao gesto lento
ante o frio cristal, dói a madura
angústia do contido sentimento,
sopro do tempo em meio à selva escura.

No sortilégio dúplice a insegura
luz das certezas, ou pressentimento
da límpida presença, chama pura
na face primitiva. O pensamento

mais ido que vivido; e este cansaço
 sombra de asa no limo dos escombros
ou limite mortal ao sonho e ao passo ;

mais o impulso da herança impressentida:
sobre o cego cristal, fonte de assombros,
joga-se o coração, um deus suicida.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do olvido

 
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XXII

Ante a nave do tempo as misteriosas
ilhas de solidão. Sombra hesitante
em obscura sondagem: mortas rosas
junto aos deuses imêmores. Adiante,

os presságios do olvido, as enganosas
senhas de lenda para o sonho andante,
posto restaure o canto, ainda piedosas,
as dádivas do acaso, em seu instante

fugaz, sopro e semente de poesia;
ressoe no escuro bojo a hora reversa
da aventura perdida; e a nostalgia

colha na asa da noite a sombra leve:
a luz dura da vida jaz submersa
entre a flor desflorida e a estrela breve.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do exílio

 
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XXIII

Mais além, leve e alada, a imaginária
arquitetura irreal, sombra a crescer
sobre a terra dos mortos, solitária.
Na falsa noite não deixou de ser

ouvida a melodia perdulária.
Se acaso o húmus da vida fez nascer
luz esquiva na angústia milenária,
é chegado o momento de esquecer

as obscuras heranças desvividas
por desamor e amor: frágil reinado
em manhãs de magia, pressentidas

além de tempo e espaço. (E, roto o manto,
na torre enoitecida um exilado
rei de si mesmo. Que lhe resta? O canto.)

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da áspera jornada

 

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XXVII

Sob o signo impreciso a meta e as rotas
da mísera aventura. Indecifrada
na superfície neutra a encruzilhada
além do mais-além. Céus de derrotas

na senha das estrelas. Rumo ao nada
sobre o mar das auroras naus remotas
resgatam para o canto as frágeis quotas
da secreta emoção, voz exilada.

Nu, o olhar; os pés cegos ante a fábula,
face e acaso de tudo. O homem não vence o
efêmero das coisas, a parábola

da luz do tempo ao sonho das criaturas.
(No pânico torpor, nós de silêncio
vão recompondo as íntimas roturas.)

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do fim

 
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XXX

Não a rosa na pedra. Só a austera
desesperança; e, nela, a inexaurida
visão do que em si mesmo dilacera
o tênue fio que une à morte a vida.

Não o lume no mármore. Ainda a espera
entre o ser e o não-ser, indefinida
antemanhã de oculta primavera
à luz do tempo: seiva, sol, medida

para as searas do verbo; e a ressonância
de secreto clamor, voz encantada
dos sonhos imaturos, dor da infância.

Nem a flor, nem a chama. Só importe
no íntimo da palavra descarnada
o frêmito da vida (também morte).

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Waldemar Lopes: Vida e sonho, inconsúteis. Mas o canto, . . . [soneto da vida e do sonho]

Vida e sonho, inconsúteis. Mas o canto,
esse, sobre dois polos bipartido,
um de auroras banhado, outro perdido
já nas sombras da tarde, e em seu encanto.

Enfim, tudo é memória: o só vivido
ou o apenas sonhado; mas enquanto
amor e solidão ou tédio e espanto
no remate dos tempos terão sido

legados transitórios, redivivo
o canto eternefêmero chorado
de novo é sentimento, no futuro;

e mostra, além da morte, este cativo
exercício da vida compensado
na prática do sonho, o vício puro.

Resultado de imagem para Waldemar Lopes Sonetos do Tempo Perdido Editorial Palmares
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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911  2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Waldemar Lopes: O tempo de calar está maduro. [soneto da contradição]

O tempo de calar está maduro.
Sobre a trama incompleta dos minutos
o óleo do tédio escorre espesso e escuro
na emanação secreta de outros lutos.

Morte? Não é. A flor arde no muro,
dádiva subsolar. E, resolutos,
passos passados soam no futuro.
A vida flui-reflui em seus astutos

engodos de ir e vir, mas duplicados
na alma dúplice e vária, posto que ágil
entre as sombras dos túmulos caiados;

e a música das horas silenciosas
reaviva no tempo o encanto frágil
do amor, das madrugadas e das rosas.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal  (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Waldemar Lopes: O labirinto e a esfinge. O resto é o laço . . . [soneto do desencontro]

O labirinto e a esfinge. O resto é o laço
das surpresas, a ambígua segurança,
ou o lento volver, a cada passo,
às raízes perdidas da esperança.

Encontro ou desencontro, esse embaraço
dos seres, na aparente semelhança,
ante a mesma visão do alfange de aço,
sol do amanhã na paz da noite mansa.

Em giros de memória, a sombra vaga
e a imprecisão do acaso: agora e ausente,
começo de chegar e despedida.

(Dom de amor, dor de amar funda e pressaga!
de que vale seu êxtase pungente
se antes nos lembra a morte do que a vida?)

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro  RJ; Waldemar Freire Lopes (1911  2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife),  n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Waldemar Lopes: São clamores? são gritos? são gemidos? . . . [soneto dos bois na madrugada]

São clamores? são gritos? são gemidos?
Entre a música líquida, nos ares,
a lâmina de angústia dos mugidos
fere os nervos da noite. ... Os passos pares.

Verdores de vergéis. A brisa. Os idos
acalantos de aboio. E sóis de luares.
Velhos pastos do tempo, remoídos
nas doçuras rurais, e em seus vagares.

Era a vida? Floriu, dor libertada.
Rubra rosa na relva, eis a recente
memoração da morte: céu de engano

refletido no sangue da alvorada,
sob o triste clamor puro e pungente
desse pranto animal  e mais que humano.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro  RJ; Waldemar Freire Lopes (1911  2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife),  n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Aurélio Buarque de Holanda *: Amar-te —- não por gozo da vaidade, . . . [soneto]

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Amar-te  não por gozo da vaidade,
Não movido de orgulho ou de ambição.
Não à procura da felicidade,
Não por divertimento à solidão.
                                                 
Amar-te  não por tua mocidade
 Risos, cores e luzes de verão 
E menos por fugir à ociosidade,
Como exercício para o coração.

Amar-te por amar-te: sem agora,
Sem ontem, sem futuro, sem mesquinha
Esperança de amor, sem causa ou rumo.

Trazer-te incorporada vida fora,             
Carne de minha carne, filha minha,
Viver do fogo em que ardo e me consumo.


* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910  1989), alagoano de Passo de Caramagibe, formado em Direito pela Faculdade de Recife, foi filólogo, lexicógrafo, professor, tradutor, ensaísta e crítico literário, mas também um poeta bissexto *; desde 1938 passa a residir no Rio de Janeiro, onde continuou suas atividades no magistério como professor de Português e Literatura Brasileira; publicou contos e crônicas na imprensa carioca e trabalhou na Revista do Brasil; em 1941 inicia o seu trabalho de lexicógrafo, publicando diversas edições do Dicionário Aurélio, ou Aurelião, ou Aurélio, amplamente reconhecido e utilizado por estudantes, professores, pesquisadores e leitores da língua portuguesa; sua obra: Dois Mundos (contos, 1942), Linguagem e Estilo de Eça de Queirós (ensaio, 1945), Mar de Histórias  antologia de contos da literatura universal (em colaboração com Paulo Rónai, volumes I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX e X, de 1945 a 1988), Contos Gauchescos e Lendas do sul (edição comentada do texto de Simões Lopes Neto, 1949), O Romance Brasileiro de 1752 a 1930 (1952), Roteiro Literário do Brasil e de Portugal (antologia literária da língua portuguesa, em colaboração com Álvaro Lins, 1956), Território Lírico (ensaios, 1958), Enriqueça o seu Vocabulário (filologia, 1958), Vocabulário Ortográfico Brasileiro (1969), Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1972), O Chapéu de meu pai (edição revista e reduzida de Dois Mundos, 1974), Mini-dicionário da Língua Portuguesa (1977); como tradutor, Aurélio Buarque verteu para a língua portuguesa várias obras, entre elas Poemas de Amor, de Amaru, Pequenos Poemas em Prosa, de Baudelaire, além dos contos para a coleção Mar de Histórias; Aurélio, no Brasil, virou sinônimo de dicionário.