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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Ted Hughes: Vermelho

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

O vermelho era a sua cor.
Se não o vermelho, o branco. Mas era no vermelho
Que você se envolvia.
Vermelho-sangue. Seria mesmo sangue?
Ou ocre, para aquecer os mortos?
Hematita, para imortalizar
Os ossos da família, legado precioso.

Quando por fim se fez a sua vontade
Ficou vermelho o nosso quarto. Um tribunal.
Escrínio fechado para jóias. Tapete de sangue
Com padrão de formas escuras, coaguladas.
As cortinas — veludo vermelho-rubi.
Torrentes de sangue puro a cair do teto.
As almofadas também. O mesmo tom
De carmesim em carne viva no poial da janela.
Uma célula a pulsar. Altar asteca — templo.

Só as estantes escapavam para o branco.

E pela janela se avistavam
Papoulas finas, frágeis, franzinas
Como pele sobre sangue,
Sálvias, das quais seu pai tirou o seu nome,
Como sangue jorrando de um talho,
E rosas, últimos coágulos do coração,
Catastróficas, arteriais, condenadas.

A sua saia rodada de veludo, um lanho de sangue,
Tom generoso de borgonha.
Os seus lábios de um carmesim fundo, fendido.

Você exultava com o vermelho.
Para mim, era carne viva — como as bordas
Duras feito gaze de uma ferida a cicatrizar.
Nele eu sentia a veia aberta, o brilho encrostado.

Você pintava tudo de branco, e depois
Salpicava de rosas, para derrotá-lo,
Se debruçava sobre o branco, gotejando rosas,
Chorando rosas, e mais rosas,
E por vezes, entre elas, um pequeno azulão.

O azul era melhor para você. Azul de asas.
Sedas azuis de San Francisco, cor de martim-pescador,
Envolviam a sua gravidez
Em carícias de crisol.
Azul era seu espírito bom — não um espectro sinistro,
E sim um guardião, elétrico, solícito.

No abismo de vermelho
Você se ocultava do branco de osso, de hospital.

Mas era azul a jóia que você perdeu.

Ted Hughes

Red

Red was your colour.
If not red, then white. But red
Was what you wrapped around you.
Blood-red. Was it blood?
Was it red-ochre, for warming the dead?
Haematite to make immortal
The precious heirloom bones, the family bones.

When you had your way finally
Our room was red. A judgement chamber.
Shut casket for gems. The carpet of blood
Patterned with darkenings, congealments.
The curtains — ruby corduroy blood,
Sheer blood-falls from ceiling to floor.
The cushions the same. The same
Raw carmine along the window-seat,
A throbbing cell. Aztec altar — temple.

Only the bookshelves escaped into whiteness.

And outside the window
Poppies thin and wrinkle-frail
As the skin on blood,
Salvias, that your father named you after,
Like blood lobbing from the gash,
And roses, the heart's last gouts,
Catastrophic, arterial, doomed.

Your velvet long full skirt, a swathe of blood,
A lavish burgandy.
Your lips a dipped, deep crimson.

You revelled in red
I felt it raw — like the crisp gauze edges
Of a stiffening wound. I could touch
The open vein in it, the crusted gleam.

Everything you painted you painted white
Then splashed it with roses, defeated it,
Leaned over it, dripping roses,
Weeping roses, and more roses,
Then sometimes, among them, a little bluebird.

Blue was better for you. Blue was wings.
Kingfisher blue silks from San Francisco
Folded your pregnancy
In crucible caresses.
Blue was your kindly spirit — not a ghoul
But electrified, a guardian, thoughtful.

In the pit of red
You hid from the bone-clinic whiteness.
But the jewel you lost was blue.
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Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ted Hughes, ou Edward James Hughes (1930 — 1998), inglês de Mytholmroyd — Yorkshire, cursou o Schofield Street Junior School, frequentou o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou inglês no Pembroke College — Cambridge, aprendeu antropologia e arqueologia, foi poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura infantil; ainda estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little Boys and the Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta e Chequer; em 1964, fundou a “literary magazine” Modern Poetry in Translation (MPT), juntamente com Daniel Weissbort, 1ª número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar conhecidos, no ambiente literário britânico, escritores, poetas e obras do mundo afora; editou e traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda Amichai, János Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas obras: em poesia: The Hawk in the Rain (O Falcão na Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the Life and Songs of the Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown (1978, reeditado acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de Aniversário, 1998), Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de apenas 100 exemplares, 1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron Man (romance para crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é a Verdade?, 1984) e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e várias peças radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984), por What Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry Prize, T. S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award (1999), pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela apesar da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes], protegendo-as); em 1969, Assia Wevill, poeta que vivia e morava com Ted Hughes, também tirou a própria vida usando o mesmo método: asfixia por gás de fogão, antes matando também sua filha cujo pai era Ted Hughes; em 2009, Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, suicidou-se por enforcamento [não foi casado nem tinha filhos].

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Sylvia Plath: O Encantador de serpentes

 
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[traduzido por Marília Garcia]

Os deuses criaram um mundo; o homem, outro,
E o encantador de serpentes criou uma esfera sinuosa com
Olho-de-lua e flauta-na-boca. Ele sopra a flauta. Verde. Água.

De tanto soprar o verde da água, as águas verdes
Vibram em meio aos juncos, pontais e ondas.
Enquanto as notas se retorcem verdes, o rio verde

Dá forma às imagens das suas melodias.
Ele sopra um lugar para ficar, sem pedras,
Sem chão: uma onda de grama que oscila

Sob os pés. Do fundo do seu espírito de víbora
Ele sopra um mundo serpentino que vacila,
Repleto de espirais. E agora só restam as

Serpentes. As escamas das serpentes se transformam
Em folhas, em olhos; em corpo de serpente, troncos
De árvore e de gente. E do seu reino de serpentes

Ele rege as torções que só confirmam: ele é dono
De uma alma de serpente, com a melodia que sai
De sua flauta fina. Eis que surgem, do ninho verde,

Bem como do umbigo do Éden, os cordões de uma
Geração de serpentes: que se façam as serpentes!
E se fizeram, se fazem, se farão — até que o sono

Consuma sua flauta e ele se canse da música
E sopre o mundo de volta ao simples tecido urdido,
Uma pele de serpentes. Que ele sopre as serpentes para as

Águas verdes, até que nenhuma delas fique mais
À mostra, e as águas esverdeadas voltem a ser
Só água, só verde, nada a ver com uma serpente.
E ele deixe de lado a flauta e cubra seu olho de lua.

(O Colosso — 1960)

Sylvia Plath

Snakecharmer

As the gods began one world, and man another,
So the snakecharmer begins a snaky sphere
With moon-eye, mouth-pipe, He pipes. Pipes green. Pipes water.

Pipes water green until green waters waver
With reedy lengths and necks and undulatings.
And as his notes twine green, the green river

Shapes its images around his sons.
He pipes a place to stand on, but no rocks,
No floor: a wave of flickering grass tongues

Supports his foot. He pipes a world of snakes,
Of sways and coilings, from the snake-rooted bottom
Of his mind. And now nothing but snakes

Is visible. The snake-scales have become
Leaf, become eyelid; snake-bodies, bough, breast
Of tree and human. And he within this snakedom

Rules the writhings which make manifest
His snakehood and his might with pliant tunes
From his thin pipe. Out of this green nest

As out of Eden's navel twist the lines
Of snaky generations: let there be snakes!
And snakes there were, are, will be — till yawns

Consume this piper and he tires of music
And pipes the world back to the simple fabric
Of snake-warp, snake-weft. Pipes the cloth of snakes

To a melting of green waters, till no snake
Shows its head, and those green waters back to
Water, to green, to nothing like a snake.
Puts up his pipe, and lids his moony eye.

(The Colossus [and Other Poems] — 1960)
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Poesia reunida [bilíngue]: Sylvia Plath, Organização e Tradução de Marília Garcia, 1ª edição, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric  Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Sylvia Plath: Paralítico

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Acontece. Vai continuar? —
Minha mente, uma rocha,
Sem língua, sem dedos pra pegar,
Meu deus, esse pulmão de ferro

Que me adora, enchendo
Meus dois
Sacos de poeira, pra dentro pra fora
Estima

Melhoras, enquanto
O dia lá fora desliza feito fita de telex.
A noite vem com violetas,
Tapetes de olhos,

Luzes,
As doces vozes,
Anônimas: “Está melhor?”.
O peito impecável, e inacessível.

Ovo choco, me deito
Todo
Sobre o mundo todo que não toco,
No tambor tenso e branco

De meu leito
Fotos me visitam —
Minha mulher, magra e morta, em roupas dos anos 20,
A boca de pérolas finas.

Duas meninas,
Magras como ela, sussurrando “Somos suas filhas!”.
As águas tranquilas
Embrulham meus lábios,

Olhos, orelhas, nariz,
Um gris
Celofane que não fendo.
Em minhas costas nuas

Sorrio, um buda, querendo
Tudo, desejos
Caem de mim como anéis
Abraçando suas luzes.

A garra
Da magnólia,
Bêbada de seu perfume,
Nada quer da vida.

Sylvia Plath

Paralytic

It happens. Will it go on? —
My mind a rock,
No fingers to grip, no tongue,
My god the iron lung

That loves me, pumps
My two
Dust bags in and out,
Will not

Let me relapse
While the day outside glides by like ticker tape.
The night brings violets,
Tapestries of eyes,

Lights,
The soft anonymous
Talkers: 'You all right?'
The starched, inaccessible breast.

Dead egg, I lie
Whole
On a whole world I cannot touch,
At the white, tight

Drum of my sleeping couch
Photographs visit me —
My wife, dead and flat, in 1920 furs
Mouth full of pearls,

Two girls
As flat as she, who whisper 'We're your daughters.'
The still waters
Wrap my lips,

Eyes, nose and ears,
A clear
Cellophane I cannot crack.
On my bare back

I smile, a buddha, all
Wants, desire
Falling from me like rings
Hugging their lights.

The claw
Of the magnolia,
Drunk on its own scents,
Asks nothing of life.

29 January 1963
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Ted Hughes: A Coruja

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Vi meu mundo outra vez pelos seus olhos
Tal como voltaria a vê-lo pelos olhos dos seus filhos.
Pelos seus olhos, era um mundo estrangeiro.
Uma simples sebe de pilriteiro era um mistério
Envolto em lendas e histórias curiosas.
Qualquer coisa selvagem, provida de pernas,
Nos seus olhos era um ponto de exclamação
Como se aparecesse aos convidados de um jantar
No meio da mesa. Marrecos comuns
Eram artefatos um tanto insólitos,
Seus galanteios eram um filme hipnagógico
Projetado pelo rio. Impossível compreender
O prazer que eles sentiam com os pés
Imersos na água gelada. Você era uma câmera fotográfica
Registrando reflexos que lhe eram indevassáveis.
Eu fazia meu mundo exibir-se para você.
E você assistia a tudo com júbilo atônito
Da mãe a quem a parteira entrega
O filho recém-nascido. Seus frenesis me estonteavam,
Despertavam minha meninice muda, extática,
De quinze anos antes. Minha obra-prima
Ocorreu naquela noite negra na estrada de Grantchester.
Lábios contra os nós dos dedos lambidos,
Imitei a nênia débil e gutural de um coelho
Junto a um arvoredo onde fazia ponto uma coruja.
De repente ela voou, lançando as rêmijes
Na minha cara, tomando-me por um mourão.

Ted Hughes

The Owl

I saw my world again through your eyes
As I would see it again through your children's eyes.
Through your eyes it was foreign.
Plain hedge hawthorns were peculiar aliens,
A mystery of peculiar lore and doings.
Anything wild, on legs, in your eyes
Emerged at a point of exclamation
As if it had appeared to dinner guests
In the middle of the table. Common mallards
Were artefacts of some unearthliness,
Their wooings were a hypnagogic film
Unreeled by the river. Impossible
To comprehend the comfort of their feet
In the freezing water. You were a camera
Recording reflections you could not fathom.
I made my world perform its utmost for you.
You took it all in with an incredulous joy
Like a mother handed her new baby
By the midwife. Your frenzy made me giddy.
It woke up my dumb, ecstatic boyhood
Of fifteen years before. My masterpiece
Came that black night on the Grantchester road.
I sucked the throaty thin woe of a rabbit
Out of my wetted knuckle, by a copse
Where a tawny owl was enquiring.
Suddenly it swooped up, splaying its pinions
Into my face, taking me for a post.
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Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ted Hughes, ou Edward James Hughes (1930 — 1998), inglês de Mytholmroyd — Yorkshire, cursou o Schofield Street Junior School, frequentou o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou inglês no Pembroke College — Cambridge, aprendeu antropologia e arqueologia, foi poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura infantil; ainda estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little Boys and the Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta e Chequer; em 1964, fundou a “literary magazine” Modern Poetry in Translation (MPT), juntamente com Daniel Weissbort, 1ª número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar conhecidos, no ambiente literário britânico, escritores, poetas e obras do mundo afora; editou e traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda Amichai, János Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas obras: em poesia: The Hawk in the Rain (O Falcão na Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the Life and Songs of the Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown (1978, reeditado acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de Aniversário, 1998), Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de apenas 100 exemplares, 1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron Man (romance para crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é a Verdade?, 1984) e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e várias peças radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984), por What Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry Prize, T. S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award (1999), pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela apesar da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes], protegendo-as; em 1969, Assia Wevill, que vivia e morava com Ted Hughes, também tirou a própria vida usando o mesmo método: asfixia por um fogão a gás, matando também sua filha cujo pai era Hughes; em 2009, Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, sofreu suicídio por enforcamento [não era casado nem tinha filhos].

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Sylvia Plath: Ariel

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Estase no escuro.
E um fluir azul sem substância
De penhasco e distâncias.

Leoa de Deus,
Nos tornamos uma,
Eixo de calcanhares e joelhos! — O sulco

Fende e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,

Olhinegras
Bagas cospem escuras
Iscas —

Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais

Me arrasta pelos ares —
Coxas, pêlos;
Escamas de meus calcanhares.

Godiva
Branca, me descasco —
Mãos secas, secas asperezas.

E agora
Espumo com o trigo, reflexo de mares.
O grito da criança

Escorre pelo muro
E eu
Sou flecha,

Orvalho que avança,
Suicida, e de uma vez se lança
Contra o olho

Vermelho, fornalha da manhã.


Ariel

Stasis in darkness.
Then the substanceless blue
Pour of tor and distances.

God’s lioness,
How one we grow,
Pivot of heels and knees! — The furrow

Splits and passes, sister to
The brown arc
Of the neck I cannot catch,

Nigger-eye
Berries cast dark
Hooks —

Black sweet blood mouthfuls,
Shadows.
Something else

Hauls me through air —
Thighs, hair;
Flakes from my heels.

White
Godiva, I unpeel —
Dead hands, dead stringencies.

And now I
Foam to wheat, a glitter of seas.
The child’s cry

Melts in the wall.
And I
Am the arrow,

The dew that flies
Suicidal, at one with the drive
Into the red

Eye, the cauldron of morning.

27 October 1962

(Ariel — 1965);
(The Collected Poems — 1981).
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

sábado, 16 de maio de 2026

Sylvia Plath: Ovelha na névoa

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Colinas mergulham na brancura.
Estrelas ou pessoas
Me olham com tristeza, desapontadas comigo.

Um fio de hálito fica no caminho.
Ó, lento
Cavalo cor de ferrugem,

Cascos, sinos doendo —
A manhã toda
Manhã ainda escurecendo,

Essa flor ao relento.
Meus ossos sentem um sossego, os campos
Distantes dissolvem meu coração.

Eles ameaçam
Me abandonar por um céu
Sem estrelas e órfã, água escura.

Sylvia Plath

Sheep in Fog

The hills step off into whiteness.
People or stars
Regard me sadly, I disappoint them.

The train leaves a line of breath.
O slow
Horse the colour of rust,

Hooves, dolorous bells —
All morning the
Morning has been blackening,

A flower left out.
My bones hold a stillness, the far
Fields melt my heart.

They threaten
To let me through to a heaven
Starless and fatherless, a dark water.

2 December 1962 / 28 January 1963
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; viveu na Inglaterra desde 1956 ao se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ted Hughes: Horóscopo

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Você queria estudar
Os seus astros — os carcereiros
Da sua prisão, o zodíaco. Os planetas
Murmuravam fórmulas babilônicas —
Como os ossos de um xamã. Você temia, com razão,
Que os ossos rugissem muito alto,
Que um ouvido captasse com clareza
O que os ossos sussurravam
Ainda que imersos em carne cálida.

Mas você não precisava calcular
Os graus do seu disruptor do ascendente
Em Áries. Nenhum significado definido — nada mais,
Segundo o livro babilônico,
Que um rosto marcado. Que mágico
Poderia enxergar mais fundo sob a pele?

Para você, bastava olhar
No rosto mais próximo de uma metáfora
Tirada do seu armário ou de seu prato
Ou então do sol, da lua ou dos teixos
Para ver seu pai, sua mãe, ou a mim
A lhe trazer todo o seu Destino.

Ted Hughes

Horoscope

You wanted to study
Your stars — the guards
Of your prison yard, their zodiac. The planets
Muttered their Babylonish power-sprach —
Like a witchdoctor's bones. You were right to fear
How loud the bones might roar
How clear an ear might hear
What the bones whispered
Even embedded as they were in the hot body.

Only you had no need to calculate
Degrees for your ascendant disruptor
In Aries. It meant nothing certain — no more
According to the Babylonian book
Than a scarred face. How much deeper
Under the skin could any magician peep?

You only had to look
Into the nearest face of a metaphor
Picked out of your wardrobe or off your plate
Or out of the sun or the moon or the yew tree
To see your father, your mother, or me
Bringing you your whole Fate.
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Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ted Hughes, ou Edward James Hughes (1930 — 1998), inglês de Mytholmroyd — Yorkshire, cursou o Schofield Street Junior School, frequentou o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou inglês no Pembroke College — Cambridge, aprendeu antropologia e arqueologia, foi poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura infantil; ainda estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little Boys and the Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta e Chequer; em 1964, fundou a “literary magazine” Modern Poetry in Translation (MPT), juntamente com Daniel Weissbort, 1º número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar conhecidos, no ambiente literário britânico, escritores, poetas e obras do mundo afora; editou e traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda Amichai, János Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas obras: em poesia: The Hawk in the Rain (O Falcão na Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the Life and Songs of the Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown (1978, reeditado acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de Aniversário, 1998), Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de apenas 100 exemplares, 1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron Man (romance para crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é a Verdade?, 1984) e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e várias peças radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984), por What Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry Prize, T. S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award (1999), pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela apesar da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes], protegendo-as); em 1969, Assia Wevill, companheira de Hughes, também tirou a própria vida usando o mesmo método: asfixia por um fogão a gás, matando também sua filha cujo pai era Ted Hughes; em 2009, Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, sofreu suicídio por enforcamento [não era casado nem tinha filhos].