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[traduzido
por Paulo Henriques Britto]
O vermelho era a sua cor.
Se não o vermelho, o branco. Mas era no vermelho
Que você se envolvia.
Vermelho-sangue. Seria mesmo sangue?
Ou ocre, para aquecer os mortos?
Hematita, para imortalizar
Os ossos da família, legado precioso.
Quando por fim se fez a sua vontade
Ficou vermelho o nosso quarto. Um tribunal.
Escrínio fechado para jóias. Tapete de sangue
Com padrão de formas escuras, coaguladas.
As cortinas — veludo vermelho-rubi.
Torrentes de sangue puro a cair do teto.
As almofadas também. O mesmo tom
De carmesim em carne viva no poial da janela.
Uma célula a pulsar. Altar asteca — templo.
Só as estantes escapavam para o branco.
E pela janela se avistavam
Papoulas finas, frágeis, franzinas
Como pele sobre sangue,
Sálvias, das quais seu pai tirou o seu nome,
Como sangue jorrando de um talho,
E rosas, últimos coágulos do coração,
Catastróficas, arteriais, condenadas.
A sua saia rodada de veludo, um lanho de sangue,
Tom generoso de borgonha.
Os seus lábios de um carmesim fundo, fendido.
Você exultava com o vermelho.
Para mim, era carne viva — como as bordas
Duras feito gaze de uma ferida a cicatrizar.
Nele eu sentia a veia aberta, o brilho encrostado.
Você pintava tudo de branco, e depois
Salpicava de rosas, para derrotá-lo,
Se debruçava sobre o branco, gotejando rosas,
Chorando rosas, e mais rosas,
E por vezes, entre elas, um pequeno azulão.
O azul era melhor para você. Azul de asas.
Sedas azuis de San Francisco, cor de martim-pescador,
Envolviam a sua gravidez
Em carícias de crisol.
Azul era seu espírito bom — não um espectro sinistro,
E sim um guardião, elétrico, solícito.
No abismo de vermelho
Você se ocultava do branco de osso, de hospital.
Mas era azul a jóia que você perdeu.
Red
Red was your colour.
If not red, then white. But red
Was what you wrapped around you.
Blood-red. Was it blood?
Was it red-ochre, for warming the dead?
Haematite to make immortal
The precious heirloom bones, the family bones.
When you had your way finally
Our room was red. A judgement chamber.
Shut casket for gems. The carpet of blood
Patterned with darkenings, congealments.
The curtains — ruby corduroy blood,
Sheer blood-falls from ceiling to floor.
The cushions the same. The same
Raw carmine along the window-seat,
A throbbing cell. Aztec altar — temple.
Only the bookshelves escaped into
whiteness.
And outside the window
Poppies thin and wrinkle-frail
As the skin on blood,
Salvias, that your father named you after,
Like blood lobbing from the gash,
And roses, the heart's last gouts,
Catastrophic, arterial, doomed.
Your velvet long full skirt, a swathe of blood,
A lavish burgandy.
Your lips a dipped, deep crimson.
You revelled in red
I felt it raw — like the crisp gauze edges
Of a stiffening wound. I could touch
The open vein in it, the crusted gleam.
Everything you painted you painted white
Then splashed it with roses, defeated it,
Leaned over it, dripping roses,
Weeping roses, and more roses,
Then sometimes, among them, a little bluebird.
Blue was better for you. Blue was wings.
Kingfisher blue silks from San Francisco
Folded your pregnancy
In crucible caresses.
Blue was your kindly spirit — not a ghoul
But electrified, a guardian, thoughtful.
In the pit of red
You hid from the bone-clinic whiteness.
But the jewel you lost was blue.
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Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução
de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record,
Rio de Janeiro — RJ; Ted
Hughes, ou Edward James Hughes (1930 — 1998), inglês de Mytholmroyd — Yorkshire, cursou o Schofield
Street Junior School, frequentou
o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou inglês no Pembroke
College — Cambridge, aprendeu antropologia e arqueologia, foi
poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura infantil; ainda
estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little Boys and the
Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta e Chequer; em 1964, fundou a “literary magazine”
Modern Poetry in Translation (MPT), juntamente com Daniel Weissbort, 1ª
número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar conhecidos, no ambiente
literário britânico, escritores, poetas e obras do mundo afora; editou e
traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda Amichai, János
Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas obras: em poesia: The Hawk in the Rain (O Falcão na
Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the Life and Songs of the
Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown (1978, reeditado
acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de Aniversário, 1998),
Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de apenas 100 exemplares,
1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron Man (romance para
crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é a Verdade?, 1984)
e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e várias peças
radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984), por What
Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry Prize, T.
S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award (1999),
pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread
Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de
Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta
Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um
forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela
apesar da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes],
protegendo-as); em 1969, Assia Wevill, poeta que vivia e morava com Ted Hughes,
também tirou a própria vida usando o mesmo método: asfixia por gás de fogão,
antes matando também sua filha cujo pai era Ted Hughes; em 2009, Nicholas Hughes,
filho de Sylvia Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, suicidou-se por
enforcamento [não foi casado nem tinha filhos].