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domingo, 26 de abril de 2026

Fagundes Varela: Noturno*

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Minh'alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Minh'alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro1 que rói-lhe o seio!

Minh'alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo2
Motejam3 dos vendavais;
Coberto de atros4 matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Tombam as selvas frondosas,
Cantam as aves mimosas
As nênias5 da viuvez;
Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?

No véu etéreo os planetas,
No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!

Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!

Vem, oh! Morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!

Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?

Minh'alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!


Notas:
Dos organizadores:
* Poema em versos de sete sílabas (redondilhas maiores);
1. Doença. Câncer;
2. Traiçoeiro;
3. Zombam;
4. Lancinantes;
5. Cantos fúnebres.

Do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Em 60 Poetas Trágicos [L&PM Editores, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca de Fagundes Varela:

“[...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.

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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, concluiu seus estudos do primário e secundário em Angra dos Reis e Petrópolis, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e, depois, na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, dedicou-se à literatura, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obras poéticas: Noturnas (1861), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias ([considerado sua obra prima], 1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Cantos Religiosos e O Diário de Lázaro (ambos publicações póstumas, 1878 e 1880), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre — França); morreu de alcoolismo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Castro Alves: O "Adeus" de Teresa*

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A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro1...
E da alcova2 saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... Séc’los de delírio
Prazeres divinais... Gozos do Empíreo3...
... Mas um dia volvia os lares meus.
Partindo eu disse "Voltarei!... Descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... Era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... Surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

São Paulo, 28 de agosto de 1868.


Notas dos organizadores:
* Poema em versos decassílabos;
1. Cortinado usado para substituir ou disfarçar uma porta;
2. Quarto de casal;
3. Lugar em que moram os deuses.
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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho [hoje Castro Alves], cursou o nível médio no Ginásio Baiano, em Salvador, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo [atual USP Largo São Francisco], foi poeta e também escritor; aos 15 anos, teve seu primeiro poema, A Destruição de Jerusalem, publicado no Jornal do Recife; destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; em 1866, fundou uma sociedade abolicionista no Recife e publicou poemas de “Os Escravos” em jornais da época; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos [coletânea de poemas], A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, livros tais publicados postumamente, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Bernardo Guimarães: O Bandoleiro*

 
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Canção
Se mil forem belas,
Amarei todas elas.
(Lundum brasileiro)

A minha amada de ontem
Era formosa e linda;
Mas tu, que eu hoje adoro,
És mais formosa ainda.1

Porém não vás queixar-te
De eu ser tão inconstante;
De que meu peito mude
De amor a cada instante.

Meu bem, se assim não fora,
Como hoje havia amar-te,
Se inda ontem tinha presa
Minha alma em outra parte.

Se ontem me encantavam
Uns olhos de safira2,
Agora o teu sorriso
Maior paixão me inspira.

E a minha amada de ontem
Era formosa e linda;
Mas tu, que eu hoje adoro,
És muito mais ainda.

Não sabes que a mudança
É lei da natureza,
Que nada há de constante
Em toda a redondeza?

O rio às verdes margens
Saudoso adeus murmura,
E para outras paragens
Saudoso se apressura3.

O mar se agita inquieto,
O abismo revolvendo,
E de uma a outra praia
Balança-se gemendo.

Os astros, que cintilam
Da noite no mistério,
Nos fogem do horizonte
Buscando outro hemisfério.

Se tudo neste mundo
É tão inconsistente,
Como há de ser só firme
O coração da gente?

Ao menos sou sincero;
Mentir eu não sei, não;
Só sei aos pés das belas
Cantar esta canção.

Nas vagas4 da inconstância
Deixai-me pois boiando;
E à flor de emoções doces
Comente resvalando,

Qual leve colibri,
Que nos jardins adeja5,
E o seio às flores todas
Voando veloz beija.

Ai triste do que esgota
A taça dos amores,
E quer teimoso e cego
Sorver-lhe6 os amargores.

Nas bordas a beleza
Lhe verte mel, perfumes;
Mas fervem-lhe no fundo
Remorsos e ciúmes...

Porém por que te enfadas
Com mostras de desgosto?
Murchar eu não pretendo
Os risos no teu rosto.

Adeus! Se amor não queres
Assim fácil e breve,
Do teu amante o nome
Do peito teu proscreve7:

Que nos jardins do amor
Existem outras flores,
Bem como tu formosas,
Mas sem os teus rigores8.

E aos pés de outra beleza
Depondo o coração,
Irei sem ter remorsos,
Cantar-lhe esta canção:

A minha amada de ontem
Era formosa e linda;
Mas tu, que eu hoje adoro,
És mais formosa ainda.

Rio de Janeiro, 1860.


Notas dos organizadores:
* Misto de bandido, trapaceiro e vadio. Aqui aparece como conquistador de mulheres. Versos hexassílabos;
1. Repetida três vezes ao longo do poema, esta estrofe opera como refrão apropriado ao gênero escolhido;
2. Pedra da cor azul;
3. Se apressa;
4. Ondas;
5. Voa;
6. Beber-lhe;
7. Afasta;
8. Intransigência, austeridade.
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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, crítico literário, magistrado e professor de Retórica, Poética, Latim e Francês; em 1852, assumiu o cargo de juiz municipal, em Catalão GO; em 1859, estreou como jornalista e crítico literário no jornal Atualidade, no Rio de Janeiro; em 1866, foi nomeado professor de Retórica e Poética do Liceu Mineiro, em Ouro Preto MG e, em 1873, lecionou Latim e Francês em Queluz [hoje Conselheiro Lafaiete]  MG; suas obras: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (peça dramática, encenada em 1860 e publicada em 1914), Poesias (coletânea: Inspirações da tarde, Poesias diversas e Evocações, 1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro e O Seminarista (romances, ambos em 1872), O Índio Afonso (romance, 1873), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (1976—1977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Gonçalves Dias: Marabá*

 
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Eu vivo sozinha; ninguém me procura!
          Acaso feitura1
          Não sou de Tupã!
Se algum dentre os homens de mim não esconde:
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
          — “Tu és”, me responde,
          — “Tu és Marabá!”

Meus olhos são garços2, são cor das safiras3,
Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
Imitam as nuvens de um céu anilado4,
As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
          "Teus olhos são garços”,
Responde anojado5; "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
          "Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá6!"

É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
Da cor das areias batidas do mar;
As aves mais brancas, as conchas mais puras
Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.

Se ainda me escuta meus agros7 delírios:
          — "És alva de lírios",
Sorrindo responde; "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
          "Um rosto crestado8
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

Meu colo de leve se encurva engraçado9,
Como hástea10 pendente do cáctus em flor;
Mimosa, indolente, resvalo11 no prado,
Como um soluçado suspiro de amor!

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
          "Qual duma palmeira”,
Então me respondem; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
          Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
O oiro mais puro não tem seu fulgor;
As brisas nos bosques de os ver se enamoram
De os ver tão formosos como um beija-flor12!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
          "São loiros, são belos,
"Mas são anelados13; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
          "Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá."

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
          A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei14:

Jamais um guerreiro da minha arazóia15
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

Últimos Cantos (1851). [da série Poesias Americanas]


Notas dos organizadores:
* Como esclarece o poeta em nota a seu livro, a Crônica da Companhia de Vasconcelos (L. 3, nº 27) forneceu o significado do termo “marabá”, assim como a história de um menino que fora enterrado vivo, logo após o nascimento, por ser resultado da mistura de raças. Poemas em versos endecassílabos e de pentassílabos (redondilha menor);
1. Criatura;
2. Esverdeado ou verde-azulado;
3. Pedras azuladas;
4. Azulado;
5. Enojado, desgostoso;
6. Espécie de palmeira que pode chegar aos vinte metros de altura;
7. Magoados;
8. Bronzeado, queimado;
9. Usado com o sentido de gracioso;
10. Caule;
11. Caio levemente;
12. Nota do autor: “Os indígenas chamavam ao beija-flor Coaracy-aba — raios, ou mais literalmente, cabelos de sol.”;
13. Encaracolados;
14. Prenderei dando a volta;
15. Saiote feito de penas, usados pelas mulheres indígenas.
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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Antônio Gonçalves Dias (1823 1864), maranhense nascido em Caxias, advogado de formação, foi poeta, etnógrafo e jornalista; iniciando seus estudos em Latim, Francês e Filosofia em escola particular no Brasil, partiu para a Europa, concluiu seus estudos secundários no Colégio das Artes, em Coimbra Portugal, e bacharelou-se na Faculdade de Direito, também em Coimbra; teve presença nos meios literários e na imprensa, lá e cá; no Brasil, juntamente com José de Alencar, desenvolveu o Indianismo, uma sua marca na literatura brasileira; em 1849, no Rio de Janeiro, foi cofundador da revista Guanabara, ao lado de Joaquim Manoel de Macedo e Araújo Porto-Alegre; em 1862, viajou outra vez à Europa, agora para buscar tratamento para seus pulmões e lá permaneceu por dois anos; em 1864, já desenganado, na viagem de volta ao Brasil, o vapor que o trazia afundou na costa maranhense, com a marinhagem tratando de se salvar e esqueceram o poeta, que morreu afogado em sua cabine de doente e foi a única vítima do naufrágio; algumas de suas obras: Primeiros Cantos (Laemmert, Rio de Janeiro RJ, 1846), Segundos Cantos (Ferreira Monteiro, Rio de Janeiro RJ, 1848), Últimos Cantos (Paula Brito, Rio de Janeiro RJ, 1851), Cantos (todos os cantos anteriores e mais 16 novas composições sob o título de "Novos Cantos", Brockhaus, Leipzig, Alemanha, 1857), Dicionário da Língua Tupi (Brockhaus, Leipzig, Alemanha, 1858), etc.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Fagundes Varela: Meu trono levantei no meu tinteiro . . . [soneto*]

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Je m’embête...1

Meu trono levantei no meu tinteiro,
Empunho em vez de cetro leve pena,
Faço versos à loira e à morena,
Não quero inspirações, quero dinheiro.

Sigo a nota que segue o mundo inteiro
Gozo a vida mais calma e mais serena;
Desdenho de Virgílio2 a doce avena3,
Sou mestre na viola e no pandeiro.

Calço botas, chinelos e tamancos,
Quero charutos vinho, liberdade,
Vivo contente no país dos brancos.

Desprezo dos beócios4 a vaidade,
E... Fazendo um soneto em versos mancos,
Tenho desejos de tornar-me frade.

Fagundes Varela

Notas dos organizadores:
* Soneto em versos decassílabos. Esquema de rimas abba/abba/cdc/dcd;
1. Eu me aborreço;
2. Poeta latino (70 a 19 a.C.), autor de Eneida;
3. Antiga flauta pastoril;
4. Grosseiros, ignorantes.
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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, ingressou nas Faculdade de Direito de São Paulo (atual  USP Largo São Francisco) e Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obra poética: Noturnas (1860), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou O Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre França); morreu de alcoolismo.