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terça-feira, 22 de outubro de 2024

Florbela Espanca: Mistério

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Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
dizendo coisas que ninguém entende!
da tua cantilena se desprende
um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
uma alada canção palpita e ascende,
frases que a nossa boca não aprende,
murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
fazes passar o lúgubre arrepio
das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
o meu corpo matar a fome às rosas!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa de Vila Viçosa, Alentejo, estudou no Liceu André Gouveia, em Évora, e, depois, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, sem no entanto concluir, foi poeta e contista; consta de seus traços biográficos que o poema ‘A Vida e a Morte’, escrito aos sete anos, tenha sido o primeiro de sua obra; colaborou na revista Modas e Bordados (suplemento de O Século, de Lisboa) e no jornal Notícias de Évora; em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931); a poeta suicidou-se no dia de seu 36º aniversário de nascimento, 08 de dezembro de 1930.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Florbela Espanca: Se tu viesses ver-me . . . [soneto]


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Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa de Vila Viçosa, Alentejo, estudou no Liceu André Gouveia, em Évora, e, depois, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, sem no entanto concluir, foi poeta e contista; consta de seus traços biográficos que o poema ‘A Vida e a Morte’, escrito aos sete anos, tenha sido o primeiro de sua obra; colaborou na revista Modas e Bordados (suplemento de O Século, de Lisboa) e no jornal Notícias de Évora; em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931); a poeta suicidou-se no dia de seu 36º aniversário de nascimento, 08 de dezembro de 1930.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Florbela Espanca: Mentiras

60 poetas trágicos | Amazon.com.br
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Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?

Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
o bom sonho da feroz realidade...
Não palpita de amor um coração
que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
perpassa nos teus olhos desleais
o gelo do teu peito de granito...

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
que um engano feliz vale bem mais
que um desengano que nos custa tanto!

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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa de Vila Viçosa, Alentejo, estudou no Liceu André Gouveia, em Évora, e, depois, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, sem no entanto concluir, foi poeta e contista; consta de seus traços biográficos que o poema ‘A Vida e a Morte’, escrito aos sete anos, tenha sido o primeiro de sua obra; colaborou na revista Modas e Bordados (suplemento de O Século, de Lisboa) e no jornal Notícias de Évora; em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931); a poeta suicidou-se no dia de seu 36º aniversário de nascimento, 08 de dezembro de 1930.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Florbela Espanca: Rústica

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Ser a moça mais linda do povoado.
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...

Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.

Charneca em Flor  1931

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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se ReliquiaeCharneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Florbela Espanca: Os meus versos

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Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento.
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasga os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...

Reliquiae  1931

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Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Florbela Espanca: A minha tragédia

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Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste, noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Livro das Mágoas  1919

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Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Vaidade

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Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

Livro das Mágoas  1919

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Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Caravelas

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Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

Livro de Sóror Saudade  1923

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Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Maria das Quimeras

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Maria das Quimeras me chamou
Alguém... Pelos castelos que eu ergui
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?...

Livro de Sóror Saudade — 1923

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Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

terça-feira, 6 de maio de 2014

Florbela Espanca: Ao Vento


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O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim, sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amar,
A tua voz tortura toda a gente! ...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim !... O vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
E a gente andar a rir p’la vida fora!!...


Livro das Mágoas  1919

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Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Florbela Espanca: A Mulher II

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Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!


Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Livro das Mágoas — 1919

Florbela Espanca num dos retratos mais conhecidos da poetisa.
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Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931...

sábado, 3 de maio de 2014

Florbela Espanca: Impossível

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Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar d’olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe...

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por ‘star contente! Pois então?!...”
Quando se sofre, o que se diz é vão...
Meu coração, tudo, calado ouviste...

Os meus males ninguém mos adivinha...
A minha Dor não fala, anda sozinha...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...

Os males d’Anto toda a gente os sabe!
Os meus... ninguém... A minha Dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera!... 

Livro das Mágoas — 1919

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Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) Apresentação de Laury Maciel Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Florbela Espanca: Eu (Até agora eu não me conhecia)


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Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me 
 pobre louca! 
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!
Charneca em Flor  1931


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Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre  RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931.