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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Petrarca: Ardo tanto e, ai de mim! — quem acredita? . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Ardo tanto e, ai de mim! quem acredita?
Se alguém me crê, só o duvida aquela
Que entre outras damas é a mais pura e bela,
Pois parece não ver o que me agita.

Tão pouca fé, beleza não finita,
Vê, nos olhos meu peito se revela,
Se não fosse tão dura minha Estrela,
Acharia mercê tanta desdita.

Este meu grão ardor que pouco estimas,
O teu alto louvor difuso em rimas
Mil pessoas no mundo inflamaria.

E vê meu pensamento ó doce chama,
Que o ouvido indiferente e a língua fria
Terão por alto plectro eterna fama.

Petrarca

Lasso!, ch'i' ardo, et altri non mel crede;
sí crede ogni uom, se non sola colei
che sovr'ogni altra, et ch'i' sola vorrei:
ella non par che 'l creda, e sì sel vede.

Infinita bellezza, e poca fede,
non vedete voi 'l cor, nelli occhi mei?
Se non fusse mia stella, i' pur devrei
al fonte di pietà trovar mercede.

Quest'arder mio, di che vi cal sì poco,
e i vostri onori, in mie rime diffusi,
ne porìan infiammar fors'ancor mille;

ch'i' veggio nel penser, dolce mio foco,
fredda una língua, e duo belli occhi chiusi
rimaner, dopo noi, pien di faville.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

sábado, 5 de julho de 2025

Petrarca: Era o dia em que o sol escurecia . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Era o dia em que o sol escurecia
Os raios por piedade ao seu Fator,
Quando eu me vi submisso ao vivo ardor
De teu formoso olhar que me prendia.

Defender-me do golpe eu não queria;
Desabrigado achou-me então Amor;
Por isso acrescentou-se a minha dor
À dor universal que assaz crescia.

Achou-me Amor de todo desarmado,
Pelos olhos, ao peito aberta a estrada,
Olhos que se fizeram mar de pranto.

Porém a sua ação não o honra tanto:
Ferir-me, sendo inerme o meu estado,
Não te visar quando eras tão armada.

Petrarca

Era il giorno ch’al sol si scoloraro
per la pietà del suo factore i rai,
quando i’ fui preso, e non me ne guardai,
ché i be’ vostr’occhi, donna, mi legaro.

Tempo non mi parea da far riparo
Contr’ a’ colpi d’Amor: però m’andai
secur, senza sospetto; onde i miei guai
nel commune dolor s’incominciaro.

Trovommi Amor del tutto disarmato,
et aperta la via per gli occhi al core,
che di lagrime son fatti uscio et varco.

Però al mio parer, non li fu onore
ferir me de saetta in quello stato,
a voi armata non mostrar pur l’arco.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Petrarca: Não tenho paz nem posso fazer guerra . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Não tenho paz nem posso fazer guerra;
Temo e espero, e do ardor ao gelo passo,
E voo para o céu, e desço à terra,
E nada aperto, e todo o mundo abraço.

Prisão que nem se fecha ou se descerra,
Nem me retém nem solta o duro laço;
Entre livre e submissa esta alma erra,
Nem é morto nem vivo o corpo lasso.

Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
E sonho perecer e ajuda imploro;
A mim odeio e a outrem amo após.

Sustento-me de dor e rindo choro;
A morte como a vida enfim deploro:
E neste estado sou, Dama, por Vós.

Petrarca

Pace non trovo, et non ho da far guerra;
e temo, e spero; et ardo, e son un ghiaccio;
e volo sopra ’l cielo, e giaccio in terra;
e nulla stringo, et tutto ’l mondo abbraccio.

Tal m’ha in pregion, che non m’apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
e non m’ancide Amore, e non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d’impaccio.

Veggio senza occhi, e non ho língua, e grido;
e bramo di perir, e cheggio aita:
et ho in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus, e muitos outros títulos.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Petrarca: Tanto peixe não tem o mar entre ondas . . .

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Tanto peixe não tem o mar entre ondas,
Nem acima do círculo da lua
Jamais viu tanta estrela alguma noite,
Nem tantas aves moram pelos bosques
Nem tanta erva existiu em campo ou vale
Quanto afãs o meu peito em cada tarde.

Dia a dia eu espero a ultima tarde
Que me liberte das terrenas ondas
E me deixe dormir em qualquer vale.
Homem nenhum tanto afã sob a lua
Jamais sofreu assim; sabem-no os bosques
Que, só, vou procurando dia e noite.

Eu não tive jamais tranquila noite,
Mas suspirando vou manhã e tarde,
Desde que Amor me enclausurou nos bosques.
Antes que acabe a angústia, o mar sem ondas
Será e o sol terá a luz da lua
E as flores morrrerão em todo vale.

Consumindo-me vou de vale em vale
O dia todo; e após eu choro à noite;
No meu estado sou tal qual a lua.
Mal veio agora escurecer a tarde,
Suspira o peito e dos olhos as ondas
Banham as ervas e movem os bosques.

A cidade é inimiga mas os bosques
Velam por meus cuidados; pelo vale
Afogando-os eu vou ao som das ondas
Pelo silêncio tão doce da noite;
Tanto que espero todo o dia a tarde,
Que o sol transmonte e dê lugar à lua.

Ah, pudesse eu ao resplandor da lua
Adormecer por estes verdes bosques,
E esta que cedo ainda me dá a tarde
Viesse comigo Amor àquele vale.
Só estivesse ali por uma noite;
E o dia se estendera e o sol nas ondas.

Sobre ondas duras ao lume da lua
Canção nascida à noite em meio aos bosques
Rico vale amanhã verás à tarde.

Petrarca

Non ha tanti animali il mar fra l’onde;
nè lassù sopra ’l cerchio della Luna
vide mai tante stelle alcuna notte;
nè tanti augelli albergan per li boschi;
nè tant’erbe ebbe mai campo, nè piaggia,
quant’ha ’l mio cor pensier ciascuna sera.

Di dì in dì spero omai, l’ultima sera,
che scevri in me dal vivo terren l’onde,
e mi lasci dormire in qualche piaggia:
che tanti affanni uom mai sotto la Luna
non sofferse, quant’io; sannolsi i boschi
che sol vo ricercando giorno e notte.

Io non ebbi già mai tranquilla notte,
ma sospirando andai mattino e sera,
poi ch’Amor fêmmi un cittadin de’ boschi.
Ben fia, prima ch’i’ posi, il mar senz’onde;
e la sua luce avrà ’l Sol da la Luna,
e i fior d’april morranno in ogni piaggia.

Consumando mi vo di piaggia in piaggia,
il dì pensoso; poi piango la notte;
nè stato ho mai, se non quanto la Luna.
Ratto, come imbrunir veggio la sera,
sospir del petto, e de li occhi escono onde,
da bagnar l’erbe, e da crollare i boschi.

Le città son nemiche, amici i boschi,
a’ miei pensier, che per quest’alta piaggia
sfogando vo col mormorar de l’onde
per lo dolce silenzio de la notte:
tal ch’io aspetto tutto ’l dì la sera,
che ’l Sol si parta, e dia luogo a la Luna.

Deh, or foss’io col vago de la Luna
adormentato in qua’ che verdi boschi;
e questa ch’anzi vespro a me fa sera,
con essa e con Amor in quella piaggia
sola venisse a starsi ivi una notte;
e ’l dì si stesse, e ’l Sol sempre ne l’onde.

Sovra dure onde, al lume della Luna,
canzon, nata di notte in mezzo i boschi,
ricca piaggia vedrai deman da sera.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Petrarca: Não vejo em que lugar me salvaria . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Não vejo em que lugar me salvaria
Da que seus olhos fazem, guerra dura
Que receio que o afã que assim perdura
Destrua o coração nesta porfia.

Fugir quisera: e o olhar que me alumia,
Que dia e noite em minha mente dura,
No décimo quinto ano assaz fulgura
Qual no momento do primeiro dia.

Belos olhos que estais por toda parte,
Recanto não existe em que eu não veja
A vossa ou símil tão acesa luz.

E só dum louro tal selva verdeja,
Que entre os ramos o imigo, com sua arte,
Por onde queira agora me conduz.

Petrarca

Non veggio ove scampar mi possa omai:
sì lunga guerra i begli occhi mi fanno,
ch’i’ temo, lasso!, no ’l soverchio affanno
distruga ’l cor che triegua non ha mai.

Fuggir vorrei; ma gli amorosi rai,
che dí et notte ne la mente stanno,
risplendon sì, ch’al quintodecimo anno
m’abbaglian più che ’l primo giorno assai;

et l’imagine lor son sì cosparte
che volver non mi posso, ov’io non veggia
o quella o simil indi accesa luce.

Solo d’un lauro tal selva verdeggia
che ’l mio adversario con mirabil arte
vago fra i rami, ovunque vuol, m’adduce.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus, e muitos outros títulos.

terça-feira, 4 de março de 2025

Petrarca: Morte, a mais bela face descoraste . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Morte, a mais bela face descoraste
E a vista mais fermosa escureceste.
Mais sublimado espírito escolheste
E do corpo mais belo o separaste.

Num momento o meu bem todo roubaste,
E o acento mais suave emudeceste.
Quanto eu vejo ou escuto é rudo e agreste,
E cheio de lamentos me deixaste.

Oh, torna a consolar tamanha dor,
Clara dama. E a piedade a reconduz
À alma que só por ela vive e espera.

E se como ela fala ou como luz,
Dizer pudesse, acendera eu de amor,
Quanto peito existir de homem ou fera.

Petrarca

Discolorato hai, Morte, il più bel vólto
che mai si vide, e i più begli occhi spenti;
spirto più acceso di vertuti ardenti,
del più leggiadro e più bel nodo hai sciolto.

In un momento ogni mio ben m’hai tolto;
post’hai silenzio a’ più soavi accenti
che mai s’udîro, e me pien di lamenti:
quant’io veggio m’è noia, et quant’io ascolto.

Ben torna a consolar tanto dolore
madonna, ove pietà la riconduce;
né trovo in questa vita altro soccorso.

E se come ella parla, e come luce,
ridir potessi, accenderei d’amore,
non dirò d’uom, un cor di tigre o d’orso.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Petrarca: Ah, se este meu sentir dissera o verso . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Ah, se este meu sentir dissera o verso
Em vez de assim jazer no peito, mudo,
Certo abrandara quanto peito rudo
Existira, e cruel pelo universo.

Mas vós, olhos que um dardo tão perverso
Atirais contra o qual não vale escudo
Por dentro e fora vedes me desnudo
E lamento nenhum pelo ar disperso.

Posto que vossa vista em mim resplende
Como transluz um raio por cristal
Basta então o desejo e eu nada diga.

A Pedro ou a Maria não fez mal
A fé que para mim é tanto imiga;
E eu sei que a não ser vós ninguém me entende.

Petrarca

Così potess’io ben chiudere in versi
i miei pensier, come nel cor gli chiudo;
ch’animo al mondo non fu mai sì crudo,
ch’i’ non facessi per pietà dolersi.

Ma voi, occhi beati, ond’io soffersi
quel colpo, ove non valse elmo né scudo,
di fòr e dentro mi vedete ignudo,
bem che ’n lamenti il duol non si riversi.

Poi che vostro vedere in me risplende,
come raggio di sol traluce in vetro,
basti dunque il desio senza ch’io dica.

Lasso!, non a Maria, non nocque a Pietro
la fede, ch’a me sol tanto è nemica;
e so ch’altri che voi nessun m’intende.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

domingo, 23 de junho de 2024

Juvenal Galeno: O escravo suicida

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Liberdade!... Liberdade!...
Já diviso a tua luz!
Neste mundo de maldade
Vou deixar a minha cruz!
Vou ser livre! À luz d’aurora,
Da raça que me devora
Cativo já não serei!
E sim livre, e sim ditoso,
Da liberdade no gozo,
Noutro mundo, noutra grei!
Que só vive aqui o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Vou ser livre... não é crime
Esta cadeira quebrar;
A quem da infância s’exime
Não pode Deus condenar!
E quando fosse um delito?...
Perdoaria ao aflito
O meu divino Jesus!
Pai do céu! Quanto eu sofria...
Não era Deus, não podia
Carregar tamanha cruz!
Não pude mais!... Vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Fugi dos brancos algozes,
Daquela taça de fel!
Além de açoites atrozes
A objeção mais cruel!
Oh, sim, meu Deus! Mais um dia
A sorte que me oprimia
Foi-me impossível sofrer!
Fome, sede, insultos, dores...
Do meu senhor os rigores...
Sem tréguas o padecer!
Perdoai-me, pois! Não vive
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Assim ao Deus de bondade
Direi gemendo a chorar,
Ele, a suma piedade,
O meu pranto há de enxugar;
Serei salvo... em santo abrigo,
Bem longe deste jazigo,
Que me causa tanto horror!
Feliz então, meu destino
Sem o chicote ferino
Com que me açoita o feitor!
Vivendo... pois vive o livre,
O escravo não!
Que não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Livre... salvo... perdoado...
Em breve, em breve serei!
E se fosse condenado
Nada eu perdia... bem sei!
Pois do inferno os tormentos
Não podem ser mais cruentos
Quais os que eu sofro aqui;
Mas o meu Deus é clemente...
Se me julga delinquente,
Sabe quanto eu padeci!
Serei salvo... vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Livre... e salvo! Adeus, torturas
Que neste mundo provei
Adeus, cruéis amarguras,
Adeus, campos que eu lavrei...
Suando suor de sangue,
Açoitado, vil, exangue...
Chorando mudo e feroz!
Adeus, adeus, ó, parceiros,
Na desgraça companheiros...
Rogarei no Céu por vós...
Que não viveis... pois não vive,
O escravo não!
Que não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Adeus, sol que me queimavas
No campo sem compaixão,
Que minhas chagas secavas
Do chicote e do grilhão;
E tu, lua traiçoeira,
Que a minha afeição primeira
Descobriste ao meu senhor...
Que escarneceu-se nefando,
Ao mesmo tempo açoitando,
A virgem do meu amor!
Adeus, adeus... Vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Vento ingrato... tu que irado
Meus trapos vinha rasgar,
E depois quase gelado
Me fazias tiritar...
Adeus, pra sempre! E tu, noite,
Que me livraste ao açoite
Em teu véu de minha cor!
Adeus, humana fereza,
Adeus, mundo de torpeza,
Vergonha, prantos e dor!...
Qu’eu vou ser livre... Não vive,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Adeus, mundo! À luz do dia
Bem longe... longe estarei;
Aqui na mata sombria
Este corpo deixarei:
Neste galho pendurado
Ficará para legado
Do branco que me comprou!
Ferido, magro, mirrado...
Assim o deixo ao malvado,
Que sem pena o maltratou!
Que legue melhor o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

É pobre, sim, o legado...
Magro corpo... quase nu!
Quem o tornou neste estado?
Foi tu, ó branco, foi tu!
Assim, pois, recebe-o agora
É teu... compraste-o... devora
Aquilo que te custou!
Devora... corvo funesto,
Devora... consome o resto,
Que o teu chicote deixou!
Qu’eu vou ser livre... Não vive,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

É tempo... desponta a aurora...
Fiz o laço... pronto estou!
Em menos de um quarto d’hora,
Grande Deus, convosco, sou!
Mundo torpe... cativeiro...
Ímpio branco e carniceiro...
Vinde ouvir-me: maldição!
E tu, salve, ó liberdade!
Vou entrar na eternidade...
Santo Deus... Vosso perdão!
É tempo... só vive o livre,
O escravo não!
Eis me salvo deste inferno...
Já não sinto... a escravidão!

(Lendas e canções populares, 2ª ed., 1892)

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A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI [antologia poética: 81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização e Introdução de Alexei Bueno, 1ª edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, fez seus estudos primários numa escola de Pacatuba, cursou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, com o intuito de ampliar conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, levou impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872), Folhetins de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II; acometido de glaucoma, ficou cego em 1906.