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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

W. B. Yeats: Aquelas imagens

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

E se eu dissesse para abandonares
As cavernas da tua mente?
Há melhores exercícios
à luz do sol e ao vento.

Nunca mandei que fosses
A Roma ou a Moscou;
Renuncia a esse cativeiro,
Chama as musas de volta.

Procura aquelas imagens
Que perfazem o indomável,
O leão e a donzela,
A prostituta e a criança.

Descobre no vão do ar
Uma águia em voo pleno;
Reidentifica os cinco
Que fazem as musas cantarem.

W. B. Yeats

Those images

What if I bade you leave
The cavern of the mind?
There's better exercise
In the sunlight and wind.

I never bade you go
To Moscow or to Rome.
Renounce that drudgery,
Call the Muses home.

Seek those images
That constitute the wild,
The lion and the virgin,
The harlot and the child

Find in middle air
An eagle on the wing,
Recognise the five
That make the Muses sing.
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversas autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, recebeu educação em escolas irlandesas, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; Yeats circulou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; suas obras: Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Collected Works in Verse and Prose (8 volumes, 1918), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), Later Poems (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro; W. B. Yeats foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1923.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

W. B. Yeats: E daí?

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Seus melhores companheiros achavam, na escola,
Que ele, era fatal, se tornaria famoso;
Ele pensava o mesmo e viveu à risca,
A quadra dos vinte anos assoberbada de trabalho;
“E daí?” cantou o fantasma de Platão. “E daí?”

Tudo o que saía de sua pena era lido,
Depois de alguns anos ajuntou dinheiro
Bastante para suas necessidades,
E conquistou amigos que eram amigos de fato:
“E daí?” cantou o fantasma de Platão. “E daí?”

Seus sonhos mais felizes se concretizaram
Uma casinha antiga, mulher, filha, filho,
Chão onde repolho e ameixa brotavam,
Poetas e Talentos se aglomeravam em torno dele;
“E daí?” cantou o fantasma de Platão. “E daí?”

“A tarefa está cumprida,” já velho, pensou,
“De acordo com meus planos da mocidade;
Que os néscios espumem, não me extraviei em nada,
A alguma coisa dei o toque da perfeição”;
Mais alto, porém, cantou o fantasma: “E daí?”

W. B. Yeats

What Then?

His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
'What then?' sang Plato's ghost, 'What then?'

Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
'What then?' sang Plato's ghost, 'What then?'

All his happier dreams came true —
A small old house, wife, daughter, son,
Grounds where plum and cabbage grew,
Poets and Wits about him drew;
'What then.?' sang Plato's ghost, 'What then?'

‘The work is done,’ grown old he thought,
'According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in naught,
Something to perfection brought’;
But louder sang that ghost 'What then?'
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversas autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, recebeu educação em escolas irlandesas, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; Yeats circulou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; suas obras: Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Collected Works in Verse and Prose (8 volumes, 1918), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), Later Poems (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro; W. B. Yeats foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1923.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

W. B. Yeats: O prazer do difícil

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de sucesso que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente.
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

1910

W. B. Yeats

The Fascination of What's Difficult

The fascination of what's difficult
Has dried the sap out of my veins, and rent
Spontaneous joy and natural content
Out of my heart. There's something ails our colt
That must, as if it had not holy blood,
Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
As though it dragged road metal. My curse on plays
That have to be set up in fifty ways,
On the day's war with every knave and dolt,
Theatre business, management of men.
I swear before the dawn comes round again
I'll find the stable and pull out the bolt.

1910
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Linguaviagem — Augusto de Campos, Ensaios & Estudos [acerca] de seis poetas selecionados, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

W. B. Yeats: A Fascinação do que é Difícil *


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

A fascinação do que é difícil, a fascinação
Secou-me as veias e alugou o júbilo
Espontâneo e o prazer do coração.
Nosso potro, algo tem-no incomodado:
Fingindo não possuir sangue sagrado
Ou de nuvem em nuvem não saltar no Olimpo,
Ele tem de tremer com relho, esforço, tranco e suor,
Como a puxar pedra britada. Ergo o clamor
Contra as peças que hão de montar-se de cinquenta jeitos,
A guerra diária aos toleirões e maus sujeitos.
O negócio do teatro, o gerenciar os homens.
Juro que antes de nova aurora despontar
Encontrarei o estábulo e o ferrolho hei de puxar.

W. B. Yeats

The Fascination of What's Difficult

The fascination of what's difficult
 Has dried the sap out of my veins, and rent
 Spontaneous joy and natural content
 Out of my heart. There's something ails our colt
 That must, as if it had not holy blood
 Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
 Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
 As though it dragged road metal. My curse on plays
 That have to be set up in fifty ways,
 On the day's war with every knave and dolt,
 Theatre business, management of men.
 I swear before the dawn comes round again
 I'll find the stable and pull out the bolt.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: O título do poema passou a ser frase corrente. Os versos foram escritos entre setembro de 1909 e março de 1910, e figuram em The Green Helmet, deste último ano. Nessas linhas, Yeats se lamenta de ter deixado a prática da poesia lírica a fim de dedicar-se ao teatro irlandês, tarefa difícil e trabalhosa. Realmente, ele se fez gerente de teatro em 1904. Pégaso, em vez de voar, como que puxa pedras britadas, mas o poeta, no final, demonstra sua intenção de libertá-lo.
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Poemas de  W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

sábado, 9 de março de 2024

W. B. Yeats: Leda e o Cisne

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
                                       Capturada assim,

E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?

W. B. Yeats

Leda and the Swan

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
                                      Being so caught up,

So mastered by the brute blood of the air,
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?

(1923)

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos:
     "Zeus tomou a forma de cisne para apossar-se de Leda, mulher de Tíndaro, rei da Lacônia.
     [verso] 9-11: Helena, então engendrada, seria a causa da ruína de Tróia; Clitemnestra, também filha do cisne, matou Agamêmnon, seu marido, ao voltar este de Tróia.
     O soneto foi escrito em 18 de setembro de 1923."
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Poemas de  W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

W. B. Yeats: E daí? *


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Na escola achava, cada amigo mais chegado,
que ele viria a ser um homem celebrado;
pensando o mesmo, ele viveu com esse humor,
fartando os seus vinte anos de labor;
"E daí?" "E daí?" — cantou o fantasma de Platão.

Tudo o que ele escreveu, tudo foi lido;
Depois de certos anos tinha já obtido
dinheiro suficiente para sua precisão,
e amigos que deveras foram seus amigos;
"E daí?" "E daí?" — cantou o fantasma de Platão.

Seus sonhos mais felizes realizaram-se:
uma velha casinha; esposa, filha; um filho ele houve,
e em seu quintal cresciam ameixeira e couve;
poetas e intelectuais juntavam-se-lhe à mão;
"E daí?" "E daí?" — cantou o fantasma de Platão.

"A obra está feita", pensou ele, envelhecido,
"segundo o que em menino dei por decidido;
que os tolos raivem, eu não me desviei em nada,
alguma coisa eu trouxe à perfeição";
"E daí?" — cantou mais alto a sombra de Platão.

W. B. Yeats

What Then?

His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
'What then?' sang Plato's ghost, 'What then?'

Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
'What then?' sang Plato's ghost, 'What then?'

All his happier dreams came true 
A small old house, wife, daughter, son,
Grounds where plum and cabbage grew,
Poets and Wits about him drew;
'What then.?' sang Plato's ghost, 'What then?'

‘The work is done,’ grown old he thought,
'According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in naught,
Something to perfection brought;’
But louder sang that ghost 'What then?'

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos:
     "O poema, escrito em 1936 para The Erasmian, foi chamado por Yeats “um melancólico poema biográfico”. John McNeill, seu professor na High School, dizia que, durante uma longa conversa, o estudante Yeats “lhe confidenciara todos os seus planos para o futuro quanto a escrever e recitar poesia planos a que se agarrou com firmeza e realizou plenamente”.
     A conclusão a se tirar do poema é que a capacidade humana é limitada diante da infinita possibilidade, como aponta Tuohy; ou então, digamos, que uma perfeição não exclui muitas outras. Ou ainda, como quer Ellmann, o refrão, platonicamente, duvida da realidade essencial do que foi feito."
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Poemas de  W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

domingo, 5 de novembro de 2023

William Butler Yeats: Nenhuma nova Tróia


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[traduzido por Nelson Ascher]

Devo culpá-la por encher meus dias
de miséria, ou por ter levado à crua
violência a ralé rude e vadia,
ou lançado as ruelas contra as ruas,
se achassem mais coragem que desejo?
Como acalmar-lhe o afã, cuja nobreza
tornava-o simples como a chama acesa,
sendo formosa como um arco teso,
altiva e solitária e tão severa
algo incomum num tempo destes? Logo,
que podia fazer, sendo quem era?
Havia nova Tróia em que pôr fogo?

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 26.02.84

W. B. Yeats

No second Troy

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

domingo, 29 de outubro de 2023

William Butler Yeats: A manta


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[traduzido por João Moura Jr.]

Te fiz, canção, esta manta
Coberta de pedrarias
De velhas mitologias
Do calcanhar à garganta:
Mas os tolos a tomaram
E, como se fosse sua,
Sobre os ombros a levaram.
Deixa, canção, dá-se um jeito
Pois sair despido à rua
É que é um verdadeiro feito.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 28.07.84

W. B. Yeats

A Coat**

I made my song a coat
Covered with embroideries
Out of old mythologies
From heel to throat;
But he fools caught it,
Wore it in the world's eyes
As though they'd wrought it.
Song, let them take it,
For there's more enterprise
In walking naked.

Notas:
* O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca;
** O tradutor e crítico literário Péricles Eugênio da Silva Ramos, em Poemas de W. B. Yeats [Art Editora, 1987] anota a respeito do poema Coat:
Neste famoso poema, de 1912, ( … ) Yeats reafirma que, para livrar-se da multidão de imitadores de sua maneira primitiva, o jeito era mudar de estilo. Tiraria seu casaco bordado de mitologia e andaria nu (i.é., escreveria com simplicidade. Ellmann [Richard David Ellman, crítico literário e biógrafo] acentua, contudo, que Yeats não quis negar seus antigos símbolos, mas apenas frisar que de então por diante estes não mais fariam parte de sua roupagem exterior, e sim de sua própria pele.”.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

terça-feira, 18 de abril de 2023

william butler yeats: navegando para bizâncio

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[traduzido por Augusto de Campos]

I

Aquela não é terra para velhos. Gente
Jovem, de braços dados, pássaros nas ramas
Gerações de mortais cantando alegremente,
Salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
Peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente
Tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece
As obras do intelecto que nunca envelhece.

II

Um homem velho é apenas uma ninharia,
Trapos numa bengala à espera do final,
A menos que a alma aplauda, cante e ainda ria
Sobre os farrapos do seu hábito mortal;
Nem há escola de canto, ali, que não estude
Monumentos de sua própria magnitude.
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância,
Em busca da cidade santa de Bizâncio.

III

Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
Como se num mosaico de ouro a resplender,
Venham do fogo santo, em giro espiralado,
E tornem-se mestres-cantores do meu ser.
Rompam meu coração, que a febre faz doente
E, acorrentado a um mísero animal morrente,
Já não sabe o que é; arranquem-me da idade
Para o lavor sem fim da longa eternidade.

IV

Livre da natureza não hei de assumir
Conformação de coisa alguma natural,
Mas a que o ourives grego soube urdir
De ouro forjado e esmalte de ouro em tramas
Para acordar do ócio o sono imperial;
Ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
Pousado em ramo de ouro, como uma passa-
Ro, o que passou e passará e sempre passa.

[1927]

william butler yeats

sailing to byzantium

I

That is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees,
Those dying generations at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

II

An aged man is but a paltry thing.
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

III

O sages standing in God's holy fire
As in the golden mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

IV

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.

[1927]
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.