terça-feira, 30 de setembro de 2025

Ronald de Carvalho: Avatar

 
____________________
Antes, a alma que tenho andou perdida.
Por que mundos rolou, que mão sutil
pôs tão nobre fulgor, e estranha vida,
nesse bocado de ouro e barro vil?

Decerto, árvore foi: verde jazida
de ninhos, sob o céu de espuma e anil,
e foi grito de horror, na ave ferida,
e, na canção de amor, sonho febril!

Foi desespero, sofrimento mudo,
ódio, esperança que tortura e inferna;
e, depois de exsurgir, triste, de tudo,

veio para chorar dentro em meu ser,
a amarga maldição de ser eterna,
e a dor de renascer, quando eu morrer!

____________________
O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Ronald de Carvalho (1893 1935), carioca, formado em Direito pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro (atual Direito UFRJ), foi jornalista, escritor, poeta, crítico, diplomata e político; um dos expoentes do Modernismo no Brasil, participou da Semana de Arte Moderna de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo; no Rio de Janeiro, colaborou com os periódicos Diário de Notícias, O Jornal, e com as revistas Alma Nova e Atlântida; anteriormente, em Portugal, fora um dos fundadores da revista literária Orpheu (Lisboa, 1915), contribuindo para a introdução do Modernismo naquele país; em 1933, regressando ao Brasil, foi secretário do presidente Getúlio Vargas; escreveu e publicou Luz Gloriosa (poesias, 1913), Pequena História da Literatura Brasileira (1919), Poemas e Sonetos (1919), Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922), Espelho de Ariel (1923), Toda a América e Jogos Pueris (poesias, ambos em 1926), Estudos Brasileiros (três séries, 1924 1931) e outros títulos; foi agraciado duas vezes por prêmios da Academia Brasileira de Letras, pelas obras Pequena História da Literatura Brasileira e Poemas e Sonetos (publicados e premiados em 1919); morreu em acidente automobilístico no Rio de Janeiro; na ocasião, era Chefe da Casa Civil da Presidência da República no governo de Getúlio Vargas.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

José Oiticica: O Rei

 
____________________
Deixei as mutações do irreal, precário,
Pela real construção, a minha, a só.
Em mim, achei missões de solitário
E vi quão pobre espírito foi Job.

Essas irisações do sempre vário
Desviam-nos do Reino, do sem pó!
Mas, se minha renúncia foi calvário,
Do meu muito penar não tenham dó.

Talhei ampla vereda no sem rumo!
Tudo agora é Consciência e sua lei,
Sou alguém que percebe Ascenso e aprumo!

Tenho algo do que outrora, Adão, tentei:
A sensação do Mais, do só, do Sumo,
De andar pelo Universo, como rei!...

____________________
José Oiticica: Da anarquia à anarcopoesia — Maria Aparecida Munhoz de Omena, Apresentação de Diva Cardoso de Camargo, 2010, Annablume Editora, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor, poeta, militante e ativista do anarquismo; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária através de A Lanterna, Spartacus, A Plebe, Livre Pensador, da revista A Vida e do jornal Na Barricada; suas obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Fonte Perene (sonetos, 1954), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955) e outros títulos.

domingo, 28 de setembro de 2025

Fiama Hasse Pais Brandão: A terra sobretudo

 
____________________
Quem como nós na curva de céus vários pressentiu
(em céus de boca e ares)
que os elementos, de si, nunca se encontram diz:

a água não amaina; o fogo nas queimadas,
nas lajes do lar
não nos sacia; o ar não cria
a vibração das folhas  esta é a nudez;

na terra sobretudo sente-se: as suas casas, as traves
que as sustêm, desfalecem.
Quem as habita parado, quem como nós vivo
diz: a fome é hostil,
o homem movimenta-se impaciente,
o seu desejo ocupa a sua vida.

(Este) Rosto — 1979

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, trabalhou como bibliotecária-arquivista do Centro de Estudos Linguísticos daquela instituição, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; tornou-se conhecida e reconhecida no ambiente das letras através da revista/movimento Poesia 61, com a publicação de Morfismos; em 1964, deu início às atividades no teatro e na dramaturgia, através de estágio no Teatro Experimental do Porto; colaborou nas revistas literárias Seara Nova, Cadernos do Meio-Dia, Brotéria, Vértice, Plano, Colóquio-Letras, Hífen, Relâmpago e A Phaia; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), O Aquário (narrativa, 1959), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), O Testamento (teatro, 1962), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), (Este) rosto (1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; premiações: Prêmio Revelação de Teatro (1961, pela peça Os Chapéus de Chuva), Prêmio Adolfo Casais Monteiro (1957, por Em cada pedra um vôo imóvel, obra de estréia), Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1996) e Prêmio Literário do P.E.N. Clube Português (2001, por Cenas Vivas).

Longfellow: Salmo da vida

____________________
[traduzido por Lucindo Filho]

Não digas em lúgubres sentenças:
       Que a vida é sonho vão,
Porque a alma dormita, quase morta,
E as cousas não são mais que uma ilusão.

A vida é realidade! Ardente é a vida;
E o túmulo não lhe é certa prisão;
“És pó e em pó te tornarás”, à alma
       Não se refere não!

Gozar, sofrer, não é nosso destino
       No mundo em que vivemos;
Mas, trabalhar, e em cada nova aurora
Mais longe que na véspera nos achemos.

A vida é longa, o tempo foge rápido,
E o nosso coração, inda que forte,
Qual fúnebre tambor entoa a marcha
       Para o campo da morte.

No mundo, grande campo de batalha
       No bivaque da vida
Não sejas muda ovelha, que se impele,
Mas, herói que se esforça em nobre lida!

O porvir te sorri? Nele não creias!
O passado, que é morto, enterre os seus;
       Trabalha no presente,
Com o coração no peito, e acima, Deus!

Dos grandes homens nos é norma a vida;
Por ser tão grande a nossa, trabalhemos;
E do tempo, no pó, quando partirmos,
       Rastos de luz deixemos.

Rastos, que um outro irmão talvez, quem sabe?
Navegando da vida o irado mar,
Perdido e náufrago, avistando, possa
       De novo se animar.

Deixemos, pois, erguer-nos, trabalhando
       Com fé no coração;
Uma obra se acabou? Outra se encete;
Trabalhar e esperar, eis a missão!

H. W. Longfellow

A Psalm Of Life

Tell me not, in mournful numbers,
    Life is but an empty dream! —
  For the soul is dead that slumbers,
    And things are not what they seem.

  Life is real! Life is earnest!
    And the grave is not its goal;
  Dust thou art, to dust returnest,
    Was not spoken of the soul.

  Not enjoyment, and not sorrow,
    Is our destined end or way;
  But to act, that each to-morrow
    Find us farther than to-day.

  Art is long, and Time is fleeting,
    And our hearts, though stout and brave,
  Still, like muffled drums, are beating
    Funeral marches to the grave.

  In the world's broad field of battle,
    In the bivouac of Life,
  Be not like dumb, driven cattle!
    Be a hero in the strife!

  Trust no Future, howe'er pleasant!
    Let the dead Past bury its dead!
  Act, act in the living Present!
    Heart within, and God o'erhead!

  Lives of great men all remind us
    We can make our lives sublime,
  And, departing, leave behind us
    Footprints on the sands of time;

  Footprints, that perhaps another,
    Sailing o'er life's solemn main,
  A forlorn and shipwrecked brother,
    Seeing, shall take heart again.

  Let us, then, be up and doing,
    With a heart for any fate;
  Still achieving, still pursuing,
    Learn to labor and to wait.
____________________
Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; H. W. Longfellow, ou Henry Wadsworth Longfellow (1807 1882), estadunidense de Portland, Maine, formou-se no Bowdoin College, foi professor, tradutor, ensaísta e poeta; estreou aos 13 anos, publicando seu poema The Battle of Lovell's Pond [A Batalha de Lovell's Pond] no Portland Gazette, passou três anos na Europa onde estudou letras modernas [línguas e literatura] e, de volta ao Maine, lecionou francês, espanhol e italiano no colégio onde se formara; após a publicação de ensaios críticos e seis livros didáticos de línguas estrangeiros, obteve a Cátedra Smith de Línguas Modernas no Harward College, aceita em 1834; suas obras: em versos, Voices of the Night (Vozes da Noite, coletânea de poemas, 1839), Ballads and other poems (Baladas e outros poemas, 1842), Poems on Slavery (Poemas sobre escravidão, 1842), Evangeline: a Tale of Acadie (Evangeline: um conto de Acadie, longo poema épico, 1847), The Golden Legend (A Lenda Dourada, 1854), The Song of Hiawatha (A Canção de Hiawatha, 1854), The Courthship of Miles Standish and other poems (O namoro de Miles Standish e outros poemas, 1858), Christus: a Mistery (Cristo: um mistério, 1872), Three Books of Song (Três Livros de Canções, 1872), Aftermath (Consequências, 1873) e outros; em prosa, Outre-Mer: A Pilgrimage Beyond the Sea (Outre-Mer: uma peregrinação além do mar, ensaios, 1835), The Spanish Student. A Play in Three Acts (O estudante de espanhol, drama, 1843), Tales of a Wayside Inn (Contos de uma pousada à beira da estrada, 1863), The New England Tragedies (As tragédias da Nova Inglaterra, 1868), etc.; traduziu, de Dante Aligheri, A Divina Comédia.

sábado, 27 de setembro de 2025

Wislawa Szymborska: Alguns gostam de poesia

____________________
[traduzido por Regina Przybycien]

Alguns
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

(Fim e começo — 1993)

Wislawa Szymborska

Niektórzy lubią poezję

Niektórzy
czyli nie wszyscy.
Nawet nie większość wszystkich, ale mniejszość.
Nie licząc szkół, gdzie się musi,
i samych poetów,
będzie tych osób chyba dwie na tysiąc.

Lubią
ale lubi się także rosół z makaronem,
lubi się komplementy i kolor niebieski,
lubi się stary szalik,
lubi się stawiać na swoim,
lubi się głaskać psa.

Poezję
tylko co to takiego poezja.
Niejedna chwiejna odpowiedź
na to pytanie już padła.
A ja nie wiem i nie wiem i trzymam się tego
jak zbawiennej poręczy.

(Koniec i począte — 1993)
____________________
Wislawa Szymborska [poemas], Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, edição bilíngue, 2ª reimpressão, 2012, Companhia da  Letras, São Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Edith Sitwell: Canção sombria

 
____________________
[traduzido por Oswaldino Marques]

O fogo era felpudo domo um urso
E as chamas ronronam...
O urso ruço, cativo dos homens cruéis,
Andeja, preso à corrente,
Pelo bosque negro e hirsuto.
A moça suspirou: “Todo o meu sangue
É animal. Achavam que, quando eu me sentava,
Parecia um gato caseiro;
Mas pelos bosques sombrios eu andava ao léu...
Ah, quem me dera que meu sangue se extinguisse!”
O fogo tinha uma pelugem de urso;
Ele ouvia e sabia...
A terra escura, lanzuda como um urso,
Também grunhia!

Edith Sitwell

Dark Song

The fire was furry as a bear
And the flames purr…
The brown bear rambles in his chain
Captive to cruel men
Through the dark and hairy wood.
The maid sighed, "All my blood
Is animal. They thought I sat
Like a household cat;
But through the dark woods rambled I…
Oh, if my blood would die!"
The fire had a bear's fur;
It heard and knew…
The dark earth furry as a bear,
Grumbled too!
____________________
Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversas autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Edith Louisa Sitwell (1887 1964), ou Dame Edith Sitwell, britânica de Scarborough, North Riding of Yorkshire, Inglaterra, “a mais velha dos três Sitwells literários [ela, Osbert e Sacheverell, seus irmãos]”, pertencente à família da aristocracia rural e patrona de artes [davam suporte financeiro a alguns artistas privados de recursos], foi poetisa, crítica e biógrafa; suas obras: Façade (18 poemas compostos para um espetáculo musical, 1922), Wheels [The Sitwells] (antologias, várias edições publicadas entre 1916 e 1921), Poetry and Criticism (Poesia e Crítica, 1925), Gold Coast Customs (poemas, 1929), Collected Poems (1930), Alexander Pope (biografia, 1930), The English Eccentrics (Excêntricos Ingleses, crítica, 1933), Aspects of Modern Poetry (Aspectos da Poesia Moderna, 1934), Victoria of England (biografia, 1936), I Live Under a Black Sun (Vivo sob um Sol Negro, romance, 1937), Poems (1940), Street Songs (Canções de Rua, poemas, 1942), The Poet’s Notebook (coletânea, 1943), Green Song (1944), Song of Cold (Canção do Frio, 1945), Fanfare for Elizabeth (Fanfarra para Elizabeth, biografia, 1946), Still Fals the Rai (Street Songs), Three Poems of the Atomic Age, The Canticle of the Rose: Poems 1920-1947 (O Cântico da Rosa: Poemas 1920-1947, 1949), The Queens and the Hive (As Rainhas e a Colméia, crítica, 1962), Taken Care of The Autobiography of Edit Sitwell (publicação póstuma, autobiografia, 1965); Edith Sitwell, por sua vez, foi biografada por Rodolphe L. Megroz (The Three Sitwells: A Biographycal and Critical Study, 1927), Cecil M. Bowra (Edith Sitwell, 1947) e John Lehman (A Nest of Tigers: The Sitwells in Their Times, 1968); ainda consta de sua biografia: ter frequentado os salões de arte [e festas] de Gertrude Stein (romancista, poetisa, dramaturga e colecionadora de arte), em Paris, ter sido laureada com doutorados honorários das universidades de Leeds, Durham, Oxford e Sheffield, ter recebido a comenda de Dama do Império Britânico [daí, passou a constar da lista de honra do aniversário da rainha], ter se convertido ao catolicismo, ter sido patronesse do poeta Dylan Thomas e “muito próxima de H. D. (Hilda Doolittle, [poeta, romancista e memorialista]) e de Denton Welch [escritor e pintor]”.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Goethe: Anelo Abençoado

____________________
[traduzido por Daniel Martineschen]

Conta só a quem é sábio
pois a plebe zomba logo!
louvarei o vivo, lábil,
que deseja o fim no fogo.

Na fresca noite de amor,
que te gerou e onde geraste,
cai-te estranho dissabor
quando calma, a vela gaste.

Nunca mais quedas envolto
pela sombra desta treva:
há um anseio em ti, revolto,
por um coito que se enleva.

Não te impedem as distâncias,
vens voando e encantada;
pela luz tens muitas ânsias.
Mariposa: és chamuscada.

Se isto não te habita,
isto: morre e te transforma!
Não passas de visita
Na terra sem forma.


Como caldo vem de cana
e adoça a todo o mundo,
flua amor de minha pena
sem parar nem um segundo.

(Divã Ocidento-Oriental —
Livro do Cantor)

Goethe

Selige Sehnsucht

Sagt es niemand, nur den Weisen,
Weil die Menge gleich verhöhnet,
Das Lebend'ge will ich preisen,
Das nach Flammentod sich sehnet.

In der Liebesnächte Kühlung,
Die dich zeugte, wo du zeugtest,
Uberfällt dich fremde Fühlung,
Wenn die stille Kerze leuchtet.

Nicht mehr bleibest du umfangen
In der Finsternis Beschattung,
Und dich reißet neu Verlangen
Auf zu höherer Begattung.

Keine Ferne macht dich schwierig,
Kommst geflogen und gebannt,
Und zuletzt, des Lichts begierig,
Bist du, Schmetterling, verbrannt.

Und so lang du das nicht hast,
Dieses: Stirb und werde!
Bist du nur ein trüber Gast
Auf der dunklen Erde.


Tut ein Schilf sich doch hervor,
Welten zu versüßen!
Möge meinem Schreibe-Rohr
Liebliches entfließen!

(West-östlicher Divan —
Moganni Nameh: Buch des Sängers)
____________________
Goethe: Divã Ocidento-Oriental, bilíngue [+ Notas e Ensaios para melhor compreensão do Divã Ocidento-Oriental], Tradução e Posfácio de Daniel Martineschen e Apresentação de Marcus Mazzari, 1ª edição, 2020, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Fagundes Varela: Cantiga

 
____________________
[Poesia cantada em qualquer ária e geralmente dividida em estrofes iguais. Na sua forma tradicional é composta de quadras para cantar.]

Viajante que deixaste
As ondas do Panamá.
Vela1 ao entrares no porto
Aonde o gigante está.

Ele dorme, dorme, dorme,
Mas nem sempre dormirá,
Basta um bafejo, um sussurro,
Que o gigante acordará.

Viste as montanhas e os vales
Daquelas terras de lá,
Talvez as veigas da Itália
E as rosas de Bagdá.

Mas uma plaga como está
Nunca enxergaste quiçá2,
Viajante que deixaste
As ondas do Panamá!

Contempla os índios valentes
Das florestas do Pará,
Escuta os sons das cascatas
E os cantos do sabiá.

Curva-te ao guarda soberbo
que junto da barra está,
mede as vagas do Amazonas
E os campos do Paraná.

Colhe do rio nas margens
As brancas flores do ingá,
Dorme à sombra majestosa
Do excelso jequitibá.

Volta depois a teus lares,
Conta o que viste por cá,
Viajante que deixaste
As ondas do Panamá!

Mas olha que junto ao porto
Soberbo gigante está,
Ele dorme, dorme, dorme,
mas nem sempre dormirá.

[Vozes da América — 1864]


Notas da edição deste Poesia Brasileira para a Infância... — Vocabulário:
1. Velar — Vigiar;
2. Quiçá — Talvez.
Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Em 60 Poetas Trágicos [L&PM Editores, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca de Fagundes Varela:
“[...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.”
____________________
Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obras poéticas: Noturnas (1860), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou O Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre França); morreu de alcoolismo.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Sylvia Plath: Espelho

 
____________________
[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e
Maurício Arruda Mendonça]

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

Sylvia Plath

Mirror

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

23 October 1961
____________________
Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoseille [revista feminina], The LyricGrecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounterviveu na Inglaterra desde 1956 ao se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito  suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.