segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Albert Ehrenstein: Paz

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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

As árvores espreitam o arco-íris,
A fonte de orvalho verdeja em calma fresca,
Três cordeiros pastam sua brancura,
Riacho-doce saboreia moças em seu banho.

Sol vermelho rola noite abaixo,
Nuvens-penugens morrem seu fogo-sonho.
Escuro sobre maré e seara.

Sapo-andarilho salta com grande olho,
A relva cinza também pula discreta.
Na profunda fonte soam minhas estrelas.
O vento-saudade ventila boa noite.

(ca. 1917)

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Albert Ehrenstein

Friede

Die Bäume lauschen dem Regenbogen,
Tauquelle grünt in junge Stille,
Drei Lämmer weiden ihre Weiße,
Sanftbach schlürft Mädchen in sein Bad.

Rotsonne rollt sich abendnieder,
Flaumwolken ihr Traumfeuer sterben.
Dunkel über Flut und Flur.

Frosch-Wanderer springt großen Auges,
Die graue Wiese hüpft leis mit.
Im tiefen Brunnen klingen meine Sterne.
Der Heimwehwind weht gute Nacht.

(ca. 1917)
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Poesia Expressionista Alemã: uma antologia, Organização e Tradução de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue ilustrada, 2000, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Albert Ehrenstein (1886  1950), austríaco de Viena,  estudou história e filologia, doutorando-se em 1910, foi poeta, escritor e crítico literário; teve seus primeiros versos publicados na revista Die Fackel (O Facho), durante a Primeira Guerra trabalhou em editoras, em 1917 exilou-se na Suiça e, após o conflito, mudou-se para Viena e, depois, Berlim; desde então, empreendeu viagens pela Europa, África e Extremo Oriente; a partir daí, com a ascensão nazista, passou a viver na Suiça e, após, Nova Iorque, para onde se transferiu durante a Segunda Guerra e onde veio a falecer; bibliografia: Tubutsch (prosa, 1911),  Der Selbstmord eins Katers (prosa, 1912), Der Mensch Schreit (poesia, 1916), Die rote Zeit (poesia, 1917), Briefe an Gott (poesia, 1922), Ritter des Todes (prosa, 1926), Das gelbe Lied (poesia, 1933) e outros; Albert Ehrenstein, juntamente com muitos outros autores, esteve na lista negra do nazismo e suas obras foram queimadas nas piras acesas em praças de Berlim; de sua biografia, consta que o poeta foi um dos mais radicais representantes de Viena no expressionismo em língua alemã, tendo sido sempre um inconformista.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Hans Magnus Enzensberger: os desaparecidos

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[traduzido por Almeida Faria]

                    a nelly sachs

não a terra os engoliu, foi o ar?
como a areia são inumeráveis, contudo não em areia
se tornaram, mas em nada, em monte
são esquecidos. amiúde e mão na mão,

como os minutos, mais que nós,
contudo sem recordação. não registrados,
não decifráveis no pó, mas desaparecidos
os seus nomes, colheres e solas.

não nos atormentam. ninguém pode
lembrar-se deles: nasceram,
fugiram, morreram? reclamados
não foram. sem lacuna
é o mundo, contudo concatenado
por aquilo a que não dá abrigo,
pelos desaparecidos. estão em toda a parte.

sem os ausentes não haveria nada aqui.
sem os fugitivos não haveria nada firme.
sem os esquecidos nada certo.

os desaparecidos são justos.
assim nos desfazemos também.

(Braille  escrita para cegos)

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Hans Magnus Enzensberger

die verschwundenen

für nelly sachs                    

nicht die erde hat sie verschluckt. war es die luft?
wie der sand sind sie zahireich, doch nicht zu sand
sind sie geworden, sondern zu nichte. in scharen
sind sie vergessen. häufig und hand in hand,

wie die minuten. mehr als wir,
doch ohne andenken. nicht verzeichnet,
nicht abzulesen im staub, sondern verschwunden
sind ihre namen, löffel und sohlen.

sie reuen uns nicht. es kann sich niemand
auf sie besinnen: sind sie geboren,
geflohen, gestorben? vermiwßt
sind sie nicht worden. lückenlos
ist die welt, doch zusammengehalten
von dem was sie nicht behaust,
von den verschwundenen. sie sind überall.

ohne die abwesenden wäre nichts da.
ohne die flüchtigen wäre nichts fest.
ohne die vergessenen nichts gewiß.

die verschwundenen sind gerecht.
so verschallen wir auch.

(Blindenschrift)
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Hans Magnus Enzensberger — Poemas Políticos, edição bilíngue, Tradução e Nota Bibliográfica de Almeida Faria, 1975, Publicações Dom Quixote, Lisboa Portugal; Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929,  alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, é poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; bibliografia: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961),  Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille  escrita para cegospoesia, 1964),  Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver  (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991) Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também faz uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Emily Dickinson: À noite, como deve sentir-se solitário o vento . . .

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[traduzido por Ivo Bender]

À noite, como deve sentir-se solitário o vento
Quando todos apagam a luz
E quem possui um abrigo
Fecha a janela e vai dormir.

Ao meio-dia, como deve sentir-se imponente o vento
Ao pisar em incorpórea música,
Corrigindo erros do firmamento
E limpando a cena.

Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao se deter em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.

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Emily Dickinson

How lonesome the Wind must feel Nights 
When people have put out the Lights
And everything that has an Inn
Closes the shutter and goes in 

How pompous the Wind must feel Noons
Stepping to incorporeal Tunes
Correcting errors of the sky
And clarifying scenery

How mighty the Wind must feel Morns
Encamping on a thousand dawns
Espousing each and spurning all
Then soaring to his Temple Tall 
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Emily Dickinson — Poemas escolhidos, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Introdução de Ivo Bender, Coleção L&PM Pocket, vol. 436,  2016, L&PM, Porto Alegre — RS; Emily Elizabeth Dickinson (1830 1886), nascida em Amherst, Massachusetts, Estados Unidos, foi poeta; cursou durante um ano o South Hadley Female Seminary e o abandonou após recusa pública em declarar sua fé, daí passando a viver reclusa em sua própria casa, por mais de vinte anos; nada publicou em vida; após sua morte, uma sua irmã, Lavínia, encontrou todos seus textos, uma grande quantidade de poemas inéditos, em cadernos e folhas soltas, e dispôs-se a publicá-los; editou-se, assim, Poems by Emily Dickinson (1890).

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Ernani Rosas: Violino da Saudade

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A Paul de Verlaine1

Encantado violino da Saudade,
que desenterras o meu tempo azul;
enlaivado da mágoa, que me invade
pelo silêncio da minh’alma êxul2...

Choras... e o teu soluço se ilumina
como via-láctea que nest’alma mora
sacode-o brutalmente, e se a domina
põe suspiros de vento numa aurora...

Eis a razão de tudo colorido:
olfato, paladar, ouvido, olhar...
rompe da sacada, assim como um gemido!...

É uma forma de ser mais singular...
que anseia muito além do meu sentido,
Remotíssima3 orquestra a voz de um mar!...

918 Rio...

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Notas de Ana Brancher: 
1 Paul Verlaine (1844  1896) autor de Les Poètes Maudits; os simbolistas denominaram-se “malditos” a partir do aparecimento deste livro de Verlaine;
2 Ernani Rosas acentua a palavra como “exúl” (oxítona) e não “êxul” (paroxítona). Segundo Andrade Muricy, o adjetivo “êxul” era muito usado pelos simbolistas, sempre como oxítona;
3 Está “remotisso”, palavra não dicionarizada. Considerando a métrica (versos decassílabos), pode ser “remotíssima”.
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História do Gosto e Outros Poemas — Ernani Rosas, Organização de Ana Brancher e Biobibliografia de Iaponan Soares, 1997, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886  — 1955), catarinense de Desterro, atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade passou a residir na cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai (Oscar Rosas, político e também poeta, que basicamente lhe garantia as mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs para Nova Iguaçu, também no Rio, onde morreu em difíceis condições; levou uma vida boêmia e sofreu discriminação pela sua gagueira e homossexualidade; foi um homem reservado que tentou ficar o máximo possível no anonimato; colaborou com os periódicos O Imparcial, MaçãA Época; sua bibliografia: Certa Lenda numa Tarde — Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas do Ópio (1918) e Silêncios (sem data); após sua morte, houve o resgate de sua obra poética: em Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro —  Organização de Andrade Muricy (1952), foram incluídos vinte e sete de seus poemas e, em Poesias — Organização de Iaponan Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989), estão reunidos, em sua obra, todos os manuscritos e plaquetes* encontrados, já nos arquivos da Academia Catarinense de Letras; depois, vieram outros estudos: este História do Gosto e Outros Poemas (1997) Cidade do Ócio — entre sonetos e retalhos, Organizadora: Zilma Gesser Nunes  (2008).

Nota: plaquetes: este aprendiz de blogueiro faz constar que, conforme o História do Gosto e Outros Poemas, as plaquetes, em torno de trinta e sete, organizadas pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de papel “de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; por elas tem-se que Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las: N. Cáspio, A. Luzo, N. Luzo, além do já anteriormente citado Rictus da Cruz.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Lili Leitão As fitas

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Vai-se a primeira fita1 comovente
Vai-se outra mais... mais outra... e muitas fitas
Vão-se, fitas alegres, esquisitas,
Apenas desce a tarde lentamente.

E, depois do programa surpreendente,
Noutra sessão, mais tarde, elas, catitas2,
Da Pathé, Paramount, Metro, bonitas,
Voltam todas à tela novamente.

Também dos nossos bolsos, retinindo,
Vão-se os níqueis magríssimos sumindo
Como do quadro as fitas colossais.

Nas trevas da gaveta o timbre soltam,
Fogem. Noutra sessão as fitas voltam,
E esses níqueis, aos bolsos, nunca mais!

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Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Fita: filme cinematográfico (Aulete)
2 Catita: que se veste bem ou que tem modos graciosos, elegante. (idem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890  1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A CapitalJornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas umaEu aqui e ela láO espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Ricardo Gonçalves: Rebelião

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Com gemidos agoureiros,
Num pavoroso lamento,
Lá fora perpassa o vento
Chicoteando os pinheiros,
E a noite caliginosa,
De uma tristeza superna,
É como a boca monstruosa
De uma monstruosa caverna.

Chove. O arvoredo farfalha.
Soturno o trovão rimbomba
Como longínqua metralha.
Depois o silêncio tomba.
Pávido e trêmulo, escuto,
Mergulho a vista lá fora
E vejo a terra de luto.
E ouço uma voz que apavora.

Como um vago murmúrio,
Mansa a princípio, ela ecoa.
Depois é um grito bravio
Que pela noite reboa,
Que para a noite se eleva
Num pavoroso transporte,
Como um soluço da treva,
Como um frêmito de morte.

Essa voz cheia de ameaças,
De imprecações e rugidos,
É o clamor das populaças,
É a voz dos desprotegidos.
Medonha, relutante e rouca,
Vem desse mundo sombrio.
Dos que tiritam de frio
E não têm pão para a boca.

Vem das lôbregas choupanas
Onde em tarimbas sem nome
Há criaturas humanas
Agonizando com fome.
Vem da cloaca deletéria
Em que a justiça comprime
Esse que a mão da miséria
Pôs no caminho do crime.

Do quartel  açougue enorme
Onde à espera da baralha,
Morta de fadiga dorme
A carne para a metralha;
Dos hospitais, dos hospícios,
Das tascas onde ressona
A grei de todos os vícios
Que a miséria proporciona.

Ah! esse grito funesto,
Nesse rugido, palpita
Um rancoroso protesto;
É o povo, a plebe maldita
Que sombria, ameaçadora,
Nas vascas do sofrimento,
Mistura aos uivos do vento
A grande voz vingadora.

Tremei vampiros nojentos
Tremei, nos vossos dourados
Palacetes opulentos!
O sangue dos desgraçados
Sugai, bebei gota-a-gota,
Não tarda que chegue o instante
Em que a turba se levante
Sedenta, faminta e rota.

E quando comece a luta,
Quando explodir a tormenta,
A sociedade corrupta
Execrável e violenta,
Iníqua, vil, criminosa,
Há de cair aos pedaços,
Há de voar em estilhaços
Numa ruína espantosa.

O Cosmopolita, 15/09/1917, p. 2;
também publicada sob o título de “Vox Populi”
na Gazeta Operária de 23./11/1902, p. 3.

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher e Eulalia Lahmeyer Lobo, 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Ricardo Mendes  Gonçalves (1883  1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São PauloEstadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo  teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido no braço à bala; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; Ricardo Gonçalves deixou-nos uma única obra, Ipês  (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Lima Barreto: A lógica do maluco

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                    Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em trazê-lo a público, sem o nome do doente  o que farei sem nenhuma discrepância.
                    Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte da Academia de Letras de Vitória, estado do Espírito Santo, onde residia  como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro às pressas...
                    A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que nela tem assento.
                    O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da praia da Saudade.
                    Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar, de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.
                    O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:
                     Então, o que há, doutor?
                    O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão — coisa que não era nem da defunta Guarda Nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:
                     Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
                     Para quê? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
                     É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia de Vitória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.
                     Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
                     Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.
                     Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
                     Como?
                     Você é doente, sua família já obteve a interdição de você  como é que você pode exercer um cargo público?
                     Posso, pois não. Está na Constituição: “Os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...
                     Mas você...
                     Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe, doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.
                    Tanto insistiu que obteve o consentimento, para ir ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
                     Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor jurídico.

                Careta, 8 de outubro de 1921

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Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos — Lima Barreto, Prefácio de Alfredo Bosi e Organização e Notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, 2017, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881  1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas — Fon-Fon, A.B.C. e Careta dentre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias:  O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919),  Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros títulos.