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domingo, 20 de julho de 2025

Lima Barreto: O momento

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          Sempre fui contra a república. Tinha sete anos e vinha do colégio primário, do grande colégio de que me lembro sempre com ternura e cheio de saudades da minha boa professora, dona Teresa Pimentel do Amaral, quando me disseram que se havia proclamado a república.
          Não tinha naqueles tempos outras cogitações que não fossem a de glória, a da grande, imensa glória, feita por mim, sem favor, nem misericórdia, e vi que a tal da república, que tinha sido feita, espalhava pelas ruas soldados embalados, de carabinas em funeral.
          Nunca mais a estimei, nuca mais a quis.
          Sem ser monarquista, não amo a república.
          João Ribeiro disse-me, certa vez, que a república era a cultura parda; pois sou como o senhor João Ribeiro; nunca houve anos no Brasil em que os pardos, os malditos do seu Haeckel, fossem mais postos à margem.
          O nosso regímen atual e da mais brutal plutocracia, e da mais intensa adulação aos elementos estranhos, aos capitalistas internacionais, aos agentes de negócios, aos charlatães tintos com uma sabedoria de pacotilha.
          Não há entre os ricos, entre os poderosos, nenhuma generosidade; não há piedade, não há vontade, por parte deles, desejo de atenuar a sua felicidade, que é sempre uma injustiça, com a proteção aos outros, com o arrimo aos necessitados, com o fervor religioso de fazer bem.
          Têm medo de ser generosos, tem medo de dar uma esmola, tem medo de ser bons.
          Se a dissolução de costumes que todos anunciam como existente, há, antes dela houve a dissolução do sentimento, do inacessível, sentimento de solidariedade entre os homens.
          Eu, há mais de vinte anos, via a implantação do regímen. Vi-a com desgosto e creio que tive razão.
        
Correio da Noite, Rio [de Janeiro], 3-3-[19]15

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Lima Barreto: Os pintores

 
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          A coisa pior que há aqui, de charlatães artísticos, são os pintores.
          Eles não têm nenhum ideal, nenhuma concepção artística, nada que dizer nas telas; são uns simples copistas de pouco ou algum talento, que forçam o Estado ou o governo a comprar-lhes os quadros por preços fabulosos.
          Todos eles são ricos, vivem nas salas, viajam pela Europa e... se queixam.
          Que é que o governo faz pela literatura? Nada.
          Eu não quero mesmo que ele faça qualquer coisa, porque, se ele fizer alguma coisa, dá na droga do Hélio Lobo, o tal de secretário da presidência, ou no filho do Leão Veloso.
          O governo sempre protegeu os imbecis e sempre acoroçoou as mediocridades.
          A condessa de Sousa Dantas deve saber perfeitamente disto.
          Digo isto aqui por causa da exposição do senhor Antônio Parreiras.
          Este senhor é o maior cabotino da pintura, que o Brasil conhece.
          Paisagista de algum valor, mas, mascate, como o diabo, o senhor Parreiras deu um dia para pintar quadros históricos, nus e outras coisas por fotografia.
          Os nus do senhor Parreiras parecem ter por modelo os corpos de mulheres do Paulo Gardênia, ou, melhor, Benedito Costa, o romancista de Coelho Neto.
          Nunca se viu uma coisa tão errada, tão estúpida, e tão sem senso.
          As pernas se encaixam... Oh! Meu Deus!
          Os quadros históricos do senhor Dair são os maiores conto do vigário que se possam imaginar. Que perspectiva! Que grupamento!
          O senhor Parreiras pinta para impingir quadros ao governo, pinta para ganhar dinheiro, o que não seria defeito, se o fizera com consciência.
          O meu vendeiro, o “Galego”, como vocês chamam, tem mais moralidade nos seus negócios, que o senhor Parreiras nas suas telas históricas.
          Todo nele é cálculo, e “avanço”.
          Pare!

Correio da Noite, Rio [de Janeiro], 5-3-[19]15

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Lima Barreto: A Amazônia

 
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          Nessa nossa vida de expediente, vida que nós levamos desde a descoberta, os Estados do extremo Norte, Pará e Amazonas, contribuíram nos últimos decênios com a sua borracha.
          Já tive ocasião de notar que nunca a nossa vida econômica se baseou na exploração e trabalho de um produto indispensável à vida e que, procurados como país de especiarias, continuamos a ser país de especiarias.
          Numa malograda publicação semanal que fiz há dois ou três anos, explanei, de acordo com o gênero da publicação, essa simples observação e lhe dei o desenvolvimento compatível pela boca do doutor Bogoloff.
          José Veríssimo, com aquela honestidade intelectual que o caracteriza, com aquela penetração que põe nos seus julgamentos, vem mostrando, em uma série de artigos, no Jornal do Commercio, o erro em que sempre andaram os da Amazônia, procurando somente na seringa a riqueza e a fortuna.
          Eu não o posso seguir nos detalhes, mas louvo a sua orientação, garantida pela sua sagacidade e independência de espírito.
          Outro publicista que, desde muito, se vem batendo pelos interesses daquela curiosa região brasileira, é o capitão Félix Amélio, ou melhor, Félix Amélio, tout court.
          Félix tem o espírito da velha Escola Militar. É patriota, crê na pátria, crê no Brasil e se esforça para solver os seus problemas de modo que continuemos sempre unos e associados.
          O seu pensamento constante é evitar que se realize a profecia de Mitre, isto é, que nos separemos, que nos dividamos em pequenas pátrias, que ficarão mais fracas ainda que as próprias repúblicas espanholas.
          Tem posto, Félix, este pensamento em toda a sua atividade de jornalista; e aqui, no centro da república, procura encaminhar a opinião para os interesses da região em que nasceu.
          É justo que ele o faça com o seu ardor peculiar, pois obedece ao postulado da sua atividade mental: é preciso que o todo se interesse pelas partes, para que as partes não se separem do todo.
          A sua campanha contra a blague da valorização da borracha ficou famosa e agora acaba de firmar nos admiráveis artigos, no O País, mostrando as necessidades vitais da região do Pará ribeirinha ao Tapajós a Tapajônia.
          Félix é assim: estuda, pensa, escreve e revela ao Brasil, que ele quer sempre unido, as necessidades da região que conhece, para que o Brasil auxilie o que é e deve continuar a ser Brasil.

Correio da Noite, Rio [de Janeiro], 8-1-[19]15.

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

sábado, 28 de dezembro de 2024

Lima Barreto: Os grandes tapeceiros

 
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          Em todas as épocas da história, e mesmo da pré-história, tem havido pessoas soberanas e principais que se interessam pelos tapetes.
          Em geral, essa gente gosta mais de capachos, mas não despreza os tapetes.
          Nos baixos relevos assírios, nós vemos o poderoso Senaquerib, não só furando os olhos dos prisioneiros de suas guerras, mas também sacudindo o pó dos tapetes dos seus palácios.
          O terrível Sesóstris, o famoso Ramsés II, conforme hieróglifos de Luxor, ocupava o seu mando com duas coisas principais: examinar os seus carros de guerra e inspecionar os seus depósitos de tapetes.
          Salomão, o voluptuoso Salomão, não podia deixar de apreciar tapetes, tanto assim que no Cântico dos Cânticos, 69, há esta passagem que denuncia bem esse seu gosto:
          “69 E eu farei com as minhas próprias mãos macios tapetes onde os teus meigos pés de gazela irão pisar.”
          Muitos soberanos e príncipes modernos têm seguido o exemplo dos amigos. Gongunhana, quando os portugueses o internaram em Cabo Verde ou em São Tomé, não reclamava nunca comida ou bebida; queria tapetes.
          A Rainha Ranavalo na sua detenção na Argélia, depois de despojada do seu trono de Madagascar, pediu e obteve do governo francês que ficasse a seu lado o seu antigo ministro dos Tapetes, cujo nome não me recordo agora.
          Quando menino conheci, aqui, um príncipe que, embora não sendo nosso, se pode assim considerá-lo pois viveu entre nós e batalhou ao nosso lado. Quero falar do Príncipe Obá II, d’África. Pois bem: o Príncipe Obá era um grande apreciador de tapete. Não podendo comprá-los, fabricava-os com sacos de aniagem que, naqueles tempos, os vendeiros davam de graça e hoje custam os olhos da cara.
          O formidável Cunhambebe*, aquele famoso chefe de coligação dos tamoios que se gabava de lhe correr no corpo o sangue de mais de mil inimigos, esse Cunhambebe deliciava-se com tapetes.
          Os deles eram de peles humanas de incautos cidadãos que esfolava, não com unguentos, mas com facas de fabricação francesa, pois era aliado de piratas normandos.
          Não é, portanto, de admirar que o senhor Epitácio Pessoa, nosso presidente da República e transitoriamente nosso imperador, tenha, ao visitar a Câmara dos Deputados, a fim de preparar o Monroe e ensaiar o parlamento para recepção do rei Alberto; não é de admirar, dizia, ter Sua Excelência se preocupado com tapetes.

[revista] Careta, Rio [de Janeiro], 25.9.1920
(Coisas do Reino do Jambon 1956)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Na edição deste Lima Barreto: obra reunida volume 3, está grafado "Cunhabembe" [talvez por erro de digitação e/ou falha de revisão]; Cunhambebe ( ? – c. 1555) foi um chefe indígena tupinambá brasileiro.
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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), História e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948), Coisas do Reino do Jambon (coletânea de crônicas, publicação póstuma, 1956) e outros ...

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Lima Barreto: As mulheres na Academia


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          Os jornais, com grande ruído, publicaram um ofício ou carta de uma senhora que ilegalmente exerce uma função pública, pedindo que, na Academia de Letras, fossem admitidas meninas prendadas.
          Está aí um negócio que eu acho muito razoável. Ninguém, como semelhantes moças, é próprio para semelhante coisa.
          Nas salas e salões, desde Botafogo ao Méier, não há quem não admire uma moça que saiba recitar.
          Todos os meninotes e mais dançarinos de tais paragens ficam embasbacados quando uma menina de olheiras põe-se no meio da sala e diz o “Quisera amar-te”.
          É um grande e inevitável sucesso que quebra a monotonia habitual dos bailes poucos regados à cerveja e outras bebidas.
          Eu não tenho nenhuma ojeriza especial às moças que se dedicam às letras; ao contrário: acho que as meninas em geral têm muita vocação para isso, porquanto se vestem muito bem e com pouco dinheiro. Há grandes escritores que só são notáveis pelas suas roupas. Não preciso exemplificar porque tal coisa é sabida por todos.
          Um vestido bem talhado, por uma pobre costureira de qualquer grande casa de modas da rua do Ouvidor, deve ser título bastante para uma moça ser considerada uma honrada literata.
          A literatura nada tem a ver com a vida, com os seus choques inevitáveis, com as dores dos outros, com os problemas do nosso destino e da sociedade; a literatura é um negócio de contramestra de casa de confecções (cuidado com o Assis Sintra) e modas.
          Que sabe uma mulher, uma “melindrosa”, ali da avenida, a respeito da dor de uma pobre rapariga criada de servir?
          Nada. Entretanto, ela esteve no Colégio de Sion e fala mais ou menos o francês e, do resto dos homens e das mulheres que não são da sua roda, ela tem um grande desprezo.
          Para ela, essa gente não tem alma, como certo concílio afirmou no tocante às mulheres.
          Pois então, dirá essa dama prendada, aquele sujeito que vai ali tão feio e tão sujo podei dizer merci?
          Por isso mesmo, porque as mulheres não compreendem nada disto; porque elas não têm uma visão larga e profunda da Humanidade; porque elas nunca viram a dor dos humildes nem se interessaram por ela; por isso é que elas são grandes escritoras.
          As suas qualidades primordiais estão em colocar bem os pronomes, em saber que quem descobriu a América foi Cristóvão Colombo, em afirmar que o ar é uma mistura e responder logo de pronto que a batalha de Lepanto foi em 1571.
          A minha opinião, a vista do exposto, é que a academia deve ser composta só de mulheres, que ela não deve ter mais biblioteca, arquivo, nem coisas parecidas. O que ela deve ter são joias montadas, alfinetes e grampos para chapéus.
          Dessa forma, ela pode muito concorrer para o progresso das letras pátrias.

[revista] Careta, Rio, 19-2-1921

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Lima Barreto: Médicos e gramáticos


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          Este nosso Brasil tem coisas interessantes e que põem os mais sagazes atarantados, para explicá-las.
          Os médicos aqui dão em gramáticos e que gramáticos! ferozes, interessantes, falando e escrevendo uma língua arcaica, que só pode ser compreendida por quem dispuser de quinhentos ou mais mil-réis, para comprar um alentado Domingos Vieira.
          Micróbios, bacilos, toxinas e outras coisas ultramodernas da ciência deles, os nossos esculápios as expõem na linguagem de Rui de Pina e Azurara, segundo a gramática de João de Barros, que é de 1540, quando ninguém sonhava com tais novidades.
          Os gramáticos não olhavam com bons olhos uma tal invasão, por parte dos cirurgiões, na sua seara. Ruminaram a vingança, durante muito tempo. Acharam afinal uma e foi de truz! Deram em dar consultas grátis, não nos fundos das boticas, mas nas páginas mortas dos jornais diários. Assim como um sujeito que não tem dinheiro e sente fortes dores de barriga, corre à consulta grátis do doutor, na farmácia mais próxima; assim também um cidadão dado a gramáticas, mas que não quer comprar por quatro mil-réis uma de qualquer autor e tem dúvidas se é “um dos que foi” ou “um dos que foram”, afia a pena, escreve uma carta, consultando o gramático de certo jornal, tal e qual o outro das dores de barriga faz com o médico da botica.
          Os gramáticos, porém, não pararam aí, na sua vingança contra os médicos. Foram além. Criaram uma patologia linguística e deram em estudá-la, já em artigos, já em opúsculos e livros.
          Termos de argot, de calão, construções populares, modismos profissionais, eles se puseram a analisar, a explicar, ao jeito do que fazem os médicos com as doenças, moléstias, lesões etc.
          O “dialeto caipira”, de São Paulo, mereceu um estudo completo do senhor Amadeu Amaral. Já não se trata mais de calão de ladrões e malfeitores, que tem sido muito estudado, havendo até dessa gíria dos gatunos do Rio um vocabulário muito bem feito pelo senhor Elísio de Carvalho.
          Os atuais estudos dos modernos gramáticos vão mais longe: abrangem o falar dos habitantes de grandes regiões do país, não se limitam ao vocabulário e entram pela sintaxe adentro. Vão sendo da moda tais indagações.
          O senhor Süssekind de Mendonça, com o sucesso que obteve o seu livro sobre football, parece ter tomado gosto por coisas de livraria e fez-se livreiro.
          Estreou as edições de sua casa com uma obra do doutor Roquete Pinto Conceito atual da vida; e uma outra muito curiosa, versando sobre um capítulo de “Patologia linguística”. Trata-se de O linguajar carioca, em 1922, pelo senhor Antenor Nascentes.
          É tê-lo em mãos, durante os quinze dias, um qualquer gaúcho ou acreano ficara logo “carioca da gema”. Acho muito útil, agora que se vai dar uma mudança de governo, porque, quando isso acontece, no séquito do novo presidente, vem muitos tabaréus, à cata de empregos aqui, no Rio. Naturalmente não sabendo o nosso “linguajar”, nos primeiros dias ficarão atrapalhados; entretanto, se adquirirem o livro do doutor Nascentes, desde já, tal coisa não acontecerá.
          Pelo que veem não foi sem utilidade que os médicos deram em fazer gramática e os gramáticos, patologia. Ainda bem.

[revista] Careta, Rio, 11-11-1922

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Lima Barreto: O Príncipe Tatu

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          Das notas que andei tomando há anos, de histórias, contos, ditos, crendices do povo, conforme me contavam nos azares dos passeios e dos encontros, guardei uma: “História do Príncipe Tatu”, que nunca vi escrita nem nunca ouvi narrada senão pela pessoa que ma pronunciara pela primeira vez. Foi ela uma senhora da minha vizinhança a quem já aludi nestas rápidas notas e cujo nome talvez tenha demais vezes citado. Trata-se de dona Minerva Correia da Costa, natural de Valença e residente à rua Piauí, em Todos os Santos, nesta cidade.
          É uma história complicada e longa, cheia de peripécias fantásticas e intervenções misteriosas, que não deixa de ter aquele fundo de todos os contos para crianças, de abnegação, de sacrifício primeiro, para afinal obter-se a felicidade completa. Abstenho-me de discutir se essa generalização é segura e se é útil. Não é caso para isso, pois não sou nem folclorista nem educador; mas, infelizmente, o povo parece não dar aos primeiros matéria para que os segundos organizem livros da carochinha dignos e de acordo com os ideais da nossa atual sociedade. Antes de tudo, porém, convém notar que já dei uma redação minha a essa história do Príncipe Tatu. Publiquei-a, com muitos erros de revisão, numa revista de inferiores do Exército, cujo nome me escapa agora. A publicação foi feita em dois números e ambos perdi-os eu; guardei as notas e agora as colijo da maneira que se segue:
          Estando uma vez o rei e a rainha à janela do seu palácio, viram passar um caçador com um tatu às costas. A rainha, até então, não tivera a felicidade de dar à luz um filho, e por isso disse para o rei:
           Ah! meu Deus! Vês tu!… Quem me dera ter um filho, mesmo que fosse como aquele tatu!
          Os seus desejos foram satisfeitos; e dentro de menos de um ano a rainha veio a ter um filho, que era um tatu perfeito.
          Apesar de ser assim, foi ele criado com todos os cuidados de um príncipe e educado e instruído, conforme a sua hierarquia em nascimento.
          Tendo crescido e chegado a época própria ao casamento, demonstrou desejo de desposar a filha de um conde, que tinha três.
          A moça aceitou o pedido com repugnância e impôs que o seu palácio e residência fosse decorado e guarnecido como se tratasse de um luto e o casamento se fizesse de preto. A condição foi aceita e assim os esponsais foram realizados.
          À hora de recolherem-se ao quarto nupcial, o Príncipe Tatu, que já encontrara a mulher no leito, disse:
           Ah! Quiseste que o nosso casamento fosse de luto, pois vais ver! Morre já e já!
          Em seguida, estrangulou a mulher, cuja morte foi atribuída a outra qualquer causa que não a verdadeira.
          Ao fim de alguns anos o Príncipe Tatu, que parecia ter esquecido todos os propósitos matrimoniais, mostrou desejos de casar-se com a segunda filha do conde. Houve espanto e mesmo sua mãe quis dissuadi-lo desta sua intenção.
          Da mesma forma que a primeira, entendeu a segunda o casamento fosse feito de luto e as salas do palácio em que ele se realizasse tivessem aspecto funéreo. Aconteceu-lhe a mesma coisa que à primeira noiva.
          O príncipe parecia teimar em escolher esposa sempre entre as filhas do conde. Chegou, portanto, a vez da terceira e esta, que tinha por madrinha uma boa fada, foi avisada de que devia desejar que as cerimônias do casamento fossem as mais festivas possíveis. Realizaram-se elas, portanto, com pompa e brilho como se fosse o enlace comum de um príncipe normal e uma princesa qualquer.
          Quando o Príncipe Tatu entrou nos aposentos conjugais encontrou a mulher com a fisionomia mais natural que se pode imaginar, e que o recebia como um verdadeiro noivo da espécie humana. Muito contente com isto, o Príncipe Tatu retirou o casaco e veio a ser o homem bonito que era, mas que o encantamento fizera animal. A moça ficou exuberante de alegria, e não satisfeita de saber-lhe o segredo, contou-o à mãe, a rainha.
          Sabedora que foi do caso, não pôde a mãe conter a curiosidade e veio ver, certa noite, o príncipe seu filho com a forma humana. Julgando que lhe fizessem bem e viesse ele a ter sempre a forma da nossa espécie, a mãe e mais a sua nora lembraram-se de queimar a casca óssea do tatu na persuasão que, despertando ele e não a encontrando, não pudesse mais retomar as formas do animal que aparentava a todos ser a sua. Tal, porém, não se deu.
          Sentindo o cheiro de osso queimado, o príncipe despertou e falou assim dolorosamente:
           Ah! ingrata! Foste revelar o meu segredo! Faltavam-me só cinco dias para desencantar…
          A princesa nada dizia só chorava; e o príncipe não a recriminava, mas continuava a falar com muito queixume na voz:
           Agora, se tu me quiseres ver, tens que ir às terras dos Campos Verdes.
          Dito isso, sem que ela pudesse perceber como, o Príncipe Tatu sumiu-se dos seus olhos totalmente, completamente.
          Passaram-se meses e anos e ela, sempre cheia de saudades, esperava que o seu marido voltasse da mesma forma misteriosa como a que envolvera o seu desaparecimento.
          Tal, porém, não se deu. E ela, cheia de saudades, não pôde por mais tempo suportar a ausência do Príncipe Tatu, seu marido de poucos. Arrumou a trouxa e sem norte e sem guia partiu em procura das tais terras que ninguém sabia em que canto do mundo ficavam. Andou muito, muito e muito, por esse mundo de Cristo, e topou afinal com uma casinha, à beira da estrada, junto da qual estava uma velhinha, de grande velhice e largo olhar de bondade.
           Minha velha perguntou a princesa , onde ficam as terras dos Campos Verdes?
          A velhinha abandonou um instante a renda que estava fazendo sobre a almofada, e respondeu ternamente, com voz macia e pausada:
           Minha netinha, quem deve saber disso é minha filha, a Lua; é ela quem percorre todos descampados; e ela que nos beija, é ela que nos ama; deve ser, portanto, ela, quem o saberá. Espera, minha netinha, que ela venha, pois não tardará.
          Como nas clássicas histórias da Princesa Scheherazada, parece, leitores amigos, que a aurora vem rompendo; devemos por isso interromper a narração para continuá-la na noite seguinte. Deixamos de pôr aqui o habitual “continua” dos romances-folhetins que os jornais trazem para o gáudio dos seus leitores artísticos, mas sem deixar de contar dentro de uma semana como se chega ao país dos Campos Verdes…

Hoje, Rio, 8-5-1919

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Lima Barreto: Macaquitos

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          Um jornal ou semanário de Buenos Aires, quando uma équipe brasileira de football, de volta do Chile e, onde fora disputar um campeonato internacional por lá passou, pintou-a como macacos.
          A cousa passou desapercebida, devido ao atordoamento das festas do Rei Alberto; mas, se assim não fosse, estou certo de que haveria irritação em todos os ânimos.
          Precisamos nos convencer de que não há nenhum insulto em chamar-nos de macacos. O macaco, segundo os zoologistas, é um dos mais adiantados exemplares da série animal; e há mesmo competências que o fazem, senão pai, pelo menos primo do homem. Tão digno “totem” não nos pode causar vergonha.
          A França, isto é, os franceses são tratados de galos e eles não se zangam com isto; ao contrário: o galo gaulês, o chantecler, é motivo de orgulho para eles.
          Entretanto, quão longe está o galo, na escala zoológica, do macaco! Nem mamífero é!
          Quase todas as nações, segundo lendas e tradições, têm parentesco ou se emblemam com animais. Os russos nunca se zangaram por chamá-los de ursos brancos; e o urso não é um animal tão inteligente e ladino como o macaco.
          Vários países, como a Prússia e a Áustria, põem nas suas bandeiras águias; entretanto, a águia, desprezando a acepção pejorativa que tomou entre nós, não é lá animal muito simpático.
          A Inglaterra tem como insígnias animais o leopardo e o unicórnio. Digam-me agora os senhores: o leopardo é um animal muito digno?
          A Bélgica tem leões ou leão nas suas armas; entretanto, o leão é um animal sem préstimo e carniceiro. O macaco verdade não tem préstimo; mas é frugívoro, inteligente e parente próximo do homem.
          Não vejo motivos para zanga, nessa história dos argentinos chamar-nos de macacos, tanto mais que, nas nossas histórias populares, nós demonstramos muita simpatia por esse endiabrado animal.

[revista] Careta, Rio, 23-10-[19]20

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Lima Barreto: Atribulações de um autor

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          Vou deixar a literatura.
           Por que?
           Porque ela nada rende, senão desgostos: além dos que provêm propriamente dela, há outros.
           Quais são?
           Você não imagina como sou assediado no bairro modesto em que moro. As crianças me pedem livros de “histórias”, os marmanjos querem cartas para namoradas; as moças querem versos; os velhos perguntam-me se tenho O judeu errante ou Os doze pares de França.
           Ora, bolas!
           Não se ria você; e a pura verdade garanto a você! Já me pediram até uma cantiga de carnaval para um “rancho” de moças... Veja você só!
           Que é que você disse?
           Que não sabia fazer versos, sobretudo os de... carnaval.
          Os dois amigos conversavam numa sala pobre de casa pobre, cuja única riqueza eram livros. O que acaba de falar repetiu:
           Vou deixar a literatura; é um aborrecimento...
           Mesmo que você a deixe, eles não acreditarão e continuarão a perseguir você.
           Você tem razão. Qual o remédio?
           É você mudar-se de bairro, ir para outro extremo da cidade.
           A idéia é boa, mas a despesa que tenho de fazer é grande.
           Não há dúvida; mas é preciso, meu caro.
           De resto, ainda por cima, sou perseguido pelos poetas incipientes. Eles me invadem a casa, com os seus poemas e novelas; convidam-me para isso e para aquilo; e, quando lhes dou uma opinião sincera, zangam-se e me desfeiteiam. Um inferno, Deus dos Céus!
           Por tudo isso, passam os autores célebres fez o outro rindo-se.
          — Mas eu não sou célebre. Se ainda fosse um acadêmico sisudo, vá!, mas não sou nem mais nem menos que um autor pobre, modesto e simples.
           E por isso mesmo é que eles procuram você. Se você fosse um autor grave, bem posto, que pesasse as palavras e os gestos, eles não procurariam; mas você não é assim, menino... o que se há de fazer?
           Há coisa mais séria que lamento: são os livros de valor que recebo, e sobre os quais não tenho tempo de dar notícia. São tantos que não me é possível atendê-los logo; e os seus autores hão de julgar que não o faço por descaso, desdém ou orgulho. Enfim: essa literatura é para mim um tormento. Vou deixá-la.
           Qual o quê! Você só a deixará com a Morte.
          O queixoso olhou o céu, através da janela do aposento, e disse com mágoa:
           Talvez nem assim...

Careta, Rio, 10-9-[19]21

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...