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terça-feira, 23 de maio de 2023

Álvares de Azevedo *: Pálida à luz da lâmpada sombria, . . . [soneto]

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Pálida, à luz da lâmpada sombria,
sobre o leito de flores reclinada,
como a lua por noite embalsamada,
entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti as noites eu velei chorando,
por ti nos sonhos morrerei sorrindo!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos, registra acerca da morte de Álvares de Azevedo: “Com 20 anos veio a falecer, em decorrência de perfuração intestinal em acidente cirúrgico. Outra versão indica que era portador de tuberculose pulmonar e grave lesão na fossa ilíaca, derivada de uma queda de cavalo. Foi o primeiro a morrer entre nossos principais poetas românticos, inaugurando aquilo que alguém chamou ‘a escola de morrer cedo’.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, estudou no Stoll e no Pedro II (ambos, colégios do Rio de Janeiro), foi poeta, cronista e ensaísta, cursou a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade, isso somado a uma queda de cavalo quando em passeio pelas ruas do Rio e à descoberta de um tumor na fossa ilíaca; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886) e outros textos; o poeta foi patrono da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Álvares de Azevedo: Dinheiro

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Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune,
adoré; on a considération, honneurs, qualités, vertus.
Quand on n’a point d’argent, on est dans la dépendance
de toutes choses et de tout le monde.
CHATEAUBRIAND

Sem ele não há cova! quem enterra
Assim grátis a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Danaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente,
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo.
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [de diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, estudou no Stoll e no Pedro II (ambos, colégios do Rio de Janeiro), foi poeta, cronista e ensaísta, cursou a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade, isso somado a uma queda de cavalo quando em passeio pelas ruas do Rio e à descoberta de um tumor na fossa ilíaca; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886) e outros textos; o poeta foi patrono da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Álvares de Azevedo: Meu sonho

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Eu

Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sanguenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso…
E galopas do vale através…
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?…
Tu escutas… Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és?  que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O fantasma

Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!…

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Poesia Fora da Estante (textos de vários poetas) — Volume 2, Organização de Vera Aguiar (Coord.), Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Ilustrações de Tatiana Sperhacke, 2013, 7ª. edição, Editora Projeto, Porto Alegre — RS; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP  Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Álvares de Azevedo: O lenço dela

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Quando a primeira vez, da minha terra
Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.
 
Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos...
E deu-me o lenço que molhava o pranto.
 
Quantos anos contudo já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto...

Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto!

(Lira dos Vinte Anos  3ª parte 
3º volume das Obras de Manuel
Antônio Álvares de Azevedo  1862)

Resultado de imagem para álvares de azevedo
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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Álvares de Azevedo: Spleen e Charutos * — (I) Solidão

Literatura Comentada Alvares de Azevedo
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Nas nuvens cor de cinza do horizonte
A lua amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.

Ergueu-se, vem da noite a vagabunda
Sem xale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É doida por amor da noite a filha.

As nuvens são uns frades de joelhos,
Rezam adormecendo no oratório;
Todos têm o capuz e bons narizes
E parecem sonhar o refeitório.

As árvores prateiam-se na praia,
Qual de uma fada os mágicos retiros...
Ó lua, as doces brisas que sussurram
Coam dos lábios teus como suspiros!

Falando ao coração que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
De ondas mortas no lençol de prata?

Minh'alma tenebrosa se entristece,
É muda como sala mortuária...
Deito-me só e triste, sem ter fome
Vendo na mesa a ceia solitária.

Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear comigo!


* Nota dos Organizadores: Spleen: palavra inglesa que sugere tédio, depressão, inatividade, estando geralmente ligada à ideia de mal do século. "Spleen e Charutos": nome bastante original, de certa forma até galhofeiro, uma vez que aproxima um estado de espírito e um objeto concreto e prosaico, mencionado repetidas vezes por Álvares de Azevedo em sua obra.
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Álvares de Azevedo  Literatura Comentada, seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por: Bárbara Heller, Luís Percival Leme de Brito e Marisa Lajolo, 1982, Editora Abril, São Paulo — SP; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Álvares de Azevedo: Lembrança de Morrer

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No more! o never more!
Shelley

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro

 Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade 
 é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade  é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos 
 bem poucos  e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

 Foi poeta  sonhou  e amou na vida. 

Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!


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Álvares de Azevedo  Literatura Comentada, seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por: Bárbara Heller, Luís Percival Leme de Brito e Marisa Lajolo, 1982, Editora Abril, São Paulo — SP; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Álvares de Azevedo: O poeta moribundo

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Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verso que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam
Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.

Coração, por que tremes? Vejo a morte ,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas! que amor petrificado!
Tão ante-diluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno...
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!

No inferno estão, suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos!

Ora! e forcem um'alma qual a minha ,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Álvares de Azevedo: Passei ontem a noite junto dela. (Soneto)

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Passei ontem a noite junto dela. 
Do camarote a divisão se erguia 
Apenas entre nós  e eu vivia 
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela 
Naqueles olhos negros! Só a via! 
Música mais do céu, mais harmonia 
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando! 
Nos lábios que sorriso feiticeiro! 
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro 
É sentir todo o seio palpitando... 
Cheio de amores! E dormir solteiro!

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Antologia da Literatura Mundial — Antologia de Poetas Brasileiros, Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, Quarta edição, 1961, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 — 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP — Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras  (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Álvares de Azevedo: Soneto (Um mancebo no jogo se descora...)

Um mancebo no jogo se descora,
Outro bêbado passa noite e dia,
Um tolo pela valsa viveria,
Um passeia a cavalo, outro namora.

Um outro que uma sina má devora
Faz das vidas alheias zombaria,
Outro toma rapé, um outro espia...
Quantos moços perdidos vejo agora!

Oh! não proíbam pois ao meu retiro
Do pensamento ao merencório luto
A fumaça gentil por que suspiro.

Numa fumaça o canto d'alma escuto...
Um aroma balsâmico respiro,
Oh! deixai-me fumar o meu charuto! 

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Álvares de Azevedo, Lira dos Vinte Anos, Volume 118 da Coleção L&PM Pocket, 2001, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 — 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP — Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Álvares de Azevedo: Minha Desgraça

Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...

Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.
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Álvares de Azevedo, Lira dos Vinte Anos, Volume 118 da Coleção L&PM Pocket, 2001, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 — 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP — Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

domingo, 16 de setembro de 2012

Álvares de Azevedo: Namoro a Cavalo

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Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.

Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores
E
em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado. 

Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia — em casamento. 
 
Ontem tinha chovido... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama... 

Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada... 

Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela... 

O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada... 

Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode. 

Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...


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Álvares de Azevedo, Lira dos Vinte Anos, Volume 118 da Coleção L&PM Pocket, 2001, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 — 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP — Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

Álvares de Azevedo: É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!

É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi — minha fada aérea e pura
A minha lavadeira na janela!

Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso:
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...

Oh! Decerto (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela que amanhã decerto
Ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim mais bela, — eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela! —

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 Álvares de Azevedo, Lira dos Vinte Anos, Volume 118 da Coleção L&PM Pocket, 2001, L&PM Editores, Porto Alegre  RS; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831  1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP  Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Álvares de Azevedo: Se eu morresse amanhã

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.
Imagem relacionada
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Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
           Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro.
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
          Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
          Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
          Se eu morresse amanhã!


Grandes Poetas Românticos do Brasil,
Lep, 1949


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Presença da Literatura Brasileira, História e Antologia  Das Origens ao Realismo: Antonio Candido  e José Aderaldo Castello, 1987, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro RJ; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831  1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP  Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).