Mostrando postagens com marcador Myriam Fraga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Myriam Fraga. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de junho de 2021

Myriam Fraga: Cicatrizes*

 
____________________
A face calcinada,
O desespero
Do amargo desengano.

A alegria se foi.
Restou-me o canto,
Derradeiro refúgio
Último quarto
Da obscura morada.

Restou o canto
Ao pássaro,
Restou o canto,
O abecedário,
A palavra;
Inventário do homem.

Sobrou o que sobrou
O estilo na carne,

Sobrou o que sobrou,
O louco intérprete
Da alma de ninguém
Do coração de tudo.

Hoje o homem é a sombra
Do pássaro,
Hoje o homem é o canto vivo
Da ramagem

A lembrança de fundas cicatrizes.

Myriam Fraga

Cicatrices

La face calcinée,
le désespoir
de l amère désilusion.

La joie s’en est allée.
Il m’est resté le chant,
dernier refuge
dernière chambre
de l’obscure demeure.

Il est resté le chant
à l’oiseau,
il est resté le chant,
l’abécédaire,
le mot;
inventaire de l’homme.

Il est resté ce qui a excédé
le style dans la chair,

Il est resté ce qui a excédé,
le fol interprète
de l’âme de personne
du coeur de tout.

Aujourd’hui l’homme est l’ombre
de l’oiseau,
aujourd’hui l’homme est le chant vif
de la ramure

le souvenir de profondes cicatrices.

Nota da edição: Poema compilado por Olga Savary / Poème compilé par Olga Savary
____________________
Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Myriam Fraga (1937 2016), baiana de Salvador, foi poeta, biógrafa e administradora cultural (diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, desde a sua fundação em 1986); membro da Associação Baiana de Imprensa, foi colaboradora de diversos jornais e revistas e, de 1984 a 2004, manteve coluna semanal no jornal A Tarde, em Salvador; obras: Marinhas (1964), Sesmaria (1969, Prêmio Arthur Salles), O livro de Adynata (1975), A ilha (1975), O risco na pele (1979), A cidade (1979), As purificações ou O sinal de Talião (1981), A lenda do pássaro que roubou o fogo (1983) entre outros títulos.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Myriam Fraga: Eu sou ninguém

____________________
Eu que não tenho face
Eu sou ninguém
No entanto
Eu sou o canto a cólera a quimera
Eu sou o pássaro sofrer
Eu sou o homem
Em busca de seu sonho
Eu sou o sonho

O fogo
No tormento da volta
Eu sou a rota
Do pássaro no céu
Eu sou a terra semeada
Eu sou as mãos batendo
O ritmo das palmas
Eu sou
A simetria e a cor
Da palavra esperança.

A primavera é nossa
E a luz
Cristalina paisagem.

Myriam Fraga

Je suis personne

Moi, je n’ai plus de face
Je suis personne
Cependant
Je suis le chant la colère la chimère
Je suis l’oiseau souffrir
Je suis l’homme
À la recherche de son rêve
Je suis le rêve.

Le feu
Dans le tourment du retour
Je suis la route
De l’oiseau dans le ciel
Je suis la terre semée
Je suis les mains battant
Le rythme des palmes
Je suis
La symétrie et la couleur
Du mot espérance.

Le printemps est à nous
Et la lumière
Cristallin paysage.
____________________
Chemins Scabreux — revue littéraire bilingue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Myriam Fraga (1937 2016), baiana de Salvador, foi poeta, biógrafa e administradora cultural (diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, desde a sua fundação em 1986); membro da Associação Baiana de Imprensa, foi colaboradora de diversos jornais e revistas e, de 1984 a 2004, manteve coluna semanal no jornal A Tarde, em Salvador; bibliografia: Marinhas (1964), Sesmaria (1969, Prêmio Arthur Salles), O livro de Adynata (1975), A ilha (1975), O risco na pele (1979), A cidade (1979), As purificações ou O sinal de Talião (1981), A lenda do pássaro que roubou o fogo (1983), entre outros.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Myriam Fraga: Ars poetica


Poesia é coisa
De mulheres.
Um serviço usual
Reacender de fogos.

Nas esquinas da morte
Enterrei a gorda
Placenta enxundiosa

E caminhei serena
Sobre as brasas
Até o lado de lá
Onde os demônios habita.

Poesia é sempre assim:
Uma alquimia de fetos,
Um lento porejar
De venenos sob a pele.

Poesia é a arte
Da rapina.
Não a caça, propriamente,
Mas sempre nas mãos
Um lampejo de sangue.

Em vão,
Procuro meu destino:
No pássaro esquartejado
A escritura das vísceras.

Poesia como antojos,
Como um ventre crescendo,
A pele esticada
De úteros estalando.

Poesia é esta coisa
Delicada e perversa,
Esta umidade perolada
A escorrer de meu corpo,

Empapando-me as roupas
Como uma água de febre.
Sincretismo, de Pedro Lyra (1995)
____________________
Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 60, Seleção e Prefácio de Pedro Lyra, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo — SP; Myriam Fraga, baiana nascida em Salvador, em 1937, é poeta, biógrafa e administradora cultural (diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, desde a sua fundação em 1986); membro da Associação Baiana de Imprensa, foi colaboradora de diversos jornais e revistas e, de 1984 a 2004, manteve coluna semanal no jornal A Tarde, em Salvador; escreveu: Marinhas (1964), Sesmaria (1969, Prêmio Arthur Salles), O livro de Adynata (1975), A ilha (1975), O risco na pele (1979), A cidade (1979), As purificações ou O sinal de Talião (1981), A lenda do pássaro que roubou o fogo (1983), entre outros.