
[traduzido por Pedro Gonzaga]
eu lhes diria para ter um caso de
amor
fracassado, hemorróidas, dentes podres
e beber vinho barato,
para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez,
seguirem trocando a guarda de suas
camas de parede em parede
e depois eu lhes diria para terem
outro caso de amor fracassado
e nunca usar uma fita de seda na máquina
de escrever,
evitar os piqueniques em família
ou serem fotografados em um jardim coberto de
rosas;
para lerem Hemingway apenas uma vez,
pularem Faulkner
ignorarem Gogol
olharem fixo para as fotos de Gertrude Stein
e ler Sherwood Anderson na cama
comendo biscoitos Ritz água e sal,
perceberem que as pessoas que não param
de falar sobre liberação sexual
na verdade estão mais assustadas do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs debulhar o
orgão no rádio enquanto estão
fumando um Bull Durham no escuro
numa cidade estranha
restando apenas um dia pago de aluguel
após terem desistido de tudo
amigos, parentes e empregos.
jamais se considerem superiores e/
ou dentro da média
nem nunca tentem sê-lo.
tenham um outro caso de amor fracassado.
observem uma mosca sobre uma cortina de verão.
jamais tentem ter sucesso.
não joguem sinuca.
deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês
quando seus carros estiverem com pneu no chão.
tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.
então depois disso tudo
revertam o processo.
tenham um bom caso de amor.
e a coisa
que talvez aprendam
é que ninguém sabe nada —
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar.
e se por acaso vocês me pegarem
ensinando numa classe de escrita criativa
e me lerem este poema
eu lhe darei um A com louvor
bem no olho
do cu.
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| Charles Bukowski |
now, if you were teaching creative writing, he asked, what would you
tell them?
I'd tell them to have an unhappy
love
affair, hemorrhoids, bad teeth
and to drink cheap wine,
avoid opera and golf and chess,
to keep switching the head of
their
bed from wall to wall
and then I'd tell them to have
another unhappy love affair
and never to use a silk
typewriter
ribbon,
avoid family picnics
or being photographed in a rose
garden;
read Hemingway only once,
skip Faulkner
ignore Gogol
stare at photos of Gertrude Stein
and read Sherwood Anderson in bed
while eating Ritz crackers,
realize that people who keep
talking about sexual liberation
are more frightened than you are.
listen to E. Power Biggs work the
organ on your radio while you're
rolling Bull Durham in the dark
in a strange town
with one day left on the rent
after having given up
friends, relatives and jobs.
never consider yourself superior
and/
or fair
and never try to be.
have another unhappy love affair.
watch a fly on a summer curtain.
never try to succeed.
don't shoot pool.
be righteously angry when you
find your car has a flat tire.
take vitamins but don't lift
weights or jog.
then after all this
reverse the procedure.
have a good love affair.
and the thing
you might learn
is that nobody knows anything —
not the State, nor the mice
the garden hose or the North
Star.
and if you ever catch me
teaching a creative writing class
and you read this back to me
I'll give you a straight A
right up the pickle
barrel.
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O amor é um cão dos diabos — Charles Bukowski,
Tradução de Pedro Gonzaga, 2015, reimpressão L&PM Pocket Volume
888, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 — 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu
nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi
poeta, romancista e contista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e
literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa,
passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o
alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou
em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão;
depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos;
aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e
publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It
Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from
Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas
na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry
Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.




