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domingo, 8 de maio de 2022

Maria Thereza Cavalheiro: Contemplação

 
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O céu hoje parece um campo aberto,
todo de ovelhas mansas pontilhado...
O vento pastoreia, rumo incerto,
o seu branco rebanho, leve e alado...

O firmamento tem mais luz, por certo,
nesse esplendor azul de que é tomado,
para dar a impressão de que está perto
de nós o Ser Criador por nós amado.

Quantos segredos, quantos, que a razão
dos homens não consegue desvendar:
o mar, o céu, as matas — amplidão!

Esplêndida, infinita de beleza,
pudéssemos um dia revelar
as misteriosas leis da natureza!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Maria Thereza Cavalheiro, nascida em 1929, paulista e paulistana, formou-se em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo; escritora, jornalista, advogada, tradutora, ecologista e poeta trovadora, registrou seus textos em diversos jornais e revistas da capital paulista e também de outros locais; obras: Antologia Brasileira da Árvore (1960), Poema da Cidade Azul — Sinfonia de Brasília (1963), Nova Antologia Brasileira da Árvore (1974), Colombina e sua Poesia Romântica e Erótica (biografia e antologia, 1987), Estrelas e Vaga-Lumes — trovas (1988), Segredos do Bom Trovar (antologia, 1989), Relâmpagos — poemetos (1990), Encontros e Desencontros — poesia (1992), Cabeça de Mulher (contos, 1998), Trovas para Refletir (2009), além de textos incluídos em diversas outras publicações e antologias literárias.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Colombina: Alvorada

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Não sei quem és. Não sei de onde vens, nem qual seja
a vida para mim, um passo mais adiante...
Talvez a dor maior à minha espera esteja
talvez o amanhecer de um mundo deslumbrante!

Não importa saber. O qu’importa é que eu veja
e que ouça e sinta em ti a força avassalante
desse amor que me atrai... que cintila e flameja
como, depois da noite, a alvorada triunfante!

Não sei de onde tu vens, nem quem és. Tudo ignoro,
mas canta dentro em mim um pássaro canoro,
há febre no meu corpo e em meu sangue há esplendor...

Parece que o meu ser sai de um sono profundo:
chegas, para que eu feche os olhos para o mundo,
para que abra, feliz, os braços para o amor!

(Lampião de gás — 1937/1950/1961 — 3ª ed., p.76)

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Colombina — Yde Schloenbach — e sua poesia romântica e erótica (esboço biográfico e seleção de poemas), por Maria Thereza Cavalheiro, 1987, João Scortecci Editor, São Paulo — SP; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 — 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos — SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Colombina: Nessa noite

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Caíra no tapete o livro de poesia.
Nessa noite nós também não lemos mais;
a história de Francesca e Paolo revivia,
rugiam em nosso sangue ansiedades iguais.

Fora a noite? O silêncio? A lâmpada que ardia
e punha em nosso olhar reflexos irreais?
A atração que era mais que simples simpatia?
Quem compreende a razão dos momentos fatais?

Quem poderá explicar um raio em noite calma?
E muita vez é assim que vem o amor, e na alma
e nas veias é como um vulcão que acordou...

No tapete ficara o livro interrompido:
o passado, o amanhã, não tinham mais sentido...
para nós, nessa noite, o mundo se acabou!

(Gratidão — 1954 — 1ª ed., p.139)

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Colombina — Yde Schloenbach — e sua poesia romântica e erótica (esboço biográfico e seleção de poemas), por Maria Thereza Cavalheiro, 1987, João Scortecci Editor, São Paulo — SP; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 — 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos — SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

domingo, 24 de novembro de 2019

Colombina: A Carne

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Exiges. És ciumenta e egoísta. Não admites
qualquer rivalidade, ou que algo te suplante.
És forte e audaz no teu domínio sem limites,
capaz de transformar a vida, num instante.

És mísera e brutal. Mas nada obsta que agites
e açambarques o mundo! E que essa alucinante
e estranha sensação, que aos humanos transmites,
tenha, como nenhuma, um halo deslumbrante.

Ó carne que possuis no teu imo maldito
mais lodo que contém um charco pantanoso,
mais esplendor também que os astros do Infinito!

Rugindo de volúpia e de sensualidade,
espalhando na terra apoteoses de gozo,
ó carne, serás tu, a única verdade?

(Distância — 1947/1953 — 2ª ed.; p.32)

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Colombina — Yde Schloenbach — e sua poesia romântica e erótica (esboço biográfico e seleção de poemas), por Maria Thereza Cavalheiro, 1987, João Scortecci Editor, São Paulo — SP; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 — 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos — SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Colombina: Quando eu morrer

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Não quero um mausoléu de mármore ou granito
sobre o pó que serei... Não quero uma capela!
Que velem o meu sono os astros do infinito,
Que, mudos, dizem mais que a palavra mais bela!

Não ponham uma cruz sobre o lugar restrito
onde vou descansar, enfim. Bastou-me aquela
que sempre carreguei neste mundo maldito:
foi pesada demais — quero esquecer-me dela.

Quando eu morrer... que as mãos dos meus amigos plantem,
na minha campa humilde, uma árvore qualquer,
que dê flores e sombra e onde os pássaros cantem.

E, se possível for, uma roseira ao lado,
que diga, a quem passar, que um sonho de mulher
do pó ressuscitou, em rosas transformado!

(Distância — 1947/1953 — 2ª ed., p.31)

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Colombina — Yde Schloenbach — e sua poesia romântica e erótica (esboço biográfico e seleção de poemas), por Maria Thereza Cavalheiro, 1987, João Scortecci Editor, São Paulo — SP; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 — 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos — SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Colombina: As minhas mãos

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Das minhas mãos, um poeta disse, um dia,
que o sumo Criador, para fazê-las,
se inspirara num lírio que floria
sob a brancura etérea das estrelas.

Um boêmio que rendia ao sensualismo
um culto por demais apaixonado,
julgava nelas ver, sobre um abismo
erguida, a taça rubra do pecado.

Um sábio que de muito longe vinha,
após ter lido a minha mão, falara
que nelas cintilava, em cada linha,
de um grande amor a flama intensa e clara.

Depois uma cigana amorenada
(julgando que elas fossem mãos de artista)
jurou que estava nelas estampada
a glória que tão raro se conquista.

E disse alguém no instante da partida,
beijando-as com respeito e com ternura,
que em minhas mãos havia escrito a vida
um compêndio de sonho e de ventura.

Todos erraram, todos. Nada veio
às minhas pobres mãos sempre vazias...
Tão fácil é inventar um galanteio!
E nos enganam sempre as profecias...

Em vão, para a distância se estenderam,
valor não teve a prece que as unira...
E tudo o que nas suas palmas leram
nunca passou de engano e de mentira.

Minhas humildes mãos nada alcançaram:
das rosas, só os espinhos foram seus;
nelas, apenas lágrimas tombaram,
só aprenderam a dizer adeus...

(Distância — 1947/1953 — 2ª ed., pp. 100/101)

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Colombina — Yde Schloenbach — e sua poesia romântica e erótica (esboço biográfico e seleção de poemas), por Maria Thereza Cavalheiro, 1987, João Scortecci Editor, São Paulo — SP; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 — 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos — SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Colombina: A Defesa da Carne

Resultado de imagem para Colombina — Yde Schloenbach — e sua poesia romântica e erótica (esboço biográfico e seleção de poemas), por Maria Thereza Cavalheiro,
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“Execrável matéria, pecadora
carne que tanto atrais!
Maldita ré, eterna causadora
dos crimes passionais:

Tu és a perdição de tantas Evas
sem família e sem lar.
Da torre de marfim do sonho as levas
ao triste lupanar.

Por tua causa, o homem de bem esquece
o que jurou com fé,
correndo atrás de ti, se humilha e desce
à sarjeta, à ralé...

As baixezas do mundo representas,
és origem do mal!
Num pedestal de miasmas é que ostentas
o teu poder brutal.

Matéria desprezível, carne imunda,
onde está o teu valor?"
E ela responde, altiva: "Sou oriunda
de um momento de amor.

Que o espírito é o que vale, todos dizem,
só para me humilhar;
mas tal valor não obsta que precisem
de mim, carne vulgar.

Sou bárbara, porque desato os freios
de todas religiões...
Chamam-me fraca e nutrem-se em meus seios
todas as gerações.

Movimento, calor, ação e luta
e força e vida, eu sou;
se passageira e fraca ou forte ou bruta,
foi DEUS que me criou.

Nas rudes mãos do lavrador eu ponho
a enxada... Ao sonhador,
para plasmar em realidade um sonho,
eu trago a luz e a cor.

Eu sou o olhar que vê; a mão que escreve;
sou a boca que diz
o que o espírito pensa; e, embora breve,
sou o instante feliz.

Sem mim o que seria a vida inteira,
se todo o encanto seu
consiste em ser incerta, passageira
e imperfeita como eu?

Dizem que trago a dor, mas também trago
o prazer de sentir
o desejo, a carícia, o beijo, o afago
e a glória de possuir!

Eu trago a sensação que o mundo chama
a ventura do amar!
E, se o espírito é luz, eu sou a flama
que aquece a terra e o mar...

Eu sou a mão que afaga e acaricia
e que aperta o punhal:
sou ódio e amor! Sem mim não haveria
nem sonho, nem ideal.

Sou a boca que beija e sou ainda
o sangue e o coração:
continuo de DEUS a obra mais linda,
eu sou a CRIAÇÃO!”

(Rapsódia Rubra — 1961 — 1ª ed., pp. 25/27)

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Colombina — Yde Schloenbach — e sua poesia romântica e erótica (esboço biográfico e seleção de poemas), por Maria Thereza Cavalheiro, 1987, João Scortecci Editor, São Paulo — SP; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 — 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos — SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.