quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Fábian Restivo: Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Nunca esquecerei Dom Vitoriano López

 
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[traduzido por Rogério Tomaz Jr.]

          — Entre as suas lembranças, há um funileiro que te marcou e te ensinou diversas coisas.
          — Sim, seu nome era dom Vitoriano López. Eu era um menino, quase uma criança, e o conheci quando tinha onze ou doze anos, por aí. Os mais velhos contavam que ele havia chegado ao bairro e comprado um pequeno terreno à beira de um balneário. E ali fez uma casinha de madeira, que naquele tempo era forrada com chapa. Era funileiro, estrava construindo o seu terreno. Ele havia sido peão de manutenção de uma fábrica, La Uruguayana Avante, como soldador e mecânico. Ele veio já como um homem muito maduro, chegou velho. Já tinha se separado e tinha outra mulher, uma galega. Tinha uma oficina bacana, as arruelas em potes de vidro. E era o funileiro do bairro. Naquela época, uma panela era cara, quando ela furava você tinha que consertar e trocar o fundo. Assim, havia muitas coisas para se consertar e aquele homem fazia um trabalho bárbaro. Ele fazia umas soldas que pareciam cirurgia e, quando te entregava o trabalho, sorria como se dissesse: “Olha, guri, olha que qualidade”. Acontece que ele sabia de tudo. Lá em casa, por exemplo, tinha uma bomba velha que um dia não quis tirar mais água, mas dom Vitoriano não saía para trabalhar fora e teríamos que levar ela para ele lá. Mas ele disse: “Bem, vou ver se consigo passar por aí e vê-la”. Ele veio, olhou e disse: “Isso é uma Marelli, perceba que a estrela que bombeia a água está desgastada. Desmonte aqui e leve para mim que eu conserto, depois eu monto”. Com certeza, ele encheu a estrela com solda. Ele veio, montou e lembro que colocou umas arruelas de couro que apertavam a bomba. Ficou perfeita e ele riu. Depois, ainda tínhamos controle de importações, uma escassez bárbara de peças de reposição, não havia nada. Tinha um carro velho, um Chevrolet 28 de quatro cilindros, que tinha o tanque atrás, mas, em vez de bomba, tinha uma coisa chamada vácuo, que criava vácuo e sugava, mas funcionava mal. Então eu disse a ele: “Não seria bom colocar uma bombinha elétrica?”, e ele olha para mim e diz: “Sabe de uma coisa? Quem inventou isso sabia mais do que você e eu, isso deve estar sugando ar”. Na verdade, ele tinha razão. Aí descobriu que o carro estava um desastre, estava fundido. Não havia metais e ele me disse: “Olha, vá de bicicleta até uma concessionária, pegue os metais velhos que foram arrancados dos motores e traga-os para mim”. Colocou o virabrequim em uma morsa e, com um maçarico de querosene, começou a derreter os metais velhos e a preencher as peças. Depois virava e desmontava outra vez, e ficou perfeito. Ele fez isso mil vezes na vizinhança. Agora, uns anos depois, um dia o encontrei no ponto de ônibus com o macacão todo rasgado e lhe disse: “Aonde você vai, Vitoriano?”. E ele me diz: “Sabe de uma coisa? Vou morrer logo e tenho que deixar para a velha, que tanto me acompanha, uma boa casa. Compro materiais de empresas de demolição e me visto assim porque baixam o preço, entende?”. E, sabe, ele construiu uma casa para ela com velhos tijolos franceses, antigos. Ainda acho que consigo ver a mulher enchendo os baldes com mistura e ele num andaime fazendo as paredes. Uma linda casa. Ele tinha uma hortinha aqui, eram os melhores tomates do bairro. Fazia vinho porque tinha um parreiral. Criava coelhos para comer carne. Ele estudou como é o ninho natural dos coelhos no chão e fez para eles um ninho de concreto com o mesmo formato, enterrado, onde o esterco vai para um lado e a urina para o outro, acredita? Fazia doces. A mulher teve um problema na perna, sabe? Ela era uma veterana, então ele inventou um solado com uma mola. Ficava assim e tac, o salto se acomodava sozinho, não precisava levantar a perna. Ele era um cara brilhante, brilhante no seu ofício, e eu dizia a mim mesmo: “Ele deve ter sido um engenheiro desperdiçado”. Um cara tão talentoso, tão criativo, percebe? O cara é impactante e virou uma espécie de símbolo para mim porque era um trabalhador eficiente, com habilidade manual, com múltiplos ofícios. O conhecimento que a diversidade gera, porque usava uma solda como usava um torno ou uma bússola.
          — Como na época dos grandes inventores, caras que criavam...
          — Sim, sim, por isso que estou lhe contando. Seu nome era dom Vitoriano López, nunca esqueci seu nome. Um personagem inesquecível do meu bairro.

(Conversas com Pepe Mujica... pág. 110)

Fabián Restivo
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Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Fabián Restivo, Tradução de Rogério Tomaz Jr., texto da quarta-capa por Olívio Dutra, 1ª edição, outono de 2024, Editora Coragem, Porto Alegre — RS; Fabíán Restivo, nascido em 1961, argentino, ‘autointitulado “um fotógrafo que escreve”’, é jornalista, escritor, fotógrafo, documentarista e cineasta; frequentou a Universidad Mayor de San Andrés — La Paz, Bolívia, escreve para o jornal argentino Página 12; o autor deste Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica tem “mais de 40 anos de carreira e obras publicadas internacionalmente”, foi fotógrafo do documentário Adiós, comandante Che (dirigido e roteirizado por Edgardo Cabeza, 1997) e também dirigiu o documentário Conversas com Pepe Mujica (2024); Fabián Restivo ainda realizou outros trabalhos "nos mais variados formatos, inclusive direção de teatro ou programas de canais de televisão".

José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, nascido em 1935, uruguaio de Paso de La Artena — Montevidéo, é político e agricultor, foi presidente do Uruguai (2010 — 2015), senador (2015 — 2018), combatente contra a ditadura militar uruguaia, guerrilheiro e membro do então Movimiento de Libertación Nacional — Tupamaros, na década de 1960 — 1970, época em que foi preso algumas vezes, na última permanecendo recluso por 13 anos, tendo sido libertado em 1985, ao ser anistiado no final do período ditatorial; foi presidente pro tempore do Mercosul em 2013, reside em Rincón del Cerro, Montevidéo — Uruguai; Pepe Mujica já havia sido deputado por Montevidéo (1994), senador (1999), ministro da Agricultura, Pecuária e Pesca (2005).

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Musset: Vésper

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[traduzido por Teófilo Dias]

Pálida estrela da tarde,
Por céus longínquos perdida,
Cuja fronte enrubescida
Do poente rasga os véus,
Dize, — que avista no prado
Teu vago olhar sonolento,
Caindo do firmamento,
— Dos paços azuis dos céus?

Calmou-se tormenta e vento;
E a floresta murmurante
Derrama orvalho rorante
Nas plantas murchas do chão;
Louros insetos ligeiros
Pelas floridas campinas,
Dentre as moitas de boninas,
Rutilam na escuridão.

Não vês na teia dormente?...
Mas já por trás das montanhas
Vejo a luz de que te banhas
Docemente vacilar,
Enquanto, ó pálida amiga.
Nela, sorrindo, se apaga
Tu foges na etérea plaga,
Teu melancólico olhar.

Formosa estrela que desces
Por sobre a verde colina,
Da noite no manto frio,
Alvo do olhar da pastora
Que vem da serra cantando
Enquanto a segue badalando
Seu nédio armento tardio.

Ah! por essa noite imensa,
Que busca a luz feiticeira?
— Fresco leito, d’água à beira,
Onde te possas dormir?
— Ou nas horas do silêncio
No vasto seio dos mares,
— Pérola solta nos ares,
Vais de repente cair?

Se deves morrer tão cedo...
Se hão de afundar-nos nos mares
Teus merencórios luares
E os louros cabelos teus,
Astros do amor, ah! detêm-te!
Teu curso leve, suspende,
No azul do espaço te prende!
Não desças nunca dos céus!

Alfred de Musset

Le saule
[Pâle étoile du soir, messagère lointaine, . . .]

(extrait)
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II
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Pâle étoile du soir, messagère lointaine,
Dont le front sort brillant des voiles du couchant,
De ton palais d'azur, au sein du firmament,
       Que regardes-tu dans la plaine?

La tempête s'éloigne, et les vents sont calmés.
La forêt, qui frémit, pleure sur la bruyère,
Le phalène doré, dans sa course légère,
       Traverse les prés embaumés.

    Que cherches-tu sur la terre endormie?
Mais déjà vers les monts je te vois t'abaisser;
Tu fuis, en souriant, mélancolique amie,
Et ton tremblant regard est près de s'effacer.

Étoile qui descends vers la verte colline,
Triste larme d'argent du manteau de la Nuit,
Toi que regarde au loin le pâtre qui chemine,
Tandis que pas à pas son long troupeau le suit, —

Étoile, où t'en vas-tu, dans cette nuit immense?
Cherches-tu sur la rive un lit dans les roseaux?
Où t'en vas-tu si belle, à l'heure du silence,
Tomber comme une perle au sein profond des eaux?

Ah! si tu dois mourir, bel astre, et si ta tête
Va dans la vaste mer plonger ses blonds cheveux,
Avant de nous quitter, un seul instant arrête; —
Étoile de l'amour, ne descends pas des cieux!

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[Premières Poésies (1829-1835), Charpentier,
1863 (p. 176-202). — Le Saule — Fragment]
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Alfred Louis Charles de Musset (1810 — 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris;  “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier — bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Francisco Inácio Peixoto: Joelho

 
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Orografia mínima
entre perna e coxa.
Um dedo basta
para sentir-lhe as pequenas dunas
as ligeiras covas
onde o tato se compraz.
Se a mão espalma em concha
a gelatina da carne
um bicho nela oculto freme
titila
explodindo em cio.

(Erótica, poemas, com desenhos
de Aldary Toledo — 1981)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 — 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito — UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias de Portugal e da Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

domingo, 27 de setembro de 2026

Vasko Popa: A morte do pai sol

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

A três passos do cume do céu
Da tília em eterna florada
O velho sol estacionado

Envermelhado esverdeado
Em torno de si três vezes gira

E regressa a sua nascença

(Que nem os nossos olhos morram)

Dizem o filho do sol tem um filho
Enquanto o olhudo não nasce para nós
Aprenderemos que esse escuro tem o brilho

Vasko Popa

Smrt sunčevog oca

Na tri koraka od vrha neba
Od lipe u večnom cvetu
Staro je sunce zastalo

Pocrvenelo pozelenelo
Okrenulo se oko sebe triput
I vratilo svom ishodu

(Na naše oči da ne umre)

Kažu da ima sina sunčevića
Dok se ok e za nas ne rodi
Naučićemo mrak ovaj da sija

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.”
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 — 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste — Romênia e na de Viena — Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земља], Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 26 de setembro de 2026

Clarice Lispector: Uma galinha

 
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          Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
          Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
          Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto voo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro voo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.
          Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
          Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
          Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.
          Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:
          — Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!
          Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
          — Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
          — Eu também! jurou a menina com ardor.
          A mãe, cansada, deu de ombros.
          Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
          Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
          Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
          Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

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Laços de família: contos — Clarice Lispector, Apresentação [texto-orelha do livro] de Lúcia Helena, 2009, Editora Rocco — RJ; Clarice Lispector (1920 — 1977) ou Chaya Pinkhasivna Lispector, nascida em Tchetchélnik — Ucrânia (então Rússia) e naturalizada brasileira, chegou ao Brasil ainda criança de colo, vinda com os pais e irmãs, desembarcou em Maceió — AL, ali residiu por um tempo, logo rumou para Recife — PE, cursou o primário no Grupo Escolar João Barbalho e no Colégio Hebreu-Ídiche-Brasileiro, estudou no Ginásio Pernambucano e, depois, já no Rio de Janeiro, completou o ginasial no Colégio Sílvio Leite, formou-se advogada pela Faculdade de Direito na Universidade do Brasil, foi romancista, contista, cronista, jornalista, redatora e tradutora; Clarice deu aulas particulares de português e matemática, aprendeu datilografia, frequentou a Cultura Inglesa; em 1940, teve seu primeiro conto, O Triunfo, publicado na imprensa, Revista Pan; naquele ano também iniciou-se no ofício de jornalista: primeiro na Agência Nacional (órgão do DIP — Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Getúlio Vargas), depois no jornal A Noite; escreveu artigos e outros textos, publicou contos na revista Vamos Ler!, no Diário do Povo (Campinas — SP), no semanário Dom Casmurro, na revista Época; conheceu escritores e jornalistas; em 1943 casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente (com quem teve dois filhos) e, por força das atividades consulares do marido, mudou-se para Belém — PA, depois Nápoles — Itália, Berna — Suiça, Torquay — Inglaterra, Chevy Chase — EUA (próximo a Washington DC); conheceu cidades e regiões europeias e nos Estados Unidos; em 1959 se separou do marido embaixador, retornou ao Rio de Janeiro e ali, com os dois filhos, fixou residência; após volta ao Rio, escritora já reconhecida, Clarice trabalhou nos periódicos Correio da Manhã, Diário da Noite, revista Senhor, Manchete, Jornal do Brasil; em seus textos literários fez valer recursos técnicos modernos: a análise psicológica, o monólogo interior, etc.; suas obras: Perto do Coração Selvagem (romance, obra de estréia, 1943), O Lustre (romance, 1946), Alguns Contos (1952), Laços de Família (contos, 1960), A Maçã no Escuro (romance, 1961), A Paixão Segundo G. H. (romance, 1964), A Legião Estrangeira (contos e crônicas, 1964), O Mistério do Coelho Pensante: uma história policial para crianças (infantil, 1967), A Mulher que Matou os Peixes (infantil, 1968), Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (romance, 1969), Água Viva (ficção, 1973), A Vida Íntima de Laura (infantil, 1974), A Hora da Estrela (novela, 1977), e outros títulos, entre edições e reedições; recebeu premiações; teve obra que virou filme (A Hora da Estrela) e encenações teatrais (Um Sopro de Vida e La passion selon G. H.).

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Nicolas Behr: nem tudo que é torto . . . & Ainda bem que o tempo passa

 
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nem tudo que é torto . . .

nem tudo
que é torto
é errado!

vede
as pernas
do Garrincha
e as árvores
do cerrado

— o —

Ainda bem que o tempo passa

pra Alcina

você se lembra?
era neste quarto
na casa de seus pais
que namorávamos
ouvindo joni mitchell
e egberto gismonti

você era uma das
ladies of the canyon
e eu o seu palhaço

hoje estamos dormindo
neste quarto novamente
com nossos três
filhos nossa família
Deus guarde a nossa família
e a sua

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Poesia de Brasília (antologia: [várias autorias]), Organização de Joanyr de Oliveira e Apresentação [orelhas do livro] de Jason Tércio, 1998, Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Nicolas Behr ou Nikolaus von Behr, nascido em 1958, mato-grossense de Cuiabá, fez o curso primário com padres jesuítas em Diamantino — MT, além de publicitário e paisagista, foi/é poeta; nos anos 1970/80, foi participante dos grupos conhecidos como da Geração Mimeógrafo e da “Poesia Marginal” juntamente com mais de uma centena de poetas de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e outras localidades; até 1980, o poeta publicara 10 livros mimeografados; seu trabalho de estréia, Iogurte com Farinha, teve 8.000 cópias vendidas, de mão em mão, nos bares e noutros locais públicos da Capítal Federal, o que o tornou, à época, uma das principais vozes da Poesia Marginal; em 1978, organizou a antologia poética Grande Circular: poemas com sabor bem Brasília, selecionando trabalhos seus e de outros mimeografeiros e poetas marginais; trabalhou como redator em agências de publicidade e engajou-se no movimento ecológico, tendo desenvolvido trabalho nesta área em ONGs; a partir de 1993 voltou a publicar seus textos; suas obras: livrinhos mimeografados, Iogurte com Farinha (agosto de 1977), Caroço de Goiaba e Chá com Porrada (ambos em julho de 1978), Bagaço (maio de 1979), Com a Boca na Botija (junho de 1979), Parto do Dia (julho de 1979), Elevador de Serviço, Põe sia nisso! e Entre Quadras (todos em agosto de 1979), Brasiléia Desvairada e Saída de Emergência (ambos em setembro de 1979), Restos Mortais (1980), entre outros textos; livros: Porque Construí Braxília (1993), Beijo de Hiena (1993), Segredo Secreto (1996), Estranhos Fenômenos (antologia, 1997), Umbigo (2001), Poesília — poesia pau-brasília (2002), Braxília revisitada, volumes 1 e 2 (2004/2005), Iniciação à dendolatria (2005), Laranja seleta: Poesia Escolhida 1977-2007 (2007), Beije-me (2009), O Itinerário do curativo (2022) e outros títulos; participou da Antologia da nova poesia brasileira, organizada por Olga Savary em 1992; também foi protagonista nos curta-metragens Braxília, de Danyella Proença (2010) e Babilônia Norte, de Renan Montenegro (2013); sua obra tem sido objeto de estudo em dissertações de mestrado pelo país afora e também de documentários; no início de sua vida poética, em 1978, Nicolas Behr foi preso e processado pelo então DOPS por posse de material pornográfico (seus livrinhos!) e absolvido em 1979.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Glauco Mattoso: Seu nome verdadeiro é Doroteu. . . . [soneto #4] & Legítima defesa foi a tese . . . [soneto #5]

 
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[soneto #4]

Seu nome verdadeiro é Doroteu.
A mana é Dorotéia e o Bugre, Ivan.
No dia da tragédia, foi a irmã
fazer compras na feira e um tempo deu.

O Bugre está de porre e quer que seu
caralho o cego chupe. No divã
reclina-se, esperando, e folgazã
ressoa sua voz: “Mama aqui, meu!”

O cego se recusa: “Isso eu não faço!
Já chega o que a Dorô chupa na marra!”
O Bugre no Chinelo desce o braço.

Tentando defender-se, a mão esbarra
na faca sobre a mesa. Um só pontaço
bastou: tombando, o Bugre sangue escarra.

[soneto #5]

Legítima defesa foi a tese
que a mídia divulgou, mas do Chinelo
ninguém se condoeu. Bate o martelo,
sem pena, o magistrado, e o réu que reze.

Na cela, o aperto faz que se reveze
quem queira se deitar, mas, antes belo,
agora o Doroteu, fraco e magrelo,
mal dorme e só resiste pela ascese.

A mana o visitava, mas, passado
um tempo, acha outro Bugre e está sumida.
O cego ninguém tem mais do seu lado.

Não fosse já difícil sua vida,
ainda fez burrice em ter contado
aos outros como a sola era lambida.

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Faca cega e outras pelejas sujas — Glauco Mattoso (com Danilo Cymrot e Leo Pinto), Série Mattosiana, Volume 1, 1ª edição: agosto de 2007, (Coleção Dix Editorial), 2007, Editora Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso, ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta, ensaísta, ficcionista e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP — São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo — SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro — RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo — SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo — SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo — SP), Panacéia — Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo — SP), O que é Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo — SP), O que é Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo — SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo — SP) etc etc etc, e bota etecetera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Clarice Lispector: Uma esperança

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          Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
          Houve um grito abafado de um de meus filhos:
          — Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça, numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não podia ser
          — Ela quase não tem corpo, queixei-me.
          — Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
          Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
          — Ela é burrinha, comentou o menino.
          — Sei disso, respondi um pouco trágica.
          — Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
          — Sei, é assim mesmo.
          — Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
          — Sei, continuei mais infeliz ainda.
          Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.
          — Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
          Andava mesmo devagar — estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
          Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
          — É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
          — Mas ela vai esmigalhar a esperança!, respondeu o menino com ferocidade.
          — Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros — falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.
          O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
          Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
          Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.

(Felicidade Clandestina: contos, 4ª edição, 1981,
Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ)
[A descoberta do mundo. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1984. p. 287-289.]

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O Primeiro Beijo & Outros Contos — Antologia: Clarice Lispector + entrevista [fictícia] criada a partir de depoimentos na imprensa, 16ª edição, 1999, Editora Ática, São Paulo — SP; Clarice Lispector (1920 — 1977) ou Chaya Pinkhasivna Lispector, nascida em Tchetchélnik — Ucrânia (então Rússia) e naturalizada brasileira, chegou ao Brasil ainda criança de colo, vinda com os pais e irmãs, desembarcou em Maceió — AL, ali residiu por um tempo, logo rumou para Recife — PE, cursou o primário no Grupo Escolar João Barbalho e no Colégio Hebreu-Ídiche-Brasileiro, estudou no Ginásio Pernambucano e, depois, já no Rio de Janeiro, completou o ginasial no Colégio Sílvio Leite, formou-se advogada pela Faculdade de Direito na Universidade do Brasil, foi romancista, contista, cronista, jornalista, redatora e tradutora; Clarice deu aulas particulares de português e matemática, aprendeu datilografia, frequentou a Cultura Inglesa; em 1940, teve seu primeiro conto, O Triunfo, publicado na imprensa, Revista Pan; naquele ano também iniciou-se no ofício de jornalista: primeiro na Agência Nacional (órgão do DIP — Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Getúlio Vargas), depois no jornal A Noite; escreveu artigos e outros textos, publicou contos na revista Vamos Ler!, no Diário do Povo (Campinas — SP), no semanário Dom Casmurro, na revista Época; conheceu escritores e jornalistas; em 1943 casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente (com quem teve dois filhos) e, por força das atividades consulares do marido, mudou-se para Belém — PA, depois Nápoles — Itália, Berna — Suiça, Torquay — Inglaterra, Chevy Chase — EUA (próximo a Washington DC); conheceu cidades e regiões europeias e nos Estados Unidos; em 1959 se separou do marido embaixador, retornou ao Rio de Janeiro e ali, com os dois filhos, fixou residência; após volta ao Rio, escritora já reconhecida, Clarice trabalhou nos periódicos Correio da Manhã, Diário da Noite, revista Senhor, Manchete, Jornal do Brasil; em seus textos literários fez valer recursos técnicos modernos: a análise psicológica, o monólogo interior, etc.; suas obras: Perto do Coração Selvagem (romance, obra de estréia, 1943), O Lustre (romance, 1946), Alguns Contos (1952), Laços de Família (contos, 1960), A Maçã no Escuro (romance, 1961), A Paixão Segundo G. H. (romance, 1964), A Legião Estrangeira (contos e crônicas, 1964), O Mistério do Coelho Pensante: uma história policial para crianças (infantil, 1967), A Mulher que Matou os Peixes (infantil, 1968), Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (romance, 1969), Água Viva (ficção, 1973), A Vida Íntima de Laura (infantil, 1974), A Hora da Estrela (novela, 1977), e outros títulos, entre edições e reedições; recebeu premiações; teve obra que virou filme (A Hora da Estrela) e encenações teatrais (Um Sopro de Vida e La passion selon G. H.).