terça-feira, 30 de junho de 2026

Tristan Corbière: Pária *

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Que repúblicas os contentem,
Homens livres! — rebanho preso —
Que suas proles amamentem!…
— Sou um cuco magro de desprezo.

— Coração eunuco, amputado
Daquilo que molhe ou que vibra…
Da Liberdade libertado
Estou! sempre só. Sempre livre.

— Minha Pátria… é o mundo afora;
Logo, não temo achar-me fora,
Pois que redondo o mundo é…
Minha pátria está onde a planta
— Em terra ou em mar — a planta
Dos meus pés — quando estou de pé.

— Quando deito: é a cama amada
Minha pátria, amarrotada,
Onde eu aperto contra o peito
Minha outra parte, desalmada;
É a mulher não encontrada,
Essa outra parte que estreito.

— O meu ideal: é um sonho
Oco; horizonte — o imprevisto —
E eu padeço de um mal medonho:
Saudade de algo nunca visto.

Que o rebanho siga a trilha,
De Carcassona a Tombuctu…
— Minha trilha me segue, milha
A milha, de norte a sul.

Meu bastão sobre mim revoa,
E tem o céu como coroa:
É meu cabelo contra o vento…
Não importa a língua falada,
Posso manter a boca fechada
Ou parlamentar com talento.

É um sopro árido o que penso:
É o ar. É o ar imenso.
Minha palavra é o eco mudo
Que não diz nada — e isso é tudo.

Meu passado: é o esquecido.
Só o que me mantém unido
São minhas mãos se dando, irmãs.
Lembrança — Nada. — Só a marca.
Presente — é tudo isso que passa
Futuro — Amanhã… amanhã.

Meu próximo não me é afim;
Sou aquilo que faço de mim.
— Odioso é o Eu humano…
— Não me odeio nem me amo.

— Vamos… a vida é uma dama
E ao seu bel-prazer fui posto…
O meu é: jogá-la na lama,
Prostituí-la a contragosto.

— Deuses?… — Vim por acaso a nascer;
Talvez existam — por acaso…
Se eles querem me conhecer,
Estou por aí, em todo caso.

— Morto, da minha pátria ganho
A mortalha de bom tamanho,
De um lado a outro do caminho…
Mas pra quê?… Se o que me encerra
É minha pátria que está na terra
Meus ossos irão bem sozinhos…

Tristan Corbière

Paria

Qu’ils se payent des républiques,
Hommes libres! — carcan au cou —
Qu’ils peuplent leurs nids domestiques!…
— Moi je suis le maigre coucou.

— Moi, — coeur eunuque, dératé
De ce qui mouille et ce qui vibre…
Que me chante leur Liberté,
A moi: toujours seul. Toujours libre.

— Ma Patrie… elle est par le monde;
Et, puisque la planète est ronde,
Je ne crains pas d’en voir le bout…
Ma patrie est où je la plante:
Terre ou mer, elle est sous la plante
De mes pieds — quand je suis debout.

— Quand je suis couché: ma patrie
C’est la couche seule et meurtrie
Où je vais forcer dans mes bras
Ma moitié, comme moi sans âme;
Et ma moitié: c’est une femme…
Une femme que je n’ai pas.

— L’idéal à moi: c’est un songe
Creux1.; mon horizon — l’imprévu —
Et le mal du pays me ronge…
Du pays que je n’ai pas vu.

Que les moutons suivent leur route,
De Carcassonne à Tombouctou2.…
— Moi, ma route me suit. Sans doute
Elle me suivra n’importe où.

Mon pavillon sur moi frissonne,
Il a le ciel pour couronne:
C’est la brise dans mes cheveux…
Et dans n’importe quelle langue;
Je puis subir une harangue;
Je puis me taire si je veux.

Ma pensée est un souffle aride:
C’est l’air. L’air est à moi partout.
Et ma parole est l’écho vide
Qui ne dit rien — et c’est tout.

Mon passé: c’est ce que j’oublie.
La seule chose qui me lie
C’est ma main dans mon autre main.
Mon souvenir — Rien — C’est ma trace.
Mon présent, c’est tout ce qui passe
Mon avenir — Demain… demain.

Je ne connais pas mon semblable;
Moi, je suis ce que je me fais.
— Le Moi humain est haïssable3.…
— Je ne m’aime ni ne me hais.

— Allons! la vie est une fille
Qui m’a pris à son bon plaisir…
Le mieniii, c’est: la mettre en guenille,
La prostituer sans désir.

— Des dieux?… — Par hasard j’ai pu naître;
Peut-être en est-il — par hasard…
Ceux-là, s’ils veulent me connaître,
Me trouveront bien quelque part.

— Où que je meure, ma patrie
S’ouvrira bien, sans qu’on l’en prie,
Assez grande pour mon linceul…
Un linceul encor: pour que faire?…
Puisque ma patrie est en terre
Mon os ira bien là tout seul…

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
* ‘Em “Pária”, Corbière critica não só os ideiais políticos e intelectuais da sociedade de seu tempo, mas toda forma de idealismo. Terminando a seção “Golpes da sorte”, ele repete que seu horizonte é o “imprevisto”. [“Pária” também foi traduzido por Augusto de Campos]
1. versos 21-22 — “Songe / creux” joga com o substantivo “songe-creux” [sonhador, aquele que devaneia]
2. verso 26 — Carcassona é uma cidade turística localizada no sul da França. Tombuctu fica na República do Mali, África. A rota traçada por Corbière é, evidentemente, imaginária;
3. verso 47 — Referência a Pascal.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês de Morlaix — Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 — 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Edith Södergran: A Lua

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[traduzido por Marcello Rolim Coelho]

Tudo o que é morto é maravilhoso
e inefável:
uma folha morta, uma pessoa morta
e o disco da lua.
E todas as flores sabem um segredo,
que a floresta guarda:
a órbita da lua em torno da terra
é a estrada da morte.
E a lua tece sua teia maravilhosa,
que as flores amam,
e a lua tece sua rede fabulosa
em torno de tudo o que vive.
E a foice da lua ceifa flores
em noites de fim de outono,
e todas as flores esperam o beijo da lua
em um anelo sem fim.

(Setembro de 1922)

Edith Södergran

Månen

Vad allting som är dött är underbart
och outsägligt:
ett dött blad och en död människa
och månens skiva.
Och alla blommor veta en hemlighet
och skogen den bevarar,
det är att månens kretsgång kring vår jord
är dödens bana.
Och månen spinner sin underbara väv,
den blommor älska,
och månen spinner sitt sagolika nät
kring allt som lever.
Och månens skära mejar blommor av
i senhöstnätter,
och alla blommor vänta på månens kyss
i ändlös längtan.

(September 1922)

Landet som icke är: postumt, redigerad av Hagar Olsson
(A Terra que Não É, póstumo, editado por Hagar Olsson, 1925)
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Poemas: Edith Södergran [edição bilíngue] — Seleção e Tradução de Marcello Rolim Coelho, 1ª edição brasileira: 2001, Grupo Editorial Cone Sul, São Paulo — SP; Edith Irene Södergran (1892 — 1923), finlandesa-sueca, nascida em São Petersburgo — Império da Rússia, foi poeta; ao que se sabe por sua biografia, Edith não frequentou escola infantil, foi educada em casa, aprendeu alemão com professora particular, língua mais falada na escola e entre seus amigos; de 1902 a 1909, estudou na Höhere Mädchenschule, em São Petersburgo, aprendeu “língua e literatura alemã, francesa, inglesa e russa” e outras atividades culturais, porém não tendo nunca recebido instrução formal em sueco; Edith Södergran, entre seus quatorze e dezesseis anos, “escreveu uns 225 poemas, dos quais vinte em língua sueca, cinco em francês e um em russo. Os demais eram todos em alemão [influenciados pela poesia de Heinrich Heine]”, após esse período escreveu somente no idioma sueco; aos 24 anos estreou na literatura com a coletânea de poemas Dikter, de sua biografia, também consta ter sido a poeta “uma das primeiras modernistas de língua sueca, influenciada pelo simbolismo francês, expressionismo alemão e futurismo russo”; suas obras: Dikter (Poemas — coletânea, 1916), Septemberlyran (A Lira de Setembro, 1918), Rosenaltaret (O Altar da Rosa, 1919), Brokiga iakttagelser — aforismer (Observações Variadas — aforismos, 1919), Framtidens skugga (Sombra do Futuro, 1920), Tankar om Naturen — aforismer (Reflexões sobre a Natureza, 1920, publicados na revista literária modernista Ultra em 1922), Landet som icke är: postumt, redigerad av Hagar Olsson (A Terra que Não É, póstumo, editado por Hagar Olsson, 1925), Vaxdukshäftet: skrivet 1907—1909, under titeln Ungdomsdikter 1907—1909, av Olof Enckell (póstumo, O livreto de figuras de cera: escrito entre 1907 e 1909, sob o título Poemas Juvenis 1907—1909, editado por Olof Enckell em 1961 e reeditado em 1997) ...; a poeta, que em 1908 havia contraído tuberculose pulmonar e chegou a ser interna em sanatórios por alguns períodos, teve seus últimos anos de vida “marcados pela doença e pela pobreza”

domingo, 28 de junho de 2026

Astrid Cabral: Revelação do vento & O Boto no corpo

 
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Revelação do vento

Quietas quedam-se árvores.
A flor, o singular alarde
da discreta vida em surdina.
No entanto, se ágil na tarde
o ar acorda e em prato sopra
as árvores se põem loquazes:
gesticulam abraçam dançam
sussurram cochicham cantam.
É quando súbito enxergamos
a prisão de troncos e ramos
e a longa noite das raízes.

O Boto no corpo

Corre no chão do corpo um rio escuro
de turvas águas e desejos fundos
linfa ancestral entre pêlos e apelos.
Nela, um boto prestes ao bote habita
e investe para que outros rios se gerem
e a vida não se aborte e eterna jorre.

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Poesia de Brasília (antologia: [várias autorias]), Organização de Joanyr de Oliveira e Apresentação [orelhas do livro] de Jason Tércio, 1998, Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense e manauara, formou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ, em Literatura Inglesa e Norte-Americana pelo IBEU — Instituto Brasil-Estados Unidos, Rio de Janeiro, fez mestrado em Teoria Literária pela UNB, Brasília — DF e em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas Estrangeiras, foi/é poeta, contista, professora, pesquisadora, tradutora e diplomata; ainda adolescente mudou-se para o Rio e, depois, por força do ofício, residiu em Brasília, Chicago, Beirute, além de em Manaus; lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB — Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; traduziu Resistance to Civil Government (A Desobediência civil) e Walden (Walden, ou a vida nos bosques) de H. D. Thoreau, ambos em 1984; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia — reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003), Palavra na berlinda (2011), Infância em franjas (2014) e outros títulos; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; recebeu premiações: Prêmio José Décio Filho, da União Brasileira de Escritores de Goiás (1981, por Ponto de Cruz), Prêmio Olavo Bilac, da ABL — Academia Brasileira de Letras (1987, por Lição de Alice), Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody (1998, por Intramuros), Prêmio Nacional de Poesia, da ABL (2004, por Rasos d’água) e outros.

sábado, 27 de junho de 2026

Lindolf Bell: Exercício para García Lorca

 
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Quando o vento das primaveras anuncia as florações e anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus versos tuas granadas abrindo as veredas do meu país livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua clara, as noites que maduram o coração da terra, os líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado guia no reino no bosque das vigílias, floresces e perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem, e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e as novas estações dos povos da coragem, as embiras as timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia, a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e os navios de verdades largas, tu Federico García Lorca, eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro mas está lá fora do meu país livre quando não sei, tu és o gravatá-do-campo, a flor verde, a bravura de meu país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema silvestre dos corações, há uma solução na garganta de meu país livre quando não sei.

(Incorporação: Doze Anos de Poesia, 1962 a 1973.
São Paulo [SP}, Quíron, 1974. © Rafaela Hering Bell.)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 — 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; obras: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes — APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola — África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (idiomas italiano, belga, inglês e espanhol).

Fernando Pessoa: Que se abram as janelas para o dia entrar . . . [trecho de Epitalâmio*]

 
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[versão em português, por Jorge de Sena]

I
Que se abram as janelas para o dia entrar
Como um estrondo ou um mar!
Recanto de vã sombra que não reste qual
Recorde o nocturnal.
Ou diga ao comparar do espírito que há coisas tristes!
Hoje tudo são chistes!
É manhã! Manhã alta! O Sol ergueu-se inteiro
E já do abismo veio
Em que a passada noite além da fímbria invista
Do horizonte persista.
Desperta a noiva agora. Oh, como treme toda
De ver que o dia esponta
Cuja tão prestes noite os corações em boda
Fará bater tão perto quanto a carne encontra.
Pensai como ela se alegra de um seu ir-se temido,
E os olhos não abre por temer que o prazer tema.
Ora da esperança chega o prazo tão dorido.
Como pensar não sabe que pensar extrema.
Oh, deixai-a demorar-se um dia ou um instante
Para ajustar-se ao transe
Que o seu pensar não sabe como há-de aceitar!
Porque é real o dia está como que irada.
Se o que deseja quer, quisera-se ficando.
Confuso é seu sonhar
Do sono à lenta beira que disseminada
A exacta esperança faz remotamente ondear.

(Lisboa, 1913)

Fernando Pessoa

I
Set ope ali shutters, that the day come in
Like a sea or a din!
Let not a nook of useless shade compel
Thoughts of the night, or tell
The mind's comparing that some things are sad,
For this day all are glad!
'Tis morn, 'tis open morn, the full sun is
Risen from out the abyss
Where last night lay beyond the unseen rim
Of the horizon dim.
Now is the bride awaking. Lo! she starts
To feel the day is home
Whose too-near night will put two different hearts
To beat as near as flesh can let them come.
Guess how she joys in her feared going, nor opes
Her eyes for fear of fearing at her joy.
Now is the pained arrival of all hopes.
With the half-thought she scarce knows how to toy.
Oh, let her wait a moment or a day
And prepare for the fray
For which her thoughts not ever quite prepare!
With the real day's arrival she's half wroth.
Though she wish what she wants, she yet doth stay
Her dreams yet mergèd are
In the slow verge of sleep, which idly doth
The accurate hope of things remotely mar.

(Lisbon, 1913)

* Nota de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses publicados...:
          "O epitalâmio, na sua origem grega, era estritamente uma canção cantada por jovens (rapazes e donzelas) ante a câmara nupcial, segundo explica Dionísio de Halicarnasso, na sua Retórica, alguns anos antes da Era Cristã. Mas tornara-se, já muito antes, na literatura grega, uma forma artística cultivada, por exemplo, por Safo ou Teócrito. Os gregos não o confundiam, como mais tarde artisticamente o veio a ser, com himenaios, que era o cântico processional que acompanhava a casa os recém-casados e que é descrito já em Hesíodo e na Ilíada de Homero. Os latinos tomaram para si o epitalâmio literário, e deles cerca de dezassete chegaram até nós, sendo os mais antigos e melhores os de Catulo. Mas eles tinham, oriunda da Etrúria e do Lácio, uma velha tradição: a das festas “fesceninas”. Estes festivais rurais, correspondentes às colheitas, incluíam a aparição de adolescentes (homens apenas), com máscaras ou as caras pintadas, cantando versos obscenos. O costume verificava-se também nas festas matrimoniais, e, gradualmente, na civilização romana, os versos fesceninos passaram a corresponder ao que os gregos chamavam himenaios, ou cântico processional, como uma tradição — que a Europa cristã e rural longamente conservou e ainda conserva — de acompanhar os noivos à câmara nupcial com chufas e piadas indecentes." [Introdução geral ‘O heterônimo Fernando Pessoa...’ deste Poemas Ingleses publicados...]
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Sylvia Plath: Paralítico

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Acontece. Vai continuar? —
Minha mente, uma rocha,
Sem língua, sem dedos pra pegar,
Meu deus, esse pulmão de ferro

Que me adora, enchendo
Meus dois
Sacos de poeira, pra dentro pra fora
Estima

Melhoras, enquanto
O dia lá fora desliza feito fita de telex.
A noite vem com violetas,
Tapetes de olhos,

Luzes,
As doces vozes,
Anônimas: “Está melhor?”.
O peito impecável, e inacessível.

Ovo choco, me deito
Todo
Sobre o mundo todo que não toco,
No tambor tenso e branco

De meu leito
Fotos me visitam —
Minha mulher, magra e morta, em roupas dos anos 20,
A boca de pérolas finas.

Duas meninas,
Magras como ela, sussurrando “Somos suas filhas!”.
As águas tranquilas
Embrulham meus lábios,

Olhos, orelhas, nariz,
Um gris
Celofane que não fendo.
Em minhas costas nuas

Sorrio, um buda, querendo
Tudo, desejos
Caem de mim como anéis
Abraçando suas luzes.

A garra
Da magnólia,
Bêbada de seu perfume,
Nada quer da vida.

Sylvia Plath

Paralytic

It happens. Will it go on? —
My mind a rock,
No fingers to grip, no tongue,
My god the iron lung

That loves me, pumps
My two
Dust bags in and out,
Will not

Let me relapse
While the day outside glides by like ticker tape.
The night brings violets,
Tapestries of eyes,

Lights,
The soft anonymous
Talkers: 'You all right?'
The starched, inaccessible breast.

Dead egg, I lie
Whole
On a whole world I cannot touch,
At the white, tight

Drum of my sleeping couch
Photographs visit me —
My wife, dead and flat, in 1920 furs
Mouth full of pearls,

Two girls
As flat as she, who whisper 'We're your daughters.'
The still waters
Wrap my lips,

Eyes, nose and ears,
A clear
Cellophane I cannot crack.
On my bare back

I smile, a buddha, all
Wants, desire
Falling from me like rings
Hugging their lights.

The claw
Of the magnolia,
Drunk on its own scents,
Asks nothing of life.

29 January 1963
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Lirio de Rezende: Liberdade

 
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A Liberdade é mulher
Que não tem cinco sentidos;
— Bigorna onde vão bater
Os martelos dos partidos!...

O ladrão quer liberdade
Somente para roubar;
Uns, para não produzir
Outros, para desfrutar;
Liberdade de viver!
Todos quantos a desejam
Não a sabem respeitar!...

Liberdade é esperança
Que nos faz desesperar...
Há quem lhe chame utopia
Que jamais se há de alcançar.

(Voz Cosmopolita, 1/7/1922, p. 2.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, Renovação, entre outros...).

quarta-feira, 24 de junho de 2026

William Blake: Uma Garotinha Perdida

 
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[traduzido por Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho]

Filhos dos Tempos que virão,
Lendo isto com indignação;
Saibam, que, em tempos passados,
O doce Amor era pecado.

Vivendo a Era Dourada,
Livres da estação gelada,
A juventude e a menina
Brilham com a luz divina
E brincam ao sol, desnudadas.

Um casal, certa ocasião,
Repleto de tanta atenção,
Viu-se em jardim iluminado,
Onde havia a luz do sagrado
Os véus da noite derrubado.

Ali se divertem na relva,
Ao brilho do sol que se eleva;
Enquanto seus pais longe estavam
E estranhos não se aproximavam,
Seus medos logo passavam.

De doces beijos, cansados,
Um encontro é então planejado
Para quando o sono aquietante
Acenar do céu distante;
E choram em fadiga os errantes.

Vestida em luz, a jovem virgem
Ao branco pai se dirige;
Mas seu semblante delicado,
Assim como o livro sagrado,
A havia aterrorizado.

“Ona, tua força se esvai!
Fala agora então com teu pai!
Ó medo, que traz aflição!
Ó descuidada atenção,
Que me envelhece de preocupação!”

(Canções da Experiência — 1794)

William Blake

A Little Girl Lost

Children of the future Age
Reading this indignant page,
Know that in a former time
Love! sweet Love! was thought a crime.

In the Age of Gold,
Free from winter's cold,
Youth and maiden bright,
To the holy light,
Naked in the sunny beams delight.

Once a youthful pair,
Fill’d with softest care,
Met in garden bright
Where the holy light
Had just remov’d the curtains of the night.

Then, in rising day,
On the grass they play;
Parents were afar,
Strangers came not near,
And the maiden soon forgot her fear.

Tired with kisses sweet,
They agree to meet
When the silent sleep
Waves o'er heaven's deep,
And the weary tired wanderers weep.

To her father white
Came the maiden bright,
But his loving look,
Like the holy book,
All her tender limbs with terror shook.

"Ona! pale and weak!
To thy father speak:
O, the trembling fear!
O, the dismal care!
That shakes the blossoms of my hoary hair!"

(Songs of Experience — 1794)
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William Blake — Canções da Inocência e Canções da Experiência, Edição bilíngue comentada, Tradução e Textos Introdutórios e Comentários de Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho, 2005, Disal Editora, São Paulo — SP; William Blake (1757 — 1827), inglês e londrino, foi tipógrafo, escritor, poeta, gravurista e artista plástico do pré-romantismo na Inglaterra; consta de sua biografia que, por decisão paterna, o poeta esteve alheio às escolas, não cumpriu a pedagogia oficial de então e foi incentivado a trilhar seu próprio caminho e desenvolver seus dotes artísticos; aprendeu técnicas de gravura e iniciou-se como gravurista; associou-se ao tipógrafo James Parker, abriu um atelier de impressão e passou a imprimir seus livros e suas gravuras; em 1779, foi admitido na Academia Real londrina, “a quem produziu gravuras para romances e catálogos em troca de instrução”; William Blake pode ser considerado um dos fundadores do movimento romântico, o Romantismo, na literatura inglesa; suas obras: Poetical Sketches (Esboços Poéticos, 1783), Songs of Innocence (Canções da Inocência, 1789), The French Revolution: A Poem in Seven Books (A Revolução Francesa, 1791), The Marriage of Heaven and Hell (O Casamento do Céu e do Inferno, 1793), Songs of Experience (Canções da Experiência, 1794), Milton (1804), Jerusalem (1820), “Rossetti” Manuscript (Manuscrito “Rossetti", publicação póstuma) e outros títulos, além de ilustrações e pinturas.