____________________
[traduzido por Marcos Antônio
Siscar]
Que
repúblicas os contentem,
Homens
livres! — rebanho preso —
Que suas
proles amamentem!…
— Sou um
cuco magro de desprezo.
— Coração
eunuco, amputado
Daquilo
que molhe ou que vibra…
Da
Liberdade libertado
Estou!
sempre só. Sempre livre.
— Minha
Pátria… é o mundo afora;
Logo, não
temo achar-me fora,
Pois que
redondo o mundo é…
Minha
pátria está onde a planta
— Em
terra ou em mar — a planta
Dos meus
pés — quando estou de pé.
— Quando
deito: é a cama amada
Minha
pátria, amarrotada,
Onde eu
aperto contra o peito
Minha
outra parte, desalmada;
É a
mulher não encontrada,
Essa
outra parte que estreito.
— O meu
ideal: é um sonho
Oco;
horizonte — o imprevisto —
E eu
padeço de um mal medonho:
Saudade
de algo nunca visto.
Que o
rebanho siga a trilha,
De Carcassona
a Tombuctu…
— Minha
trilha me segue, milha
A milha,
de norte a sul.
Meu
bastão sobre mim revoa,
E tem o
céu como coroa:
É meu
cabelo contra o vento…
Não
importa a língua falada,
Posso
manter a boca fechada
Ou
parlamentar com talento.
É um
sopro árido o que penso:
É o ar. É
o ar imenso.
Minha
palavra é o eco mudo
Que não
diz nada — e isso é tudo.
Meu
passado: é o esquecido.
Só o que
me mantém unido
São
minhas mãos se dando, irmãs.
Lembrança
— Nada. — Só
a marca.
Presente — é tudo isso que passa
Futuro — Amanhã… amanhã.
Meu
próximo não me é afim;
Sou aquilo que faço de mim.
— Odioso é o Eu humano…
— Não me odeio nem me amo.
— Vamos…
a vida é uma dama
E ao seu
bel-prazer fui posto…
O meu é:
jogá-la na lama,
Prostituí-la
a contragosto.
—
Deuses?… — Vim por acaso a nascer;
Talvez
existam — por acaso…
Se eles
querem me conhecer,
Estou por
aí, em todo caso.
— Morto,
da minha pátria ganho
A
mortalha de bom tamanho,
De um
lado a outro do caminho…
Mas pra
quê?… Se o que me encerra
É minha
pátria que está na terra
Meus
ossos irão bem sozinhos…
Paria
Qu’ils se
payent des républiques,
Hommes
libres! — carcan au cou —
Qu’ils
peuplent leurs nids domestiques!…
— Moi je
suis le maigre coucou.
— Moi, — coeur eunuque, dératé
De ce qui
mouille et ce qui vibre…
Que me
chante leur Liberté,
A moi:
toujours seul. Toujours libre.
— Ma
Patrie… elle est par le monde;
Et,
puisque la planète est ronde,
Je ne
crains pas d’en voir le bout…
Ma patrie
est où je la plante:
Terre ou
mer, elle est sous la plante
De mes
pieds — quand je suis debout.
— Quand
je suis couché: ma patrie
C’est la
couche seule et meurtrie
Où je
vais forcer dans mes bras
Ma
moitié, comme moi sans âme;
Et ma
moitié: c’est une femme…
Une femme
que je n’ai pas.
— L’idéal
à moi: c’est un songe
Creux1.;
mon horizon — l’imprévu —
Et le mal
du pays me ronge…
Du pays
que je n’ai pas vu.
Que les
moutons suivent leur route,
De
Carcassonne à Tombouctou2.…
— Moi, ma
route me suit. Sans doute
Elle me
suivra n’importe où.
Mon pavillon
sur moi frissonne,
Il a le
ciel pour couronne:
C’est la
brise dans mes cheveux…
Et dans
n’importe quelle langue;
Je puis
subir une harangue;
Je puis
me taire si je veux.
Ma pensée
est un souffle aride:
C’est
l’air. L’air est à moi partout.
Et ma
parole est l’écho vide
Qui ne
dit rien — et c’est tout.
Mon
passé: c’est ce que j’oublie.
La seule
chose qui me lie
C’est ma
main dans mon autre main.
Mon
souvenir — Rien — C’est ma trace.
Mon
présent, c’est tout ce qui passe
Mon
avenir — Demain… demain.
Je ne
connais pas mon semblable;
Moi, je
suis ce que je me fais.
— Le Moi humain est haïssable3.…
— Je ne
m’aime ni ne me hais.
— Allons!
la vie est une fille
Qui m’a
pris à son bon plaisir…
Le mieniii,
c’est: la mettre en guenille,
La
prostituer sans désir.
— Des
dieux?… — Par hasard j’ai pu naître;
Peut-être
en est-il — par hasard…
Ceux-là,
s’ils veulent me connaître,
Me
trouveront bien quelque part.
— Où que
je meure, ma patrie
S’ouvrira
bien, sans qu’on l’en prie,
Assez
grande pour mon linceul…
Un
linceul encor: pour que faire?…
Puisque
ma patrie est en terre
Mon os
ira bien là tout seul…
Notas do
tradutor Marcos Antônio Siscar:
* ‘Em “Pária”, Corbière critica não só os ideiais políticos e intelectuais da sociedade de seu tempo, mas toda forma de idealismo. Terminando a seção “Golpes da sorte”, ele repete que seu horizonte é o “imprevisto”. [“Pária” também foi traduzido por Augusto de Campos]1. versos 21-22 — “Songe / creux” joga com o substantivo “songe-creux” [sonhador, aquele que devaneia]2. verso 26 — Carcassona é uma cidade turística localizada no sul da França. Tombuctu fica na República do Mali, África. A rota traçada por Corbière é, evidentemente, imaginária;3. verso 47 — Referência a Pascal.'
____________________
Os Amores amarelos — Tristan Corbière,
edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar,
Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda.,
São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês
de Morlaix — Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc
[internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um
liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença,
foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi
acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas
e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu
mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu
e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873),
a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra,
considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada
dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883),
recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière
à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é
considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier,
veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista
nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito
anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos
em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A
Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no
século 20, Ezra Pound (1885 — 1972) consagrou Corbière
definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa],
mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus
jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino
Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.