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(O Espelho — Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A — SP — Ano III — n° 26 — 20 de setembro a 20 de outubro de 1982)
(O Espelho — Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A — SP — Ano III — n° 26 — 20 de setembro a 20 de outubro de 1982)
Oi Satélio,
Acho que os homes do BB estão conseguindo fazer a minha cabeça. Quem diria! Estou sendo cecequeado. Debruço-me diante de minha Olivetti, fico tequetequeando, rascunhos e mais rascunhos, e não sai nada. Peço socorro ao Sérgio Porto, ao Osman Lins, e o branco total prossegue. O regime continua, o João continua, tudo continua e eu estou cada vez mais anestesiado pela terrível teia-de-aranha que me enreda.
Tome Beltrão em Cleveland pelo INAMPS, tome cédula eleitoral em branco e Lei Falcão, tome violação de correspondências e falsificação de jornais e cartilhas... e não pie! Tome apenas três por cento de produtividade e erga as mãos pro céu! Tome vaselina na forma de jogos internos da Agência, e amém!
Satélio, estou procurando remédio e não acho. Ai que saudades daquele tempo em que a gente colava cartaz de dia-nacional-de-luta em frente do Banco e a gerência levava a sério, com medo da greve. E, porque ela manda e não pede, mandava todos os chefetes entrarem às sete da manhã pra vigiar seus insubordinados. Quando a gente programava boicote ao Gervásio, então, o restaurante ficava vazio e a gerência convocava todos os chefes pra almoçarem lá. Aparecia na televisão e os jornais publicavam. Tempo bão, heim!
Pra engripar mais estas minhas engrenagens, inventei de ir ao cinema e ver o filme "O Expresso da Meia-Noite", que é baseado num fato verídico. Numa prisão, um dos detentos, entre o filosofar e a loucura, se dizia peça estragada de uma fábrica. E tentava convencer seus colegas de cadeia sobre a verdade de sua filosofia. Pois é, Satélio, estou me sentindo assim... Peça estragada de uma imensa fábrica.
As idéias me fogem, os meus argumentos se esvaem. Fenomenal efeito dos dezoito anos de amordaçamento político e cultural, minha cabeça está pontilhada de novos modelos de extracaixa, cartões magnéticos, alterações na CIC, cotas de serviço, CESECs, rentabilidades do RDB, ações, promoções e concurso. Na aposentadoria, nem pensar.
Ah, Satélio... Como é duro ser bancário! Ver a vida escapulindo por detrás de uma mesa entulhada de papéis, carimbos e máquinas de calcular. E a vida se vai tão violentamente, como violentamente se foi a vida do cidadão Fernando Soares Pereira, de apenas vinte e um anos de idade, trucidado por ordens dos donos da fábrica, na pacata Pouso Alegre, cidade do sul de Minas. Foram esses mesmos fabricantes que, anos atrás, ordenaram aos ônibus da FEBEM que despejassem dezenas e dezenas de peças estragadas na bucólica e também pacata Camanducaia, vizinha da mineira Pouso Alegre.
Estou enojado com esta situação...
Mesmo enojado, hoje resolvi almoçar no Gervásio. Fiquei sabendo que está entrando pepino na latinha do agrião. Há um mês, a novidade foi o safado do tomatinho. Daqui a algum tempo talvez a gente consiga uma salada completa, pois, pelo jeito, andam querendo nos ganhar pelo estômago. E que opção para este nordestino autêntico que lhe escreve!
Saudações vinculadas,
P. da Gata
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O Espelho SP — Ano III — n° 26 — 20 de setembro a 20 de outubro de 1982. Fez-se esta crônica em setembro/82, num momento da década de oitenta, quando parecia haver um certo refluxo no turbilhão de acontecimentos grevistas pelo país afora, particularmente no berço das greves, o ABC paulista, o que também refletia no meio sindical bancário; P. da Gata, Satélio e Genésio dos Santos são a mesma pessoa e, réus confessos, assumem a autoria desta crônica; Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e Osman Lins, dentre alguns outros escritores, jornalistas e humoristas, foram funcionários do BB; João, foi o general Figueiredo — último presidente daquele período ditatorial (1964 — 1984); Beltrão, foi o Hélio, Ministro da Previdência à época, que, com problemas de saúde, fora se tratar nos EUA; Gervásio, foi o José, concessionário do restaurante localizado no 11° andar da ex-Agência Centro do BB, em São Paulo ; Fernando da Gata, bem, Fernando Soares Pereira, cearense de Russas, à época com destaque em toda mídia, foi um bandido da ocasião que se tornara famoso no Brasil inteiro por aterrorizar a população de várias cidades em seqüência de assaltos e fugas que deixavam a polícia atônita; Camanducaia é uma cidade do sul de Minas que, em 1974, fora palco do episódio midiaticamente conhecido como "Operação Camanducaia", episódio esse que parece enredo de filme, mas não é: Noventa e três menores foram recolhidos da FEBEM e levados até aquela cidadezinha, de ônibus, conduzidos por policiais paulistas, e sendo ali deixados à beira da estrada, nus, numa madrugada chuvosa e friorenta; Ufaaa...!!! E sobre o filme Midnight Express, O Expresso da Meia-Noite, de Alan Parker, quem ainda não viu, vale a pena ver. É de 1978; Baseado em um livro de mesmo nome, narra a história real do próprio autor, Billy Hayes, um estudante estadunidense que havia sido preso no aeroporto de Istambul por portar haxixe, fora jogado numa prisão turca, e julgado e condenado a trinta anos de cadeia; Brad Davis e John Hurt trabalham nos papéis principais, Oliver Stone está entre os roteiristas.