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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Manoel Cerqueira Leite: Quando meia-noite tomba

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I.

Quando meia-noite tomba,
retumba a Macumba africana...
Ânsias sonantes do Quilombo,
de lento tom, tom sonolento, soberano!

 Nóis vai cumê feitô
feito na grêia...
Seje bençuado, Sinhô,
que nossa noite lumiô
co a inluarada candeia... 

Na noite soturna, funda,
gargalha uma voz de urutau, que anavalha;
e uma garganta suja, de coruja, inunda
a noite longa, de tons acres de mortalha!

 Mãe-Lua dano demão,
bamo cumê coração
de feitô tão marfeitô...
Lombo de branco é bão...
Seje bençuado, Sinhô,
que nossa noite crareia
c'o bençuado lampião
de nossa Mãe-Lua-Cheia... 

Chora, morfanha, na voz quente, soberana,
o abracadabra da nostalgia doida do Congo...
Cabeças giram, em rodopios de febre insana,
rolam soluços, nos redemoinhos do vento longo!

 Seje bençuado, Sinhô,
seje bençuado, Sinhô!
Mãe-Lua no céu raiô:
vai secá sangue do nêgo,
i nêgo vai tê sussêgo,
bebê sangue de feitô... 

II.

E a madrugada, prodigiosa, avança...
Rompe o sol, como nau redoirada, em bonança!

O feitor, já de relho na mão, na senzala,
faz o couro estalar  e em que lombos estala! 
em lombos negros, ansiando por vingança...

E a ironia do mal retumbou na senzala:
 Anda, negrada resmungona, vagabunda!
Se, de noite, é rezar sem parada  de dia,
é bater, sem parar, no guatambu liviano...
O guatambu num paga o angu qye vocêis tragum! 

 Seje bençiuado, Feitô,
seje bençuado, feitô!

Itapetininga, 29.12.1937
(Terra Verde  1946)

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Poesias — Manoel Cerqueira Leite, Tomo I: Terra Verde, Água na Cuia, Fonte na Serra, Prefácio de Fernando de Azevedo, 1974, Editora Alfa Ômega Ltda., São Paulo — SP; Manoel Cerqueira Leite (1916 1975), paulista de Sarapuí, formado pela USP Universidade de São Paulo, foi poeta, crítico literário, professor de literatura brasileira (USP e UNESP) e colaborou com jornais da capital (Folha da Manhã, Jornal de São Paulo) e do interior paulista (O Democrata, de Itapetininga); escreveu e publicou: Terra Verde, poemas (1946), Água na Cuia, sonetilhos (1948); Rumo; Fonte na Serra, poemas (1959); Pairando sobre o abismo (prosa, 1966); História da Literatura Brasileira volume I Introdução (incompleto, 1967); Poesias (1974); A Crítica Funcional I, II, III e IV (crítica literária, 1972 1974).

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Manoel Cerqueira Leite: Cordas e correntes

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Na terra verde, os homens cor de sangue,
adorando a lua,
estirando cordas,
 pele nua, ao vento 
encurvavam arcos, ao calor do sol.

Os brancos vieram, através dos mares verdes,
em monstros pardos de asas brancas, longas,
temperando violas, esticando cordas,
ao passar do vento.

Os negros vieram, através dos mares negros,
em repelentes bojos de navios;
e, num banzo agoniado, esticaram correntes,
lanhando-se na alma nostálgica, branca...

E hoje inda vibra, na alma brasileira,
aquela indecisão de corda que, estirada,
não sabe se o alvo há-de ser atingido;

vibram as vibrações das cordas da guitarra,
numa saudade mole, que inda espera;

tinem uns elos de correntes retrementes,
ansiando ainda pela liberdade!

São Paulo, 08.09.1935

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Poesias  Manoel Cerqueira Leite, Tomo I: Terra Verde, Água na Cuia, Fonte na Serra, Prefácio de Fernando de Azevedo, 1974, Editora Alfa Ômega Ltda., São Paulo — SP; Manoel Cerqueira Leite (1916 1975), paulista de Sarapuí, formado pela USP Universidade de São Paulo, foi poeta, crítico literário, professor de literatura brasileira (USP e UNESP) e colaborou com jornais da capital (Folha da Manhã, Jornal de São Paulo) e do interior paulista (O Democrata, de Itapetininga); escreveu e publicou: Terra Verde, poemas (1946); Água na Cuia, sonetilhos (1948); Rumo; Fonte na Serra, poemas (1959); Pairando sobre o abismo (prosa, 1966); História da Literatura Brasileira volume I Introdução (incompleto, 1967); Poesias (1974); A Crítica Funcional I, II, III e IV (crítica literária, 1972 1974).