I.
Quando meia-noite tomba,
retumba a Macumba africana...
Ânsias sonantes do Quilombo,
de lento tom, tom sonolento, soberano!
— Nóis vai cumê feitô
feito na grêia...
Seje bençuado, Sinhô,
que nossa noite lumiô
co a inluarada candeia... —
Na noite soturna, funda,
gargalha uma voz de urutau, que anavalha;
e uma garganta suja, de coruja, inunda
a noite longa, de tons acres de mortalha!
— Mãe-Lua dano demão,
bamo cumê coração
de feitô tão marfeitô...
Lombo de branco é bão...
Seje bençuado, Sinhô,
que nossa noite crareia
c'o bençuado lampião
de nossa Mãe-Lua-Cheia... —
Chora, morfanha, na voz quente, soberana,
o abracadabra da nostalgia doida do Congo...
Cabeças giram, em rodopios de febre insana,
rolam soluços, nos redemoinhos do vento longo!
— Seje bençuado, Sinhô,
seje bençuado, Sinhô!
Mãe-Lua no céu raiô:
vai secá sangue do nêgo,
i nêgo vai tê sussêgo,
bebê sangue de feitô... —
II.
E a madrugada, prodigiosa, avança...
Rompe o sol, como nau redoirada, em bonança!
O feitor, já de relho na mão, na senzala,
faz o couro estalar — e em que lombos estala! —
em lombos negros, ansiando por vingança...
E a ironia do mal retumbou na senzala:
— Anda, negrada resmungona, vagabunda!
Se, de noite, é rezar sem parada — de dia,
é bater, sem parar, no guatambu liviano...
O guatambu num paga o angu qye vocêis tragum! —
— Seje bençiuado, Feitô,
seje bençuado, feitô!
Itapetininga, 29.12.1937
(Terra Verde — 1946)
(Terra Verde — 1946)
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Poesias — Manoel Cerqueira Leite, Tomo I: Terra
Verde, Água na Cuia, Fonte na Serra, Prefácio de Fernando de Azevedo, 1974,
Editora Alfa Ômega Ltda., São Paulo — SP; Manoel Cerqueira Leite
(1916 — 1975), paulista
de Sarapuí, formado pela USP — Universidade
de São Paulo, foi poeta, crítico literário, professor de literatura brasileira
(USP e UNESP) e colaborou com jornais da capital (Folha da Manhã, Jornal
de São Paulo) e do interior paulista (O Democrata, de Itapetininga); escreveu e
publicou: Terra Verde, poemas (1946), Água na Cuia, sonetilhos (1948); Rumo; Fonte na Serra, poemas (1959); Pairando
sobre o abismo (prosa, 1966); História
da Literatura Brasileira — volume I — Introdução (incompleto,
1967); Poesias (1974); A
Crítica Funcional I, II, III e IV (crítica literária,
1972 — 1974).
