sexta-feira, 26 de abril de 2013

Gonçalves Dias: Não me deixes!


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Debruçada nas águas dum regato
        A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
        "Ai, não me deixes, não!

"Comigo fica ou leva-me contigo
        "Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
        "Mas não me deixes, não!"

E a corrente passava; novas águas
        Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
        "Ai, não me deixes, não!"

E das águas que fogem incessantes
        À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
        "Ai, não me deixes, não!"

Por fim desfalecida e a cor murchada,
        Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
        Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
        Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
        "Não me deixaste, não!"
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Poemas — Gonçalves Dias — Seleção, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, (Biblioteca Folha, Livro 15), 1997, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Gonçalves Dias (1823 —1864), maranhense nascido em Caxias, advogado de formação, foi poeta, etnógrafo e jornalista; iniciando seus estudos em Latim, Francês e Filosofia em escola particular, no Brasil, partiu para a Europa, concluiu seus estudos secundários e bacharelou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, Portugal (1840); teve presença nos meios literários e na imprensa, lá e cá; no Brasil, juntamente com José de Alencar, desenvolveu o Indianismo, uma sua marca na literatura brasileira; algumas de suas obras: Primeiros Cantos (1846, Laemmert, Rio de Janeiro  RJ), Segundos Cantos (1848, Ferreira Monteiro, Rio de Janeiro  RJ), Últimos Cantos (1851, Paula Brito, Rio de Janeiro  RJ), Cantos (todos os cantos anteriores e mais 16 novas composições sob o título de "Novos Cantos", Brockhaus, Leipzig, Alemanha), Dicionário da Língua Tupi (1858, Brockhaus, Leipzig, Alemanha) etc.

Augusto dos Anjos: Psicologia de um vencido


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Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
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Eu, outras poesias, poemas esquecidos — Texto e Nota: Antônio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa — 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

domingo, 21 de abril de 2013

Ulisses Tavares: Guarda-Roupa

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eu tenho um guarda-roupa
que se chama eu,
nele há só armaduras.
você tem um guarda-roupa
que se chama você,
nele há só armaduras.
quando abro seu guarda-roupa
com amor
só encontro estrelas nuas
aberto o meu
com idêntico cuidado
só encontra você nuvens.
nós temos
um guarda-roupa
ou um céu estrelado?

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O Eu entre Nós, Edições Pindaíba, 1978, São Paulo  SP; Ulisses Tavares, paulista de Sorocaba  SP, nascido em 1950, é poeta, professor, publicitário, jornalista, dramaturgo, compositor, roteirista e ator; sua página na internet nos informa que o poeta só não publicou em bulas de remédio e no idioma chinês  são mais de 112 livros publicados em variados gêneros e assuntos; nos anos 70 do século e milênio passados participou da Geração Mimeógrafo, criou e participou também do Núcleo Pindaíba Edições e Debates e ajudou a lançar outros poetas no mercado livreiro; eis algumas de suas obras, não necessariamente na ordem cronológica em que foram escritas e publicadas: Viva a Poesia Viva (infantil, Editora Saraiva), O Eu entre Nós (1978, Edições Pindaíba), Pega Gente (seu primeiro livro de poemas, 1977), Caindo na Real (Editora Moderna), A Maravilhosa Sabedoria das Coisas (Editora Cortez), O Diário de uma Paixão (Geração Editorial), Sete Casos do Detetive Xulé, Poemas que Latem ao Coração (Editora Nova Alexandria) etc. etc. etc.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Augusto dos Anjos: Versos Íntimos

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa
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Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão 
 esta pantera 
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pau d’Arco  1901
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Eu, outras poesias, poemas esquecidos — Texto e Nota: Antônio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa — 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Raul Bopp: Mãe-preta


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 Mãe-preta conte uma história.
 Então feche os olhos filhinho:

Longe muito longe
era uma vez o Congo…

Por toda parte o mato grande.
Muito sol batia o chão.

De noite
chegavam os elefantes.
Então o barulho do mato crescia.

Quando o rio ficava brabo
inchava.

Brigava com as árvores.
Carregava  com tudo, águas abaixo,
até chegar na boca do mar
 um mar de malem
xumaré
momulú de aluê du querê
O lê-lê

Depois…

Os olhos da preta pararam.
Acordaram-se as vozes do sangue
glu-glus de água engasgada
naquele dia do nunca-mais.

Era uma praia vazia
uns riscos brancos de areia
e batelões carregando escravos.

Então
começou  o porão negreiro.
Era um mar que não acabava mais.

depois…

 Ué mãezinha,
por que você não conta o resto da história?


('Cobra Norato "?"' ... e outros poemas)
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Português no colégio  primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo SP; Raul Bopp (1898 1984), gaúcho de Santa Maria, além de poeta foi memorialista e folclorista; obra poética: Cobra Norato (1931), Urucungo (poemas negros, 1932), Antologia Poética (1967), Putirum (1969), Mironga e outros poemas (1978) e Poesia Completa (1998).

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Carlos Drummond de Andrade: Encontro


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MEU PAI perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
(Claro Enigma  1951)
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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, Quinta Edição, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); e tantos outros...

Luís Vaz de Camões: Busque Amor novas artes, novo engenho

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Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê:

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.


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Camões — 200 Sonetos, Coleção L&PM Pocket, Volume 109, L&PM Editores, 1998, Porto Alegre — RS; Luís Vaz de Camões (1524 1580), português, teria nascido em Lisboa ou em Coimbra, foi poeta e é considerado um dos maiores vultos da literatura em língua portuguesa da Renascença e um dos grandes poetas do mundo ocidental; foi através de sua obra poética que a língua portuguesa passou a expressar sentimentos, sensações, fatos e idéias de uma forma até então jamais alcançada por ninguém; retratou o humanismo e a expansão ultramarina, dois elementos que caracterizaram o Renascimento Português; celebrizou-se não tão somente por ter escrito Os Lusíadas, longo poema épico que expõe a história e a cultura portuguesa até à época vigentes, mas também pelo desenvolvimento de uma obra lírica na qual se encontram, entre os poemas mais famosos, os sonetos; foi só após a sua morte que teve reunida, na coletânea Rimas, sua obra lírica.