____________________
Debruçada nas águas dum regato
A
flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!
"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"
E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"
E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"
Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!
"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"
E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"
E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"
Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"

____________________
Poemas — Gonçalves
Dias — Seleção, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva
Ramos, (Biblioteca Folha, Livro 15), 1997, Ediouro Publicações, Rio de
Janeiro — RJ; Antônio Gonçalves Dias (1823 —1864), maranhense
nascido em Caxias, advogado de formação, foi poeta, etnógrafo e
jornalista; iniciando seus estudos em Latim, Francês e Filosofia em escola
particular, no Brasil, partiu para a Europa, concluiu seus estudos secundários
e bacharelou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, Portugal (1840); teve
presença nos meios literários e na imprensa, lá e cá; no Brasil,
juntamente com José de Alencar, desenvolveu o Indianismo, uma sua marca na
literatura brasileira; algumas de suas obras: Primeiros Cantos (1846, Laemmert, Rio de Janeiro — RJ), Segundos Cantos (1848, Ferreira Monteiro, Rio de Janeiro — RJ), Últimos Cantos (1851, Paula Brito, Rio de Janeiro — RJ), Cantos (todos os cantos anteriores e mais 16 novas composições sob o título de "Novos Cantos", Brockhaus, Leipzig, Alemanha), Dicionário da Língua Tupi (1858, Brockhaus, Leipzig, Alemanha) etc.
