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quinta-feira, 12 de março de 2026

Bertolt Brecht: Em tempos negros

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Não se dirá: Quando a nogueira balançou no vento
Mas sim: Quando o pintor de paredes esmagou os trabalhadores.
Não se dirá: Quando o menino fez deslizar a pedra lisa pela superfície
da correnteza
Mas sim: Quando prepararam as grandes guerras.
Não se dirá: Quando a mulher foi para o quarto
Mas sim: Quando os grandes poderes se uniram contra os
trabalhadores.
Mas não se dirá: Os tempos eram negros
E sim: Por que seus poetas silenciaram?

Bertolt Brecht 

"In finsteren Zeiten"

Die werden nicht sagen: als der Walnussbaum im Wind bebte
Sondern: als der Hausmaler die Arbeiter plattmachte.
Die werden nicht sagen: als das Kind einen flachen Stein über die
Stromschnellen schob
Sondern: als die großen Kriege vorbereitet wurden.
Die werden nicht sagen: als die Frau in den Raum kam
Sondern: als die Großmächte sich gegen die Arbeiter verbündeten.
Aber sie werden nicht sagen: die Zeiten waren finster
Sondern: warum schwiegen ihre Dichter?
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Bertolt Brecht, poemas 1913—1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, estudou na Escola Real de Augsburg, formou-se em 1917 e iniciou curso de Medicina, em Munique, abandonando-o para trabalhar em direção teatral e dramaturgia, foi poeta, dramaturgo, encenador, enfermeiro em Hospital Militar; ainda estudante, deu início à produção de textos literários; ao ser convocado pelo exército, na Primeira Guerra, serviu como enfermeiro em hospital militar; desde 1921 dirigiu e se envolveu em dramaturgia em Munique e, a partir de 1924, em Berlim; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção: em arte dramática, Baal (texto de 1918/produção em 1923), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1919/1922), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938), em poesia: Psalmen (Salmos, texto de 1926, publicado em 1960), Bertolt Brechts Hauspostille (Breviário Doméstico de Bertolt Brecht, 1916-25/1926), Die Augsburger Sonette (Os Sonetos de Augsburgo, 1925-27/1982), Sonette (Sonetos, 1932-34/1951), Englische Sonette (sonetos Ingleses, 1934), Lieder Gedichte Chöre (Canções, poemas, coros, 1918-33/1934), Chinesische Gedichte (Poemas chineses, 1938-1949), Svendborger Gedichte (Poemas de Svendborger, 1934-38/1939), Gedichte im Exil (Poemas no Exílio, 1936-44/1988), Deutsche Satiren — zweiter Teil (Sátiras alemãs — parte dois, 1945/1988), Gedichte über die Liebe (Poemas sobre o amor, 1917-56/1982), Hundert Gedichte: 1918 bis 1950 (Cem Poemas: 1918 a 1950, 1958) e tantos outros textos em verso e prosa, escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Bertolt Brecht: Aos que hesitam

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Você diz:
Nossa causa vai mal.
A escuridão aumenta. As forças diminuem.
Agora, depois que trabalhamos por tanto tempo,
Estamos em situação pior que no início.

Mas o inimigo está aí, mais forte do que nunca.
Sua força parece ter crescido. Ficou com aparência de invencível.
Mas nós cometemos erros, não há como negar.
Nosso número se reduz. Nossas palavras de ordem
Estão em desordem. O inimigo
Distorceu muitas de nossas palavras
Até ficarem irreconhecíveis.

Daquilo que dissemos, o que é agora falso:
Tudo ou alguma coisa?
Com quem contamos ainda? Somos o que restou, lançados fora
Da corrente viva? Ficaremos para trás
Por ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo?

Precisamos ter sorte?

Isto você pergunta. Não espere
Nenhuma resposta senão a sua.

Bertolt Brecht

An den Schwankenden

Du sagst:
Es steht schlecht um unsere Sache.
Die Finsternis nimmt zu. Die Kräfte nehmen ab.
Jetzt, nachdem wir so viele Jahre gearbeitet haben
Sind wir inschwierigerer Lage als am Anfang.

Der Feind aber steht stärker da denn jemals.
Seine Kräfte scheinen gewachsen. Er hat ein unbesiegliches Aussehen angenommen.
Wir aber haben Fehler gemacht, es ist nicht zu leugnen.
Unsere Zahl schwindet hin.
Unsere Parolen sind in Unordnung. Einen Teil unserer Wörter
Hat der Feind verdrehtbis zur Unkenntlichkeit.

Was ist jetzt falsch von dem,was wir gesagt haben
Einiges oder alles?
Auf wen rechnen wir noch? Sind wir Übriggebliebene,herausgeschleudert
Aus dem lebendigen Fluß?Werden wir zurückbleiben
Keinen mehr verstehend undvon keinem verstanden?

Müssen wir Glück haben?

So fragst du.Erwarte
Keine andere Antwort als die deine.

[c. 1935]
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 11 de março de 2023

Bertolt Brecht: A solução & Grande tempo, desperdiçado

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[traduzidos por Paulo César de Souza]

Grande tempo, desperdiçado

Eu sabia que cidades eram construídas
Não fui até lá.
Isto pertence à estatística, pensei
Não à história.

Pois o que são cidades, construídas
Sem a sabedoria do povo?

— o —

A solução

Após a revolta e 17 de junho
O secretário da União os Escritores
Fez distribuir comunicados na Alameda Stálin
Nos quais se lia que o povo
Desmerecera a confiança do governo
E agora só poderia recuperá-la
Pelo trabalho dobrado. Mas não
Seria mais simples o governo
Dissolver o povo
E escolher outro?

Bertolt Brecht

Große Zeit, vertan

Ich habe gewußt, daß Städte gebaut wurden
Ich bin nicht hingefahren.
Das gehört in die Statistik, dachte ich
Nicht in die Geschichte.

Was sind schon Städte, gebaut
Ohne die Weisheit des Volkes?

[1953]

— o —

Die Lösung

Nach dem Aufstand des 17. Juni
Ließ der Sekretär des Schriftstellerverbands
In der Stalinallee Flugblätter verteilen
Auf denen zu lesen war, daß das Volk
Das Vertrauen der Regierung verscherzt habe
Und es nur durch verdoppelte Arbeit
Zurückerobern könne. Wäre es da
Nicht doch einfacher, die Regierung
Löste das Volk auf und
Wählte ein anderes?

[1953]
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza e Apresentação [orelhas do livro] de Willi Bolle, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Bertolt Brecht: Ferro & A fumaça & Também o céu


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[traduzidos por Paulo César de Souza]

Ferro

No sonho esta noite
Vi um grande temporal.
Ele atingiu os andaimes
Curvou a viga
A feita de ferro.
Mas o que era de madeira
Dobrou-se e ficou.

— o —

A fumaça

A pequena casa entre árvores no lago.
Do telhado sobre fumaça
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.

— o —

Também o céu

Também o céu às vezes desmorona
E as estrelas caem sobre a terra
Esmagando-a com todos nós.
Isto pode ser amanhã.

Bertholt Brecht

Eisen

Im Traum heute nacht
Sah ich einen großen Sturm.
Ins Baugerüst griff er
Den Bauschragen riß er
Den Eisernen, abwärts.
Doch foi da aus Holz war
Bog sich und blieb.

[1953]

— o —

Der Rauch

Das kleine Haus unter Bäumen am See
Vom Dach steigt Rauch
Fehlte er
Wie trostlos wären
Haus, Bäume und See.

[1953]

— o —

Auch der himmel

Auch der Himmel bricht manchmal ein
Indem Sterne auf die Erde fallen.
Sie zerschlagen sie mit uns allen.
Das kann Morgen sein.

[c. 1920]
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 19 de novembro de 2022

Bertolt Brecht: Manhã ruim & Dia quente


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[traduzidos por Paulo César de Souza]

Manhã ruim

A bétula, uma beldade local
Hoje uma megera. O lago
Uma poça de água usada, não tocar!
As fúcsias sob a boca-de-leão vãs e baratas.
Por quê?
Esta noite, em sonho, vi dedos apontando para mim
Como para um leproso. Estavam consumidos e
Estavam quebrados.

Inscientes! gritei
Consciente da culpa.

– o –

Dia quente

Dia quente. Sobre os joelhos a pasta
Estou sentado no pavilhão. Uma canoa verde
Aparece através do salgueiro. Na popa
Uma freira gorda, gordamente vestida. À sua frente
Um senhor em roupa de banho, um padre provavelmente.
Nos remos, remando com todo o vigor
Uma criança. Como nos velhos tempos, penso eu
Como nos velhos tempos!

Bertholt Brecht

Böser Morgen

Die Silberpappel, eine ortsbekannte Schönheit
Heut eine alte Vettel. Der See
Eine Lache Abwaschwasser, nicht rühren!
Die Fuchsien unter dem Löwenmaul billig und eitel.
Warum?
Heut nacht im Traum sah ich Finger, auf mich deutend
Wie auf einen Aussätzigen. Sie waren zerarbeitet und
Sie waren gebrochen.

Unwissende! schrie ich
Schuldbewußt.

[1953]

– o –

Heißer Tag

Heißer Tag. Auf den Knien die Schreibmappe
Sitze ich im Pavillon. Ein grüner Kahn
Kommt durch die Weide in Sicht. Im Heck
Eine dicke Nonne, dick gekleidet. Vor ihr
Ein ältlicher Mensch im Schwimmanzug, wahrscheinlich ein Priester.
An der Ruderbank, aus vollen Kräften rudernd
Ein Kind. Wie in alten Zeiten! denke ich
Wie in alten Zeiten!

[1953]
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Bertolt Brecht: O nascido depois & Com cuidado examino


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[traduzidos por Paulo César de Souza]

O nascido depois

Eu confesso: eu
Não tenho esperança.
Os cegos falam de uma saída. Eu
Vejo.

Após os erros terem sido usados
Como última companhia, à nossa frente
Senta-se o Nada.

 o 

Com cuidado examino

Com cuidado examino
Meu plano: ele é
Grande, ele é
Irrealizável.


Den Nachgeborenen

Ich gestehe es: ich
Habe keine Hoffnung.
Die Blinden reden von einem Ausweg. Ich
Sehe.

Wenn die Irrtümer verbraucht sind
Sitzt als letzter Gesellschafter
Uns das Nichts gegenüber.

[c. 1920]

 o 

Sorgfältig prüf ich
Meinen Plan, er ist
Groß genug, er ist
Unverwieklichbar

[c. 1931]
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Bertolt Brecht: Hino a deus

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[traduzido por Paulo César de Souza]

1
No fundo dos vales escuros morrem os famintos.
Mas você lhes mostra o pão e os deixa morrer.
Mas você reina eterno e invisível
Radiante e cruel, sobre o plano infinito.

2
Deixou os jovens morrerem, e os que fruíam a vida
Mas os que desejavam morrer, não permitiu…
Muitos daqueles que agora apodreceram
Acreditavam em você, e morreram confiantes.

3
Deixou os pobres pobres, anos após ano
Porque o desejo deles era mais belo que o seu céu
Infelizmente morreram antes que chegasse com a luz
Morreram bem-aventurados, no entanto  e apodreceram imediatamente.

4
Muitos dizem que você não existe e que é melhor assim.
Mas como pode não existir o que pode assim enganar?
Se tanto vivem de você, e de outro modo não poderiam morrer 
Diga-me, que importância pode ter então que você não exista?

Bertolt Brecht

Hymne an Gott

1
Tief in den dunklen Tälern sterben die Hungernden.
Du aber zeigst ihnen Brot und lässest sie sterben.
Du aber thronst ewig und unsichtbar
Strahlend und grausam über dem ewigen Plan.

2
Ließest die Jungen sterben und die Genießenden
Aber die sterben wollten, ließest du nicht...
Viele von denen, die jetzt vermodert sind
Glaubten an dich und starben mit Zuversicht.

3
Ließest die Armen arm sein manches Jahr
Weil ihre Sehnsucht schöner als dein Himmel war
Starben sie leider, bevor mit dem Lichte du kamst
Starben sie selig doch  und verfaulten sofort.

4
Viele sagen, du bist nicht und das sei besser so.
Aber wie kann das nicht sein, das so betrügen kann?
Wo soviel Leben von dir und anders nicht sterben konnten 
Sag mir, was heißt das dagegen  daß du nicht bist?

[1917]
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza e Apresentação [orelhas do livro] de Willi Bolle, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

domingo, 18 de setembro de 2022

Bertolt Brecht: O pão do povo


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[traduzido por Paulo César de Souza]

A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.

Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.

Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.

De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
No trabalho que é prazer.
Nos tempos duros e felizes.
O povo necessita do pão diário
Da justiça, bastante e saudável.
Sendo o pão da justiça tão importante
Quem, amigos, deve prepará-lo?

Quem prepara o outro pão?

Assim como o outro pão
Deve o pão da justiça
Ser preparado pelo povo.

Bastante, saudável, diário.

Bertolt Brecht

Das Brot des Volkes

Die Gerechtigkeit ist das Brot des Volkes.
Es ist manchmal reichlich, es ist manchmal karg.
Es schmeckt manchmal gut, es schmeckt manchmal schlecht.
Wenn das Brot karg ist, herrscht Hunger.
Wenn das Brot schlecht ist, herrscht Unzufriedenheit.

Weg mit der schlechten Gerechtigkeit!
Der lieblos gebackenen, der kenntnislos gekneteten!
Der Gerechtigkeit ohne Würze, derem Kruste grau ist!
Der altbackenen Gerechtugkeit, die zu spät kommt!

Wenn das Brot gut und reichlich ist
Kann der Rest der Mahlzeit verziehen werden.
Nicht alles kann es gleich in Fülle geben.
Vom Brot der Gerechtigkeit genährt
Kann die Arbeit geleistet werden
Von der die Fülle kommt.

Wie das tägliche Brot nötig ist
Ist die tägliche Gerechtigkeit nötig.
Ja sie ist nötig mehrmals am Tage.

Von früh bis spät, bei der Arbeit, beim Vergnügen.
Bei der Arbeit, die ein Vergnügen ist.
In den harten Zeiten und in den frölichen
Braucht das Volk das reichliche, das bekömmliche
Tägliche Brot der Gerechtigkeit.
Das also das Brot der Gerechtigkeit so wichtig ist
Wer, Freunde, sol es backen?

Wer bäckt das andere Brot?

So wie das andere Brot
Muß das Brot der Gerechtigkeit
Vom Volk gebacken werden.

Reichlich, bekömmlich, täglich.

[1953]
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Bertolt Brecht: Mau tempo para a poesia


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[traduzido por Paulo César de Souza]

Sim, eu sei: só o homem feliz
É querido. Sua voz
É ouvida com prazer. Seu rosto é belo.

A árvore aleijada no quintal
Indica o solo pobre, mas
Os passantes a maltratam por ser um aleijão
E estão certos.

Os barcos verdes e as velas alegres da baía
Eu não enxergo. De tudo
Vejo apenas a rede partida dos pescadores.
Por que falo apenas
Da camponesa de quarenta anos que anda curvada?
Os seios das meninas
São quentes como sempre.

Em minha canção uma rima
Me pareceria quase uma insolência.

Em mim lutam
O entusiasmo pela macieira que floresce;
E o horror pelos discursos do pintor*.
Mas apenas o segundo
Me conduz à escrivaninha.

Bertolt Brecht

Schlechte Zeit für Lyrik

Ich weiß doch: nur der Glückliche
Ist beliebt. Seine Stimme
Hört man gern. Sein Gesicht ist schön.

Der verkrüppelte Baum im Hof
Zeigt auf den schlechten Boden, aber
Die Vorübergehenden schimpfen ihn einen Krüppel
Doch mit Recht.

Die grünen Boote und die lustigen Segel des Sundes
Sehe ich nicht. Von allem
Sehe ich nur der Fischer rissiges Garnnetz.
Warum rede ich nur davon
Daß die vierzigjährige Häuslerin gekrümmt geht?
Die Brüste der Mädchen
Sind warm wie ehedem.

In meinem Lied ein Reim
Käme mir fast vor wie Übermut.

In mir streiten sich
Die Begeisterung über den blühenden Apfelbaum
Und das Entsetzen über die Reden des Anstreichers.
Aber nur das zweite
Drängt mich, zum Schreibtisch.

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que Brecht, em alguns de seus poemas, refere-se ao "pintor'; mas quem é o pintor? Trata-se do ditador nazista Adolph Hitler, que, em Viena, num período de sua juventude, tentou viver das pinturas que fazia, tendo sido um pintor sem sucesso.
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.