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sábado, 18 de maio de 2024

Presciliana Duarte de Almeida: Parenthesis

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Porque tão longa e desastrada ausência
Entre dois seres que a saudade encanta,
Amizade que todo o mal quebranta
E que tem de constância a presciência?

Do destino porque tenta inclemência?
Amargura porque na vida tanta?
Aos que se nutrem de afeição tão santa
Deveria sorrir sempre a existência.

E o nosso coração assim fazia,
Em linguagem amarga e verberada,
A queixa dessa ausência agra e sombria!

Hoje sorriem nossas almas juntas...
Mas amanhã, de novo separadas,
Hão de fazer ao céu iguais perguntas.

(A Mensageira, 31 de julho de 1898, Ano I. nº 20)

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Presciliana Duarte de Almeida (1867 1944), mineira de Pouso Alegre, foi jornalista, professora, escritora, poetisa, co-fundadora (juntamente com o filólogo Sílvio Tibiriçá de Almeida, seu marido e também poeta) e diretora da revista A Mensageira, publicação esta que promoveu intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal, França, Argentina e outros países; Presciliana atuou no meio cultural paulista no fim do século XIX e início do XX; ainda em sua juventude, na Pouso Alegre natal, foi co-autora de Colibri, revista literária manuscrita com produções da época, cuja tiragem era de apenas 12 exemplares, mas que durou quatro longos anos, sendo distribuída mensalmente nos meios literários e, em corrente fraterna, passou por diversas mãos e chegou a vários pontos do país; já casada e em São Paulo, passou a colaborar com os periódicos Almanaque Brasileiro Garnier, A Estação, Rua do Ouvidor, A Semana, Diário Popular... e, depois, empenhada no movimento pedagógico renovador que se iniciava no país, colaborou na revista Educação (fundada em 1902, na qual figuravam os mais destacados intelectuais da época) e Alvorada; a poeta, mulher do século XX e figura feminina de destaque do movimento cultural literário e educacional paulista, influenciou diretamente toda a história da literatura infantil antes de Monteiro Lobato; escreveu e publicou Rumorejos (poesias, em parceria com Maria Clara da Cunha Santos, 1890), Sombras (1906), Páginas Infantis (1908), O Livro das Aves: crestomatia em prosa e verso (1914), adotado em várias escolas paulistas, Vetiver (poesias de vários tempos, 1938) e, em edição póstuma, Antologia Poética (reunião de poemas, 1976); foi membro-fundadora e primeira ocupante feminina de cadeira da Academia Paulista de Letras; Presciliana Duarte também assinou textos e resenhas com o pseudônimo Perpétua do Valle.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Presciliana Duarte de Almeida: Constante

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Se, por cansaço ou por esquisitice,
Me não quisesses mais,
Eu te daria ainda, oh! já t’o disse,
Meus suspiros finais!

E, na altivez do amor sincero e casto,
Ficaria a sorrir,
Até que o coração ferido e gasto,
Chegasse a sucumbir,

Sei que o pesar nos mata lentamente,
Para provar que a dor
Tem constância profunda, equivalente
À grandeza do amor!

E ficaria impávida e tranquila,
Olhando com desdém
A volubilidade que aniquila
As almas para o bem!

E depois, pesarosa morreria
Por te ver a chorar,
Que os volúveis não podem alegria
Nem luz na vida achar.

O que nos liga a idéia do passado
Ao sonho do porvir,
É o vasto mundo, oculto, constelado,
Que se chama sentir.

E, se não fosse o livro da saudade,
Onde fica imortal
O poema da nossa mocidade,
Poema sem igual,

Que seria dos trêmulos velhinhos
Que a própria solidão
Doiram, lembrando os tépidos carinhos
Do velho coração?

Ah! não bastara um dia passageiro
Para de amor falar!
Que até o nosso instante derradeiro
Vivemos para amar!

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Presciliana Duarte de Almeida (1867 1944), mineira de Pouso Alegre, foi jornalista, professora, escritora, poetisa, co-fundadora (juntamente com o filólogo Sílvio Tibiriçá de Almeida, seu marido e também poeta) e diretora da revista A Mensageira, publicação esta que promoveu intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal, França, Argentina e outros países; Presciliana atuou no meio cultural paulista no fim do século XIX e início do XX; ainda em sua juventude, na Pouso Alegre natal, foi co-autora de Colibri, revista literária manuscrita com produções da época, cuja tiragem era de apenas 12 exemplares, mas que durou quatro longos anos, sendo distribuída mensalmente nos meios literários e, em corrente fraterna, passou por diversas mãos e chegou a vários pontos do país; já casada e em São Paulo, passou a colaborar com os periódicos Almanaque Brasileiro Garnier, A Estação, Rua do Ouvidor, A Semana, Diário Popular... e, depois, empenhada no movimento pedagógico renovador que se iniciava no país, colaborou na revista Educação (fundada em 1902, na qual figuravam os mais destacados intelectuais da época) e Alvorada; a poeta, mulher do século XX e figura feminina de destaque do movimento cultural literário e educacional paulista, influenciou diretamente toda a história da literatura infantil antes de Monteiro Lobato; escreveu e publicou Rumorejos (poesias, em parceria com Maria Clara da Cunha Santos, 1890), Sombras (1906), Páginas Infantis (1908), O Livro das Aves: crestomatia em prosa e verso (1914), adotado em várias escolas paulistas, Vetiver (poesias de vários tempos, 1938) e, em edição póstuma, Antologia Poética (reunião de poemas, 1976); foi membro-fundadora e primeira ocupante feminina de cadeira da Academia Paulista de Letras; Presciliana Duarte também assinou resenhas e poemas com o pseudônimo Perpétua do Valle.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Presciliana Duarte de Almeida: Diversidade


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(A Cândida Fortes).

Dormia a sesta a pálida fidalga,
Como vegeta indiferente uma alga
Na solidão do mar,
Com diferença apenas que no oceano,
Quando mesmo não haja o ardor humano,
Há o suspiro da vaga a soluçar!

Nascera entre riquezas deslumbrantes,
Nunca tivera mágoas lancinantes,
Nem convulsões de amor!
Nunca ouvira os lamentos da pobreza,
Nunca sondara a voz da natureza,
Jamais soubera o que chamamos dor!

«Como é ditosa, rica e venerada,
Dizia a moça pobre e apaixonada,
Fitando essa mulher,
Não sofre da miséria os desalentos,
Nem conhece os acérrimos tormentos
De apaixonadamente amar, sequer.

Eu, que do bom Jesus desprotegida,
Lutando em vão, lutando pela vida.
Só conheço o pesar,
Inda tenho por cume do calvário,
Do coração nutrir no santuário,
Este amor que me traz a delirar!»

No entanto, a moça rica e langorosa,
Tinha, dormindo, uma visão formosa,
Pela primeira vez:
Sonhava que era pobre, linda e amada,
E de paixão ficando inebriada,
Corou, sorriu e trêmula se fez!

[revista A Mensageira, de 15 de Setembro de 1899,
Ano II, nº 32, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Presciliana Duarte de Almeida (1867 1944), mineira de Pouso Alegre, foi jornalista, professora, escritora, poetisa, co-fundadora (juntamente com o filólogo Sílvio Tibiriçá de Almeida, seu marido e também poeta) e diretora da revista A Mensageira, publicação esta que promoveu intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal, França, Argentina e outros países; Presciliana atuou no meio cultural paulista no fim do século XIX e início do XX; ainda em sua juventude, na Pouso Alegre natal, foi co-autora de Colibri, revista literária manuscrita com produções da época, cuja tiragem era de apenas 12 exemplares, mas que durou quatro longos anos, sendo distribuída mensalmente nos meios literários e, em corrente fraterna, passou por diversas mãos e chegou a vários pontos do país; já casada e em São Paulo, passou a colaborar com os periódicos Almanaque Brasileiro Garnier, A Estação, Rua do Ouvidor, A Semana, Diário Popular... e, depois, empenhada no movimento pedagógico renovador que se iniciava no país, colaborou na revista Educação (fundada em 1902, na qual figuravam os mais destacados intelectuais da época) e Alvorada; a poeta, mulher do século XX e figura feminina de destaque do movimento cultural literário e educacional paulista, influenciou diretamente toda a história da literatura infantil antes de Monteiro Lobato; escreveu e publicou Rumorejos (poesias, em parceria com Maria Clara da Cunha Santos, 1890), Sombras (1906), Páginas Infantis (1908), O Livro das Aves: crestomatia em prosa e verso (1914), adotado em várias escolas paulistas, Vetiver (poesias de vários tempos, 1938) e, em edição póstuma, Antologia Poética (reunião de poemas, 1976); foi membro-fundadora e primeira ocupante feminina de cadeira da Academia Paulista de Letras; Presciliana Duarte também assinou resenhas e poemas com o pseudônimo Perpétua do Vale.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Perpétua do Valle*: Almeida Junior


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O pincel pegava, ao coração descia,
De paleta em punhos, e aprimorava telas
Cheias de verdade, cheias de poesia,
Onde a luz mostrava gradações tão belas!

E aos assuntos pátrios reportando a mente,
Como Carlos Gomes ou como Alencar,
O Brasil pintava deslumbrantemente,
Fazendo-nos mais a nossa Pátria amar...


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página anota que Perpétua do Valle é pseudônimo de Presciliana Duarte de Almeida.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Presciliana Duarte de Almeida (1867 1944), mineira de Pouso Alegre, foi jornalista, professora, escritora, poetisa, co-fundadora (juntamente com o filólogo Sílvio Tibiriçá de Almeida, seu marido e também poeta) e diretora da revista A Mensageira, publicação esta que promoveu intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal, França, Argentina e outros países; Presciliana atuou no meio cultural paulista no fim do século XIX e início do XX; ainda em sua juventude, na Pouso Alegre natal, foi co-autora de Colibri, revista literária manuscrita com produções da época, cuja tiragem era de apenas 12 exemplares, mas que durou quatro longos anos, sendo distribuída mensalmente nos meios literários e, em corrente fraterna, passou por diversas mãos e chegou a vários pontos do país; já casada e em São Paulo, passou a colaborar com os periódicos Almanaque Brasileiro Garnier, A Estação, Rua do Ouvidor, A Semana, Diário Popular... e, depois, empenhada no movimento pedagógico renovador que se iniciava no país, colaborou na revista Educação (fundada em 1902, na qual figuravam os mais destacados intelectuais da época) e Alvorada; a poeta, mulher do século XX e figura feminina de destaque do movimento cultural literário e educacional paulista, influenciou diretamente toda a história da literatura infantil antes de Monteiro Lobato; escreveu e publicou Rumorejos (poesias, em parceria com Maria Clara da Cunha Santos, 1890), Sombras (1906), Páginas Infantis (1908), O Livro das Aves: crestomatia em prosa e verso (1914), adotado em várias escolas paulistas, Vetiver (poesias de vários tempos, 1938) e, em edição póstuma, Antologia Poética (reunião de poemas, 1976); foi membro-fundadora e primeira ocupante feminina de cadeira da Academia Paulista de Letras; Presciliana Duarte também assinou resenhas e poemas com o pseudônimo Perpétua do Valle.

sábado, 7 de outubro de 2023

Perpétua do Valle*: O concílio das mágoas

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Fôra a mágoa maior que me ferira...
Alienado o coração, gemendo
Verga-se ao peso desse mal tremendo,
Sucumbe... quase de sofrer expira!

Sucumbe é um modo de dizer, mentira!
Que o coração mais vive padecendo!
Sim, quem não sente muito mais sofrendo?
Quem de dor, tresloucado, não delira?

Fôra uma dor que em fundo me abalara...
Para obumbrá-la — retentiva amara! —
Acordei toda antiga inf’licidade...

Debalde foi! debalde! ela sozinha
Feroz resiste e é muito mais daninha
Que as mágoas todas da primeira idade!


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página anota que Perpétua do Valle é pseudônimo de Presciliana Duarte de Almeida.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Presciliana Duarte de Almeida (1867 1944), mineira de Pouso Alegre, foi jornalista, professora, escritora, poetisa, co-fundadora (juntamente com o filólogo Sílvio Tibiriçá de Almeida, seu marido e também poeta) e diretora da revista A Mensageira, publicação esta que promoveu intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal, França, Argentina e outros países; Presciliana atuou no meio cultural paulista no fim do século XIX e início do XX; ainda em sua juventude, na Pouso Alegre natal, foi co-autora de Colibri, revista literária manuscrita com produções da época, cuja tiragem era de apenas 12 exemplares, mas que durou quatro longos anos, sendo distribuída mensalmente nos meios literários e, em corrente fraterna, passou por diversas mãos e chegou a vários pontos do país; já casada e em São Paulo, passou a colaborar com os periódicos Almanaque Brasileiro Garnier, A Estação, Rua do Ouvidor, A Semana, Diário Popular... e, depois, empenhada no movimento pedagógico renovador que se iniciava no país, colaborou na revista Educação (fundada em 1902, na qual figuravam os mais destacados intelectuais da época) e Alvorada; a poeta, mulher do século XX e figura feminina de destaque do movimento cultural literário e educacional paulista, influenciou diretamente toda a história da literatura infantil antes de Monteiro Lobato; escreveu e publicou Rumorejos (poesias, em parceria com Maria Clara da Cunha Santos, 1890), Sombras (1906), Páginas Infantis (1908), O Livro das Aves: crestomatia em prosa e verso (1914), adotado em várias escolas paulistas, Vetiver (poesias de vários tempos, 1938) e, em edição póstuma, Antologia Poética (reunião de poemas, 1976); foi membro-fundadora e primeira ocupante feminina de cadeira da Academia Paulista de Letras; Presciliana Duarte também assinou resenhas e poemas com o pseudônimo Perpétua do Valle.

domingo, 1 de outubro de 2023

Presciliana Duarte de Almeida: Valsando


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Ao Bolivar

A quanto tempo só contigo valso,
Feiticeiro parzinho enamorado!
Não tens o brilho de um sorriso falso:
Paz, inocência, amor... tudo a teu lado!

Valso contigo e ao mesmo tempo canto.
Sou a música e o par, és o perfume!
Incomparável e festivo encanto
Desse baile que tem o teu olhar por lume!

E refulgem teus olhos satisfeitos
A cada giro do valsar antigo...
Sei que não sabes ver os meus defeitos,
Neste baile ninguém competirá comigo!

E assim a qualquer hora ou da noite ou do dia
Tem o mesmo fulgor a tua figurinha!
Ah! contigo a valsar, minh’alma se inebria:
Como que alegre voa e para o céu caminha!

24 de julho de 1898
(A Mensageira, 15 de fevereiro de 1899, Ano II, nº 25)

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Presciliana Duarte de Almeida (1867 1944), mineira de Pouso Alegre, foi jornalista, professora, escritora, poetisa, co-fundadora (juntamente com o filólogo Sílvio Tibiriçá de Almeida, seu marido e também poeta) e diretora da revista A Mensageira, publicação esta que promoveu intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal, França, Argentina e outros países; Presciliana atuou no meio cultural paulista no fim do século XIX e início do XX; ainda em sua juventude, na Pouso Alegre natal, foi co-autora de Colibri, revista literária manuscrita com produções da época, cuja tiragem era de apenas 12 exemplares, mas que durou quatro longos anos, sendo distribuída mensalmente nos meios literários e, em corrente fraterna, passou por diversas mãos e chegou a vários pontos do país; já casada e em São Paulo, passou a colaborar com os periódicos Almanaque Brasileiro Garnier, A Estação, Rua do Ouvidor, A SemanaDiário Popular... e, depois, empenhada no movimento pedagógico renovador que se iniciava no país, colaborou na revista Educação (fundada em 1902, na qual figuravam os mais destacados intelectuais da época) e Alvorada; a poeta, mulher do século XX e figura feminina de destaque do movimento cultural literário e educacional paulista, influenciou diretamente toda a história da literatura infantil antes de Monteiro Lobato; escreveu e publicou Rumorejos (poesias, em parceria com Maria Clara da Cunha Santos, 1890), Sombras (1906), Páginas Infantis (1908), O Livro das Aves: crestomatia em prosa e verso (1914), adotado em várias escolas paulistas, Vetiver (poesias de vários tempos, 1938) e, em edição póstuma, Antologia Poética (reunião de poemas, 1976); foi membro-fundadora e primeira ocupante feminina de cadeira da Academia Paulista de Letras; Presciliana Duarte também assinou textos e resenhas com o pseudônimo Perpétua do Valle.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Zalina Rolim: Livro das Crianças, 1898 — Impressões de leitura [Por Perpétua do Valle]

Resultado de imagem para A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira Volume I IMESP
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          Conquanto o nome de Zalina Rolim encimando um livro fosse bastante para que o abríssemos já debaixo de uma expectativa simpática, foi com curiosidade talvez que folheamos as páginas deste livrinho, ultimamente dado a lume.
          Era o primeiro livro, destinado às escolas, que a poetisa d'O Coração entregava ao público e era justa a nossa curiosidade. Zalina Rolim saiu-se neste novo gênero de literatura com a galhardia habitual ao seu estro lírico. Manifestando o grande pendor de seu espirito para as obras didáticas, soube, com muita simplicidade e graça insinuante, introduzir nos seus versos destinados à infância, grande soma de conselhos e verdades, que estamos habituadas a ver em páginas sombrias e carrancudas.
          Basta ler a primeira poesia do livro para nos convencermos do que fica dito.
          Ei-la:

          Pouco a pouco

          Nada de pressa;
          Bem devagar,
          Que assim começa
          Quem quer chegar.
     E vai subindo o castelo,
     Pedra a pedra, airoso e belo...

          O olhar atento,
          A mão bem leve,
          Que o movimento
          Ao ar se eleve:
     Mas paciência e cuidado,
     Que senão tudo é baldado.

          Toda a existência
          Nos mostra e ensina
          Que a impaciência
          Gera a ruína:
     Não se corre em longa via;
     Roma não se fez em um dia.

          A gente pode
          Chegar a tudo,
          Que nos acode,
          Com senso e estudo:
     E as palavras dos mais velhos
     Sejam nossos evangelhos.

          À infinda meta
          Dos nossos sonhos
          Em linha reta
          Vamos risonhos:
     Sem medo aos bosques sombrios,
     Fugindo sempre a desvios.

          A vida é a luta
          De toda a hora;
          Jogo e permuta
          Que revigora:
     Render-se a gente à preguiça,
     É fugir à nobre liça.

          Não tem direitos
          Quem, dos labores,
          Foge aos preceitos
          E evita as dores:
     A natureza é um erário,
     E todo o ser, tributário.

          Quem foge à lida
          Dos outros seres,
          Falta da vida
          Aos sãos deveres:
     E  castelos sem trabalho 
     Só castelos de baralho.

          Esta poesia, como todas as outras, traz uma gravura explicativa, que desperta de pronto o interesse das crianças. Ah! se nós mesmas gostamos de ler um livro bonito, quanto mais os garrulos pequenos.
          O Livro das Crianças deve merecer muito interesse da parte de nossas leitoras: é uma obra feita para nossos filhos e para nossos irmãos, e não pode deixar de despertar nossa simpatia. Ficará associado às impressões que guardarmos de nossos adorados travessos e tanto basta para que seja um livro querido.
          Disse alguém que este trabalho "destinado às crianças, pode ser lido com prazer pelos adultos", e afirmou uma verdade. A simplicidade, a correção de linguagem e a delicadeza dos assuntos o tornam sobremodo agradável e atraente. Das poesias que mais nos agradam, citaremos Em férias, Uma Amiguinha, A volta ao lar e a seguinte, que vamos transcrever por ser uma das mais apreciáveis do livro:

          Onde está a Pátria?

"É aqui?"  Não, Lucia; de outro lado, espera,
Essas terras que vês, são velhos mundos:
A Europa, o templo, onde a ciência impera,
A Ásia e a África, túmulos profundos.

"Túmulos?"  Sim, de séculos violentos,
Que hoje a ciência passo a passo explora:
Legendas, tradições e monumentos
De homens, que ao mundo deram leis outrora.

"E aqui ao sul?"  a Austrália, aves estranhas;
Ilhas, que em bancos de coral se aprumam;
Minas de ouro; florestas e montanhas,
Que a caneleira e o sândalo perfumam.

"E a América?"  Ei-la, enfim aos teus olhares:
A Oeste - elevações de enorme serra;
Espumejando a leste infindos mares,
E, entre palmeiras, linda, a nossa terra!

"Quero vê-la!... Meu Deus! é tão pequeno
O cantinho de terra a que pertenço!"
 Como te enganas, Lucia! O seu terreno
É quase igual à Europa; é grande, é imenso!...

E para mim é mais que o mundo inteiro,
Meu formos Brasil, Pátria querida!...
Por ele eu quero ser forte e guerreiro,
Dar-lhe o meu sangue, consagrar-lhe a vida.

Quem me dera fosse eu já homem feito
Em altura, e saber, e nobre entono,
Para abrigá-lo à sombra do meu peito
E elevá-lo da glória ao régio trono!

É aqui, irmãzinha: olha o torrão fecundo,
A cuja sombra o nosso Lar se abriga;
Neste círculo de ouro é o nosso mundo,
O altar augusto, a que a feição nos liga.

E São Paulo, onde está? Não vejo nada
Neste globo tão liso e tão bonito?
Deixa-me ver a terra abençoada,
Onde nasceu nossa Mamãe, Carlito!"

          Finalizamos esta ligeira apreciação enviando sinceros emboras à Zalina Rolim e à infância brasileira que acaba de fazer aquisição de um livro formoso sob todos os pontos de vista.

Perpétua do Valle, em A Mensageira,
 Ano 1, número 9, 15 de fevereiro de 1898

Zalina Rolim
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869  1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 — 1900) e para os jornais O ItapetiningaCorreio Paulistano e A Província de São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora nomeado; viveu também em São Paulo.

Perpétua do Valle (fim do século IX  início do século XX),  poeta e crítica literária e de arte, colaborou em A Mensageira (1897 a 1900), escrevendo a coluna "Impressões de Leitura"  e outros escritos e poemas.