Conquanto o nome de Zalina Rolim encimando um livro fosse bastante para que o abríssemos já debaixo de uma expectativa simpática, foi com curiosidade talvez que folheamos as páginas deste livrinho, ultimamente dado a lume.
Era o primeiro livro, destinado às escolas, que a poetisa d'O Coração entregava ao público e era justa a nossa curiosidade. Zalina Rolim saiu-se neste novo gênero de literatura com a galhardia habitual ao seu estro lírico. Manifestando o grande pendor de seu espirito para as obras didáticas, soube, com muita simplicidade e graça insinuante, introduzir nos seus versos destinados à infância, grande soma de conselhos e verdades, que estamos habituadas a ver em páginas sombrias e carrancudas.
Basta ler a primeira poesia do livro para nos convencermos do que fica dito.
Ei-la:
Pouco a pouco
Nada de pressa;
Bem devagar,
Que assim começa
Quem quer chegar.
E vai subindo o castelo,
Pedra a pedra, airoso e belo...
O olhar atento,
A mão bem leve,
Que o movimento
Ao ar se eleve:
Mas paciência e cuidado,
Que senão tudo é baldado.
Toda a existência
Nos mostra e ensina
Que a impaciência
Gera a ruína:
Não se corre em longa via;
Roma não se fez em um dia.
A gente pode
Chegar a tudo,
Que nos acode,
Com senso e estudo:
E as palavras dos mais velhos
Sejam nossos evangelhos.
À infinda meta
Dos nossos sonhos
Em linha reta
Vamos risonhos:
Sem medo aos bosques sombrios,
Fugindo sempre a desvios.
A vida é a luta
De toda a hora;
Jogo e permuta
Que revigora:
Render-se a gente à preguiça,
É fugir à nobre liça.
Não tem direitos
Quem, dos labores,
Foge aos preceitos
E evita as dores:
A natureza é um erário,
E todo o ser, tributário.
Quem foge à lida
Dos outros seres,
Falta da vida
Aos sãos deveres:
E — castelos sem trabalho —
Só castelos de baralho.
Esta poesia, como todas as outras, traz uma gravura explicativa, que desperta de pronto o interesse das crianças. Ah! se nós mesmas gostamos de ler um livro bonito, quanto mais os garrulos pequenos.
O Livro das Crianças deve merecer muito interesse da parte de nossas leitoras: é uma obra feita para nossos filhos e para nossos irmãos, e não pode deixar de despertar nossa simpatia. Ficará associado às impressões que guardarmos de nossos adorados travessos e tanto basta para que seja um livro querido.
Disse alguém que este trabalho "destinado às crianças, pode ser lido com prazer pelos adultos", e afirmou uma verdade. A simplicidade, a correção de linguagem e a delicadeza dos assuntos o tornam sobremodo agradável e atraente. Das poesias que mais nos agradam, citaremos Em férias, Uma Amiguinha, A volta ao lar e a seguinte, que vamos transcrever por ser uma das mais apreciáveis do livro:
Onde está a Pátria?
"É aqui?" — Não, Lucia; de outro lado, espera,
Essas terras que vês, são velhos mundos:
A Europa, o templo, onde a ciência impera,
A Ásia e a África, túmulos profundos.
"Túmulos?" — Sim, de séculos violentos,
Que hoje a ciência passo a passo explora:
Legendas, tradições e monumentos
De homens, que ao mundo deram leis outrora.
"E aqui ao sul?" — a Austrália, aves estranhas;
Ilhas, que em bancos de coral se aprumam;
Minas de ouro; florestas e montanhas,
Que a caneleira e o sândalo perfumam.
"E a América?" — Ei-la, enfim aos teus olhares:
A Oeste - elevações de enorme serra;
Espumejando a leste infindos mares,
E, entre palmeiras, linda, a nossa terra!
"Quero vê-la!... Meu Deus! é tão pequeno
O cantinho de terra a que pertenço!"
— Como te enganas, Lucia! O seu terreno
É quase igual à Europa; é grande, é imenso!...
E para mim é mais que o mundo inteiro,
Meu formos Brasil, Pátria querida!...
Por ele eu quero ser forte e guerreiro,
Dar-lhe o meu sangue, consagrar-lhe a vida.
Quem me dera fosse eu já homem feito
Em altura, e saber, e nobre entono,
Para abrigá-lo à sombra do meu peito
E elevá-lo da glória ao régio trono!
É aqui, irmãzinha: olha o torrão fecundo,
A cuja sombra o nosso Lar se abriga;
Neste círculo de ouro é o nosso mundo,
O altar augusto, a que a feição nos liga.
E São Paulo, onde está? Não vejo nada
Neste globo tão liso e tão bonito?
Deixa-me ver a terra abençoada,
Onde nasceu nossa Mamãe, Carlito!"
Finalizamos esta ligeira apreciação enviando sinceros emboras à Zalina Rolim e à infância brasileira que acaba de fazer aquisição de um livro formoso sob todos os pontos de vista.
Perpétua do Valle, em A Mensageira,
Ano 1, número 9, 15 de fevereiro de 1898
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| Zalina Rolim |
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A Mensageira — Revista
Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida
(1897 a
1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários
de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado
S/A — IMESP, São Paulo — SP; Maria Zalina Rolim Xavier
de Toledo (1869 — 1961), paulista de Botucatu, foi
professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de
poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São
Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com
a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções
originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista
feminina A Mensageira (1897 — 1900) e para os
jornais O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de
São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das
Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para
publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de
sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora
nomeado; viveu também em São Paulo.
Perpétua do Valle (fim do século IX — início do século XX), poeta e crítica literária e de arte, colaborou em A Mensageira (1897 a 1900), escrevendo a coluna "Impressões de Leitura" e outros escritos e poemas.