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[O Espelho — Informativo dos funcionários do Banco do Brasil — AGCEN SP — Ano I — n° 6 — Setembro de 1980]
Dias destes, quando eu saía da Estação São Bento do Metrô, mais ou menos ao meio-dia-e-meia, deparei com muitas caras que não me eram estranhas. Eram todos bancários, nossos colegas aqui do Banco. Muita gente. Umas trezentas pessoas. Homens e mulheres. E seguiam, decididos, à Florêncio de Abreu.
Passeata estranha aquela, raciocinei. Sem gritos nem slogans, mas só podia ser passeata. E pra algum ato público. O que mais levaria tantos bancários juntos pelas ruas do centro e numa só direção? Nesta selva de pedra só passeata consegue este milagre.
Meio-de-semana, meio-dia-e-meia, trezentos bancários e bancárias do BB abandonam suas cadeiras, suas mesas, seus carimbos e seguem em passeata convocada por não sei quem, pro ato público não sei onde e pra protestar contra não sei o quê. Desta vez a coisa vai, pensei exultante.
Engraçado. Alguma coisa no entanto estava fora dos eixos. Onde andavam as lideranças, que não vi ninguém ali nem nas imediações? Cadê os megafones, as faixas? E a bandinha, pra arrastar mais gente? Era preciso mais que depressa avisar as lideranças...!
Ato contínuo, parei na primeira banca de jornal e adquiri uma fichinha de telefone. E, de um orelhão, eu já estava discando: três-meia, meia-três... foi quando vi Satélio, que seguia junto com o povão.
Assim que ele me viu, fui perguntando:
— Você por aqui também?
— Sim, estou com o pessoal. Respondeu.
— Aonde vai ser o ato?
— Que ato? Retrucou Satélio, com cara de quem não estava entendendo nada.
— O ato público! Então você não está indo pro ato público dos funcionários do Banco do Brasil?
— Eu não estou sabendo de ato público nenhum. Eu e mais esse povão vamos pro verdinho, o vegetariano do setenta-e-sete da Florêncio. Vamos também?
— Não, eu já vim almoçado de casa. Respondi gaguejando e meio sem graça com a tremenda gafe que eu havia dado.
Após eu ficar sabendo que quase todo dia o pessoal almoçava lá no verdinho, dei qualquer desculpa a Satélio, depositei o fone no gancho, retirei a fichinha devolvida e me despedi. Segui em direção ao Banco, matutando. Então todo esse povão está deixando de almoçar no Gervásio, e o Banco nem tchuns? Quanta safanagem, hein! Depois vêm dizer que a administração é sensível aos problemas que afligem o funcionalismo da casa! Tudo babozeira. Se o pessoal prefere almoçar fora apesar de ter que desembolsar mais dinheiro, quer dizer que lá no onze a bóia continua aquelas coisas. E os funcionários das locadoras, que são obrigados almoçarem lá? Eles têm os tíquetes carimbados, que são válidos somente para uso interno. Dá dó deles!
Entrei no elevador, ruminando muitas coisas. Meio sonhando-meio acordado.
Já era quase uma hora. Mais um dia de serviço me esperava.
Dias destes, quando eu saía da Estação São Bento do Metrô, mais ou menos ao meio-dia-e-meia, deparei com muitas caras que não me eram estranhas. Eram todos bancários, nossos colegas aqui do Banco. Muita gente. Umas trezentas pessoas. Homens e mulheres. E seguiam, decididos, à Florêncio de Abreu.
Passeata estranha aquela, raciocinei. Sem gritos nem slogans, mas só podia ser passeata. E pra algum ato público. O que mais levaria tantos bancários juntos pelas ruas do centro e numa só direção? Nesta selva de pedra só passeata consegue este milagre.
Meio-de-semana, meio-dia-e-meia, trezentos bancários e bancárias do BB abandonam suas cadeiras, suas mesas, seus carimbos e seguem em passeata convocada por não sei quem, pro ato público não sei onde e pra protestar contra não sei o quê. Desta vez a coisa vai, pensei exultante.
Engraçado. Alguma coisa no entanto estava fora dos eixos. Onde andavam as lideranças, que não vi ninguém ali nem nas imediações? Cadê os megafones, as faixas? E a bandinha, pra arrastar mais gente? Era preciso mais que depressa avisar as lideranças...!
Ato contínuo, parei na primeira banca de jornal e adquiri uma fichinha de telefone. E, de um orelhão, eu já estava discando: três-meia, meia-três... foi quando vi Satélio, que seguia junto com o povão.
Assim que ele me viu, fui perguntando:
— Você por aqui também?
— Sim, estou com o pessoal. Respondeu.
— Aonde vai ser o ato?
— Que ato? Retrucou Satélio, com cara de quem não estava entendendo nada.
— O ato público! Então você não está indo pro ato público dos funcionários do Banco do Brasil?
— Eu não estou sabendo de ato público nenhum. Eu e mais esse povão vamos pro verdinho, o vegetariano do setenta-e-sete da Florêncio. Vamos também?
— Não, eu já vim almoçado de casa. Respondi gaguejando e meio sem graça com a tremenda gafe que eu havia dado.
Após eu ficar sabendo que quase todo dia o pessoal almoçava lá no verdinho, dei qualquer desculpa a Satélio, depositei o fone no gancho, retirei a fichinha devolvida e me despedi. Segui em direção ao Banco, matutando. Então todo esse povão está deixando de almoçar no Gervásio, e o Banco nem tchuns? Quanta safanagem, hein! Depois vêm dizer que a administração é sensível aos problemas que afligem o funcionalismo da casa! Tudo babozeira. Se o pessoal prefere almoçar fora apesar de ter que desembolsar mais dinheiro, quer dizer que lá no onze a bóia continua aquelas coisas. E os funcionários das locadoras, que são obrigados almoçarem lá? Eles têm os tíquetes carimbados, que são válidos somente para uso interno. Dá dó deles!
Entrei no elevador, ruminando muitas coisas. Meio sonhando-meio acordado.
Já era quase uma hora. Mais um dia de serviço me esperava.
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Satélio, P. da Silva e Genésio dos Santos são uma só pessoa e assumem, em uníssono, a autoria desta crônica.