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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Novalis: Anseio pela morte


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[traduzido por Felipe Vale da Silva

[Hinos à Noite (VI)]

Abaixo, no ventre da Terra
Muito aquém do reino do Dia
A fúria, a dor e a guerra
anunciam sua oportuna partida
Chegamos em canoa estreita
nas praias do paraíso
Bendita seja a Noite infinda!
Bendito, o sono infinito!
É certo que o Dia acalenta,
mitiga o antigo pesar.
Foi-se o anseio por reinos distantes,
junto ao Pai encontramos um lar.
O que resta fazer neste mundo,
do que vale o amor e apego?
O que é arcaico deixamos de lado,
ao moderno temos menosprezo.
Solitário e aflito é o estado
de quem ama o que está no passado.
Um passado em que a luz dos sentidos
já ardeu com imensa fulgência
Onde a face do Onipresente
era parte da humana vivência.
Em grandor, em sublimidade
remetíamos à diva imagem.
Em que troncos remotos da espécie
esbanjavam em emolumentos;
preferível era a morte e o martírio
pois assim chega-se ao firmamento.
E conquanto o desejo é constante
foi o amor que saiu triunfante.
Um passado onde, ainda jovem
Deus revela sua face à Terra
Por amor à verdade Ele morre
Como poucos, doce vida era
Não acossou de si medo e dor
Isso é prova de seu firme amor.
Com anseio, vivemos inquietos,
encobertos pela noite escura
Hoje nem toda a água do mundo
Poderá saciar esta secura,
Resta a ânsia de voltar para casa
Reviver uma era sagrada
E o que impede o nosso regresso?
Já repousam aqueles que amamos;
a tumba é o limite do nosso caminho;
a nos resta só horror e prantos
Esta busca não visa algo certo
o peito está cheio o mundo é um deserto.
Infinito e misterioso
Nos domina um terror doce e mudo
Creio ouvir, dos profundos recessos
O murmúrio de quem veste luto
É possível que um amigo aguarde,
nos envie um sinal de saudades.
Entreguemo-nos à noiva doce,
mais para além, a Jesus, o amado
Consolai-vos com as trevas da noite
os que amam e os conturbados
Pois, quiçá, em um sonho, nossa algema cai
E seremos entregues aos cuidados do Pai.

Novalis

Sehnsucht nach dem Tode

Hinunter in der Erde Schoß,
Weg aus des Lichtes Reichen,
Der Schmerzen Wut und wilder Stoß
Ist froher Abfahrt Zeichen.
Wir kommen in dem engen Kahn
Geschwind am Himmelsufer an.
Gelobt sei uns die ew’ge Nacht,
Gelobt der ew’ge Schlummer.
Wohl hat der Tag uns warm gemacht
Und welk der lange Kummer.
Die Lust der Fremde ging uns aus,
Zum Vater wollen wir nach Haus.
Was sollen wir auf dieser Welt
Mit unsrer Lieb und Treue.
Das Alte wird hintangestellt,
Was soll uns dann das Neue.
Oh! einsam steht und tiefbetrübt,
Wer heiß und fromm die Vorzeit liebt.
Die Vorzeit wo die Sinne licht
In hohen Flammen brannten,
Des Vaters Hand und Angesicht
Die Menschen noch erkannten.
Und hohen Sinns, einfältiglich
Noch mancher seinem Urbild glich.
Die Vorzeit, wo noch blütenreich
Uralte Stämme prangten
Und Kinder für das Himmelreich
Nach Qual und Tod verlangten.
Und wenn auch Lust und Leben sprach,
Doch manches Herz für Liebe brach.
Die Vorzeit, wo in Jugendglut
Gott selbst sich kundgegeben
Und frühem Tod in Liebesmut
Geweiht sein süßes Leben.
Und Angst und Schmerz nicht von sich trieb,
Damit er uns nur teuer blieb.
Mit banger Sehnsucht sehn wir sie
In dunkle Nacht gehüllet,
In dieser Zeitlichkeit wird nie
Der heiße Durst gestillet.
Wir müssen nach der Heimat gehn,
Um diese heil’ge Zeit zu sehn.
Was hält noch unsre Rückkehr auf,
Die Liebsten ruhn schon lange.
Ihr Grab schließt unsern Lebenslauf,
Nun wird uns weh und bange.
Zu suchen haben wir nichts mehr
Das Herz ist satt die Welt ist leer.
Unendlich und geheimnisvoll
Durchströmt uns süßer Schauer
Mir deucht, aus tiefen Fernen scholl
Ein Echo unsrer Trauer.
Die Lieben sehnen sich wohl auch
Und sandten uns der Sehnsucht Hauch.
Hinunter zu der süßen Braut,
Zu Jesus, dem Geliebten
Getrost, die Abenddämmrung graut
Den Liebenden, Betrübten.
Ein Traum bricht unsre Banden los
Und senkt uns in des Vaters Schoß.

Hymnen an die Nacht [VI]
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; teve textos publicados no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos, dos quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Rubens Rodrigues Torres Filho: Ciúme & Cá, entre nós

 
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Ciúme

Aquele no espelho a quem me assemelho
 um pouco mais novo, um pouco mais velho 
arrumado até os dentes, que a escova palmilha,
o tabaco amarela,
                         que me diz bom-dia
apesar do que me revela
e que sem cerimônia me olha familiar
sem ver como me espanta com seu ser e com seu ar
será, de repente, o rival indecente
que interessa a ela?

Poros (1989)

— o —

Cá, entre nos

Você me olhou. Só que isso,
você já sabe, me deixa gago
                            ernbaraçado.
Feito a meada de que perco o fio.
Quanto mais encontrar agora a frase certa
e alerta
para tocar-te, sem perder o humor. Como acertar
o gesto, o dito que entre nos estabeleça
aquela transparência de corações
que seria algo tão bom, tão oportuno
neste momento, para algum
dos dois?

Poros (1989)

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Novalis: Erguida está a rocha . . .


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[traduzido por Felipe Vale da Silva

[extrato da seção V de Hinos à Noite]

Erguida está a rocha
A humanidade, elevada
seguimos sendo teus filhos
Enfim livres de amarras
O mais forte apreço
verte o teu cálice argênteo;
a última ceia é chegada
chegado é o fim dos tempos.
As bodas evocam a morte
E tochas queimam intensas;
pela unção do consorte
a virgem aguarda tesas
E se de longe se ouvisse
sons de uma tal comitiva
E se a estrela clamasse
Com língua humana, o faria.
A ti, ó Maria, já batem
forte milhares de peitos
Pois nesta vida de trevas
és alvo de nosso anseio.
Do esperar por uma cura
com presciente desejo
Aperta-nos, ó divina,
achega-nos em teu seio.
Tantos que ardem e consomem
padecem angústias amaras
Tantos que do mundo fogem
Voltam-se a ti, virgem amada;
Pois és a auxiliadora
Das almas necessitadas
voltamo-nos todos a ti
Em busca de eterna morada.
Não deite lágrimas aos mortos
Não sofra, pois tua fé
no amor doce e devoto
Não será abalada, sequer
Terás teu anseio saciado
A noite será teu entusiasmo
teu coração está guardado
Pelos fiéis filhos do céu
Com tal consolo, a vida segue
perdura o seu percurso eterno,
expande-a um imo ardor
que transfigura o intelecto.
O céu estrelado então dissipa
chegada é a hora do repasto
Reflui o néctar da áurea vinha
converte-nos na luz dos astros
O amor não encontra mais barreiras
as velhas divisões são findas
Ressoam aí a plena vida
tal qual um mar ilimitado.
A vida será um longo êxtase
uma noite eterna, doce hino
e o Sol que a todos ilumina
terá a face do divino.

Novalis

[ . . . ]

V

Gehoben ist der Stein
Die Menschheit ist erstanden
Wir alle bleiben dein
Und fühlen keine Banden.
Der Herbeste Kummer Fleucht
Vor deiner goldnen Schale,
Wenn Erd und Leben weicht
Im letzten Abendmahle.
Zur Hochzeit ruft der Tod
Die Lampen brennen helle
Die Jungfraun sind zur Stelle
Um Öl ist keine Not
Erklänge doch die Ferne
Von deinem Zuge schon,
Und ruften uns die Sterne
Mit Menschenzung' und Ton.
Nach dir, Maria, heben
Schon tausend Herzen sich.
In diesem Schattenleben
Verlangten sie nur dich.
Sie hoffen zu genesen
Mit ahndungsvoller Lust
Drückst du sie, heilges Wesen,
An deine treue Brust.
So manche, die sich glühend
In bittrer Qual verzehrt
Und dieser Welt entfliehend
Nach dir sich hingekehrt;
Die hülfreich uns erschienen
In mancher Not und Pein
Wir kommen nun zu ihnen,
Um ewig da zu sein.
Nun weint an keinem Grabe
Für Schmerz, wer liebend glaubt,
Der Liebe süße Habe
Wird keinem nicht geraubt
Die Sehnsucht ihm zu lindern,
Begeistert ihn die Nacht
Von treuen Himmelskindern
Wird ihm sein Herz bewacht.
Getrost, das Leben schreitet
Zum ew’gen Leben hin;
Von innrer Glut geweitet
Verklärt sich unser Sinn.
Die Sternwelt wird zerfließen
Zum goldnen Lebenswein,
Wir werden sie genießen
Und lichte Sterne sein.
Die Lieb ist frei gegeben,
Und keine Trennung mehr.
Es wogt das volle Leben
Wie ein unendlich Meer.
Nur eine Nacht der Wonne
Ein ewiges Gedicht
Und unser aller Sonne
Ist Gottes Angesicht.

Hymnen an die Nacht [V]
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; teve textos publicados no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos, dos quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Rubens Rodrigues Torres Filho: Cantigas de amor e roda (1)

 
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Batatinha quando nasce
derrama um verde no chão.
Meu amor, se está dormindo,
é um navio, na dimensão

onde tudo é pouco a pouco
e a lua vem aprender
a sua calma enrolada
naquele duplo viver.

Pego meu violão sem corda
que é para não a acordar
dessa espécie de enseada
que é o sono, nesse vagar,

e passo a cantar sem nada
pedir nem nada dizer,
sendo que pousa uma rosa
em tudo que não disser,

para ajudar que ela tenha
um sono de mansa lã
que seja a mais amorosa
preparação de manhã.

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Rubens Rodrigues Torres Filho: Um toque & Imagem

 
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Imagem

Sou tarado por você. Nossa! Isso sim é tesão.
Só pensar, viro menino
masturbador, que nasce pelo na mão.
Me amarro nos teus peitinhos,
xoxota que sai caldinho,
                                asas da imaginação!
Só porque digo em poesia
é exagero? Não é não.

Retrovar (1993)

 o 

Um toque

Estive
algumas vezes só
como um rochedo
batido pelas bestas ondas verdes
do mar adjacente. Só
é como estar ausente
no centro exato. Limita por dentro.
O céu redondo, capa impermeável
ou sobretudo lírico, acrescenta
um toque de ironia
ou de clemência: ave,
algumas vezes chuva,
no mínimo uma estrela.

Retrovar (1993)

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Lindolf Bell: Passam os cavalos do tempo

 
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Passam os cavalos do tempo
a cavalo passam.
E tu és a viagem
que algum dia
alguém deixou de fazer,
não por perder o navio
mas por perder-se.

Tudo passa
mas tudo fica.
E se outra vez as estações florescem
entre partir e chegar,
antes era o mar de teu derramamento
tramado nas ramas de annamar.

Estrela visceral,
alarga as velas de pouso,
alarga as avenidas,
alarga as alas-alamedas,
o coração é largo quando é largo o pranto,
quem lavra a terra lavra a dor.

Passam os cavalos do tempo
a cavalo passam.
A idade absurda
onde não se colhe
o que se planta,
é o tempo que ilumina
e elimina.

As Annamárias, 1971

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; obras: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

sábado, 1 de outubro de 2022

Rubens Rodrigues Torres Filho: Considerações da infância

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Habitas a dor da hora,
menino deste planeta,
em que se aninham os ratos
nas raízes da ciência
e o espaço, aberto, salta,
devora teu pensamento.
O teu silêncio nas pedras
é sem rancor nem memória,
menino dentro da hora.
Teu pai te falou em danças
e em orgias atômicas
e tu escavaste a cabeça
para entender o momento
de espera dilacerada.
Fugiste nas madrugadas
no dorso de ásperos ventos,
sonhando os risos mais puros
e entregando movimentos
aos dentes do amargo tempo.
Teu rosto tem traços de ácido
e a morte vem, amarela,
com seus cabelos aquáticos,
acariciar docemente
teu sono inquieto e redondo.
Escapas do seu abraço
para caíres, sem peso,
no poço de cada dia.
Nada revelas. Os frutos
armam ciladas de encanto
e matemáticas flores
desvendam seu claro engano.

Investigação do olhar (1963)

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, vieram O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Lindolf Bell: Semanário

 
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Na segunda-feira trabalho.
Afio enganos, anos e anos.

Na terça-feira trabalho.
Faço promessas de vagar
e de pressas.

Na sexta-feira trabalho.
Descubro um buraco na calça.
Outro buraco na alma.
Liquido a traça.

Na quarta-feira trabalho.
Empilho o tédio em caixas.
Penduro em branco nas ruas,
as faixas.

Na quinta-feira trabalho.
Esqueço um percevejo
no fundo da gaveta
do desejo.

Sábado trabalho.
No fonema, no poema.
No sonho entalado da verdade.
No dilema da felicidade.

No domingo
sento numa praça deserta.
E penso, covarde,
na próxima semana
escrita no livro da liberdade.

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

domingo, 6 de dezembro de 2020

Lindolf Bell: Poema matemático

 
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Me somo.
E fico um.

Me multiplico.
E permaneço um.

Me divido.
E continuo um.

Me diminuo.
E resto um.

Me escrevo.
E sou nenhum.

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).