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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Catulo: Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos, . . .

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[traduzido por Luiz Arthur Pagani]

V

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos,
sem dar o mínimo valor a todos
os boatos dos velhos mais severos.
Os sóis podem pôr-se
e depois voltar,
mas para nós, uma vez que se ponha
nossa breve luz,
a noite deverá ser um perpétuo
e único sono.
Dê-me mil beijos, e em seguida cem,
e depois mil outros,
depois mais cem, e em seguida outros mil
sem interrupção, e em seguida cem.
Depois, quando tivermos completado
muitos mil, teremos
já perdido a conta
para não termos limite e nenhum
mal-intencionado
possa nos invejar por saber quantos
beijos foram dados.

Caio Valério Catulo

V

Vivamus, mea lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis.
Soles occidere et redire possunt:
nobis, cum semel occidit brevis lux
nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut nequis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

(Pestalozza, Umberto. C. Valeri Catulli, Carmina / Scelta.
Milano, Francesco Vallardi, 1922.)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Caio Valério Catulo (87 a.C. 54 a.C., datas presumíveis), nascido em Verona (?) na Roma antiga, Império Romano, foi poeta lírico latino; estudos atuais sobre Catulo são convergentes em anotar que, embora Cícero (106 a.C. 43 a.C.) tenha proferido, de forma pejorativa, ser o poeta um novo (poetae novi, moderno), foi, porém, Catulo quem cometera a “licenciosidade” de, à época, introduzir/expressar, no universo literário latino, “correntes líricas importadas da Grécia, estranhas aos antigos padrões épicos (mitológicos).”; conforme o professor João Angelo Oliva Neto, “Catulo pertenceu a um grupo de poetas e intelectuais que, nos meados do século 1 a.C., rompeu com o passado literário romano”, daí advirem as críticas recebidas de Cícero, chamando-os, com ironia, de poetae novi (poetas novos).; o poeta Catulo exerceu influência em Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Marcial (38 d.C. 104 d.C.); do grupo de poetae novi, da primeira metade do primeiro século a.C., só chegaram até nós, deste século d.C. atual, Carminado próprio Catulo.

terça-feira, 16 de março de 2021

Catulo: Minha mulher diz que prefere ninguém mais do que eu para se casar, . . . & Odeio e amo . . .

 
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[traduzido por Luiz Arthur Pagani]

LXX

Minha mulher diz que prefere ninguém mais
do que eu para se casar, caso o próprio
Júpiter não se imponha. Assim ela tem dito:
mas o que uma mulher diz ao amante
apaixonado deveria ser escrito
sobre o vento e na água torrencial.

LXXXV

Odeio e amo. Por quê?  você quer saber.
Não sei, mas sinto assim e me atormenta.

Caio Valério Catulo

LXX

Nulli se dicit mulier mea nubere malle
quam mihi, non si se Iuppiter ipse petat.
Dicit: sed mulier cupido quod dicit amanti
in vento et rapida scribere oportet aqua.

LXXXV

Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris:
nescio, sed fieri sentio et excrucior.

(Pestalozza, Umberto. C. Valeri Catulli, Carmina / Scelta.
Milano, Francesco Vallardi, 1922.)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Caio Valério Catulo (87 a.C. 54 a.C., datas presumíveis), nascido em Verona (?) na Roma antiga, Império Romano, foi poeta lírico latino; estudos atuais sobre Catulo são convergentes em anotar que, embora Cícero (106 a.C. 43 a.C.) tenha proferido, de forma pejorativa, ser o poeta um novo (poetae novi, moderno), foi, porém, Catulo quem cometera a “licenciosidade” de, à época, introduzir/expressar, no universo literário latino, “correntes líricas importadas da Grécia, estranhas aos antigos padrões épicos (mitológicos).”; conforme o professor João Angelo Oliva Neto, “Catulo pertenceu a um grupo de poetas e intelectuais que, nos meados do século 1 a.C., rompeu com o passado literário romano”, daí advirem as críticas recebidas de Cícero, chamando-os, com ironia, de poetae novi (poetas novos); o poeta Catulo exerceu influência em Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Marcial (38 d.C. 104 d.C.); do grupo de poetae novi, da primeira metade do primeiro século a.C., só chegaram até nós, deste século d.C. atual, Carmina, do próprio Catulo.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Catulo: Atravessei muitos povos e muitos mares, . . .

 
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[traduzido por Luiz Arthur Pagani]

CI

Atravessei muitos povos e muitos mares,
irmão, para esse triste funeral,
para finalmente prestar-lhe as honras fúnebres
e em vão conversar com suas cinzas mudas,
já que o destino separou você de mim,
triste irmão vilmente tirado a mim.
Penso nunca mais ouvir falar de seus feitos,
nem nunca, irmão mais amado que a vida,
vê-lo depois: mas com certeza o amarei sempre
e sempre farei, por sua morte, tristes
poemas  como Procne que chora sob a sombra
das árvores o destino de Ítilo
já morto. Porém por enquanto, aceite as honras
fúnebres, encharcadas pelo pranto
de seu irmão, que, de acordo com os costumes
antigos de nossos antepassados,
foram trazidas para esses funerais.
E para sempre, irmão, olá e adeus.

Caio Valério Catulo

CI

Multas per gentes et multa per aequora vectus
advenio has miseras, frater, ad inferias,
ut te postremo donarem munere mortis
et mutam nequiquam alloquerer cinerem,
quandoquidem fortuna mihi tete abstulit ipsum,
heu miser indigne frater adempte mihi.
Alloquar, audiero numquam tua facta loquentem,
numquam ego te, vita frater amabilior,
aspiciam posthac: at certe semper amabo,
semper maesta tua carmina morte canam,
qualia sub densis ramorum coincinit umbris
Daulias absumpti fata gemens Itylei.
Nunc tamen interea haec, prisco quae more parentum
tradita sunt tristi munere ad inferias,
accipe fraterno multum manantia fletu,
atque in perpetuum, frater, ave atque vale.

(Pestalozza, Umberto. C. Valeri Catulli, Carmina / Scelta.
Milano, Francesco Vallardi, 1922.)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Caio Valério Catulo (87 a.C. 54 a.C., datas presumíveis), nascido em Verona (?) na Roma antiga, Império Romano, foi poeta lírico latino; estudos atuais sobre Catulo são convergentes em anotar que, embora Cícero (106 a.C. 43 a.C.) tenha proferido, de forma pejorativa, ser o poeta um novo (poetae novi, moderno), foi, porém, Catulo quem cometera a “licenciosidade” de, à época, introduzir/expressar, no universo literário latino, “correntes líricas importadas da Grécia, estranhas aos antigos padrões épicos (mitológicos).”; conforme o professor João Angelo Oliva Neto, “Catulo pertenceu a um grupo de poetas e intelectuais que, nos meados do século 1 a.C., rompeu com o passado literário romano”, daí advirem as críticas recebidas de Cícero, chamando-os, com ironia, de poetae novi (poetas novos).; o poeta Catulo exerceu influência em Ovídio (43 a.C. 17 ou 18 d.C.), Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Marcial (38 d.C. 104 d.C.); do grupo de poetae novi, da primeira metade do primeiro século a.C., só chegaram até nós, deste século d.C. atual, Carmina, do próprio Catulo.