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[traduzido por Ivan Junqueira]
Deste céu bizarro e nevoento,
Convulso como o teu destino,
À tua alma que pensamento
Desce? Responde, libertino.
— Insaciavelmente sedento
Do que não vejo e não defino,
Reprovo a Ovídio o seu lamento
Quando se foi do Éden latino.
Céus destroçados e tristonhos,
De vós o meu orgulho é fruto;
Vossas grossas nuvens de luto
São os esquifes de meus sonhos,
E vosso espectro a imagem traz
Do Inferno que à minha alma apraz.
Horreur
sympathique*
De ce ciel bizarre et livide,
Tourmenté comme ton destin,
Quels pensers dans ton âme vide
Descendent? réponds, libertin.
—
Insatiablement avide
De l'obscur et de l'incertain,
Je ne geindrai pas comme Ovide
Chassé du paradis latin.
Cieux déchirés comme des
grèves
En vous se mire mon orgueil;
Vos vastes nuages en deliu
Sont les corbillards de mes
rêves,
Et vos lueurs sont le reflet
De l'Enfer où mon coeur se plaît.
* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro
desta página faz constar que Jean-Baptiste Baronian, autor deste Baudelaire
[obra biobibliográfica], registra que o soneto Horreur sympatique fez parte da 2ª edição de As Flores do mal, reunindo 129 poemas e vinda a público
em 1861.
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Baudelaire — Jean-Baptiste Baronian,
traduzido por Julia da Rosa Simões, 2010, Coleção L&PM Pocket volume 806, Série Biografias/14, L&PM,
Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), francês e
parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand,
levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne),
foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido
internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra
teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX;
traduziu Edgar Allan Poe; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos
Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição
póstuma, 1869) e outros.

