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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Georg Trakl: Transfiguração

 
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[traduzido por João Accioli]

Quando cai a tarde,
vem de ti um meigo rosto azul.
Um passarinho canta no tamarindeiro.

Tranquilo monge
cruza as mãos mortas,
um branco anjo aparece a Maria.

Uma noturna coroa
de violetas, trigo e purpurinas uvas
é o ano do Contemplativo.

Ante teus pés
abrem-se as covas dos mortos
quando depões a fronte entre as mãos de prata.

Silente mora
em tua boca a lua outonal,
bêbeda da música misteriosa da papoula.

Flor azul,
vago som de pedras antigas.

Georg Trakl

Verklärung

Wenn es Abend wird,
Verlässt dich leise ein blaues Antlitz.
Ein kleiner Vogel singt im Tamarindenbaum.

Ein sanfter Mönch
Faltet die erstorbenen Hände.
Ein weisser Engel sucht Marien heim.

Ein nächtiger Kranz
Von Veilchen, Korn und purpurnen Trauben
Ist das Jahr des Schauenden.

Zu deinen Füssen
Öffnen sich die Gräber der Toten,
Wenn du die Stirne in die silbernen Hände legst.

Stille wohnt
An deinem Mund der herbstliche Mond,
Trunken von Mohnsaft dunkler Gesang;

Blaue Blume,
Die leise tönt in vergilbtem Gestein.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

domingo, 20 de setembro de 2020

Stefan George: Noturno

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[traduzido por João Accioli]

Calmo e esquivo
longe de mim
vagar e errar
meu destino.

Tempestade e outono
com a morte
brilho e maio
com a felicidade.

O que fiz
o que sofri
o que pensei
o que sou:

fumo
que se esgarça
canto
que se extingue.

Eric Voegelin and the Stefan George Circle - VoegelinView
Stephan George

Nachtgesang*

Mild und trüb
Ist mir fern,
Saum und Fahrt
Mein Geschick.

Sturm und Herbst
Mit dem Tod,
Glanz und Mai 
Mit dem Glück.

Was ich tat,
Was ich litt,
Was ich sann,
Was ich bin:

Wie ein Brand
Der verraucht,
Wie ein Sang
Der verklingt.

* Nota deste Verso e Conversa: em páginas da internet, este atrevido aprendiz de blogueiro e pesquisador encontrou a forma Nacht-Gesang I.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Stefan Anton George (1868 1933), alemão de Büdesheim, região do Reno, foi tradutor e poeta maior do Simbolismo; fez seus estudos secundários no Ludwig-Georgs-Gymnasium, em Darmstadt, e ali passou a se interessar por teatro e poesia; editou um jornalzinho escolar de literatura, o Rosen und Disteln (Rosas e Cardos); a partir daí, toma contato com o mundo exterior, viajando a Londres, Montreux, na Suiça, Milão, Turim e, depois, Paris, onde se encontra com o poeta Albert Saint-Paul, que o apresenta a Stéphane Mallarmé; dedicando-se ao Simbolismo, as portas são abertas para um mundo novo da experiência poética, a arte pela arte, o que o faz tomar impulso na produção de versos e na tradução de textos de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Mallarmé e outros tantos poetas contemporâneos; faz cursos de literatura e filosofia na Universidade de Berlim, cria a revista literária Blätter für die Kunst (Folhas de Arte), publicada de 1892 a 1919, isso fazendo com que o poeta passe mesmo a ser referência de um círculo literário e acadêmico denominado George-Kreis; neste período, sua roda de amigos inclui franceses, italianos e mexicanos, o que lhe possibilita falar francês e ouvir espanhol com mais assiduidade do que alemão; bibliografia: Hymnen (Hinos, 17 poemas, 1890), Algabal (1892) Die Bücher der Hirten- und Preisgedichte, der Sagen und Sänge und der hängenden Gärten, (Livros de Poemas Pastoris e de Louvor Sagas e Canções e dos Jardins Suspensos, 1895), Das Jahr des Seele (O ano da alma, 1897), Der Teppich des Lebens und die Lieder von Traum und Tod mit einem Vorspiel (Tapete da Vida e Canções de Sonho e Morte com um Prelúdio, 1899), Der siebente Ring (O sétimo Anel, 1907), Der Stern des Bundes (A estrela da Aliança, 1914), Das neue Reich (O novo Reino, 1928) e outros; Roger Bastide (1898 1974), estudioso francês, nos propõe uma "tríade sagrada do Simbolismo" e cita o poeta Stefan George ao lado de Stéphane Mallarmé e do nosso Cruz e Sousa.

domingo, 23 de agosto de 2020

Georg Heym: Maldição das cidades

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[traduzido por João Accioli]

Vós sois malditas. Não obstante, vossa ternura floresce
como o fruto escuro de um beijo amargo,
quando a tarde quente chameja sobre vossas torres
abarcando compridos e sinuosos becos.

Quais girassóis murchos vibram então uníssonos
todos os sinos no campanário. E longe,
numa visão de cruzes, crescem em tormentos de ouro
as vigas sinistras de altas forcas.

E como um mar de chamas ergue-se a cidade,
sobre a qual brilha o ocaso como ferro em brasa;
sobre a qual, liso como a cabeça de um boi,
o sol distante os chifres coroados de sangue negro.

Georg Heym – Wikipédia, a enciclopédia livre
Georg Heym

Verfluchung der Städte

Ihr seid verflucht. Doch eure Süsse blüht
Wie eines herben Kusses dunkle Frucht,
Wenn Abend warm um eure Türme sprüht,
Und weit hinab der langen Gassen Flucht.

Dann zittern alle Glocken allzumal
In ihrem Dach, wie Sonnenblumen welk.
Und weit wie Kreuze wächst in goldner Qual
Der hohen Galgen düsteres Gebälk.

Und wie ein Meer von Flammen ragt die Stadt,
Wo noch der West wie rotes Eisen glänzt,
In den die Sonne wie ein Stierhaupt glatt
Die Hörner streckt, von dunkles Blut bekränzt.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso,1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Georg Heym (1887 1912), alemão de Hirschberg, Baixa Silésia (hoje região pertencente à Polônia), estudou no Liceu de Neuruppin, em Brandemburgo, cursou Direito em Würzburg e Berlim, foi escritor e poeta; em 1910, em Berlim, passou a ter contato com o recém fundado Der Neue Club (Novo Clube), um círculo literário que se reunia no Neopathetisches Cabaret e, ali, Georg Heym e outros promissores poetas, compartilhavam do mesmo sentimento rebelde contra a então cultura contemporânea e deixavam aflorar o desejo de agitação política e estética; publicou seu primeiro poema no Herold e, depois, no Demokrat; seus textos registravam a cidade dos miseráveis, doentes e pedintes, dos hospitais abarrotados, das vielas de fome e miséria, das crianças maltratadas e negligenciadas, o expondo como um visionário do terror e do grotesco, e o tornavam próximo a Poe e a Baudelaire; o poeta morreu afogado no rio Havel, ainda jovem; teve um primeiro e único livro editado em vida, Der ewige Tag (O dia eterno, poesia, 1911); George Heym escreveu Der Athener Ausfahrt (drama, 1907), Der Feldzug nach Sizilien (drama, 1907/10) Spartacus (drama, 1908), Versuch einer neuen Religion (ensaio, 1909), Atalanta oder die Angst (drama, 1910), Dissertation über den Freiherrn von Stein (versos escolhidos, 1911), Der Dieb (romance, 1911/13), Über Genie und Staat (ensaio, 1912), Zu den Wahlen (ensaio, 1912), Umbra vitae (1912), Gedichte aus dem Nachlaß (poesia), Tagebücher (diários) ...; editorialmente ignorado por décadas, as companhias passaram a vê-lo e a editá-lo em grande escala, e o poeta foi reabilitado e reconhecido pela intelectualidade e crítica alemãs como o autor de obras primas do nihilismo literário deste século.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Christian Morgenstern: Floresta em sonho

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[traduzido por João Accioli]

Cerram-se os olhos do pássaro
pousando na árvore.
A floresta transfigura-se em sonho
e torna-se profunda e solene.

Suga a lua silenciosa:
O passarinho canta timidamente.
Nem uma folha se move em toda a floresta.
Longe — soa o coro das estrelas.

Christian Morgenstern - Wikiwand
Christian Morgenstern

Traumwald

Des Vogels Aug verschleiert sich:
er fält in Schlaf auf seinem Baum.
Der Wald verwandelt sich in Traum
und wird so tief und feierlich.

Der Mond, der stille, steigt empor:
Die kleine Kehle zwitschert matt.
Im ganzen Walde schwingt kein Blatt.
Fern läutet, fern, der Sterne Chor.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Christian Otto Josef Wolfgang Morgenstern (1871 1914), alemão de Munique, foi jornalista, escritor, tradutor e poeta conhecido por seus versos nonsense, ‘poesia humorística’ ou ‘absurdo literário’ para a sua época; escreveu ensaios e resenhas para periódicos alemães; consta de sua biografia que, aos vinte anos de idade, durante uma excursão com amigos a Werder, próximo a Potsdam, ao passarem por uma elevação conhecida como Morro da Forca, por galhofa fundaram o Clube da Turma da Forca, ocasião em que Morgenstern escreveu poemas grotescos, sem pensar em publicação, os quais foram musicados por um do grupo; continuando a brincadeira, com outras reuniões da Turma, entrava em curso o estilo literário do poeta; bibliografia: Galgenlieder (1905), Palmström (1910), Palma Kunkel e Der Gingganz (publicações póstumas, 1916 e 1919), Alle Galgenlieder (Todas as Canções da Forca, obras reunidas, 1932) etc.; teve poemas musicados, inspirou canções e até pinturas; foram editadas em alemão suas obras completas: Lyryk 1887 — 1905 (volume 1, 1988), Lyrik 1906 — 1914 (volume 2, 1992), Humoristische Lyrik (volume 3, 1990), Epishers und Dramatisches (volume 4, 2001), Aphorismen (volume 5, 1987), Kritische Schriffen (volume 6, 1987), Briefwechsel 1878 — 1903 (volume 7, 2005), Briefwechsel 1905 — 1908 (volume 8, 2011), Briefwechsel 1909 — 1914 (...); Christian Morgenstern conheceu outras culturas e línguas, andejou por cidades européias (Itália, Suiça, Noruega, Áustria), invariavelmente em busca de um clima favorável à cura da tuberculose que adquirira de sua mãe, e de cuja doença também veio a falecer.