____________________
[traduzido por Marcelo Lotufo]
Há um lugar entre duas fileiras de
árvores onde a grama cresce colina
acima
e a velha estrada revolucionária
acaba em sombras
perto da assembleia abandonada
pelos perseguidos
que desapareceram nessas sombras.
Caminhei por lá colhendo cogumelos
no limite do temor; mas não se
deixe enganar
este não é um poema russo, isto não
é em algum outro lugar, mas
aqui;
nosso país aproximando-se da sua
própria verdade e temor,
da sua própria maneira de fazer
pessoas desaparecerem.
Eu não vou dizer onde fica este
lugar, a trama escura da floresta
encontrando o feixe de luz não
assinalado —
encruzilhadas possuídas por
fantasmas, paraíso em decomposição:
eu já sei quem quer comprá-lo,
vendê-lo, fazer com que desapareça.
E eu não lhe direi onde fica; então
por que eu lhe conto essa e outras
coisas? Porque você ainda me
escuta, porque em tempos como estes
para você me escutar ao menos um
pouco, é preciso
falar das árvores.
1991
What Kind of Times Are
These
There's a place between two stands of trees where the
grass grows
uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.
I've walked there picking mushrooms at the edge of dread,
but don't be
fooled,
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but
here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.
I won't tell you where the place is, the dark mesh of the
woods
meeting the unmarked strip of light —
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it
disappear.
And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like
these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.
1991
(Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995,
1995)
____________________
Que tempos são estes e outros poemas — edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução
de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo —
SP; Adrienne Celine Rich (1929 — 2012),
estadunidense de Baltimore — Maryland, estudou
no Radcliffe College — bacharelou-se
em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora;
desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de
seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros];
a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente
ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”;
como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis
University, Stanford University e várias outras; suas obras: A
Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and
Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems,
1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities
of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will
to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Of Woman Born: Motherhood as Experience
and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição,
1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos
e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected
Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1979-1985, 1986), What Is Found
There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia
e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos
Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich — Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos
outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que
enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a
romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012
[data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award
(Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall
Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall
de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens, 1996) etc.;
Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria
do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente
Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio
oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.