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domingo, 20 de fevereiro de 2022

Rosário Fusco: Uma sombra na janela

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          De repente, a janela do apartamento se iluminou. Vagarosamente, como quem espreita uma fera no seu fojo. David se ergue da cama. Consulta a carteira que traz no bolso. Acende um fósforo para ver melhor. E, repetindo, precisamente, os gestos e as atitudes do órfão, promove a ligação projetada apesar do adiantado da hora. Ouviu, perfeitamente, o som da campainha tinindo, mais ou menos surda, no silêncio. O coração pulsava-lhe. Aqueles segundos, certamente, multiplicavam-se por mil. Foi o primeiro a falar, num ciclo.
          — David.
          Descansando o fone, em obediência à disposição recomendada pela outra voz, que parecia apreensiva e nervosa, David ficou pasmo como adivinhava ter chegado naquele instante (“Chegou agora? Também acabo de chegar.”). Mas, certamente, não poderia encontrar-se “no mesmo lugar”, ao dia seguinte. Continha-se para não repetir o telefonema, a fim de esclarecer as condições do próximo encontro, quando a janela fronteira abriu-se, com estrépito, para fora, a persiana estendida, formando um ângulo reto com a parede.
          Agachado, David não tinha forças para mover-se. Ficava ali, sem poder pensar, preso ao assoalho. Depois, intermitentemente, aos arrancos, o mesmo ruído da persiana foi crescendo e eis que, subitamente, pára. Certamente, com a janela agora escancarada, ela se exibira para o boa-noite costumeiro, executando uma leve inclinação de cabeça, antes da luz se apagar. Com as mãos apoiadas no peitoril da janela, David, de cócoras, ergue-se, pouco a pouco, de maneira que somente com meia cabeça à mostra, pudesse ver todo o quarto, na intimidade habitual aos seus olhos. Tinha certeza que não fizera nenhuma ligação errada? E se a nova função do aparelho se iniciava tão promissora, por que não podia levantar-se, completamente, de uma só vez? Pacientemente, suspendia-se — as pernas vergadas sob o peso do corpo. Agora, a luz se extinguia. Seria capaz de jurar ter ouvido o ruído do próprio comutador, acionado pela ponta de um dedo. E revia as mãos que atenderam ao telefone, as mesmas, aliás, que escolhiam discos, cumprimentavam com força e teriam, há pouco, apagado as luzes da alcova. Por elas, entrava no quarto.
          Mas, por que, de súbito, o vulto dela, normalmente esguio, se elastecera tanto? E eis que, encorajado pelo mistério da imprevista metamorfose, pôs-se, num salto, de pé. Sem a iluminação elétrica não poderia vê-la nitidamente. Mas ouviu que começava a discutir alto (era a mesma voz do telefone), acaloradamente, com alguém que, debruçado na janela, parecia alheio a tudo. Depois, como a sombra se movesse, devagar — de certo para recolher-se à escuridão da peça — percebeu-lhe, pela curva que a ponta acesa traçou no espaço escuro, o gesto de quem lança fora o cigarro.
          Uma sensação estranha apoderava-se de David. Se pudesse raciocinar, todas as indicações que recolhia — se consideradas minuciosamente — levá-lo-iam a concluir, de modo inequívoco, que ela, aquela noite, abrigava um homem no quarto. E este homem a enervara, fosse quem fosse. Suas palavras foram de cólera e explodiam como uma bomba de imprecações dissonantes na consciência de David. Contudo, destinava-se ao marido.
          Mas se era humana aquela sombra desenhada na janela, cuja forma não enganava, por que traria ela tão grandes cornos?

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Marginais do Pomba (diversos autores), contos, crônicas  & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJ—RJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; o romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

sábado, 15 de janeiro de 2022

Rosário Fusco: A vendedora de morangos*

 
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Na luz porosa da manhã de bruma
passas cantarolando pela minha porta!

Teu canto é branco como a luz
e móvel como as águas!
E fortes como a flecha
e ágil como o vento!
Teu canto é doce como o mel
e certo como a fala de Zic o rei dos sábios!

Mas eu não quero o teu canto
branco como a luz e móvel como as águas...
Mas eu não quero o teu canto
forte como a flecha e ágil como o vento...
Mas eu não quero o teu canto
doce como o mel
e certo como a fala de Zic o rei dos sábios...
Eu só quero saber ó vendedora de morangos
de quem é esse morango rubro dos teus lábios!...


* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Joaquim Branco, o autor de Passagem para a Modernidade — transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), registra sobre o poema: “De Rosário Fusco, dos mais vanguardistas de Verde, esta ‘pérola’ — A vendedora de morangos — datada de 1926.”
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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJRJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; seu romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Rosário Fusco: Poema da Rua do Porão

 
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A noite desceu de repente
e encheu as casas de sombras.

Sacis cachimbavam na boca do mato
e acenderam faíscas no céu.
E a lua de louca serena subiu,
subiu e parou lá em cima
d’um galho de ingá.

(Do lado da ponte que é preta de sombra
chegam vozes longínquas de gente que fala...)

E lá longe,
beirando as guaximbas do açude,
coaxam sapos papudos no charco...

(1927)

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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJRJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; suas obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; seu romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Rosário Fusco: Edital de demissão e ponto

 
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Meu caro poeta:
meta a lira no cu
e vê se te aquieta.
O mundo mudou tanto que
amanhã
a lua será lixeira, à toa,
privada e refúgio da terra
emudecida,
seu Orfeu.
Erra quem pensa
que as palavras valem
hoje em dia
 pois a palavra é poesia
e a poesia morreu.
São cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
e dos homens com as coisas.
Números.
[ . . . ]
Nada vale nada com algemas.
[ . . . ]
Não é possível mais cantar:
o canto entope, engasga e sufoca.
Radar.
A poesia do cosmo chega
em vibrações secretas
do telstar
omite
e demite poetas.

(longo poema escrito em 1972, fragmento publicado no
suplemento "Cataguarte" — especial, setembro de 1999)

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Passagem para a Modernidade: Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Rosário Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJRJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado e adido da embaixada do Brasil no Chile; seu romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e foi editado na Itália.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Rosario Fusco: poemas codaque (paisagem n. 2 & outros)*

Revistas do Modernismo. 1922-1929 - Caixa | Amazon.com.br  O voo dos Ases de Cataguases
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Juiz de Fora

Pro António de Alcântara Machado

Manchester das minas gerais.
O crepúsculo escorrega violentamente
                                                       e cai

na paisagem de cartão-postal
e nos olhos espantados do Cristo-do-Morro.

Paisagem n. 2

Pro Carlos Drummond de Andrade

Uma hora.
O dia parou com o meu relógio.

Nem uma folha só planta ruídos.
Nada.

E eu fico pensando na ingenuidade daquele homem alto
que fala muito rouco
tosse
tosse
tosse
e vive a vida à toa
quentando sol o dia inteiro.

Rio de Janeiro

Pro Roberto Theodoro

Os meus sentidos são um menino
que veste um vestido novo.

* (In Verde, n. 2, p. 16, outubro de 1927)

Para tirar Rosário Fusco do esquecimento - Jornal Opção
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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Rosario Fusco (1910  1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJ-RJ), foi advogado, jornalista, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequentou as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, foi um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; bibliografia: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003); Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política  Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Carlos Drummond de Andrade: Convite ao suicídio

Revistas do Modernismo. 1922-1929 - Caixa - Livros na Amazon ...
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A Mário de Andrade

Vamos dar um tiro no ouvido,
Vamos?
Largar essa vida
largar esse mundo
comprar o último bilhete
e desembarcar na estação central do Infinito perante
                    a comissão importante de arcanjos
                    bem-aventurados profetas  vivôôôô!

Vamos acabar com isso,
dar o fora nas aporrinhações.
Adeus contrariedades.
Nunca mais desastres
nem calos
nem desejos
nem percevejos nem nada.

Só um gesto
PUM PUM
Acabou-se.

Já estou cansado da Metro, da Paramount,
de todas as marcas inclusive a barbante.
Ó fita pau.
Repetir é cansar dobrado.
Me dá o braço,
vamos s'embora.

A vida foi feita pros trouxas
que esperdiçam as riquezas do coração
nessa lenga lenga infindável
e depois vão dormir o sono abençoado dos burros
                   justos pra recomeçar no dia
                   seguinte cedinho.

Vida que não é vida...

(Suspirei
foi pra abrir o peito,
soltar o último desgosto.)

Estou pronto pra sair.
Vamos sair juntos?
É mais divertido
e enche mais os jornais: um suicídio duplo, hein?
                   que mina pros repórteres e pros
                   cidadãos que gostam de misturar
                   o café matinal com histórias
                   de Smith and Wess.

A noite está fria.
Noite indiferente.
Vamos morrer daqui a um minuto
(se você não roer a corda)
e no entanto o Cruzeiro do Sul parece dizer: que m'importa.
E astros águas e terras repetem maquinalmente: que m'importa.

Eles têm razão.
Nós também temos.
Dois contribuintes de menos,
que perderá o Brasil com isso.
No frio da noite os amorosos multiplicam a espécie.
O Brasil é tão grande.
Mais grande que o mundo inteiro.
Estamos caceteados, vamos s'embora.

Adeus minha terra
terra bonita
pintada de verde
com bichos esquisitos e moleques treteiros,
abençoada pelo Deus brasileiro das felicidades e descarrilamentos.
Meu povo
amigos inimigos
canalha miúda
me despeço de todos sem exceção.
Apesar de ser inútil,
lembrem de mim nas suas orações.

Está na hora.
Agora vamos.
Me acompanhe nesse passo
tão complicado.
Me ajude a morrer, 
morre com a gente,
irmãozinho.

Vamos fazer a grande besteira:
rebentar os miolos
e ir receber no céu o castigo de nossos amores
                          e o prêmio de nossas devassidões.

(Verde — revista mensal de arte e cultura,
 nº 4, dezembro de 1927, Cataguases — MG)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo; sua obra: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos PoemasClaro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a LimpoLição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...