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De repente, a janela do apartamento se
iluminou. Vagarosamente, como quem espreita uma fera no seu fojo. David se
ergue da cama. Consulta a carteira que traz no bolso. Acende um fósforo para
ver melhor. E, repetindo, precisamente, os gestos e as atitudes do órfão,
promove a ligação projetada apesar do adiantado da hora. Ouviu, perfeitamente, o
som da campainha tinindo, mais ou menos surda, no silêncio. O coração
pulsava-lhe. Aqueles segundos, certamente, multiplicavam-se por mil. Foi o
primeiro a falar, num ciclo.
— David.
Descansando o fone, em obediência à
disposição recomendada pela outra voz, que parecia apreensiva e nervosa, David
ficou pasmo como adivinhava ter chegado naquele instante (“Chegou agora? Também
acabo de chegar.”). Mas, certamente, não poderia encontrar-se “no mesmo lugar”,
ao dia seguinte. Continha-se para não repetir o telefonema, a fim de esclarecer
as condições do próximo encontro, quando a janela fronteira abriu-se, com
estrépito, para fora, a persiana estendida, formando um ângulo reto com a
parede.
Agachado, David não tinha forças para
mover-se. Ficava ali, sem poder pensar, preso ao assoalho. Depois,
intermitentemente, aos arrancos, o mesmo ruído da persiana foi crescendo e eis
que, subitamente, pára. Certamente, com a janela agora escancarada, ela se
exibira para o boa-noite costumeiro, executando uma leve inclinação de cabeça,
antes da luz se apagar. Com as mãos apoiadas no peitoril da janela, David, de
cócoras, ergue-se, pouco a pouco, de maneira que somente com meia cabeça à
mostra, pudesse ver todo o quarto, na intimidade habitual aos seus olhos. Tinha
certeza que não fizera nenhuma ligação errada? E se a nova função do aparelho
se iniciava tão promissora, por que não podia levantar-se, completamente, de
uma só vez? Pacientemente, suspendia-se — as pernas vergadas sob o peso do
corpo. Agora, a luz se extinguia. Seria capaz de jurar ter ouvido o ruído do
próprio comutador, acionado pela ponta de um dedo. E revia as mãos que
atenderam ao telefone, as mesmas, aliás, que escolhiam discos, cumprimentavam
com força e teriam, há pouco, apagado as luzes da alcova. Por elas, entrava no
quarto.
Mas, por que, de súbito, o vulto dela,
normalmente esguio, se elastecera tanto? E eis que, encorajado pelo mistério da
imprevista metamorfose, pôs-se, num salto, de pé. Sem a iluminação elétrica não
poderia vê-la nitidamente. Mas ouviu que começava a discutir alto (era a mesma
voz do telefone), acaloradamente, com alguém que, debruçado na janela, parecia
alheio a tudo. Depois, como a sombra se movesse, devagar — de certo para
recolher-se à escuridão da peça — percebeu-lhe, pela curva que a ponta acesa
traçou no espaço escuro, o gesto de quem lança fora o cigarro.
Uma sensação estranha apoderava-se de David.
Se pudesse raciocinar, todas as indicações que recolhia — se consideradas
minuciosamente — levá-lo-iam a concluir, de modo inequívoco, que ela, aquela
noite, abrigava um homem no quarto. E este homem a enervara, fosse quem fosse.
Suas palavras foram de cólera e explodiam como uma bomba de imprecações
dissonantes na consciência de David. Contudo, destinava-se ao marido.
Mas se era humana aquela sombra desenhada na
janela, cuja forma não enganava, por que traria ela tão grandes cornos?
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Marginais do Pomba (diversos autores), contos,
crônicas & etc., Apresentação de
Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte,
Cataguases — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 — 1997),
mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual
UFRJ—RJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário,
dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco
de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia,
bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio
Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de
Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável
pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre
1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de
poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o
poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de
Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e
Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940),
Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor
(romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo
(teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949),
Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça
encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos
solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é
lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um
verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta
deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e
Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da
república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do
Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da
publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do
estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; o romance O Agressor teve versão
para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.









