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[O Espelho — Informativo dos funcionários do Banco do Brasil S/A — Agcen-SP — Ano 1 — n° 9 — Dezembro de 1980]
Ouça, Satélio! Os sinos bimbalham. Com um som meio chocho, mas bimbalham...
É! Não tá fácil desembuchar alguma coisa sobre estes dias que precedem as festas de fim-de-ano. A bem da verdade, eu tô mais pra viver o espírito natalino do que pra escrever sobre o natal ou o ano-novo. Mas, vá lá! Escreverei sobre o que possivelmente venha a ocorrer ou já esteja ocorrendo no Banco, por estes dias festivos.
Tá na cara que, como sói acontecer todos os fins-de-ano, a gerência ou algum representante da gerência, perambulará de seção em seção desejando a nós, fiéis funcionários e reais depositários da confiança da alta direção da casa, os mais efusivos votos de feliz natal e próspero ano-novo.
É provável ainda que, numa espécie de armistício unilateral, o pessoal da Inspetoria dê uma folga nos interrogatórios, tomada de depoimentos, pressões diretas e indiretas a chefes e funcionários em geral, e nos presenteie com uma calorosa saudação natalícia, tentando mostrar o quão importante somos para a estrutura Banco do Brasil S/A.
Mas é provável, também, que a mesma Inspetoria saiba esconder que, em começando 1981, vem chumbo e do grosso sobre as nossas cabeças, troncos e membros. Na melhor das hipóteses, os ómis da Inger vão pedir pra gente apertar o cinto mais um pouquinho, tudo em prol da não desestruturação da já tão falada economia brasileira.
Muito possivelmente, diversamente do que tem ocorrido em anos anteriores, este ano o pessoal mais prata da casa talvez se sinta meio receoso em receber de clientes e fornecedores do Banco, aparelhos televisores, máquinas fotográficas, relógios, uísques importados e outros quejandos, objetos tão normais de serem recebidos à luz do dia nestas épocas de festas e confraternizações cristãs. Ocês já pensaram se a Inger interpreta que tais presentes são nada mais nada menos que propinas em paga de facilidades especiais prestadas por funcionários especiais a clientes também especiais, no decorrer do ano que está findando?
E aí... Cumé que fica, né! A Inger pode aproveitar a deixa e agir como o Maluf agiu no caso da "nossa caixa", matando alguns coelhos de uma só cajadada, transferindo, assustando, aposentando e até demitindo funcionários. E, de quebra, a Inger ficará na história do Banco como o mocinho do filme de bang-bang, que chega na cidade como quem não quer nada, distribui alguns certeiros balaços e deixa estirado, no chão, o bandido, o ladrão, o corrupto. e vai embora, satisfeito do dever cumprido, com a cidade rastejando a seus pés.
Satélio, desviando um pouco o assunto, eu tô meio chateado com a telefonista. Sabe por quê? É que na semana passada eu tive que telefonar para o PABX do Banco e, logo que completei a discagem dos sete algarismos, uma vozinha do outro lado da linha me atendeu: "Banco do Brasil, feliz Natal!". Sinceramente, eu fiquei tão desconcertado que nem tive palavras pra responder e só soube proferir o número do ramal desejado, no que mais que depressa fui atendido. Aquele "Feliz Natal!", desejado de uma forma tão suave, me havia arrebatado do mecanicismo do cotidiano, que achei até indelicadeza de minha parte não ter respondido ao voto de felicidades.
Não me contendo, disquei novamente o PABX a fim de me retratar da falha cometida. E, após ouvir outra vez a vozinha suave que repetia o "Feliz Natal!", retribuí sem pigarrear e num tom o mais cordial possível: Muito obrigado, e igualmente! Mas qual o quê...!!! Do outro lado da linha, após alguns segundos de suspense e absoluto silêncio, só ouvi o tradicional "Com que seção o Sr. deseja falar?", e dito de um modo imperativo.
Satélio, será que a telefonista também ficou desconcertada porque ela não esperava a minha retribuição? Ou será que no fundo foi tudo tão mecânico quanto as informações repetitivas da Telesp, "Isto é uma gravação...", sem qualquer conotação mais humana? No mínimo foi um desejo bastante formal, e então eu fiquei chateado.
As pessoas, hoje em dia, estão perdendo aquela qualidade própria delas mesmas, o calor humano. Até parece que nos transformamos em maquininhas de falar, andar, trabalhar, desejar bom dia, e mais nada. E nós precisamos permanecer como um ser vivo. Readquirir as qualidades de um ser vivo. Urgentemente, antes que nos destruam por completo.
Por isso, Satélio, um feliz Natal pra você! E um feliz Natal pra você também, telefonista!
Bancários, bancárias, pessoal contratado, um feliz Natal pra todos vocês! E, embora eu não acredite muito, um próspero 1981 pra todo mundo, tá!
Um pouco pê da vida.
P. da Silva
P. da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, réus confessos, assumem a autoria desta crônica.