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terça-feira, 26 de maio de 2026

Maranhão Sobrinho: Poetas Malditos

 
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Quando, pelo clamor dos meus pecados, tive
de, à Treva Inferior, descer, à voz do Eterno,
ralando-me do Mal no aspérrimo declive,
como um deus rebelado e tonto de falerno,
sobre os antros mais nus, como Alighieri, estive
suspenso, a contemplar o delírio eviterno
das pompas sensuais de Gomorra e Nínive,
situadas ao pé do Stramboli do Inferno...

Gritos e imprecações, que as chamas retalhavam,
como gládios de bronze, em bárbaras campanhas,
de entre as lavas de sangue e sulfo se elevavam,
enquanto, aos olhos meus, nos infernais retiros,
o fogo, devorando o ventre das montanhas,
dava uns tons de gangrena às asas dos vampiros...

Com as unhas lacerando a púrpura sangrenta,
que, dos ombros de auroque, em pregas, lhe caía,
vi Nero, inda exibindo a mesma fronte odienta
que, no incêndio de Roma, às chamas exibia...

Raivava como um cão, mostrando a saburrenta
língua e, a espaços, também, às escâncaras, ria
epiléptico, ao ver as almas em tormenta
atravessando o horror da satânica orgia
de fogo, no solar do Príncipe Demônio,
para, empós, como os cães corridos, lazarentos,
encolher-se, entrevendo o vulto do Petrônio,
que, arrepanhando a toga e erguendo a ebúrnea fronte,
ia e vinha, a cantar, nos antros* pestilentos
do Inferno, uma canção de amor de Anacreonte...

Entre uma legião de cetro e tonsuras,
Voltaire, viu-me e sorriu, com um sorriso endiabrado
de caveira, a expelir das órbitas escuras
ironias, de um tom de bronze avermelhado...

Blasfemava, estalando as hirtas ossaturas
do esqueleto e mostrando o braço descarnado,
num gesto de rebelde às lívidas alturas
e a enterrar-se ainda mais no Inferno, brado a brado...

Erguia, empós, o olhar da treva aos coruchéus
e escarrava, dizendo, em nojo, que o fazia
no orgulho de Lusbel, sobre a fronte de Deus!
E, quando assim falavam os seus lábios, à míngua
de fé, de gota em gota, assombrado, eu via
como um visgo de fogo a escorrer-lhe da língua...

Também lá te encontrei, Tristan Corbière, nas grutas
do Demônio, cantando umas canções remotas
como o oceano, que morde as praias de oiro, enxutas,
no virente esplendor das vivas bergamotas...

Tremia-te entre as mãos, em púrpuras volutas
de sons, a Harpa do Mal, fazendo sob as cotas
dos hoplitas do Inferno, o amor ao sangue e às lutas
triunfar transluminoso, em túmidos Eurotas...
Os seus olhos cruéis, em flamas de palhetas
de oiro jalde, varando as vastidões aflitas
silenciavam do fogo as púrpuras trombetas
de bronze, que, a planger, nas místicas oblatas
sangrentas do Demônio, em helicinas malditas,
acordavam do Inferno as furnas escarlatas...

Desbordes e Mallarmé oscularam-me a fronte
e passaram, por uma azul chama impelidos;
chamei-os e o rumor das lavas do Aqueronte
triste abafou-me a voz, cerceando-me os sentidos...
Quando acordei-me vi perto da negra fonte,
entre um vivo clamor de pragas e gemidos,
diante do inquieto olhar de um cérebro bifronte
com os olhos como dois santelmos acendidos...

Vi, momentos depois, em palidez exangue,
Rimbaud e Villiers de L’Isle-Adam, chorando,
e o seu pranto infernal era de lodo e sangue...
E, quando recuei de agro pavor, Lelian**
surgiu-me e, empós, se foi pelas trevas clamando:
Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do Simbolo,
págs. 169-176  1908)


Notas do Organizador Andrade Muricy:
  * Está: “outros”;
** Está “Lilian”. A alusão é a Verlaine.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Maranhão Sobrinho: Soror Teresa

 
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... E um dia as monjas foram dar com ela
morta, da cor de um sonho de noivado,
no silêncio cristão da estreita cela,
lábios nos lábios de um Crucificado...

Somente a luz de uma piedosa vela
ungia, como um óleo derramado,
o aposento tristíssimo de aquela
que morrera num sonho, sem pecado...

Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,
e ninguém soube de que dor escrava
morrera a divinal soror Teresa...

Não creio que, de amor, a morte venha,
mas, sei que a vida da soror boiava
dentro dos olhos do Senhor da Penha...

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do
Simbolo, págs. 23-24 — 1908)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

sábado, 14 de março de 2026

Maranhão Sobrinho: Satã

 
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Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,
cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,
vê-se o imenso solar sonolento e medonho
do dragão infernal das Princesas espúrias...

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho
desse antigo solar, de malditas luxúrias,
em que fulge o brasão heráldico do sonho1
não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

Sobre o mármore azul das colunas austeras,
que, em noivados de luz, o luar engrinalda2
brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

Velam desse dragão o oriental tesoiro,
sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,
dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça
do Simbolo, págs. 105-106 — 1908)


* Notas do Organizador Andrade Muricy:
1. Está sem a vírgula;
2. Idem.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Maranhão Sobrinho: Perdida

 
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Vais pelo Mundo, em Tentações sagradas,
os tristes corações perdendo em bando,
nos arrancos das Águias esfaimadas
sobre os rebanhos sem Pastor pairando...

Por onde passas, nesse orgulho pando,
vais poluindo as Almas descuidadas
e, sobre as curvas dos teus pés, calcando
as grossas Multidões bestializadas!

E após o carro dos teus Loiros deixas,
envolto na Epopéia da Miséria,
todo crivado de solenes Queixas...

o cadáver da Crença ensanguentado
na podridão das Mágoas, deletéria,
na Via Scelerata do Pecado!

(Estatuetas, págs. 127-128 — 1909)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.