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quinta-feira, 11 de julho de 2024

Nísia Floresta: A lágrima de um caeté (fragmento)


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Era um Caeté, que vagava
Na terra que Deus lhe deu,
Onde Pátria, esposa e filhos
Ele embalde defendeu!…

É este… pensava ele,
O meu rio mais querido;
Aqui tenho às margens suas
Doces prazeres fruído…

Aqui, mais tarde trazendo
N’alma triste, acerba dor,
Vim chorar as praias minhas
Na posse de usurpador!

Que de invadi-las
Não satisfeito,
Vinha nas matas
Ferir-me o peito!

Ferros nos trouxe,
Fogo, trovões,
E de cristãos
Os corações

E sobre nós
Tudo lançou!
De nossa terra
Nos despojou!

Tudo roubou-nos,
Esse tirano,
Que povo diz-se
Livre e humano!

Filho se diz
De Deus Potente
De quem profana
A obra ingente!

Ó terra de meus pais, ó Pátria minha!
Que seus restos guardando, viste de outros
Longo tempo a bravura disputar
Ao feroz estrangeiro a Pátria nossa,
A nossa liberdade, os frutos seus!...
Recolhe o pranto meu, quando dispersos
Pelas vastas florestas tristes vagam
Os poucos filhos teus à morte escapos,
Ao jugo de tiranos opressores,
Que em nome do piedoso céu vieram
Tirar-nos estes bens que o céu nos dera!
As esposas, a filha, a paz roubar-nos!...
Trazendo d'Além-mar as leis, os vícios,
Nossas leis e costumes postergaram!

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(A lágrima de um caeté, 1849)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto (1810  1885), ou Dionísia Pinto Lisboa, ou Dionísia Freire Lisboa, ou Dionísia Freire Pinto, ou Dionísia Gonçalves Pinto Freyre, nascida em Papari [atual Nísia Floresta], Capitania da Paraíba [atual Rio Grande do Norte], militante feminista e abolicionista, foi educadora, escritora, tradutora, jornalista, ensaísta e poetisa atuante nas letras, no jornalismo e nos movimentos sociais de sua época; de sua biografia, com lacunas, consta ter sido a “primeira voz feminista, no Brasil, a se erguer contra os preconceitos da sociedade patriarcal, em relação à mulher.”; Dionísia casou-se aos treze anos [tido como normal e usual à época], em poucos meses largou o casamento, foi repreendida pela família, voltou a morar com os pais e recebeu a proteção da mãe; em 1824, partindo com a família rumo a Pernambuco, residiu em Goiana, Olinda e Recife; ainda de sua biografia, consta a sugestão de que tomara contato com seus primeiros estudos em Goiana PE, antes, Dionísia obtivera conhecimento de estudos iniciais através de seu pai, advogado e homem culto, visto que em Papari, onde a poeta nasceu, não havia escola; em Recife, conhece Manuel Augusto de Faria Rocha, estudante de Direito, de quem se apaixona e a ele se une sem formalidades legais em 1828, teve filhos, mudam-se para Porto Alegre [1832], “dedica-se ao magistério, e escreve artigos para a imprensa”, enviúva, ali permanecendo por quatro anos; posteriormente, já morando no Rio de Janeiro, fundou o Colégio Augusto, um colégio para moças, cujo nome é “em provável homenagem ao seu companheiro” que morrera no sul, colégio presidido por ela enquanto permaneceu no Brasil; em 1849, Nísia segue para a Europa, reside em Paris, Roma e Florença, passa a viver lá e cá, e vem a morrer em Rouen França, em 24.04.1885; em suas atividades literárias a poeta, feminista e abolicionista fez uso de muitos pseudônimos: Telezilla, Telesila, B. A., Une Brésiliene, Quotidiana Fidedigna e Nísia Floresta este último acabou por prevalecer e assim permanece conhecida até hoje; de seus traços biobibliográficos, ainda consta ter sido em Olinda e/ou Recife que a poeta feminista tomou contato com o mundo intelectual literário, leu clássicos portugueses e, em 1831, estreou na imprensa com a publicação de artigos que relatavam a posição social feminina em várias culturas, numa sequência de trinta números do Espelho das Brasileiras — jornal destinado às senhoras pernambucanas, de propriedade do tipógrafo francês Adolphe Émile de Bois Garin; a poeta falava o idioma francês e também conhecia o inglês e, aos 28 anos de idade (1838), em anúncio de jornal, disse “ser professora particular de latim, francês e italiano”; suas obras: Direito das mulheres e injustiça dos homens * (por atribuição da autora, tradução livre de Vindication of the rights of woman, publicação de 1792, de autoria de Mary Wollstonecraft, inglesa (1832), Conselhos à minha filha (coleção de ensaios, 1842 e em 1845, ora acrescidos de 40 pensamentos em versos), Daciz ou A jovem completa (1847), Fany ou O modelo das donzelas (romance, episódio da Revolução dos Farrapos no RS, 1847), Discurso que às suas educandas dirigia Nísia Floresta Brasileira Augusta (1847), A lágrima de um Caeté (poema de 712 versos, editado sob o pseudônimo Telezila, 1849), Dedicação a uma amiga (dois volumes, 1850), Consigli a mi figlia (1858), Conseils à ma fille (1859), Opúsculo humanitário (coleção de artigos sobre emancipação feminina, 1853), Páginas de uma vida obscura (1855), A Mulher (1859), Paris (1867), Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce (1870). Le Brésil (1871), Fragments d’un ouvrage inèdit: notes biographiques (1878) e outra incontável quantidade de fragmentos, “cujo manuscrito talvez permaneça com algum notário, em Rouen [França]”; teve obras traduzidas para o francês e o italiano, A lágrima de um Caeté, por exemplo, recebeu uma edição italiana, pela tradução do escritor florentino Ettore Marcucci, Le lagrime d'un Caeté (1860).

* Nota do blogue Verso e Conversa: A respeito de Direito das mulheres e injustiça dos homens, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe o seguinte:
“Por muito tempo considerou-se que a obra fosse uma adaptação livre de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft, pois a própria Nísia havia dito que nela se inspirara, mas estudos de Pallares-Burke (1995) e Oliveira & Martins (2012) demonstraram que Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens é na verdade uma tradução integral de La femme n'est pas inferieure a l'homme — Traduit de l’Anglois, publicado em 1750, por sua vez uma tradução de Woman Not Inferior to Man — by Sophia, A Person of Quality (1739), de uma escritora que só assina como Sophia. A identidade desta Sophia tem sido debatida, surgindo várias proposições: lady Mary Wortley Pierremont, lady Sophia Fermor, Philippe-Florent de Puisieux ou Madeleine d'Ansant de Puisieux.” [extraído de wikipedia, fr.wikisource.org e commons.wikimedia.org]