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sexta-feira, 24 de abril de 2026

joaquim da silva: nanocontos 15, 28, 37, 52, 55 & 63

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15.
noite vinda
multidão de pirilampos reagem em cadeia
começam a piscar
sombras se vão

28.
recolheu-se
peso da idade lhe ia às costas
caramujo era caramujo ficou
tinha uma casa ao menos

37.
idoso caipira já não se acocorava
garimpou tripeça no antiquário
descartou divã

52.
escritor de autoajuda não enganava ninguém:
escrevia e lucrava muito

55.
grave erro não foi desdenhar futuro
querer voltar ao passado foi sua brutal falha

63.
quis rever o ferroviário Sales e seu gramofone
na Turma 29 do Bacelar buscou retrato na parede

[são paulo, jan/fev/mar de 2026]
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joaquim da silva, p. da silva e outros silva, além de genésio dos santos, são uma só pessoa e um só nanocontista.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

genésio dos santos: talvez não seja a vida só poesia

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1.
talvez um ronronar, gata no cio
um se enroscar em fios já tecidos
um desnudar de todos os vestidos
um galopar sem freios nem navios

talvez um se esgueirar em mar de espumas
quem sabe se esquivar dar um perdido
quedar-se quieto sem nenhum gemido
na noite noite que ora se avoluma

coser retalhos de tempos jazidos
partir pra Utopos que anda sempre à espera
longe de primaveras e de outonos

quem sabe penetrar no sem-sentido
talvez um sim, um não, talvez talvez
palavras vãs! talvez eterno sono

sp, 12 a 17.04.2025

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

sábado, 17 de fevereiro de 2024

matusalém da silva: "tropeçando em risca de ladrilho"


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Constatei-me velho desde o instante em que
me vi tropeçando em taco, em risca de ladrilho.
[Ziraldo, carthumorista].

sinto em mim sua presença
embora ausente põe limites no que faço
até controla o que penso
imagino-a à espreita
na curva do caminho

quando eu estiver bem velhinho
alquebrado com vista fraca ouvindo pouco
“tropeçando em risca de ladrilho”
é inevitável que venha

o ontem: acabou-se o que era doce
o instantâneo hoje: de modo algum traz amargor
o amanhã? deixemos pra depois...

sem pressa sem pressa...
não sou vidente mas ela vem
que assim seja

sp — 05.02.24
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matusalém da silva e alguns outros silva, além de genésio dos santos, são um só ativista da palavra.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

genésio dos santos: o espalhador de utopias

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carrego sonhos:
sinta-se à vontade
não há venda nem compra

faço trocas:
não aceito pix nem dinheiro nem cartão
sou da época do mutirão

demore quanto puder ou quiser:
pra certas escolhas
o tempo é o que menos importa

satisfação garantida:
bom proveito
ou seu sorriso ou sua lágrima de volta

sp, 02.02.2024

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

genésio dos santos: dona bidunga *

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fazer poemas é tão necessário
quanto o era para a mãe esculpir
bolinhos de chuva ao fritá-los
em óleo de amendoim ou óleo de algodão
ou banha de porco
naquele outrora

quem sabe
assim desenhasse o poeta
guri nos seus sete anos
enquanto devorava os bolinhos
e folheava a cartilha do tatu
cheia de letras e gravuras

de calças curtas,
ele só não tinha como imaginar
que lá no futuro iria escrever um poema
pra dona bidunga,
apelido de saturnina de almeida fagundes,
autora da cartilha.

sp, 24.12.2023


*Nota deste Verso e Conversa: O poema Dona Bidunga foi ideado em algum momento desde outubro de 2020, mês em que este ex-guri e aprendiz de blogueiro, filho de ferroviário, pesquisador e poeta, buscou e adquiriu em sebo um exemplar da Cartilha do Tatu — Caderno de Alfabetização, de Saturnina de Almeida Fagundes, a Dona Bidunga; tal cartilha, impressa nas gráficas da EFS — Estrada de Ferro Sorocabana, propiciou ao poeta um primeiro contato escolar com letras e gravuras, contato esse ocorrido em 1959, no início do então curso primário na Escola Rural da Estação, Vila Isabel, em Itapeva — SP.
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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — caderno de alfabetização, de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

sábado, 1 de julho de 2023

genésio dos santos: a vida pede urgência


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a vida pede urgência
o resto pode esperar:
com a morte não requerida
a vida pode vingar

a vida pede urgência
um mote a repetir:
se a morte é toda presença
a vida pode se ir

a vida pede urgência
faça frio ou calor:
tem seu tempo, negaceia,
resiste, forma bolor

a vida pede urgência
seja o que deus quiser:
se a morte é só insistência
a vida faz o que der


a vida pede urgência
não há ninguém hors-concours:
faz flerte com a demência
sem ar, nem ir, ...or ...er ...ur

a vida pede urgência
tatuando o teatá:
não há caminho suave
outra cartilha não há

a vida pede urgência
no quilombo do jaó:
cochilei no trem de ferro
acordei, era iperó

são paulo, 05.06.2023

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu: de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Genésio dos Santos: brinquedo

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abandonou tudo o que até então fizera parte do seu mundo: deixou de lado o limão verde que às vezes se fazia de bola, jogos de botões se aquietaram na gaveta.

até mesmo a bola feita de meias que fora moldada com carinho pelas mãos da mãe costureira ficou esquecida no seu cantinho.

o guri já não se imaginava jogador de futebol. trazia consigo o pressentimento de que um dia fosse crescer e que se faria adulto tal como o pai ferroviário quase pela vida toda.


desatou então a montar palavras, encadeou frases e fez com que delas brotassem incríveis histórias reais ou imaginárias. uma pequena estante de livros da escola, segregada à chave pela secretaria, era o seu santuário.


tudo o mais teria que ficar empedrado e acorrentado no tempo.
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até um dia destes foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária, participou no jornal Brinque (do coletivo cultural do SeebSP, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

José Bento de Oliveira [Nhô Bento]: Réstinho de alegria

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Denoitinha ela veio falá cô eu, se rindo...
(Se ria prô se ri; mas tava triste, eu via!)
E tudo me contô... e tudo eu fui uvindo,
cô pensamento longe, amóde que fugindo
de gosá esse réstinho triste de alegria...

Meus óio, sem querê, fugia de incará...
Não sei o que me dêu... amóde que avuáva
que nem pêna, que o vento léva, sem pará,
e despôis fáis a póvre pinoteá, no á...
Assim fiquei tambem, sem sabê dônde táva!

Ela falô, falô, despôis parô, me oiándo...
Minha afrição passô... e fiquêmo, nóis dôis,
se oiándo múdo, triste e quiéto, maginando
tudo quanto de bão ajuntêmo em trêis ano,
pra pinchá fóra ansim, num dia só, despôis!

Vô-me imbóra aminhã!  éla falô baxinho...
Eu tambem quis falá e a fala me intalô...
Mas éla compreendendo tudo, dereitinho,
se riu, não disse nada, alevantô o bracinho,
e a mão déla co’a minha forte se apertô.

Intão eu compreendi que era a filicidade
que tava despedindo de êu, naquela hora;
e apertei a mãozinha déla, cúm vontade
de pedí pra éla ansim:  Fique prô caridáde,
Nhá Chiquita, não vá mais aminhã s’imbora!

Mas quem póde trocê cô que manda o destino
que do dia fáis noite e da noite fáis dia?
E ansim, como num sonho bão que vai sumindo,
tambem pra úrtima vêis nóis se oiêmo, se rindo,
gozando esse réstinho triste de alegria...
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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902  1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

viajando de trem, sem sair do sofá: na linha da CPTM, de Campo Grande/Paranapiacaba a Barra Funda.


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Viajei sem arredar os pés, e os olhos, de frente da telinha, ops... de dentro da locomotiva..., isto é, com a perspectiva e o campo de visão do maquinista; de Santo André (Campo Grande / Paranapiacaba) até a estação Palmeiras-Barra Funda, em Sampa.

São pontes, tantos viadutos, tantas passarelas, pessoas a pé, pessoas atravessando a linha, pessoas de mãos dadas, trens vindo no sentido contrário, lugarejos, vilas e cidades, pessoas nas estações, morros, barrancos, estradas e ruas laterais, sinos, apitos e mais apitos, passagens de nível, postes, pedras e dormentes, barracões, paredões de concreto, metrô, trens parados em desvios, armazéns, depósitos, prédios... Enfim, muita paisagem suburbana, urbana... e ferroviária. 

Para os mais preguiçosos, alguns momentos da aventura:

  • aos 25seg da viagem, trem vindo no sentido contrário;
  • aos 10min56seg, alça que segue para Manuel Feio ou Suzano;
  • aos 12min12seg, chegada na estação Rio Grande da Serra;
  • aos 21min29seg, chegada na estação Ribeirão Pires;
  • aos 24min03seg, trem vindo no sentido contrário;
  • aos 28min23seg, chegada na estação Guapituba;
  • aos 31min57seg, chegada na estação Mauá;
  • aos 36min32seg, chegada na estação Capuava;
  • aos 40min42seg, paisagem ao fundo, prédios do centro de Santo André;
  • aos 41min57seg, chegada na estação Celso Daniel-Santo André;
  • aos 45min56seg, chegada na estação Prefeito Saladino;
  • aos 48min07seg, chegada na estação Utinga;
  • aos 52min14seg, chegada na estação São Caetano;
  • aos 55min20seg, chegada na estação Tamanduateí;
  • aos 57min30seg, chegada na estação Ipiranga;
  • aos 58min18seg, páteo de trens, serviços e manobras de Ipiranga;
  • a 1h02min06seg, trem vindo no sentido contrário;
  • a 1h02min33seg, chegada na estação Moóca;
  • a 1h05min25seg, cruzando com trem maria-fumaça turístico do Museu dos Imigrantes, no Brás;
  • a 1h06min03seg, cruzando com a linha vermelha do Metrô (Corinthians-Itaquera a Palmeiras-Barra Funda), metrô passando, e já chegando na estação Brás;
  • a 1h09min20seg, trem vindo no sentido contrário;
  • a 1h11min50seg, chegada na estação da Luz;
  • a 1h13min45seg, prédios da estação Júlio Prestes (ex-EFS), vistos à esquerda;
  • a 1h24min20seg, chegada na estação Palmeiras-Barra Funda;
Boa viagem.

PS: Vendo este vídeo, lembrei-me de meu pai, Paulino Ferreira, oriundo da roça e ferroviário quase pela vida toda, que teve seu único emprego registrado em carteira na Estrada de Ferro Sorocabana (Fepasa), até se aposentar.

domingo, 5 de novembro de 2017

José Bento de Oliveira [Nhô Bento]: Pasto sêco

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O coração da gente é uma vióla...
O distino da gente é o violêro...
Quando ele é bão, sái côisa que cunsóla
inté o chão barrído do terrêro!

Mas quando o tár só sabe sê gavóla,
desses um trapaião e cavortêro,
a vida de um cristão não véve  róla!
Póde contá que se istragô o pesquêro!

Meu coração eu tinha incordoádo
e esperáva o rasgá do ponteádo
que um violêro bão me aprometêu...

O porquêra chegô... nem deu pra saída!
Destemperô-se a vióla... e a minha vida
virô invernada onde a geada deu!
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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902  1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

José Bento de Oliveira [Nhô Bento]: Se eu subésse cantá . . .

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Não sei pegá na vióla,
nem sei cantá;
pra tudo percísa iscóla
pra se estudá...

Nunca púde sê violêro,
proquê o defeito
que me fêis sê canhotêro
não me deu geito.

Pra rasgá minhas toáda
a vóis não dá;
por isso não canto nada,
só sei falá!

Mas se eu cantasse, eu queria,
num ponteádo,
contá como eu fui um dia
disinganado!
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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) —  hô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902 1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

domingo, 20 de agosto de 2017

Monteiro Lobato: Prefácio a "Rosário de Capiá" de Nhô Bento [trechos]

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          Foi em casa de Cicero Marques. Certa noite vi lá dois estranhos, um gordão e moreno a quem davam o nome de Nhô Bento  e era de fato um perfeito “Nhô”, bonachão, sossegado. Outro, um chatola, foi me apresentado como Pagano. Eu podia pensar tudo daqueles dois homens, menos que fossem dois verdadeiros e grandes poetas. Em certo momento Cícero pede a Nhô Bento que recite um dos seus poemas. Nhô Bento levanta-se e limpa o pigarro  e eu suspiro por dentro, preparando-me para a séca. Esses tais recitativos de encomenda são em geral uma estopada que a gente tem que engolir de cara amável, com palminhas no fim e pedidos hipócritas de “Recite outra...”

          Mas a minha surpresa foi grande. O homem pôs-se a dizer, com uma expressão, uma verdade e uma propriedade inexcedíveis, os melhores poemas caipiras que ainda ouvi  ricos de imagens novas, de modismos, de mil particularidades que no momento eu não podia analisar mas me enlevaram, como igualmente enlevaram a todos os presentes. Cicero olhava-nos orgulhoso  o orgulho dum empresário feliz. “Eu não dizia?” era a sua expressão ante o nosso espanto. E quando entre palmas Nhô Bento terminou o seu poema, o “Recite outro!” foi geral e sinceríssimo, porque versos como aqueles são como um bons-bocados que um não contenta.

          . . . Foi uma das mais belas noites de minha vida, essa em que travei conhecimento com dois estranhíssimos poetas, desses que não fazem invocação a Apolo, não entram nas academias, mas enchem a alma do povo e imortalizam-se de verdade  como o grande Catulo.
     
          Discutiu-se depois a publicação dos poemas de Nhô Bento e com prefácio meu! Pobre de mim! O menos crítico dos homens, o mais sem jeito, e virado “prefaciador” oficial” de livros, como antigamente havia na roça aqueles “oradores oficiais” das festinhas de família.

          . . .

          Este nosso país é um assombro. Nascemos aqui, vivemos aqui e morremos aqui e não o conhecemos. Conhecemo-lo tão pouco que quando apareceu o primeiro retrato d’après nature do jéca foi um espanto geral, e uma celeuma que durou anos e ainda é debatida. É que ninguém sabia como era o jéca  e sabem quantos jécas há neste país? Milhões. Talvez 15 milhões, isto é, a terceira parte da nação! Mas esses milhões de nacionais vivem de tal modo segregados da civilização das cidades grandes e pequenas, tão alheios à cultura geral, que somos etnograficamente um balde com dois terços de água e um de azeite  coisas imisturáveis.

          Temos duas civilizações, ou melhor, duas “culturas”: a cultura importada, dos que vivem nas cidades, sabem ler e escrever e até livros escrevem! E a “cultura local”, filha da terra como um cogumelo é filho dum pau podre, desenvolvida pelos homens do mato  o caboclo, o caipira, o jéca, em suma. Como o jéca nunca leu nada nem escreve, a sua cultura se foi fazendo ao tipo primitivo, por lentas acessões e restritas experiências locais e com a transmissão sempre oral. O assunto é grande demais para caber num prefácio; exige livros, já que se trata duma “cultura” de 15 milhões de seres humanos. Mas cumpre-nos aqui a considerar a galope um dos aspectos dessa “cultura”: a língua, pois foi na língua do jéca que Nhô Bento nos encantou.

          Essa língua descende da que os portugueses introduziram e que alijou a língua geral então existente nestes territórios: o tupi-guarani. Ficou a língua portuguesa sendo a língua geral do Brasil e até hoje o é. E por que o é? Porque aprendemos o português de duas maneiras: de ouvido e de leitura. Se o aprendêssemos só de ouvido, como acontece com o jéca, a nossa “língua geral” estaria hoje tão distanciada da língua portuguesa que um português não a entenderia. O que conserva as línguas e impedem que caminhem com velocidade excessiva pela tentadora da evolução, é a escrita.

          Mas como o jéca nunca soube ler nem escrever, a evolução da língua portuguesa em sua boca se fez a galope. Nhô Bento em seus poemas fixa muito bem a língua falada do jéca  e antes que me esqueça: por que os nossos filólogos não extraem a gramática dessa língua do jéca? Que interessante seria!... Quanta “mutação” vocabular, quanta variação da sintaxe, da prosódia, de tudo!... Troca do “b” pelo “v”: “cumbérsa”, “bérso”, “cuvérta”... O “lh” substituído pelo “i”: “abêia”, “páia”, “máia” (malha)... O “ou” reduzido a “ô”: “fumô”, “botô”... Quantos aspectos!

          Devíamos fazer a gramática da interessantíssima “língua do jéca” como os franceses fizeram a gramática da “língua do oc”; e devíamos ensinar essa gramática nas escolas, lado a lado com a gramática portuguesa, em vez de torturar as pobres crianças com o terrível e inútil latim do senhor Capanema. Ficaríamos assim educados em duas línguas, a geral, ou portuguesa, e uma língua auxiliar, a do jéca. Que vantagem haveria nisso? Oh, grande: podermos falar gramaticalmente com os 15 milhões de jécas que há no território brasileiro.

          . . . A forma escrita das línguas é um artificialismo tremendamente embaraçador da evolução natural das línguas. Tão emperrado, que no inglês a língua falada está p’ra cá, e a escrita está p’ra lá. Mr. Churchill escreve “enough” e diz “inâf”. O jéca teve a felicidade de não saber ler nem escrever, de não se preocupar com a Academia de Letras, de usar dos jornais unicamente o papel  e graças a isso “evoluiu” a língua portuguesa só de ouvido e sempre de acordo com as injunções da “lei do menor esforço” e da “lei da melhor compreensão”. E como suprimiu besteiras inúteis! Os verbos, por exemplo. Nós, por causa da tirania da escrita, ainda estamos com tantas variações pessoais como as tinha o latim. Dizemos: Eu tenho, Tu tens, Ele tem, Nós temos, Vós tendes, Eles têm. Ha um grave defeito aqui. Se o pronome já indica a pessoa do verbo, por que indicá-la novamente com a variação do verbo? Redundância, bobagem perda de esforço. O jéca, muito mais economizador de esforço, porque vive na maior das penúrias, diz: Eu tenho, Vancê tem, Ele tem, Nós tem, Vancês tem, Eles tem.

          O inglês também diz: I have, He have, We have, You have, They have  e tanto o jéca como o inglês exprimem perfeitamente a “pessoa que tem”, sem estarem latinescamente variando o pobre verbo.

          Há uma estranha aproximação do inglês com a língua do jéca, a ponto dum amigo meu, o visconde de Sabugosa, achar que essa língua deriva do inglês e não do português, como o saudoso Alvaro Guerra supunha. O jéca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês: diz, por exemplo, “as casa”, os “hóme” “as muié”, em vez de dizer redundantemente como o português, “as casas”, “os homens”, “as mulheres”. O inglês diz, “the houses” (o casas), “the men” (o homens), “the women” (o mulheres) a mesma coisa que o jéca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? Pensa com muita razão o jéca  e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.

          Tudo isso eu diria no prefácio de Nhô Bento, se fosse escrevê-lo E acentuaria que o mesmo direito que tiveram os portugueses de corromper o latim e transformá-lo em língua portuguesa, temos nós, letrados, de corromper a língua portuguesa e transformá-la na “língua brasileira”; e tem o iletrado jéca de “evoluí-la” em outro rumo. Mais cientificamente, podemos dizer que a língua portuguesa no Brasil está sofrendo duas variações: uma lenta, da gente que sabe ler e escrever; e outra rápida, da gente da roça segregada do urbanismo, do livro, do jornal e do radio  o abençoado jéca que tem a sorte de não ler os jornais do governo nem os da oposição e de não ouvir a “Hora do Brasil”.

          Quem condena como coisa “errada” o modo de falar ou a língua do jéca, revela-se curto de miolo. Os modos de variação duma língua são fenômenos naturais, e não há erro nos fenômenos naturais. Erro é coisa humana. Temos que estudar essas variações em vez de tontamente condená-las, pois condená-las equivale, por exemplo, a condenar os anéis de Saturno em nome dos planetas que não possuem anéis; os as caudas dos cometas em nome dos astros suras; ou as sementes da paineira por virem ao mundo envoltas num algodãozinho em nome das sementes de capiá que vêm nuas.

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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (conto, 1918), Cidades Mortas (conto, 1920), Negrinha (conto, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.