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Dona Formiga
Pertence à classe das senhoras sérias,
Tem cuidado da casa e de alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.
Tem cuidado da casa e de alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.
Além de tudo, é de ambições modestas,
Todo o seu bem, no seu labor converte
E faz da vida idéias esquisitas…
Não faz visitas
E não se diverte…
Nunca se viu Dona Formiga, em festas.
Todo o seu bem, no seu labor converte
E faz da vida idéias esquisitas…
Não faz visitas
E não se diverte…
Nunca se viu Dona Formiga, em festas.
De tanto se ocupar da vida e do futuro
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cômica;
Pois, mesmo assim, nos amplos e maçudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de econômica.
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cômica;
Pois, mesmo assim, nos amplos e maçudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de econômica.
Trabalha muito no pesado Estio,
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o Frio
E cessa a lida,
Já ela está com a dispensa cheia.
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o Frio
E cessa a lida,
Já ela está com a dispensa cheia.
Dona Cigarra — esta, coitada!
Não vale nada
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
Da sua Alma de estroina e vagabunda…
Entretanto,
Dona Cigarra, eu sei, passa misérias.
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
Da sua Alma de estroina e vagabunda…
Entretanto,
Dona Cigarra, eu sei, passa misérias.
Não tem a mínima noção exata
De arranjos econômicos de casas,
A própria fama, às vezes, malbarata...
A fartura que aumenta ou diminua,
Que a considere, o mundo, inepta, incapaz,
Diga que a vida que ela segue é torta,
Pouco se importa.
O que ela quer é o Sol e a Rua,
Porque ela não é mais
Do que um garoto de asas.
É da boêmia a mais perfeita imagem,
Adora a luz e mora na folhagem…
E tal a vida é e tal a aceita,
Sempre de sonhos e ilusões repleta…
Dona Cigarra até parece feita
Da própria massa de que é feito o Poeta!
Passa o Verão… E o véu do Estio,
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre,
Torna-se a Vida mais penosa e séria…
Dona Cigarra não resiste ao frio
E, coitadinha, morre
E morre, quase sempre, na miséria.
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre,
Torna-se a Vida mais penosa e séria…
Dona Cigarra não resiste ao frio
E, coitadinha, morre
E morre, quase sempre, na miséria.
Contam, que um dia,
Morta, do Sol, a límpida alegria,
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar,
Um pedaço de pão do seu celeiro…
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar,
Um pedaço de pão do seu celeiro…
Como a Formiga, então lhe perguntasse
Onde se achava
E o que fizera na estação passada,
Honestamente, disse que cantava…
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…
Por isso, é que eu não gosto da Formiga.
E o que fizera na estação passada,
Honestamente, disse que cantava…
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…
Por isso, é que eu não gosto da Formiga.

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Coleção Nossos Clássicos — Mário
Pederneiras, poesia, Volume 29, Apresentação de Rodrigo Otávio Filho, publicados
sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, 1958, Livraria Agir
Editora, Rio de Janeiro — RJ; Mário Veloso Paranhos Pederneiras
(1868 — 1915), carioca do Rio de Janeiro, foi poeta fortemente
influenciado pela poesia da escola simbolista francesa e também pelos grandes
nomes do Simbolismo da língua portuguesa naquele período — Cruz e
Sousa, Antonio Nobre e Cesário Verde; estreou na imprensa por volta de 1878 ao
tornar-se colaborador do jornal O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de
Oliveira, no Rio de Janeiro; entre 1895 e 1908, foi co-fundador, diretor e
redator das revistas Rio Revista, Galáxia e Mercúrio, e da revista Fon-Fon,
que foi responsável pela segunda fase do movimento simbolista; colaborou ainda
com os periódicos A Gazeta de Notícias, Sans Dessous, O Tagarela e
Novidades; escreveu e publicou Agonias (1900), Rondas Noturnas (1901), Histórias
do meu Casal (1906), Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida (1912) e Outono (1921,
obra póstuma, com poemas de 1914 e ilustrações de Calixto e João Carlos).
