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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Mário Pederneiras: A Cigarra e a Formiga

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Dona Formiga
Pertence à classe das senhoras sérias,
Tem cuidado da casa e de alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.

Além de tudo, é de ambições modestas,
Todo o seu bem, no seu labor converte
E faz da vida idéias esquisitas…
Não faz visitas
E não se diverte…
Nunca se viu Dona Formiga, em festas.

De tanto se ocupar da vida e do futuro
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cômica;
Pois, mesmo assim, nos amplos e maçudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de econômica.

Trabalha muito no pesado Estio,
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o Frio
E cessa a lida,
Já ela está com a dispensa cheia.

Dona Cigarra  esta, coitada!
Não vale nada
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
Da sua Alma de estroina e vagabunda…
Entretanto,
Dona Cigarra, eu sei, passa misérias. 

Não tem a mínima noção exata
De arranjos econômicos de casas,
A própria fama, às vezes, malbarata...
A fartura que aumenta ou diminua,
Que a considere, o mundo, inepta, incapaz,
Diga que a vida que ela segue é torta,
Pouco se importa.
O que ela quer é o Sol e a Rua,
Porque ela não é mais
Do que um garoto de asas.

É da boêmia a mais perfeita imagem,
Adora a luz e mora na folhagem…
E tal a vida é e tal a aceita,
Sempre de sonhos e ilusões repleta…
Dona Cigarra até parece feita
Da própria massa de que é feito o Poeta!

Passa o Verão… E o véu do Estio,
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre,
Torna-se a Vida mais penosa e séria…
Dona Cigarra não resiste ao frio
E, coitadinha, morre
E morre, quase sempre, na miséria. 

Contam, que um dia,
Morta, do Sol, a límpida alegria,
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar,
Um pedaço de pão do seu celeiro…

Como a Formiga, então lhe perguntasse 
Onde se achava
E o que fizera na estação passada,
Honestamente, disse que cantava…
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…

           Por isso, é que eu não gosto da Formiga
.

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Coleção Nossos Clássicos — Mário Pederneiras, poesia, Volume 29, Apresentação de Rodrigo Otávio Filho, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Mário Veloso Paranhos Pederneiras (1868 1915), carioca do Rio de Janeiro, foi poeta fortemente influenciado pela poesia da escola simbolista francesa e também pelos grandes nomes do Simbolismo da língua portuguesa naquele período  Cruz e Sousa, Antonio Nobre e Cesário Verde; estreou na imprensa por volta de 1878 ao tornar-se colaborador do jornal O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro; entre 1895 e 1908, foi co-fundador, diretor e redator das revistas Rio Revista, Galáxia e Mercúrio, e da revista Fon-Fon, que foi responsável pela segunda fase do movimento simbolista; colaborou ainda com os periódicos A Gazeta de Notícias, Sans Dessous, O Tagarela e Novidades; escreveu e publicou Agonias (1900), Rondas Noturnas (1901), Histórias do meu Casal (1906), Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida (1912) e Outono (1921, obra póstuma, com poemas de 1914 e ilustrações de Calixto e João Carlos).

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Rodrigo Otávio Filho: Velha Canção

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Tive a ambição de ser um Poeta triste...
Ser o cantor de flores que morreram
Num velho vaso esguio, onde persiste
Ainda o velho aroma em que viveram...

Ser o cantor amigo dos luares,
E cantar a canção dos gondoleiros...
Ter a alma navegando pelos mares,
E os olhos tristes como marinheiros...

Quis ter o meu jardim à beira-mar,
Cheio de palmas, lírios e de rosas,
Envolvido no manto do luar
Na delícia das noites amorosas...

E é bem assim o sonho que cultivo
Nesta ambição sensual do meu desejo,
Vivendo as horas longas que hora vivo,
Na saudade de uns olhos que não vejo...



(Dedicada a Eduardo Guimaraens)
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Rodrigo Otávio de Lanngaard Meneses Filho (1892 1969), nascido no Rio de Janeiro, estudante dos colégios Pedro II e Alfredo Gomes, instituições tradicionais à época no Rio, formado em Letras e em Direito, foi advogado, crítico literário, ensaísta, orador, poeta e escritor; fundou a Revista Jurídica, junto com seu pai, e estreou na literatura com o livro de poesias Alameda Noturna (1922); colaborou com os periódicos informativos e literários, revistas Atlântida e Fon-Fon e jornal Correio da Manhã, entre outros veículos; além de Alameda Noturna, escreveu Fundo da Gaveta (1924), O Poeta Mário Pederneiras (1932), A Vida Amorosa de Lizst (conferência, 1937), Velhos Amigos (1938), Viagem a Barbacena (1944), Camilo, Homem de Vidro e de Pimenta (1950), Mário Pederneiras (Organização e Antologia de Poesia, Coleção Nossos Clássicos, 1958), Simbolismo e Penumbrismo (ensaio póstumo, 1970), entre outros títulos e numerosas conferências e ensaios.