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segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Banville: Pastoral

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Deita o negro cabelo o teu chapéu de palha
Vem! Antes do rumor, da hora em que se trabalha,
Vamos ver a manhã doirando os montes, vamos
Colher pelos vergéis as flores que adoramos...

Pelo beiral da fonte, em ôndulas trementes,
Os nenúfares de ouro inclinam-se, indolentes;
Dos prados, em verdor, pairam ainda os frescores,
Como um eco longínquo, as canções dos pastores...

E vindo para nós, com as asas odorantes,
As brisas matinais, tuas irmãs errantes,
Espargem sobre ti, enquanto ris, o olor
Do pêssego rosado e da macieira em flor...

Théodore de Banville

Viens. Sur tes cheveux noirs . . .

Viens. Sur tes cheveux noirs jette un chapeau de paille.
Avant l’heure du bruit, l’heure où chacun travaille,
Allons voir le matin se lever sur les monts
Et cueillir par les prés les fleurs que nous aimons.

Sur les bords de la source aux moires assouplies,
Les nénufars dorés penchent des fleurs pâlies,
Il reste dans les champs et dans les grands vergers
Comme un écho lointain des chansons des bergers,

Et, secouant pour nous leurs ailes odorantes,
Les brises du matin, comme des sœurs errantes,
Jettent déjà vers toi, tandis que tu souris,
L’odeur du pêcher rose et des pommiers fleuris.

Avril 1845.

Les Stalactites, 1846
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Étienne Jean Baptiste Claude Théodore Faullain de Banville (1823 1891), francês de Moulins, Bourbonnais, estudou Direito, foi jornalista, dramaturgo, poeta e crítico literário e teatral; o poeta transitou no período tardio do romantismo, foi um dos líderes do movimento parnasiano, colaborou com críticas literárias no seu tempo e influenciou os simbolistas; aos 19 anos publicou seu primeiro livro de poemas, Les Cariatides (1842); depois vieram Les Stalactites (1846), Odelettes (1856), Odes funambolesques (1857), Améthystes (1863), Les Exilés (1867), Idylles prussiennes (1871) todos de poesia , Gringoire (comédia histórica, teatro, 1866), Florise (comédia em 4 atos, 1870), Petit traité de versification française (1871), Trente-six ballades joyeuses (1873), Deidamia (peça teatral, 1876), Contes pour les Femmes (1881), Contes féeriques (1882), Contes héroiques (1884), Contes bourgeois (1885), e outros títulos em verso e prosa e também para dramaturgia.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Banville: Andrômeda

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[traduzido por Álvaro Reis]

Geme Andrómeda, além, pelo deserto oceano,
nua e branca, a estorcer os braços num rochedo...
Nada sobre a erma praia, onde o vento, errante aedo,
canta! E na vastidão nem um trêmulo pano!

Sob o seu corpo nu esbraseia o penedo!
E um sol ardente a beija, impiedoso e profano...
E o glauco monstro investe e após recua, e, insano,
envolve-a, branca estrela esmaiada de medo!

Alma infantil e doce, ela geme, ofegante;
mas Perseu, vencedor de Atlas, em um momento,
vem, cortando a amplidão, no Pégaso flamante...

O herói vem desgrenhado, o áureo gládio empunhando,
e estática a princesa aspira novo alento,
e segue, olhos no Azul, o surto formidando!

Théodore de Banville

Andromède

Andromède gémit dans le désert sans voile,
Nue et pâle, tordant ses bras sur le rocher.
Rien sur le sable ardent que la mer vient lécher,
Rien ! pas même un chasseur dans un abri de toile.

Rien sur le sable, et sur la mer pas une voile!
Le soleil la déchire, impitoyable archer,
Et le monstre bondit comme pour s’approcher
De la vierge qui meurt, plus blanche qu’une étoile.

Ame enfantine et douce, elle agonise, hélas!
Mais Persée aux beaux yeux, le meurtrier d’Atlas,
Vient et fend l’air, monté sur le divin Pégase.

Il vient, échevelé, tenant son glaive d’or,
Et la jeune princesse, immobile d’extase,
Suit des yeux dans l’azur son formidable essor.

[Recueil: "Les princesses"]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Étienne Jean Baptiste Claude Théodore Faullain de Banville (1823 1891), francês de Moulins, Bourbonnais, estudou Direito, foi jornalista, dramaturgo, poeta e crítico literário e teatral; o poeta transitou no período tardio do romantismo, foi um dos líderes do movimento parnasiano, colaborou com críticas literárias no seu tempo e influenciou os simbolistas; aos 19 anos publicou seu primeiro livro de poemas, Les Cariatides (1842); depois vieram Les Stalactites (1846), Odelettes (1856), Odes funambolesques (1857), Améthystes (1863), Les Exilés (1867), Idylles prussiennes (1871) todos de poesia , Gringoire (comédia histórica, teatro, 1866), Florise (comédia em 4 atos, 1870), Petit traité de versification française (1871), Trente-six ballades joyeuses (1873), Deidamia (peça teatral, 1876), Contes pour les Femmes (1881), Contes féeriques (1882), Contes héroiques (1884), Contes bourgeois (1885), e outros títulos em verso e prosa e também para dramaturgia.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Edgard Rezende: Do Soneto

Resultado de imagem para Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — de Edgard Rezende, Casa Editora Vecchi
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Quanta graça na sua forma de ouro fino, quanto brilho no requintado lavor das suas rimas diamantinas, quanta elegância na sua síntese de jóia minúscula e fidalga da mais alta aristocracia espiritual!

Foi Girard de Bourneuil, trovador francês da província de Limousin, o criador do soneto, no século XIII. Girard morreu em 1278, sem conhecer e talvez mesmo sem imaginar as glórias fadadas a esse lindo produto do seu espírito, que havia de imortalizar tantos nomes e constituir relíquias de tantas literaturas.

Coube a Petrarca fazê-lo florir na Itália, passando-se em seguida a Portugal, à Espanha, ao mundo inteiro, para voltar depois, no século XVI, triunfante, à sua pátria, à França.

Gênero preferido e cultivado por quase todos os grandes poetas, tornou-se popular e por isso mesmo a forma poética que mais tem sofrido em mãos inexperientes. Difícil, a despeito das aparências, tem comprometido muitas intenções boas, não só de principiantes, como até de poetas já feitos...

"Le venin du scorpion est dans sa queue et le merite du sonnet dans son dérnier vers" *, disse Théophile Gautier.

Além de ser o mais difícil dos gêneros poéticos 
 "dos poemas de forma fixa é o soneto o mais usado em todas as línguas e o que mais se presta a todos os gêneros literários, desde o épico até o humorístico" (Manuel do Carmo, "Consolidação das Leis do Verso", São Paulo, 1919).

"O soneto para ser belo, diz ainda o mesmo autor, deve obedecer ao modelo tradicional do paralelismo das duas rimas dos quartetos, dos dois tercetos bem destacados e do conceito no último verso, fechando o poema".

Para Banville, com muita razão, as rimas devem parecer 
 "surpresas de se encontrarem, mas contentes do seu encontro". De fato assim é: no soneto, por excelência, deve ser cuidada a rima:  espontânea, harmoniosa, sons diversos, palavras indispensáveis à inteligência da frase, e sempre que possível categoria gramatical diferente, para a mais agradável "surpresa" a que se refere Banville.

No feliz conceito de F. Loliée: "Le sonnet, quand il s'adapte exactement à une idée complete, simple et precise quand il conserve en meme temps l'unité de pensée et le mouvement lyrique, peut étre une vraie criation d'art" **.

Emperrado, porém, nas rígidas correntes clássicas, que lhe não davam a mínima liberdade, revoltou-se ele, muito conseguindo com a lógica e asseada quebra dos primitivos grilhões. Falando a respeito, diz-nos Arnaldo Nunes: "O soneto, porém, não ficou na rigidez clássica. Evoluiu, tomou elasticidade, tanto na forma como no fundo: 
 pode dispensar o fecho; adquiriu o enjambement; tornou-se lícito variar nas rimas, uma vez dispostas com uniformidade. Neste caso (da uniformidade das rimas) há exceções, às vezes boas. Mas é muito difícil não comprometer o ritmo. Isto não quer dizer que tenha ficado mais fácil. Nem mais fácil nem mais difícil. É preciso é saber fazê-lo, ser artista e poeta, tecer a redoma e ter alguma cousa para colocar dentro dela..."

Sim, o que é preciso é ser artista e poeta, pois o soneto, dí-lo Alberto de Oliveira: "... vive ainda, entraja-se um dia ou outro com certo apuro, como aldeão que aos domingos põe a sua melhor roupa de ver a Deus, mas o mais das vezes quando aparece é maltrapilho e vulgar".

Sim, repitamos, o que é preciso é ser artista e poeta; saber fazer o soneto e ter alguma cousa para colocar dentro dele...

Enquanto houver poesia, o soneto há de ser imortal!...



* "O veneno do escorpião está em sua cauda, o mérito do soneto no seu último verso".
** "O soneto, quando se encaixa com exatidão a uma idéia completa, simples e precisa, quando se mantém ao mesmo tempo a unidade de pensamento e o movimento lírico, pode ser uma verdadeira obra de arte".
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros
Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro RJ; Edgard Rezende (1918  ?  ), paraense nascido em Belém, poeta, cronista, ensaísta, crítico, biógrafo e jornalista, estudioso e divulgador da poesia, escreveu e publicou diversas obras: Araçá contos e crônicas (1940, Rio de Janeiro), Os Mais Belos Sonetos Brasileiros florilégio (1ª ed., 1945; 2ª ed., 1947, Rio de Janeiro), O Brasil que os Poetas Cantam (1946, Rio de Janeiro), Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros (1950, 2ª série, 1ª edição, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro RJ) etc.