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sábado, 2 de novembro de 2024

Lorenzo Stecchetti: Sob os cabelos de ouro que te beijo, . . . [soneto]

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[traduzido por Guimarães Passos]

[Póstuma XVIII]

Sob os cabelos de ouro que te beijo,
eu não quero saber o que se esconde,
nem tampouco, mulher, se corresponde
o teu amor ao meu, saber desejo.

Que me importa saber o como e onde
faltaste ao juramento assim, sem pejo?
Gozei-te uma hora... isto passou? não vejo
proveito algum, para que o fato sonde.

Não pergunto se o vinho já bebido
continha alguma droga traiçoeira.
Foi nos teus lábios pelos meus sorvido.

Que me adianta saber se tu és casta?
Amamos, em verdade, uma hora inteira,
fomos felizes quase um dia... e basta.

Lorenzo Stecchetti

Postuma XVIII

Io non voglio saper quel che ci sai
Sotto la chioma al bacio mio donata
E se nel bianco sen, ragazza mia,
Tu chiuda un cor di santa o di dannata.

Che cosa importa a me se una bugia
Tra una promessa e l’altra t’è scappata?
Che cosa importa far la notomia
A quell’ora d’amor che tu m’hai data?

Non cercherò se dentro al vin bevuto
Ci fosse qualche droga forestiera:
Il tuo vino era buono e m’è piaciuto.

Io non voglio saper quanto sei casta:
Ci amammo veramente un’ora intera,
Fummo felici quasi un giorno e basta.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Olindo Guerrini (1845 1916), ou Lorenzo Stecchetti, um de seus pseudônimos, italiano de Forlì, estudou Direito na Universidade de Bolonha, não exerceu o ofício, se encaminhou pela vida nas letras, trabalhou como bibliotecário na mesma universidade onde se formou, foi estudioso da literatura italiana, bibliófilo, crítico literário e poeta; teve muitos de seus poemas musicados à época; suas obras: em poesia: Postuma (1877), Polemica (1878), Giobbe (1882), Rime di Argia Sbolenti (1897); em prosa: La vita e le opere di Giulio Cesare Croce (1879), La tavola e la cucina nei secoli XIV e XV (1884), In Bicicleta (1901), Brani di vita (1908) e outros títulos em verso e prosa; o poeta também fez uso de vários outros pseudônimos em suas publicações, entre os quais Argia Sbolenti, Lorenzo Varas, Mercutio, Marco Balossardi, John Dareni, Pulinera e Bepi; Olindo Guerrini atuou como vereador e assessor do município de Ravenna, ocasião em que fundou uma biblioteca popular; ainda atuou como bibliotecário em Gênova e ali se aposentou.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Guimarães Passos: Teu lenço


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Esse teu lenço que possuo e aperto
De encontro ao peito, quando durmo, creio
Que hei-de um dia, mandar-to, pois roubei-o,
E foi meu crime, em breve, descoberto.

Luto, contudo, a procurar quem certo
Possa nisto servir-me de correio;
Tu nem calculas qual o meu receio,
Se, em caminho, te fosse o lenço aberto...

Porém, ó minha vívida quimera,
Fita as bandas que habito, fita e espera,
Que, enfim, verás em trêmulos adejos,

Em cada ponta um beija-flor pegando,
Ir o teu lenço pelo espaço voando
Pando, enfunado, côncavo de beijos!

(Versos de um simples — 1891)

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Sebastião Cícero dos Guimarães Passos (1867 1909), alagoano de Maceió, foi jornalista e poeta; no Rio de Janeiro, trabalhou em diversos periódicos da época (Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, A Semana), e nas suas colunas publicava crônicas e versos; muitas vezes também assinava seus textos com pseudônimos (Filadelfo, Gill, Floreal, Puff, Tim e Fortúnio; produziu textos humorísticos para O Filhote, textos esses reunidos no livro Pimentões (publicado em parceria com Olavo Bilac); em sua estada em Buenos Aires, como exilado no governo Floriano, colaborou com os jornais La Nación e La Prensa; escreveu e publicou Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (com Olavo Bilac, 1905), Tratado de Versificação (com Olavo Bilac, 1905); o poeta foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Guimarães Passos: Eu pecador


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Nas tuas horas de arrependimento,
Pensando em mim, o próprio amor maldizes,
E revolvendo o peito nas raízes,
Falas até nas grades de um convento.

Do gozo, tiras o maior tormento,
Das dores, tiras as mais negras crises;
Nos dias em que nós somos felizes,
Eu leio tudo no teu pensamento.

Tu vês o inferno, quando eu vejo a aurora,
E nos teus olhos, onde a dor se imprime.
Deus nos acena, formosa pecadora.

Bradas ao céu de medo, e ao céu eu brado,
Tu, pedindo perdão para o teu crime,
Eu, pedindo que aumente o teu pecado.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Sebastião Cícero dos Guimarães Passos (1867 1909), alagoano de Maceió, foi jornalista e poeta; no Rio de Janeiro, trabalhou em diversos periódicos da época (Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, A Semana), e nas suas colunas publicava crônicas e versos; muitas vezes também assinava seus textos com pseudônimos (Filadelfo, Gill, Floreal, Puff, Tim e Fortúnio; produziu textos humorísticos para O Filhote, textos esses reunidos no livro Pimentões (publicado em parceria com Olavo Bilac); em sua estada em Buenos Aires, como exilado no governo Floriano, colaborou com os jornais La Nación e La Prensa; escreveu e publicou Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (com Olavo Bilac, 1905), Tratado de Versificação (com Olavo Bilac, 1905); o poeta foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Angelo Bitu: Os votos

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Vai-se a primeira votação passada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
de votos vão-se da Assembléia, apenas
a sessão começou da bordoada!

Sopra sobre Ele a rígida nortada...
que saudades das épocas serenas
em que Ele e os outros, aparando as penas,
tinham apurações de cambulhada!

O seu bom-senso todos apregoam...
afastando-se d'Ele, os votos voam,
como voam as pombas dos pombais...

As esperanças o seu vôo soltam...
e Ele vê que aos pombais as pombas voltam,
mas esses votos não lhe voltam mais!

Um Acadêmico

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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Angelo Bitu, 'um acadêmico', é pseudônimo coletivo de Olavo Bilac (1865 1918), Alberto de Oliveira (1857 1937) e Pedro Tavares Júnior (1858 1934); este soneto ‘Os votos’, foi feito provavelmente, ou talvez, a seis mãos; bibliografia: Lira acaciana (1900); há registro que o poeta Guimarães Passos (1867  1909) também teve participação no pseudônimo coletivo Angelo Bitu e, consequentemente, na obra Lira acaciana: é o que nos conta Silvia Oliveira Campos de Pinho, historiadora, em Alberto Torres: uma obra, várias leituras (2007, texto-tese de mestrado em curso de pós-graduação em História na UFMG).

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Guimarães Passos: Na terra estava quando te queria . . . [soneto]

Na terra estava quando te queria
De todas as mulheres diferente,
E olhando a altura com o fervor dum crente
Em nuvem de ouro a tua imagem via.

Na asa encantada que a paixão me abria
Subi, para buscar-te unicamente,
E em cima estando vi-te, de repente,
Na terra, no lugar donde eu saía.

Olhos de amante, que de tal maneira
Andam cheios de lúcida loucura,
Que assim se perdem na maior cegueira.

E vendo aquilo que não há, decerto,
Sonham longe a ilusão de uma ventura
E não vêem a ventura que têm perto.

(Versos de um simples,
 Rio de Janeiro, 1891, p. 82  83.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Sebastião Cícero dos Guimarães Passos (1867 1909), alagoano de Maceió, foi jornalista e poeta; no Rio de Janeiro, trabalhou em diversos periódicos da época (Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, A Semana), e nas suas colunas publicava crônicas e versos; muitas vezes também assinava seus textos com pseudônimos (Filadelfo, Gill, Floreal, Puff, Tim e Fortúnio; produziu textos humorísticos para O Filhote, textos esses reunidos no livro Pimentões (publicado em parceria com Olavo Bilac);  em sua estada em Buenos Aires, como exilado no governo Floriano, colaborou com os jornais La Nación e La Prensa; escreveu e publicou Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (com Olavo Bilac, 1905), Tratado de Versificação (com Olavo Bilac, 1905); o poeta foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Guimarães Passos: Depois

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Para mim, pouco importa a recompensa
Dos meus carinhos, quando te procuro;
Dirão que tens um coração tão duro,
Que pedra alguma há que em rijeza o vença.

Dirão que a calculada indiferença
Com que tu me recebes, é seguro
Condão que tens de todo o meu futuro
Trocar, sorrindo, em desventura imensa.

Dirão... Que importa a mim? Dá-me o teu leito,
Dá-me o teu corpo, fecha-me nos braços,
Une os lábios aos meus, o peito ao peito,

Que eu nem saiba qual seja de nós dois...
Mentem teus beijos? Mentem teus abraços?
Seja tudo mentira... mas depois.

Buenos Aires,
Horas mortas  1901

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Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, Organização, Seleção, Prefácio e Notas de Manuel Bandeira, 1938, Edição do Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro — RJ; Sebastião Cícero dos Guimarães Passos (1867 1909), alagoano de Maceió, foi jornalista e poeta; no Rio de Janeiro, trabalhou em diversos periódicos da época (Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, A Semana), e nas suas colunas publicava crônicas e versos, muitas vezes também assinando seus textos com pseudônimos (Filadelfo, Gill, Floreal, Puff, Tim e Fortúnio); produziu textos humorísticos para O Filhote, textos esses reunidos no livro Pimentões (publicado em parceria com Olavo Bilac); em sua estada em Buenos Aires, como exilado no governo Floriano, colaborou com os jornais La Nación e La Prensa; escreveu e publicou Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (com Olavo Bilac, 1905), Tratado de Versificação (com Olavo Bilac, 1905); o poeta foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.