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Entrei no
correio, um dia destes, para pôr uma carta. Como precisasse escrever o endereço,
fui ter a uma das mesinhas, onde se encontram penas grossas e tinta rala.
Todas se
achavam ocupadas; fiquei então à espera junto a uma delas.
Reparando
melhor, verifiquei que o ocupante era Gonzaga de Sá1, meu amigo,
homem maior de cinquenta anos, não obstante, brusco e paradoxal.
Não escrevia;
olhava alguns selos espalhados sobre a mesa.
— Oh! Sr.
Gonzaga de Sá, ande!
— Tu!
— À sua
espera.
— Já
viste os novos selos
— Alguns.
— É bom
ver. Tenho aqui de dez réis, de vinte, de quatrocentos, de cem, de cinquenta e
duzentos.
— Faz
coleção?
— Não. Amo
os homens ilustres, e os selos trazem as efígies de alguns deles. Temos aqui:
Aristides Lobo, Benjamin Constant, Pedro Álvares Cabral, Eduardo Wandenkolk, Deodoro
da Fonseca e Prudente de Morais.
— Idéia
feliz! — exclamei eu.
— Pena é
que, ao lado, não tragam alguns dados biográficos e profundas sentenças morais.
— Por
quê?
—
Teríamos o Plutarco brasileiro em fórmulas de franquia postal. Entretanto,
mesmo como estão, tem vantagens. Assim, quando olhas um Aristides Lobo, dez
réis, dirás lá contigo: está aí um homem que nasceu para dez réis; o que não
aconteceu com o Benjamin. Este, sim, chegou a vintém. Vá que recebas uma carta
urbana. Lá te vem um Wandenkolk cor de tijolo, cem réis... Pensarás de ti para
ti: como foi longe! E não é tudo. Se, a um só tempo, tiveres um Deodoro,
verdoengo, duzentos réis, um Prudente, acinzentado, quatrocentos réis, junto a
um Álvares Cabral, cinquenta réis, refletirás maduramente sobre a injustiça das
coisas humanas. Eis aí como estava eu a pensar sobre selos, e pensar sobre
selos, concordarás, é das mais modestas pesquisas intelectuais. Não te parece?
— De
fato.
— Bem.
Escreve a tua carta. Adeus.
— o —
O servente
da Caixa de Conversão2, a quem, num bonde, ouvi falar há dias, é
pessoa de bons costumes, crédula e honesta. Recebi magníficas informações a seu
respeito, e disseram-me que, se na praça a confiança de fato merecesse crédito,
ele endossaria letras de milhares de contos. No bonde, ele contava a um
camarada:
— Pois é
isso: toda manhã, quando chego lá, é um zum-zum, um falatório de espantar. No primeiro
dia, pensei que fosse gente. Mas qual! Não havia ninguém. Andei, remexi tudo...
Nada! De tarde, quando todos saem, é a mesma coisa: um barulho de vozes, um
bate-boca infernal... Eu quis mesmo contar o caso ao porteiro, mas ele poderia
pensar que eu estava doido... calei-me. Já me tinham dito que os bichos — lá
vinha um dia — falavam, mas coisa é... é que nunca ouvi dizer. Enfim, quanto
mais se vive, mais se aprende... Anteontem de manhã, quando cheguei, ouvi a tal
barulhada, o tal zum-zum de vozes... Que fiz? Fui devagar, devagarzinho, e me
pus a escutar um cofre... Sabe o que ouvi?
— Não —
fez o companheiro.
— Isso:
não se enxerga, sua nota de papel!? Veja lá se eu me troco por você.
—
Naturalmente era uma libra quem falava.
— Eu
pensei também. Há cada coisa...
[Pingente3, Fon-Fon, nº 1, 13 abr. 1907]
* Nota
do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página
registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução
deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”
Notas do
Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1. Protagonista
do livro de Lima Barreto Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, que foi escrito
em 1907 e publicado somente em 1919;
2. A
Caixa de Conversão foi criada em 1906 para ajudar a combater a crise pela qual
passava o mercado de café e manter equilibrado o poder de troca da moeda do
Brasil no comércio com outras nações. A Caixa estava autorizada a emitir
bilhetes conversíveis, garantidos por lastro em moedas de ouro nacionais e
estrangeiras, como a libra e o dólar. Encerrou sua atividade emissora em 1913;
3. Assinado por Pingente. Publicado
em Fon-Fon, nº 1, 13 abr. 1907.
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Sátiras e
outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução,
Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das
Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca,
estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica
do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista,
romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon,
A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio
da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do
Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar
um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905),
Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma
(editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros
Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado,
publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal,
editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...