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sábado, 15 de março de 2025

Lou Salomé: Alegria de Março

 
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[traduzido por Luzilá Gonçalves Ferreira]

Dos galhos nus açoitados pelo vento
Cai a última neve de março, úmida e macia,
Caminho como por um reino encantado
Adentrando o silêncio do crepúsculo.

Ouve-se claro das profundezas do bosque
Apenas o canto de um pássaro,
Qual alvíssaras da natureza:
Um grito, uma saudação, um anúncio de primavera.

Como se um arauto fosse necessário
Para que se esqueça o frio e a neve,
Até que os olhos iludidos por um sonho
Vejam uma primavera que não há.

Pois bem! a mim não me ilude mais
Mas desta alegria de março me vou cobrir:
E ficar imóvel na invernal paisagem
Esperando a primavera me chamar.

Lou Salomé

Märzglück

An kahlen, windverwehten Zweigen
Hängt letzter Märzschnee feucht und weich,
Ich schreite wie durch Märchenreich
Hinein in abenddunkles Schweigen.

Hell tönt aus tiefen Waldesgründen
Das Zwitschern einer Meise nur,
Wie Selbstverheißung der Natur:
Ein Ruf, ein Gruß, ein Frühlingskünden.

Als müßte sie einen Boten schicken
Um den man Frost und Schnee vergißt,
Bis einen Frühling, der nicht ist,
Die Augen traumbetört erblicken.

Nun! Darf er nie mehr mich betören
Dies Märzglück doch soll mir geschehn:
In Winterlandschaft stillzustehn
Um einen Lenzruf anzuhören

Berlin—Tempelhof, 1890
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Lou Andreas-Salomé — Cinzas no jardim: Luzilá Gonçalves Ferreira, Coleção Encanto Radical nº 13, 1982, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Lou Andreas-Salomé (1861 1937) ou Louise von Salomé, russa de São Petesburgo, foi filósofa, ensaísta, poeta, romancista e psicanalista; viveu na Alemanha e conviveu intelectualmente com Nietzsche, Paul Rée, René (Rainer) Maria Rilke, Freud e outros pensadores de sua época; na Rússia Imperial, estudara teologia, filosofia, religiões mundiais e literatura francesa e alemã com o pregador (pastor) holandês Hendrik Gillot; já morando na Alemanha, para onde viajara com a mãe, adquiriu educação universitária em Zurique, estudou lógica, história das religiões, metafísica e confirmou sua vocação literária, retomando seus poemas escritos anteriormente e publicando-os em revistas de literatura ligadas a diversos círculos universitários; suas obras: Im Kampf um Gott (Uma luta por Deus, 1885), Henrik Ibsens Frauen-gestalten (Personagens femininas de Ibsen, 1892), Friedrich Nietzsche in seinen Werken (Friedrich Nietzsche em sua obra, 1894), Ruth (1895), Aus fremder Seele (De uma alma perturbada, 1896), Fenitschka. Eine Ausschweifung (Fenitschka. A debochada, 1898), Menschenkinder (Filhos dos homens, 1899), Im Zwischenland (Na zona do crepúsculo, 1902), Die Erotik (Erotismo, 1910), Das Haus (A casa, 1919), Main Dank an Freud (Minha gratidão a Freud, 1931), Lebensrückvlick (póstumo, Memórias, organizado por Ernst Pfeiffer, 1951), e outros títulos; Lou Salomé, uma mulher com idéias avançadas para o seu tempo, conviveu em círculos intelectuais de absoluta predominância masculina sem se  submissa a estes; sua obra Im Kampf um Gott foi publicada com o pseudônimo de Henri Lou.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Lou Salomé: Hino à Vida [para coro misto e orquestra] *

 
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[traduzido por Luzilá Gonçalves Ferreira]

Claro, como se ama um amigo
Eu te amo, vida enigmática
Que me tenhas feito exultar ou chorar,
Que me tenhas trazido felicidade ou sofrimento.

Amo-te com toda a tua crueldade,
E se deves me aniquilar,
Eu me arrancarei de teus braços
Como alguém se arranca do seio dum amigo.

Com todas as minhas forças te aperto!
Que tuas chamas me devorem,
No fogo do combate, permite-se
De sondar mais longe teu mistério.

Ser, pensar durante milênios!
Encerra-me em teus braços:
Se não tens mais alegria a me ofertar,
Pois bem, restam-te teus tormentos.

Lou Salomé

Lebensgebet

Gewiß, so liebt ein Freund den Freund,
Wie ich Dich liebe, Rätselleben 
Ob ich in Dir gejauchzt, geweint,
Ob Du mir Glück, ob Schmerz gegeben.

Ich liebe Dich samt Deinem Harme;
Und wenn Du mich vernichten mußt,
Entreiße ich mich Deinem Arme
Wie Freund sich reißt von Freundesbrust.

Mit ganzer Kraft umfaß ich Dich!
Laß Deine Flammen mich entzünden,
Laß noch in Glut des Kampfes mich
Dein Rätsel tiefer nur ergründen.

Jahrtausende zu sein! zu denken!
Schließ mich in beide Arme ein:
Hast Du kein Glück mehr mir zu schenken 
Wohlan  noch hast Du Deine Pein.

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página faz constar que neste Lou Salomé — Cinzas no jardim [págs. 54 e 55], a autora Luzilá Gonçalves Ferreira deixa registrado, acerca do poema, o que se segue:
     “[Em agosto de 1882] Ao deixar, em Tautenburgo, Nietzsche e Elizabeth brigados por sua causa, Lou entrega à Nietzsche a cópia de um poema que ela escrevera em Zurique, meses antes, após ter deixado sua Rússia natal. Este texto será musicado por Nietzsche e aparecerá em 1887, com o título de “Hino à Vida para coro misto e orquestra”. Na partitura ele não colocou o nome do autor das palavras, mas o pôs no Ecce Homo [1888], ao falar do nascimento de Zaratustra nestes termos: “O texto, faço questão de precisar, porque dá lugar, neste momento, a um mal-entendido, não é meu: devemo-lo à inspiração de uma jovem russa que foi outrora minha amiga, a senhorita Lou von Salomé. Aquele que é capaz de entender o sentido das últimas palavras do poema adivinhará por que eu o amei e admirei particularmente:
     tem grandeza. A dor não pode servir de argumento contra a vida. ‘Se não tens mais alegria a me ofertar, pois bem, restam-te teus tormentos ...'. Talvez minha música tenha grandeza neste trecho.
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Lou Andreas-Salomé — Cinzas no jardim: Luzilá Gonçalves Ferreira, Coleção Encanto Radical nº 13, 1982, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Lou Andreas-Salomé (1861 1937) ou Louise von Salomé, russa de São Petesburgo, foi filósofa, ensaísta, poeta, romancista e psicanalista; viveu na Alemanha e conviveu intelectualmente com Nietzsche, Paul Rée, René (Rainer) Maria Rilke, Freud e outros pensadores de sua época; na Rússia Imperial, estudara teologia, filosofia, religiões mundiais e literatura francesa e alemã com o pregador (pastor) holandês Hendrik Gillot; já morando na Alemanha, para onde viajara com a mãe, adquiriu educação universitária em Zurique, estudou lógica, história das religiões, metafísica e confirmou sua vocação literária, retomando seus poemas escritos anteriormente e publicando-os em revistas de literatura ligadas a diversos círculos universitários; suas obras: Im Kampf um Gott (Uma luta por Deus, 1885), Henrik Ibsens Frauen-gestalten (Personagens femininas de Ibsen, 1892), Friedrich Nietzsche in seinen Werken (Friedrich Nietzsche em sua obra, 1894), Ruth (1895), Aus fremder Seele (De uma alma perturbada, 1896), Fenitschka. Eine Ausschweifung (Fenitschka. A debochada, 1898), Menschenkinder (Filhos dos homens, 1899), Im Zwischenland (Na zona do crepúsculo, 1902), Die Erotik (Erotismo, 1910), Das Haus (A casa, 1919), Main Dank an Freud (Minha gratidão a Freud, 1931), Lebensrückvlick (póstumo, Memórias, organizado por Ernst Pfeiffer, 1951), e outros títulos; Lou Salomé, uma mulher com idéias avançadas para o seu tempo, conviveu em círculos intelectuais de absoluta predominância masculina sem se  submissa a estes; sua obra Im Kampf um Gott foi publicada com o pseudônimo de Henri Lou.