Mostrando postagens com marcador Virgílio Várzea. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Virgílio Várzea. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Virgílio Várzea: Manhã na Roça

Antigo Livro Antologia Brasileira Sel. Prosa Verso 1945
____________________
                    É pleno inverno.
                    Aqui e além, galos acordam cantando à aproximação do dia. Uma tênue mancha de claridade argêntea recorta em laca a linha ondulada das colinas verdes. Pouco a pouco, uma poeira de ocre transparente, que se esbate para o alto, cobre todo o horizonte e o sol aponta, deslumbradoramente, como uma gema de ouro flamante. Vapores diáfanos diluem-se lentamente, em meio dos listrões vivos que purpureiam o Nascente. Fundem-se no ar tons delicados de azul e rosa; e eleva-se da floresta uma orquestração triunfal.
                    Despertam de súbito, ao alagamento tépido da luz, as culturas adormecidas.
                    Abrem-se as casas.
                    Pelos terreiros, úmidos da serenada da noite, homens de cócoras, em camisa, de cangirão na mão, brancos de frio, ordenham as grossas tetas das pacientes e mugidoras vacas, que criam amarradas aos finos paus das parreiras, e que, expelindo fumaça no ar frígido, ruminam ainda restos de grama, numa mansidão ingênua de animal digno.
                    Mulheres de xale pela cabeça chamam as galinhas, com um ruído seco de beiço tremido, fazendo brurrr e sacudindo-lhes mãos cheias de milho e pirão esfarelado.
                    Um carro atopetado de raízes de mandioca, arrancadas de fresco, empoeiradas de areia, compridas, tortas, com o aspecto e a cor esquisita das plantas que se avolumam e vegetalizam enterradas, chia monotonamente, em direitura ao engenho, solavancando pela aspereza do caminho, chilreante e  aromatizado por florações vigorosas e germinativas, pelas emanações do gado e pelo cheiro acre das laranjas vermelhas, que caem de maturidade.
                    Cantigas rústicas, amorosas, de uma sinceridade ingênua, com toadas prolongadas e vibrantes, misturam-se à alacridade do campo.
                    E pela compridão majestosa e verde dos alagados e das pastagens, o colorido movimentoso e variado das reses.

(Mares e Campos, Cunha & Irmão, Editores)

____________________
Antologia Brasileira  Coletânea em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugênio Werneck, Trigésima Edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro  RJ; Virgílio dos Reis Várzea (1865  1941), nascido em Florianópolis  SC, filho de marinheiro, foi para o Rio de Janeiro e estudou por três anos na Escola Naval, saindo dali para percorrer o mundo e, em viagens de navio, conheceu o Uruguai, a Argentina, a Patagônia, as Antilhas, Cabo Verde, África do Sul e países da Europa, e navegou pelo Oceano Índico; a partir de 1881, passou a viver na Ilha de Santa Catarina, hoje parte do município de Florianópolis, onde trabalhou e estudou jornalismo e literatura; escritor, jornalista e político, desde 1896 passou a residir no Rio de Janeiro; escreveu e publicou: Traços Azuis (1884), Tropos e Fantasias (contos, em parceira com o poeta Cruz e Sousa, 1885), Mares e Campos (1895), Santa Catarina, a Ilha (1900), George Marcial (1901), O Brigue Flibusteiro (1904), e outros títulos.