
É pleno inverno.
Aqui e além, galos acordam
cantando à aproximação do dia. Uma tênue mancha de claridade argêntea recorta
em laca a linha ondulada das colinas verdes. Pouco a pouco, uma poeira de ocre
transparente, que se esbate para o alto, cobre todo o horizonte e o sol
aponta, deslumbradoramente, como uma gema de ouro flamante. Vapores diáfanos
diluem-se lentamente, em meio dos listrões vivos que purpureiam o Nascente.
Fundem-se no ar tons delicados de azul e rosa; e eleva-se da floresta uma
orquestração triunfal.
Despertam de súbito, ao
alagamento tépido da luz, as culturas adormecidas.
Abrem-se as casas.
Pelos terreiros, úmidos da
serenada da noite, homens de cócoras, em camisa, de cangirão na mão, brancos de
frio, ordenham as grossas tetas das pacientes e mugidoras vacas, que criam amarradas
aos finos paus das parreiras, e que, expelindo fumaça no ar frígido, ruminam
ainda restos de grama, numa mansidão ingênua de animal digno.
Mulheres de xale pela cabeça
chamam as galinhas, com um ruído seco de beiço tremido, fazendo brurrr e
sacudindo-lhes mãos cheias de milho e pirão esfarelado.
Um carro atopetado de raízes
de mandioca, arrancadas de fresco, empoeiradas de areia, compridas, tortas, com
o aspecto e a cor esquisita das plantas que se avolumam e vegetalizam enterradas,
chia monotonamente, em direitura ao engenho, solavancando pela aspereza do
caminho, chilreante e aromatizado por
florações vigorosas e germinativas, pelas emanações do gado e pelo cheiro acre
das laranjas vermelhas, que caem de maturidade.
Cantigas rústicas, amorosas,
de uma sinceridade ingênua, com toadas prolongadas e vibrantes, misturam-se à
alacridade do campo.
E pela compridão majestosa e
verde dos alagados e das pastagens, o colorido movimentoso e variado das reses.
(Mares e Campos, Cunha & Irmão, Editores)
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Antologia Brasileira — Coletânea em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugênio Werneck, Trigésima Edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; Virgílio dos Reis Várzea (1865 — 1941), nascido em Florianópolis — SC, filho de marinheiro, foi para o Rio de Janeiro e estudou por três anos na Escola Naval, saindo dali para percorrer o mundo e, em viagens de navio, conheceu o Uruguai, a Argentina, a Patagônia, as Antilhas, Cabo Verde, África do Sul e países da Europa, e navegou pelo Oceano Índico; a partir de 1881, passou a viver na Ilha de Santa Catarina, hoje parte do município de Florianópolis, onde trabalhou e estudou jornalismo e literatura; escritor, jornalista e político, desde 1896 passou a residir no Rio de Janeiro; escreveu e publicou: Traços Azuis (1884), Tropos e Fantasias (contos, em parceira com o poeta Cruz e Sousa, 1885), Mares e Campos (1895), Santa Catarina, a Ilha (1900), George Marcial (1901), O Brigue Flibusteiro (1904), e outros títulos.